PRA TE LEMBRAR




 

 

DIA 31 DE JANEIRO DE 1966, ENTRA EM VIGOR  O ATO INSTITUCIONAL Nº 2

O Ato Institucional nº 2, AI-2, foi uma medida legislativa decretada em outubro de 1965 pelo general Humberto Castello Branco, então presidente do Brasil. O AI-2 foi uma resposta dos militares que ocupavam o poder, diante da derrota  sofrida nas eleições ocorridas no início do mês de outubro do mesmo ano. A eleição de políticos de oposição à ditadura civil-militar, como Negrão de Lima, no Rio de Janeiro, e de Israel Pinheiro, em Minas Gerais, ligados a Juscelino Kubitschek, e do prefeito Faria Lima, em São Paulo, ligado a Jânio Quadros, levou o grupo  de linha dura do exército a pressionar pela intensificação da repressão aos opositores, mostrando sua força entre os militares.

O argumento era que a dita “Revolução de 64” deveria continuar. Essa medida representou o fortalecimento do Poder Executivo, alterando a Constituição de 1946. O AI-2 entrou em vigor em 31 de janeiro de 1966 e mudou diversos dispositivos constitucionais referentes ao funcionamento do Poder Judiciário, tornando-o cada vez mais submetido aos interesses dos ocupantes do Poder Executivo.

O AI-2 foi editado com 33 artigos, que traziam medidas de cunho centralizador e autoritário. Era prevista, por exemplo, a suspensão sumária dos direitos políticos de quaisquer cidadãos; a demissão de funcionários públicos que demonstrassem incompatibilidade com os objetivos da revolução, bem como a suspensão de garantias constitucionais, como a vitaliciedade e a estabilidade. Na área política, o AI-2 determinou eleições indiretas para presidente e vice-presidente – ambos passaram a ser escolhidos por maioria absoluta dos membros do Congresso Nacional – e a extinção dos partidos políticos. Houve, também, o enfraquecimento do Poder Judiciário, com os atos praticados pelo Poder Executivo sendo excluídos da apreciação judicial. Também os membros da Justiça Federal passaram a ser nomeados pelo Presidente da República, abrindo caminho para a prática de ilegalidades.

O julgamento dos supostos crimes de subversão e contra a segurança nacional passava a ser competência da Justiça Militar. Ganharam maior importância e ampliaram-se os Inquéritos Policiais-Militares (IPMs), instrumentos de investigação e criminalização das pessoas suspeitas dos crimes acima citados, resultando em novas cassações de direitos políticos. Os partidos políticos foram extintos, sendo posteriormente criadas duas agremiações: a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), de apoio à ditadura; e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), uma forma de oposição consentida. A eleição para Presidente da República passou a ser realizada de forma indireta através do Congresso Nacional. Essa medida pretendia evitar uma nova derrota política dos militares, já que, com a cassação dos mandatos e o controle exercido pelos militares no Congresso através da ARENA, havia a garantia de vitória.

O AI-2 afastou alguns apoiadores dos ditadores localizados em setores políticos civis conservadores, como Carlos Lacerda, que no cargo de governador da Guanabara havia apoiado a deposição de João Goulart, em 1964. Lacerda tinha pretensões de se candidatar à presidência da República, mas viu seu objetivo frustrado com o AI-2. Tal situação expressou o afastamento de alguns setores civis que apoiavam a ditadura, pois estavam sendo criados obstáculos para a volta de civis ao poder.

Além disso, o Presidente da República tinha a prerrogativa de decretar o estado de sítio por 180 dias sem consulta ao Congresso, instituição legislativa que poderia ser fechada a qualquer momento pelo Poder Executivo, assim como as Assembleias Legislativas Estaduais e as Câmaras Municipais. Frente à intensificação do poder da ditadura, houve uma reação popular, principalmente no movimento estudantil, que voltou a realizar passeatas e manifestações em importantes centros urbanos do país.

O AI-2 vigorou até 15 de março de 1967, data do fim do governo Castello Branco. O decreto deu lugar à Constituição de 1967, promulgada já sob o governo do marechal Arthur da Costa e Silva, um militar linha-dura, ministro da Guerra no governo anterior. Embora o AI-2 tivesse sido oficialmente extinto, na prática seus efeitos ainda seriam sentidos nos anos em que os militares chefiaram o país, pois alguns de seus dispositivos foram incorporados à Constituição de 1967. Sobretudo, o autoritarismo que dele emanava fez-se presente em proporções cada vez maiores nos atos institucionais promulgados nos meses seguintes, até a decretação do AI-5, em 13 de dezembro de 1968.

Mais de cinquenta anos se passaram, o Brasil passou por um longo e doloroso processo de redemocratização durante a década de 80 e finalmente viveu seu período de plenitude democrática e republicana nos governos petistas. Mas a história caminha em ciclos, se repete e agora como tragédia, reedita os impasses da eterna luta de classes, onde a grande mão do capital financeiro internacional, continua a arregimentar seus exércitos nativos de traidores da pátria para saquear países economicamente estratégicos.

Assistimos em 2019, atônitos, o maior constrangimento político da história do país onde o presidente da República eleito sob suspeitas de fraude eleitoral, atende submisso, a ordem de entrega de nossa soberania a ao capital estrangeiro, notadamente ao norte americano. 








DIA 30 DE JANEIRO DE 1948, É ASSASSINADO MAHATMA GANDHI

“Se permanecermos não violentos, o ódio ficará sem efeito”…

Maohandas Karamchand Gandhi, um dos homens mais influentes da humanidade, líder da independência da Índia e formador do Moderno Estado Indiano,   preconizava para a libertação do jugo inglês duas formas originais: o preceito da não -violência e da desobediência civil, além de usar o jejum como forma de protesto.

Nascido em Porbandar em outubro de 1869, formou-se em Direito na Inglaterra. Iniciou sua luta pelos direitos civis dos indianos, pobres e operários, advogando por mais de 20 anos, na África do Sul, colônia britânica à época. Ao regressar à Índia, ingressou no Partido do Congresso, defensor da independência indiana, liderando a campanha de não-cooperação com o governo dominador e opressor do povo indiano. Enfrentou pela primeira vez o governo da metrópole, ao convocar uma greve geral, que embora bem sucedida,  resultou na sua prisão e condenação a 6 anos por rebelião, dos quais cumpriu 2 anos, devido a fragilidade de sua saúde. 

Na estratégia política pela libertação da Índia, pregou o não pagamento dos impostos, o boicote aos produtos ingleses, como exemplo, os tecidos. Ele próprio tecia suas vestes tradicionais e ensinava às mulheres a tecerem as suas, como forma de levá-las a participar do movimento político pró independência. Outro exemplo de boicote aos importados foi a célebre Marcha do Sal, quando liderou um a passeata de 320 km, com milhares de pessoas até o mar, para que os indianos produzissem seu próprio sal, o que era proibido pelo governo inglês.

Entre seus princípios filosóficos, pregava o AHIMSA, (não violência), no pensamento, palavras e atitudes, e o princípio do Satyagraha, “caminho da verdade”, acreditando na possibilidade de transformar a civilização moderna aniquilando o militarismo e o despotismo. O Satyagraha inspirou gerações de ativistas e antirracistas como Luther King e Nelson Mandela.  Na África, junto a outros seguidores organizaram grupos de professores para ensinar livremente às crianças, pois era contrário ao sistema convencional de ensino.  Dizia sempre que: “não existe um caminho para a paz, a paz é o caminho”. Em suas falas ao povo, costumava mostrar os cinco dedos expondo seu programa: – igualdade, não uso de álcool ou droga, unidade hindu-muçulmana, amizade, e igualdade para as mulheres.

 A tão sonhada independência da Índia só foi conseguida em 1947, depois de muitas lutas e negociações com o imperialismo inglês. No entanto, a independência acabou por dividir o país em dois Estados: Índia e Paquistão. Esse de maioria muçulmana, e a Índia de maioria hindu. Esta arbitrariedade decidida em Londres, com o consentimento do Partido do Congresso e da Liga Muçulmana, provocou graves conflitos e tensões  de caráter étnico e religioso. Enquanto milhares de hindus eram expulsos do Paquistão, muçulmanos eram obrigados a saírem da Índia. As migrações de forma violenta provocaram a morte mais de 300 mil pessoas. No total, cerca de 5 milhões de hindus migraram para a Índia e 7 milhões de muçulmanos para o Paquistão.

Como protesto em relação às terríveis violências entre indianos e paquistaneses,  Gandhi  iniciou uma greve de fome em janeiro de 1948,  entretanto no dia 30 de janeiro de 1948, em Nova Déli, o grande líder, a “grande alma”(mahatma), foi assassinado a tiros pelo hindu radical que responsabilizava Gandhi pelo enfraquecimento do novo governo.  Seu corpo foi cremado e suas cinzas jogadas no rio Ganges.

Gandhi foi indicado cinco vezes para o Nobel da paz, entre 1937 e 1948, porém nunca o recebeu. Anos mais tarde a academia reconheceu seu erro.









DIA 29 DE JANEIRO DE 1905, MORRE JOSE DO PATROCÍNIO

Considerado um dos abolicionistas mais ativos do século XIX, José do Patrocínio, filho de uma escrava negra com um padre, dedicou sua vida em prol da causa da libertação dos escravos.  Presenciou muito de perto as barbaridades que o homem branco era capaz de cometer contra os cativos. Daí o seu ardor político, como jornalista, orador e depois como vereador, atividades que desempenhou em prol dos ideais libertários.  A partir de 1880 desponta a figura de José do Patrocínio, juntamente com Joaquim Nabuco, que fundam a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão. Articulam o movimento anti-escravagista que congregaria  todos os clubes abolicionistas já existentes no país e lançam manifesto pró-abolicionista  assinado por Patrocínio, João Clapp,  André Rebouças e Aristides Lobo. José do Patrocínio se destaca como ativista através de artigos no jornal Gazeta da Tarde, onde iniciou a carreira de jornalista e posteriormente se tornou diretor. Também atuou na preparação e auxílio para fuga de escravos. Coordenou campanhas de arrecadação de fundos para comprar alforrias, com a promoção de espetáculos ao vivo, comícios em teatros, manifestações em praça pública que contavam com a participação de políticos, jornalistas, médicos, intelectuais e artistas da época sensíveis à causa.

Nesse contexto  em 12 de maio de 1883, José do Patrocínio funda a Confederação Abolicionista na cidade do Rio de Janeiro, entidade que ganhou  caráter nacional e que contava com o apoio de muitas personalidades na luta  pela abolição da escravidão como poeta Castro Alves, Rui Barbosa, Quintino Bocaiuva, Prudente de Morais, Campos Sales, dentre outros republicanos célebres. Eleito para a Câmara Municipal em 1886, José do Patrocínio conquista o apoio popular para a causa da libertação, ao ponto de ser chamado  “Apóstolo Negro” e “Tigre da Abolição.” Integrava o grupo dosabolicionistas,que discutiam fórmulas de integração do negro à sociedade após a abolição.

Em setembro de 1887, deixou a Gazeta da Tarde, fundou e dirigiu um novo periódico:  A Cidade do Rio. À frente deste periódico intensifica a sua atuação política. Aqui fizeram escola alguns dos melhores nomes do jornalismo brasileiro da época, reunidos e incentivados pelo próprio Patrocínio. Foi nele que Patrocínio saudou, após uma década de intensa militância, a 13 de Maio de 1888.

Obtida a vitória na campanha abolicionista, as atenções da opinião pública se voltaram para a campanha republicana. Por ironia do destino, o “A Cidade do Rio” e a própria figura de Patrocínio passaram a ser identificados pela opinião pública como defensores da monarquia em crise. Nessa fase, Patrocínio rotulado como um “isabelista”, foi apontado como um dos mentores da chamada “Guarda Negra”, um grupo de ex-escravos que agia com violência contra os comícios republicanos. Após a proclamação da República (1889), entrou em conflito  com o governo do Marechal Floriano Peixoto, pelo qual foi detido e deportado para Cucuí, no alto rio Negro (Amazonas).

Retornou discretamente ao Rio de Janeiro em 1893, mas com o Estado de Sítio ainda em vigor, a publicação do “A Cidade do Rio” continuou suspensa. Sem sua fonte de renda, Patrocínio foi residir no subúrbio de Inhaúma. Nos anos seguintes, a sua participação política foi se tornando inexpressiva.  Dedicou sua atenção na construção de um dirigível de quarenta e cinco metros, o “Santa Cruz”, com o sonho de voar, jamais concluído. Numa homenagem a Santos Dumont, realizada no Teatro Lírico, quando discursava saudando o inventor, foi acometido de uma hemoptise, sintoma da tuberculose que o vitimou. Faleceu pouco depois, aos cinquenta e um anos de idade, no dia 29 de janeiro de 1905, aquele que é considerado por seus biógrafos o maior de todos os jornalistas da Abolição.










DIA 28 DE JANEIRO DE1853, NASCE JOSÉ MARTÍ

José Martí ,  grande   escritor, orador e jornalista  é até hoje cultuado em Cuba como o grande mártir da independência do país em relação à Espanha. Para ele, a luta deveria ser uma verdadeira transformação em todos os aspectos: econômico, político e social do povo. O herói cubano, José Martí era antes de tudo um poeta, aliou seu espírito revolucionário à habilidade com as palavras  produzindo  uma vasta obra.  Fundador da literatura hispano-americana e do modernismo na América Latina, José Martí deixou 507 poemas, além de novelas e dramas, que influenciaram gerações de escribas no continente. Publicado em 1891, Versos Sencillos é um grande poema de amor à mulher e à pátria, de onde a letra da antológica canção  Guantanamera,  foi retirada.

José Julián Martí y Pérez, nasceu em Havana dia 28 de janeiro de 1853, filho de pais espanhóis. Aos 15 anos já escrevia artigos de cunho separatista na revista La Pátria Libre, e no jornal El Siboney, fato que o levou para a prisão, condenado a trabalhos forçados nas pedreiras. Tendo ficado doente, a família conseguiu indulto e foi deportado para Espanha, onde passou por várias cirurgias. Em Zaragoza, doutorou-se em Direito, Filosofia e Letras, apesar das dificuldades financeiras. Permaneceu sempre fiel aos ideais e continuou escrevendo contra o colonialismo.  Viveu no México, onde tomou contato com o racismo e a opressão sobre a população indígena. “Depois de ferir seu espírito de homem, já não sobra ao índio dos campos mais que costas para levar as cargas da Igreja, para pagar tributo aos caciques, para comprar as telas do espanhol”.  

  Em 1877, mudou-se para Guatemala. Retorna à Cuba em 1878, quando terminava a chamada Guerra dos Dez Anos, a primeira das três guerras de independência.  Após um ano de atividade revolucionária, foi novamente deportado para Espanha, mas consegue ir para Nova York, onde trabalhou como jornalista e organizou o Comitê Revolucionário Cubano, tornando-se líder da comunidade dos exilados pela independência.  Em 1880 nos EUA, faz um discurso conclamando a união das forças revolucionárias: “Os grandes direitos não se compram com lágrimas, mas com sangue… Antes de abrandar o esforço de fazer a pátria livre e próspera, o mar do Sul se unirá ao mar do Norte, e nascerá uma serpente do ovo da águia”.  E justo nas terras yankees, Martí funda o Partido Revolucionário Cubano, pela libertação de Cuba e Porto Rico.

No final dos anos 80 conheceu de perto a nefasta política imperialista norte-americana. A partir de então, intensificou sua produção intelectual revolucionária em jornais. Dirigiu a revista La América, e passou a usar o termo Nuestra América, em busca de uma identidade latina. Junto ao general Máximo Gomes, propuseram as lutas de libertação em uma guerra sem ódio no Manifesto de Monticristi.   Na rearticulação da guerra de independência em Cuba, assumiu a liderança do movimento junto com Antônio Maceo e Calixto Garcia, chegando a alcançar o Pacto de Zangón (1878), cujas decisões de abolição da escravidão e maior liberdade comercial, não foram cumpridas, levando ao acirramento da luta, na qual os negros engrossavam as fileiras do exército de libertação.

No dia 19 de maio de 1895, quando retornava para Cuba em uma embarcação do Haiti, seu pequeno contingente de revoltosos, foi atacado pelos soldados espanhóis e no vilarejo Dos Rios, José Martí foi baleado e morreu em combate aos 42 anos. Seu corpo foi mutilado e exposto à população para intimidar às futuras revoltas. Depois, sepultado em Santiago de Cuba. Os combates prosseguiram, e Antônio Maceo morreu em 1897.

 A Guerra Hispano-Americana ou Guerra de 95, na qual morreram mais de 400 mil cubanos em campos de concentração, fome, doenças, só terminou em 1898,  após o “Incidente do Maine”, ou seja, a explosão do navio norte-americano em Havana. Os EUA declaram guerra à Espanha, que, pelo Tratado de Paris, cedeu Porto Rico, Filipinas e a ilha de Guantánamo aos norte-americanos e por 20 mil dólares deixou Cuba sob administração americana até 1902.  Assim, Cuba livre da metrópole espanhola, ficou sob a “proteção dos EUA”.

Sobre o grande líder José Martí, citamos aqui as palavras de Che Guevara, que sintetizam a importância e a grandeza deste que foi considerado “El Apostol” em Cuba:

“Martí foi o mentor direto da nossa Revolução, o homem cuja palavra se recorria sempre para dar interpretação justa aos fenômenos históricos que estávamos vivendo e o homem cuja palavra e cujo exemplo havia de se  recordar… porque José Martí é muito mais  que cubano: é americano; pertence a todos os vinte países de nosso continente e sua voz se escuta e se respeita não só aqui em Cuba, mas em toda a América”.










DIA 27 DE JANEIRO DE 1881, FRANCISCO DO NASCIMENTO, O DRAGÃO DO MAR, IMPEDE EMBARQUE DE ESCRAVOS NO PORTO de FORTALEZA


Há muito tempo nas águas da Guanabara, o dragão do mar reapareceu, na figura de um bravo feiticeiro a quem a história não esqueceu. Conhecido como navegante negro”… (Mestre Sala dos Mares, João Bosco e Aldir Blanc).

Além de João Cândido, o navegante negro, a canção também homenageia o jangadeiro cearense Francisco Jose do Nascimento, o “dragão do mar”, que reaparece na figura de João Cândido, conforme a letra da música citada acima.

Conhecido como o Chico da Matilde, o líder dos jangadeiros de Fortaleza, Ceará, torna-se herói da Abolição da escravidão no estado quando ele e seu grupo em um ato de coragem e ousadia, sob o lema “No Ceará não se embarcam mais escravos”,  impediram o embarque dos cativos  para a região sul do país, bloqueando o porto de Fortaleza, no dia 27 de janeiro de 1881. Francisco foi ameaçado com ação judicial, sofreu  perseguições, mas os senhores de engenho, sem alternativa, acabaram aceitando. Seu ato de bravura,  valeu-lhe o título de “dragão do mar”, pois até então era conhecido como Chico da Matilde.

Francisco José do Nascimento, nasceu em abril de 1839, em canoa Quebrada, Aracati (CE).  Filho de pescadores, perdeu o pai ainda criança, nos seringais da Amazônia, e criado pela mãe, a rendeira Matilde, era chamado pelos contemporâneos de Chico da Matilde. Cresceu convivendo com as maiores dificuldades, e só conseguiu aprender a ler aos 20 anos. Trabalhou nas obras do porto e trabalhou como marinheiro em um navio que fazia a linha Maranhão – Ceará. Foi nomeado prático da Capitania do Portos, onde conviveu longo tempo com o tráfico negreiro.

Envolvido na luta contra o tráfico, participou de uma sociedade abolicionista, a Sociedade Libertadora Cearense.  Seu nome tornou-se símbolo da resistência popular contra a escravidão. A atitude de Francisco Nascimento foi de tal importância que repercutiu em outras províncias do Império. Ele foi levado pelos abolicionistas para visitar o Rio de Janeiro, onde foi recebido com festas e desfile.    As ações abolicionistas no estado, incluindo a participação de mulheres, como exemplo, a aristocrata de Sobral,  Maria Tomásia Figueira Lima e outras 22 mulheres atuantes nas Sociedades Libertadoras Cearenses, somou-se um  conjunto de forças que  levaram o Ceará a ser o primeiro estado brasileiro a abolir a escravidão no Brasil. Portanto 4 anos antes do histórico 13 de maio de 1888, da aprovação da Lei Áurea, o presidente da província, Sátiro de Oliveira Dias,  declarou a libertação de todos os escravos do Ceará em 25 de março de 1884.  

O desenhista ítalo-brasileiro Angelo Agostini, homenageou Francisco Nascimento com uma alegoria na capa da Revista Ilustrada com a legenda: “À testa dos jangadeiros cearenses, Nascimento impede o tráfico de escravos do Ceará para o sul”. Depois da abolição Francisco Nascimento, que havia perdido o cargo na Capitania dos Portos pelo “ato de rebeldia”, tornou-se Major Ajudante do Secretário Geral do Comando Superior da Guara Nacional do Estado do Ceará e posteriormente na ocasião de sua morte em 1914, em Fortaleza, ocupava o posto de Primeiro-tenente da Armada.

O nome do “Dragão do Mar”, não ficou esquecido pela História do estado cearense. Ele nomeia um grande Centro de Arte e Cultura em Fortaleza, uma Escola Estadual no bairro do Mucuripe, e uma  Escola de Ensino Médio, que à época foi fundada para alfabetizar os filhos de pescadores da região, também leva seu nome.

A Petrobrás, através da subsidiária Transpetro, lançou ao mar um navio petroleiro construído em Pernambuco, e batizado Dragão do Mar, integrando o Programa de Modernização e Expansão da Frota, do governo de Dilma Rousseff. Outros dois navios  receberam os nomes de ícones da resistência brasileira,  João Cândido e Zumbi dos Palmares.








DIA 26 DE JANEIRO DE 1964, NASCE CHICO CÉSAR

“Eu sempre fui um cidadão político que desde os anos 80 esteve ali no movimento secundarista em João Pessoa porque a política é algo muito vivo… a política é da vida, do cotidiano”…

Francisco César Gonçalves é um compositor brasileiro contemporâneo que denuncia de maneira poética a tragédia do racismo no Brasil. Suas canções abordam o tema da negritude e demais questões que estão interligadas à ela como assassinatos, intolerância e perseguição, correlacionando o momento atual e os cinco séculos de História de exclusão do negro no Brasil.  É por sua música, com letras que são poemas que Chico César tem um lugar garantido na música popular brasileira.

Chico César é cantor, compositor e jornalista. Nasceu no dia 26 de janeiro de 1964, no município paraibano de Catolé do Rocha, situado a 450 km da capital João Pessoa.  Acostumado a ouvir desde a infância cantadores e reisados, música regional  dasfestas populares que se realizam  no dia de Reis, criou  sua própria banda,  chamada  Super Som Mirim, aos 14 anos.  Muito jovem e ainda em Catolé do Rocha, Chico trabalhou como vendedor na loja de discos Lunik, o que lhe deu oportunidade de conhecer a obra de cantores dos mais variados gêneros musicais, como  Chico Buarque,  Jackson do Pandeiro, Marinês e sua Gente, Caetano Veloso, Pixinguinha, Altamiro Carilho, Rolling Stones, Luiz Gonzaga, Roberto Carlos e outros cantores com projeção regional, nacional e internacional.

A influência dos mais ricos e diversos gêneros musicais estão presentes em sua obra como os reisados, afoxés, cocos e outros elementos da cultura popular brasileira que se misturam ao rocksoul reggae. Da mesma maneira, as canções românticas, de melodia simples e apelo popular, convivem com músicas experimentais que abusam dos jogos de palavras e das figuras de linguagem. Em 1991, após uma turnê pela Alemanha, dedica-se à carreira artística e forma a banda Cuscuz Clã. Quatro anos mais tarde, lança o primeiro disco Aos Vivos (1995), acústico de voz e violão gravado ao vivo, com as participações do cantor e compositor Lenine  e do guitarrista Lanny Gordin . No repertório do álbum estão “Mama África” e “À Primeira Vista”, canções que o projetam nacionalmente.

A partir de então, suas composições passam a ser gravadas por vários intérpretes. Entre eles, Maria Bethânia (1946), com as músicas “Invocação”, “Onde Estará o Meu Amor”, “Xavante”, “A Força que Nunca Seca”, parceria com Vanessa da Mata (1976), “Antes que Amanheça”, com Carlos Rennó (1956), e “Saudade”, com Moska (1967). Elba Ramalho  também interpreta canções como “A Prosa Impúrpura do Caicó”, “Folia de Príncipe”, “Amplidão”, “Paraíba Meu Amor”,  “Béradêro”, “Sem Ganzá não É Coco”, “Face”, com Itamar Assumpção(1949-2003) e Zeca Baleiro (1966) e “Quando Eu Fecho os Olhos”, com Carlos Rennó (1956).

Entre seus prêmios estão: Revelação do Prêmio Sharp (1995) e Melhor Compositor pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (1996) entre outros. Em 2003,

criou o selo Chita Discos, pelo qual lança trabalhos próprios e de outros artistas em ascensão, um movimento que busca a ruptura com as grandes gravadoras e os interesses puramente comerciais do mercado fonográfico brasileiro. Em 2009 Chico César assumiu a presidência da Fundação Cultural de João Pessoa e, dois anos depois, tornou-se secretário de cultura da Paraíba. Em 2011, grava em DVD Aos Vivos Agora, reedição de seu primeiro álbum.  

Chico César foi um dos artistas mais aguardados no Festival Lula Livre nos Arcos da Lapa, 2018 (RJ). Na ocasião ele falou à imprensa que está “feliz por participar de um momento histórico. É pelo Lula, mas principalmente para que a democracia seja feita na prática”. Ele é um dos que assina o Lula Livre / Lula Livro, que reúne contos, poemas em apoio ao ex-presidente.







DIA 25 DE JANEIRO DE 1969, LAMARCA DESERTA E LEVA ARMAS DO EXÉRCITO 

O legado de Lamarca?

O mesmo de Tiradentes: sua visão de que deveria dedicar a vida e arriscrar-se à morte para concretizar seus ideais. Mesmo que travando uma luta tão desigual, com chances ínfimas de êxito no começo e nenhuma no final. Na boca dele também caberia  o ‘dez vidas eu tivesse dez vidas eu daria’,  do inconfidente”. (Celso Lungaretti, “Náufrago da Utopia”, 2005).

 A partir de 1970, ele passa a ser  considerado o inimigo número um do regime militar brasileiro e desertor condenado a 24 anos de prisão “por ter cometido atos de natureza desonrosa à dignidade militar, sem prejuízo das sanções penais cabíveis”. Carlos Lamarca movimentou operações militares que não mediram esforços para perseguir, prender e torturar até a morte, seus companheiros da VPR, na esperança que delatassem seu comandante. No abominável rastro de sangue deixado pela ditadura, muitos integrantes da Vanguarda Popular Revolucionária, tombaram em nome  da Revolução, e por lealdade à Carlos Lamarca.

Nascido em outubro e 1937 no Rio de Janeiro, viveu até os 17 anos no Morro de São Carlos. Ingressou aos 18 anos na Escola Preparatória de Cadetes, em Porto Alegre, e dois anos depois foi transferido para a Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ), onde se formou como aspirante a oficial em 1960.   Em 1962 integrou a Força de Paz da ONU na região de Gaza (Palestina), por 18 meses, o contato com a pobreza da região, o sensibilizou  profundamente  contra as injustiças sociais decorrentes do sistema capitalista.  Em 1967, foi promovido a capitão e, dois anos depois, opta pelo socialismo e inicia contatos com o líder da ALN (Ação Libertadora Nacional), Carlos Marighella. Organiza  dentro do 4º Regimento do Exército uma célula comunista, visando combater a ditadura militar através da luta armada.  Organizouum grupo de militares do 4º Regimento de Infantaria em Quitaúna, Osasco,  para desertarem,  e no dia 25 de janeiro de 1969, fugiram numa Kombi, levando   63 fuzis FAL,  e metralhadoras leves  e alguma munição, muito menos que o pretendido. Lamarca deixava o exército e entrava para a clandestinidade na qual viveria atpe o fim de seus dias.

Na luta contra o regime militar, Carlos Lamarca coordenou inúmeras ações de guerrilha urbana e assaltos a bancos para financiar a Revolução.  Organizou o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, em 1970, que resultou na libertação de 70 presos políticos   que  partiram rumo ao Chile, trocados pelo embaixador. O relato desse episódio foi registrado por Alfredo Syrkis em seu livro Os carbonários: memórias da guerrilha perdida (1980).Participou de vários assaltos a bancos para financiar as ações do grupo armado. Viveu quase um ano clandestino em São Paulo, participando de ações de guerrilha urbana, até se instalar no Vale do Ribeira,  no sul do estado de São Paulo e no leste do estado do Paraná,  com um reduzido grupo de militantes, para treinamentos militares.

Em maio de 1971 Lamarca deixou a VPR e se filiou, junto com sua companheira Iara Iavelberg, ao Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8),grupo da esquerda universitária. Seu ingresso no MR-8 deveu-se à mudança de  visão política, mais voltada para o trabalho de base junto às massas, realizado paralelamente à atuação guerrilheira. Ainda convencido da possibilidade de implantação de um foco guerrilheiro no campo, seguiu em junho para Buriti Cristalino (BA), enquanto Iara foi para Salvador. Lamarca viveu no deserto sob condições extremamente inóspitas e para driblar todo o desconforto e preservar sua sanidade mental, cultivou o hábito de escrever cartas à Iara. Em uma das viagens entre o sertão baiano e Salvador, um de seus companheiros que levava as cartas de Lamarca para Iara foi capturado pelos militares.

 Analisando  e cruzando os dados de topografia e vegetação descritos por Lamarca e  junto as informações conseguidas dos militantes do MR-8 capturados na Bahia, os militares identificam a área.  De posse das informações, o comandante do DOI-CODI baiano e chefe da 2ª Seção do Estado-Maior da 6ª Região Militar, major Nílton Cerqueira, montaram a operação para caçar Lamarca, chamada de Pajuçara, (praia de Maceió). O efetivo contou com  um total de 215 homens das três Forças Armadas,  policiais federais,  DOPS,  e Polícia Militar da Bahia.  A operação de cerco se prolongou por 41 dias, mas, após dois choques armados, o  grupo guerrilheiro, sob a liderança de Lamarca conseguiu escapar rumo a São Paulo.

Em 17 de setembro de 1971, Lamarca foi fuzilado por integrantes da “Operação Pajuçara”, em Ipupiara, no interior da Bahia. Essa operação, iniciada em agosto de 1971, entrou para a história como uma das mais violentas, sobretudo em Buritis, que se tornou à época um verdadeiro campo de concentração, com torturas e assassinatos em praça pública, diante da população.  Lamarca tinha apenas 34 anos quando foi assassinado entrando para a mórbida lista dos guerrilheiros mortos nas mãos de militares facínoras. Sua companheira Iara também foi assassinada em 21 de agosto do mesmo ano, encurralada por um cerco policial em Salvador.







DIA 24 DE JANEIRO DE 2003, 2º DIA DA 3ª EDIÇÃO DO FORUM SOCIAL MUNDIAL DE PORTO ALEGRE

A Iniciativa do Fórum Social Mundial é um movimento orgânico e genuinamente democrático que revela ao mundo o  descontentamento de milhares de pessoas sobre os rumos que as políticas neoliberais planejam para as próximas gerações.  A importância da realização dos Fóruns é vital para o amadurecimento das discussões sobre o futuro de todo o planeta. Muitas vozes vindas das profundezas de diversas minorias ganham espaço e as vítimas invisíveis de um sistema naturalmente perverso, alcançam mesmo que momentaneamente, alguma visibilidade abrindo espaços de diálogo e reflexão.  O apoio e a participação da sociedade civil é de extrema importância e  particularmente no caso  do Brasil, país detentor de imensos riquezas naturais que é objeto de cobiça e negociatas entre os governos entreguistas e multinacionais estrangeiras.

Conforme sua Carta de Princípios, o Fórum Social Mundial “é um espaço internacional para a reflexão e organização de todos os que se contrapõem à globalização neoliberal e estão construindo alternativas para favorecer o desenvolvimento humano e buscar a superação da dominação dos mercados em cada país e nas relações internacionais”.   Através de um espaço democrático de reflexões, compartilhamentos, experiências da sociedade civil, sem posição partidária ou governamental, o FSM veio para se contrapor ao Fórum Econômico Mundial de Davos (Suíça), que desde 1971 tem cumprido um papel estratégico na promoção das políticas neoliberais no planeta,  planejando e replanejando  o aumento dos  lucros dos donos do mundo em detrimento de milhões que caminham a passos largos para a miséria.

À propósito, enquanto o presidente Lula foi aclamado como estadista global em Davos o presidente Bolsonaro, levou o Brasil a um vexame internacional. Usando apenas 6 minutos do tempo disponível,  profere um discurso demagógico e mentiroso em relação   ao meio ambiente, quando todos sabemos que ele está a serviço do grande capital voraz, dos latifundiários, das companhias mineradoras nacionais e internacionais.  

 O primeiro Fórum Social Mundial se reuniu em Porto Alegre, capital gaúcha de 25 a 30 de janeiro de 2001. Contando com a presença de aproximadamente 20 mil pessoas, discutiram temas do tipo: produção de riquezas e o acesso a elas, poder político e ética na sociedade, afirmação da sociedade civil e dos espaços públicos. O sucesso do evento apontou para a continuidade do FSM. Porto Alegre sediou ainda mais dois eventos. Na terceira edição, decidiu-se pela necessidade de levar o Fórum a caminhar pelo mundo. Nascido em Porto Alegre, o FSM foi entregue aos indianos que reuniram 120 mil pessoas em Mumbai na 4ª edição, tornando o Fórum efetivamente um espaço mundial.

A terceira edição do FSM, teve lugar no período de 23 a 28 de janeiro de 2003. A posse de Lula na Presidência da República, marcava o início de uma era de governos progressistas e de esquerda na América Latina. O Brasil ascendia a chama da esperança no continente.  Vozes se levantavam contra a ALCA, FMI, a guerra do Iraque, e pela libertação da Palestina. Se a participação de 20 e 50 mil respectivamente havia surpreendido aos organizadores, na 1ª e 2ª edições, a terceira superou todas as expectativas com cerca de cem mil pessoas na cidade gaúcha para discutir a possibilidade de um outro mundo. Foram credenciados 20.763 delegados de 156 países, 1280 oficinas se realizaram durante seis dias, a um custo total de US$ 3, 485 milhões. As discussões se basearam em torno de cinco eixos-temáticos: Desenvolvimento Democrático e Sustentável, Princípios e Valores, Direitos Humanos e Diversidade, Mídia, Cultura e Contra Hegemonia, Poder Político, Sociedade Civil e Democracia, Ordem Mundial Democrática e Paz.

O Nobel da Paz, Adolfo Perez Esquivel alertou para a submissão da América Latina aos países ricos, ressaltou a importância do Mercosul e o perigo da militarização norte-americana  na região.  O linguista norte-americano Noam Chomsky abriu sua fala declarando que “O Estado mais poderoso da História Mundial proclamou em alto e bom som, que pretende comandar o mundo através da força”, referindo-se aos EUA. O escritor uruguaio Eduardo Galeano também falou das guerras capitaneadas pelos EUA e Israel pós 11 de setembro. Foi dito que o lema do FSM  “um outro mundo é possível é da autoria do autor de  “As veias abertas da América Latina”.   Enfim, a edição de 2003 teve uma lista estrelar de personalidades  e representantes da esquerda,  desde ministros do governo Lula a astros de Hollywood, como Danny Glover, o fotógrafo Sebastião Salgado, o teólogo Leonardo Boff, entre outros.








DIA 23 DE JANEIRO, DIA MUNDIAL DA LIBERDADE

Do latim libertas.atis., liberdade  refere-se  à independência absoluta e legal de um indivíduo, de uma cultura, povo ou nação, sendo nomeada como modelo ou padrão ideal. O conceito de liberdade é bastante amplo e abarca uma série de possíveis significações. Podemos mencionar as liberdades individuais, de consciência, de expressão, de imprensa, religiosa, muitas outras,  mas considerando a importância do conceito de liberdade e Estado, liberdade refere-se a particularidade de quem é livre; característica da pessoa que não se submete, portanto, liberdade é o contrário de escravidão,  sujeição,  submissão, ou qualquer tipo de servidão.

A liberdade é um direito básico de todos os seres humanos para agirem de acordo com a sua consciência, realizarem as suas próprias escolhas e opções de vida, sem coerção ou impedimento, desde que dentro dos limites da lei. A data internacional, criada pela ONU e proclamada pela UNESCO, para comemorar a LIBERDADE é o dia 23 de janeiro.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos contempla a liberdade no Artigo 1.º: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.” Já o Artigo 2.º diz que: “Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação.” 

No entanto as prerrogativas de um Estado livre e democrático não são encontradas em todos os países e nem entre todos os povos e nações. No Brasil por exemplo, a luta pela liberdade e pela democracia remonta aos tempos coloniais, quando negros e índios lutavam pela liberdade, contra a escravização, contra a ocupação estrangeira de suas terras. O grito de independência ou morte em 1822, que deveria ser o da liberdade do povo, do comércio, o fim do pacto colonial, nem de longe significou a transição para um Estado livre, verdadeiramente soberano e democrático

Tão pouco a libertação dos escravos em 1888, e a proclamação da República, 1889,   significaram liberdade política ou social, ou viés  democrático. Ao contrário, esses fatos confirmaram e fortaleceram o domínio da mesma oligarquia que, enraizada no passado colonial, manteve seu poder durante a monarquia e o conservou na chamada República Velha (1889/1930), o mesmo domínio coronelístico, baseado na fraude eleitoral e na manipulação dos resultados das urnas, no chamado voto de cabresto. Longe estavam da liberdade para  escolher seus candidatos.   Essa luta se acentuou desde 1930, e se recoloca, hoje, na necessidade de derrotar a ameaça fascista que poderá aniquilar as liberdades civis e democráticas em nosso país.

Com Luiz Inácio Lula da Silva na presidência da República, e a sequência dos governos petistas, o Brasil passou a viver seu mais largo período de democratização efetiva sob liberdade, não apenas formal, mas política, social, cultural, de imprensa, consciência, religiosa. Ao romper com a democracia meramente formal admitida pelos setores reacionários da classe dominante, criou o caldo de cultura onde vicejou o ódio político que levou o Brasil à divisão e ao rompimento com a democracia, no golpe midiático-judicial-parlamentar de 2016 e a prisão política de Lula. Privando o ex-presidente de suas liberdades constitucionais, implanta-se  um Estado autoritário, Estado de exceção de arbítrio com maquiagem democrática. Suspende-se o direito do “inimigo”, para combatê-lo. Os poderes que deveriam garantir o equilíbrio das forças políticas, democráticas, zelar pelo cumprimento das leis do país, curvam-se aos interesses das velhas elites e seus atuais herdeiros. A lógica entreguista e anti-nacional que vem ganhando espaço no cenário político atual às custas de um grave rompimento com a ordem democrática, reconhece o poder de liderança e a capacidade que Lula tem que mudar a correlação de forças políticas no país, por isso privam-no de sua liberdade.  







DIA 22 DE JANEIRO DE 1922, NASCE LEONEL BRIZOLA

Leonel de Moura Brizola entrou para a seleta lista dos heróis nacionais por decisão da presidenta Dilma Rousseff, antes do golpe de 2016 se consumar. Era o reconhecimento por seu histórico de lutas políticas, defesa da educação e do patrimônio nacional. Diversos são os motivos que nos levam a reverenciar a memória de Brizola. Um dos mais importantes foi a Campanha da Legalidade, cuja coragem e  resistência, enfrentou a ousadia dos militares, a covardia dos políticos e a cumplicidade da mídia,  garantindo a posse de João Goulart na vice-presidência em 1961, adiando o golpe militar de 64. Conhecido por sua personalidade por vezes explosiva, Brizola conquistou muitos seguidores e despertou também muitos desafetos na política e principalmente na mídia brasileira. Crítico ferrenho das oligarquias midiáticas, em especial  do maior conglomerado de comunicação da América Latina, a TV Globo, que conduzia e ainda conduz os rumos da política nacional, Brizola enfrentou um longo embate contra a emissora e chegou a ganhar na justiça o histórico  direito de resposta que foi veiculado em pleno horário nobre, no Jornal Nacional para milhões de pessoas em 1994.

Brizola nasceu em 22 de janeiro de 1922 no município de Carazinho, RS e iniciou sua carreira política no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) em 1945. Foi eleito e reeleito deputado estadual pelo Rio Grande do Sul e em 1958, elegeu-se governador do estado.  Em 1962, foi eleito deputado federal pelo antigo Estado da Guanabara. Como parlamentar, defendia a reforma agrária, a melhor distribuição de renda no Brasil, especialmente da classe trabalhadora.  Com a deposição do presidente João Goulart pelos militares, em 1964, Leonel Brizola foi obrigado a se exilar no Uruguai somente retornando ao país em 1979 quando a Lei da Anistia permitiu o retorno dos exilados políticos. Logo após seu retorno do exílio, Brizola tentou reorganizar o PTB, mas perdeu a sigla numa disputa com outros trabalhistas na Justiça Eleitoral.

Nasce assim o Partido Democrático Trabalhista (PDT) pelo qual se elege governador do Rio de Janeiro em 1982 e 1990. Candidato do PDT em 1989 nas primeiras eleições diretas à Presidência da República, após a ditadura militar, Brizola era o candidato da esperança da esquerda brasileira, mas ficou em terceiro lugar apoiando então Luís Inácio Lula da Silva no segundo turno.  Em 1998 foi candidato à Vice-presidência, na chapa de Luís Inácio Lula da Silva que infelizmente perdeu para o tucano Fernando Henrique Cardoso.

Durante sua administração como governador tanto no Rio Grande do Sul como no Rio de Janeiro, mais do que qualquer outro político, Brizola colocou a educação como pilar central de suas administrações. Um de seus principais colaboradores foi ninguém menos que Darcy Ribeiro, que idealizou os CIEPs, escolas modelo que foram inspiração para os CEUs, da periferia de São Paulo. Sua posição política era sempre  muito clara na defesa  dos interesses nacionais,  e contra a política de privatizações dos governos de FHC .

Ao final de sua carreira, Brizola foi candidato à prefeitura do Rio de Janeiro em 2000 e ao Senado em 2002, mas não conseguiu se eleger em nenhum dos dois cargos.  

Brizola veio a falecer de enfarte no Rio de Janeiro em 21 de junho de 2004. À época, cogitava mais uma vez em lançar-se candidato a prefeito do Rio de Janeiro.  Sua morte teve forte impacto na opinião pública e junto ao povo carioca. Milhares de pessoas estiveram presentes às cerimônias fúnebres que foram realizadas no Palácio Guanabara, sede do governo estadual. Seu corpo foi enterrado em São Borja, a cidade símbolo do trabalhismo brasileiro, na qual também estão enterrados Getúlio Vargas e João Goulart.







DIA 21 DE JANEIRO DE 2007, É SANCIONADA LEI QUE CRIA O DIA NACIONAL DE COMBATE À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Foi instituída justamente na gestão democrática, progressista e inclusiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Lei nº 11.635/07, que oficializou o dia 21 de janeiro como o Dia Nacional  de Combate à Intolerância Religiosa. A data relembra o fatídico dia do falecimento da Ialorixá Mãe Gildásia dos Santos do terreiro Axé Abassá de Ogum na Bahia, vítima de ato de intolerância religiosa. A sacerdotisa foi acusada de charlatanismo por um jornal evangélico Folha Universal edição 39, sob o título: “Macumbeiros charlatães lesam o bolso e a vida dos clientes”.  Sua casa for atacada e pessoas da comunidade foram agredidas. Ela veio a falecer no dia 21 de janeiro de 2000, vítima de infarto diante das agressões sofridas.  “Mãe Gilda simbolizava toda uma ação dos terreiros de Candomblé contra a discriminação”, pois no Brasil essa intolerância tem endereço certo, e são os terreiros de matrizes africanas”, declarou Olívia Santana, vereadora à época e secretária do Trabalho, Renda e Esporte do governo do estado da Bahia, confirmando o já conhecido preconceito e perseguição aos cultos afros no Brasil.    

A Lei nº 11 635 é de autoria do deputado baiano Daniel Almeida (PC do B),  instituindo o dia nacional de combate à intolerância religiosa e sancionada pelo presidente Lula como reconhecimento da existência do problema por parte do Estado.  O parlamentar dedicado ao tema, defendia   medidas de caráter educativo, discussão nas comunidades, no ambiente de trabalho, nas escolas, uma vez que a liberdade de crença religiosa ainda é um desafio para milhões de brasileiros, como indígenas, quilombolas e outros.

Apesar da Constituição Federal brasileira no artigo V inciso VI garantir “a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias”, não é raro o ataque frontal por parte de alguns seguimentos cristãos aos adeptos aos cultos do Candomblé e da Umbanda, incluindo perseguições e destruição de locais de culto. Esses crimes não encontram espaço na grande mídia, portanto ficam invisíveis à população brasileira.

O SEPLIR Centro de Promoção de Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (RJ),  entre 2012 e 2014, registrou 848 queixas relacionadas à intolerância religiosa. O Disque 100 federal, recebeu 194 denúncias de violações de direitos motivados por intolerância. Em 2015 houve um aumento de 69 % de violações de liberdade religiosa. Segundo a Secretaria  dos Direitos Humanos entre 2015 e 2017, o Brasil registrou  uma denúncia de intolerância religiosa a cada 15 horas, sobretudo nos estado de São Paulo, Minas Gerais, e Rio de Janeiro.  Esses dados revelam uma realidade brasileira muito diferente daquela imagem mítica de um país de convivência pacífica entre religiões e de grandes expressões de sincretismo religioso.

Daniel Aparecido Corrêa, Babalorixá da Comunidade Renovação Ilê Axé Oxaguan, vem externando sua grande preocupação após a subida ao poder do novo governo de tendências fascistas, pautado pela intolerância e apoiado pelo fundamentalismo religioso. Teme pela perda de direitos do povo afrodescendente, pois “a bancada evangélica ao longo do tempo tem criado leis e usado dos mecanismos de lei para bloquear diversas formas de expressão do nosso povo. A justiça não nos defende. A gente não tem garantia nenhuma de que a polícia vá defender o terreiro ou que a gente vá processar esse povo que vem atacando os terreiros de Umbanda e Candomblé”.







DIA 20 DE JANEIRO DE 1931, NASCE MÃE BEATA DE IEMANJÁ

“Eu nasci numa encruzilhada. Tia Afalá, uma velha africana que era parteira do engenho, nos levou, minha mãe e eu, para casa e disse que ela tinha visto que eu era filha de Exu e Yemanjá. Isso foi no dia 20 de janeiro de 1931. Assim foi meu nascimento”.

Uma personagem genuinamente brasileira, neta de portugueses e africanos escravizados no Brasil, passou a sua infância nos arredores de Cachoeira do Paraguassu, Bahia, cercada pela presença de mãe Afalá e por outras mulheres de origem africana, especialmente, pela avó paterna, mulher que, segundo Mãe Beata, “tratava de todos no engenho com suas ervas e mezinhas”.  Beatriz Moreira Costa é Yalorixá (sacerdotisa suprema dos candomblés de origem Ketu-iorubá), escritora, atriz e artesã, desenvolve trabalhos relacionados à defesa e preservação do meio ambiente, aos direitos humanos, à educação, saúde, combate e ao racismo. Beatriz Moreira Costa, mais conhecida como Mãe Beata de Iemanjá, nasceu em 20 de janeiro de 1931, em Cachoeira de Paraguaçu, Recôncavo Baiano, filha de Maria do Carmo e Oscar Moreira, seus exemplos de vida.

Beatriz, mesmo presa a princípios tradicionais em razão da influência de uma família patriarcal, torna-se de vanguarda ao fazer cursos de teatro amador e participar de grupos folclóricos. Casa-se com Apolinário Costa, seu primeiro namorado, com quem teve quatro filhos (Ivete, Maria das Dores, Adailton e Aderbal Moreira Costa).
Em 1969, Beata separa-se do marido e migra para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida para ela e seus filhos, história comum a tantas outras mulheres negras nordestinas.

 Por volta de 1980, Mãe Beata transformou-se em umas das mais celebradas personalidades do Candomblé do Rio de Janeiro. Foi uma das integrantes do ICAPRA, Instituto Cultural de Apoio e Pesquisa das Religiões Afros, que visa a difusão das heranças e tradições dos povos brasileiros de origem africana, centrando-se, especialmente, na transmissão religiosa. Em toda a sua existência, Mãe Beata sempre batalhou por justiça social, realizou trabalhos com soropositivos e doentes de AIDS, foi também conselheira do MIR (Movimento Inter-Religioso), membro do UNIPAX (que luta pela paz), integrante do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, tendo sido também presidente de honra da ONG CRIOLA.

Em 20 de abril de 1985 sua Mãe Olga do Alaketu vem ao Rio de Janeiro, no bairro de Miguel Couto, Nova Iguaçu, outorgar a sua filha o direito de ser chamada de mãe. Ocorre assim a fundação da Comunidade de Terreiro Ilê Omiojuarô (Casa das Águas dos Olhos de Oxóssi) onde Beata de Iemanjá ocupa o cargo de yalorixá. A partir desse momento, Beata passa a utilizar o espaço da Casa de Candomblé como referência da resistência da Cultura, Religião, Cidadania e Dignidade da população Afro-brasileira. Transmite à todos da comunidade de forma natural  sua experiência de luta, o que dá início a  participação ativa em discussões sobre os problemas raciais, sociais e políticos, com enfoque principalmente sobre as mulheres negras.

Seu empenho é logo reconhecido, sendo agraciada com diversas moções, diplomações e convites para palestrar em eventos, como o Fórum Global em 1992, no grupo mundial pela paz. Hábil com as palavras, Mãe Beata retrata a realidade da tradição das Comunidades de Terreiro nas obras “Caroço de Dendê, Sabedoria dos Terreiros”, “Tradição e Religiosidade” e “As histórias que minha avó contava”, publicadas em 1997, 2000 e 2005, respectivamente. Mãe Beata faleceu em Nova Iguaçu-RJ, em 27 de maio de 2017, deixando em seus contos, as vozes de um tempo e de um espaço que representam a identidade e a ancestralidade da sociedade afro-brasileira.







DIA 19 DE JANEIRO DE 1982, MORRE ELIS REGINA

“Tu despistou todo mundo / Mas eu encontrei a caixa preta e vou abrir / Nós homens te matamos mulher / Você dobrou a sua voz e venceu / Dobrou seus negócios e venceu / Dobrou tua consciência política e venceu / Quis ser mulher livre e perdeu…E você só queria namorar nós homens / Mas nós homens não conseguimos namorar uma mulher livre/ Perplexos, quarentões e médicos-legistas! Podem suspender as diligências /Tá na caixa preta, fomos nós homens que te matamos.”

(Homenagem de Henfil, revista ISTO É, duas semanas após a morte de Elis Regina)

Elis era emoção, contradição, paixão e a maior voz que o Brasil já teve. Sua ascensão como cantora coincidiu com o desenvolvimento e construção do que hoje conhecemos como Música Popular Brasileira. Seu temperamento forte e decidido lhe rendeu a alcunha de “pimentinha”, mas na verdade Elis era apenas uma mulher com um talento inigualável tentando conquistar seu lugar ao sol no cenário musical brasileiro da década de 60. Lutou contra os estereótipos, a violência, misoginia e todo o machismo de décadas atrás, mas que continua presente e fazendo vítimas em pleno século XXI.

Nascida em Porto Alegre (RS), no dia 17 de março de 1945, Elis começou a carreira na rádio, ainda criança, e transitou por diversos gêneros. Ao lançar o primeiro disco, “Viva a Brotolândia” (1961), era vista como um novo nome do nascente rock, ao estilo de Celly Campelo. Mas o grande público só tomou conhecimento da cantora quando ela participou dos concorridos festivais de música daquela década, o que lhe rendeu o convite para apresentar, ao lado de Jair Rodrigues, o programa “O Fino da Bossa”, em 1965, na TV Record. A partir desse momento Elis não parou mais. Escolhia a dedo seus parceiros musicais, tanto músicos quanto compositores, o que também contribuiu significativamente para sacramentar o seu estilo enquanto a maior intérprete da música brasileira.

Gravou ao lado de nomes como Ivan Lins (“Madalena”, “Cartomante”, “Aos Nossos filhos”), João Bosco e Aldir Blanc (“Bala com Bala”, “O Mestre Sala dos Mares”, “Dois pra Lá, Dois pra Cá”), Gilberto Gil (“Ensaio Geral”, “Roda”, “Lunik 9”), Milton Nascimento (“Canção do Sal”, “Morro Velho”, “Cais”, “Nada Será Como Antes”), Belchior (“Como Nossos Pais”), Fagner (“Mucuripe”), Gonzaguinha (“Redescobrir”), Renato Teixeira (“Romaria”), entre outros. Em seus 34 anos de vida, Elis Regina gravou 27 LPs, 14 compactos simples e seis duplos. Mais de quatro milhões de cópias vendidas. Foi a primeira cantora a registrar sua voz como instrumento na Ordem dos Músicos do Brasil.

Elis era menos conhecida por participar da vida política do país. Mas desde que se mudara para o Rio de Janeiro, participou de uma série de movimentos de renovação política e cultural no Brasil. Em 1969, ao conceder uma entrevista na Holanda se referiu ao militares como “gorilas” o que lhe rendeu um interrogatório em um dos muitos quartéis generais assim que pisou em terras brasileiras. Elis passou a ser monitorada pelos militares e acabou sendo “convocada” para cantar o hino nacional na festa de abertura das olimpíadas do exército em 1972, despertando a desconfiança e muitas críticas daqueles que eram declaradamente contra a ditatura. Henfil chegou a “enterrá-la” em algumas de suas brilhantes charges ao lado de outras figuras que eram consideradas simpatizantes dos militares como Pelé e Roberto Carlos.

No entanto, a redenção veio quando Elis passou a emprestar sua voz interpretando e imortalizando a canção de Aldir Blanc e João Bosco que ficaria conhecida como o hino da anistia, “O bêbado e o equilibrista” em 1979.  Criticou muitas vezes a ditadura brasileira, porém, enquanto muitos músicos e artistas foram perseguidos e exilados, Elis conseguiu escapar da fúria dos agentes de repressão da ditadura. Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores em 1981, um ano após a sua fundação, antes de cravar seu lugar no cenário político nacional trazendo a esquerda brasileira para o centro das discussões políticas não mais como força coadjuvante, mas  como força política protagonista e representante da classe trabalhadora.

Elis foi casada com  Ronaldo Bôscoli e fruto dessa união nasceu João Marcelo Bôscoli em 1970. De seu segundo casamento com  César Camargo Mariano nasceram, Pedro Camargo Mariano 1975 e Maria Rita 1977. Elis Regina faleceu com apenas 36 anos, em São Paulo, no dia 19 de janeiro de 1982 e nos deixou órfãos de sua figura cativante e sua voz absolutamente única.






DIA 18 DE JANEIRO DE 1918, NASCE  D. ADRIANO HYPÓLITO

D. Adriano Mandarino Hypólito, bispo da Diocese de Nova Iguaçu, foi mais uma vítima dos atos terroristas da extrema-direita contrária a “abertura política”, que estava sendo implementada pelo presidente general Geisel.  No mesmo ano em que o operário Manoel Fiel Filho era torturado e morto no DOI-CODI de São Paulo, aqui no Rio de Janeiro, a Igreja Católica era atingida por grupos radicais contrários à “lenta, gradual e segura” abertura política de Geisel. O bispo progressista (título que rechaçava), era personagem central na luta por direitos humanos na Baixada Fluminense, mas colheu ônus e bônus em sua missão pastoral. “Com 14 anos de Baixada, posso dizer que aqui me encontrei comigo mesmo e com minha vocação sacerdotal, que aqui passei por uma conversão profunda e pessoal, que no contexto com o povo sofrido e bom da Baixada, descobri a Igreja de Jesus Cristo”. (D. Adriano).

Nascido em Aracaju no dia 18 de janeiro de 1918, fez seus primeiros estudos na capital sergipana, onde foi criado. Foi membro da Ordem dos Frades Menores, OFM, e ordenado padre em Salvador em 1942. Enviado a Portugal para estudar literatura e pesquisar a história dos franciscanos no Brasil. De volta ao país dedicou-se ao trabalho de professor no Seminário Diocesano de Ipuarama, Lagoa Seca, em Campina Grande, na Paraíba, onde se destacou também como regente e compositor. Entre as diversas funções exercidas na Ordem, foi bispo auxiliar de Salvador (1863/66), Padre conciliar do Concílio Vaticano II (1963/65), Secretário Regional Leste I da CNBB, Delegado ao Sínodo Romano (1977), Delegado à Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-americano em Puebla (1979). Em 1966 foi nomeado para o bispado de Nova Iguaçu(RJ).

O prelado foi incansável na luta por Direitos Humanos, fazendo da diocese um espaço de acolhimento dos movimentos sociais, de atuação de leigos, pessoas perseguidas pelo regime militar, inclusive incentivando a participação política, pois acreditava que “não basta simplesmente rezar e falar. Como cristão e como pastor, sinto que tenho o dever de apoiar os movimentos que trabalham para o bem do povo”.Devido a sua forte atuação na defesa dos direitos dos pobres e perseguidos, passou a ser vigiado pelos agentes do Estado ditatorial. Em setembro de 1976, D. Adriano Hypólito foi sequestrado, torturado, abandonado nu, amarrado no matagal em Jacarepaguá com o corpo pintado de vermelho. Seu carro, um fusca, foi explodido na porta da sede da Conferência dos Bispos do Rio de Janeiro no bairro da Glória (RJ). A ação teria sido praticada pela Aliança Anti-Comunista. E desde então teve sua vida monitorada pelos órgãos de repressão. Ressalte-se que até hoje ninguém foi processado pelo ato terrorista praticado.

As intimidações ao bispo nunca cessaram, recebia constantes ameaças de novo sequestro e “castigo exemplar”. Um ano depois do sequestro, homens armados invadiram o Centro de Formação de Líderes da Igreja, fortemente armados e impediram a realização do Congresso sobre Direitos Humanos, por determinação do I Exército. Foi difamado através de documentos diocesanos falsificados.  Sua igreja foi vítima de  pichações do tipo: “Aqui é sede do PCB”, “O bispo é comunista”.  A escalada do terror chegou ao ápice em 1979, com a explosão de uma bomba no altar da Catedral da diocese, danificando o sacrário, destruindo portas e janelas e ferindo um operário que montava o presépio de Natal.

 D. Adriano inaugurou o Centro de Direitos Humanos da Diocese em 1993. No ano seguinte, após 28 anos à frente da direção, deixou o cargo, mas continuou o trabalho social e pastoral, que incluía apoio aos meninos de rua e mulheres marginalizadas. Passou a ser bispo emérito de Nova Iguaçu. Um mês antes de falecer, o religioso participou de um seminário na Alemanha, onde falou de “Evangelização e Exclusão Social na Baixada Fluminense”.

O bispo morreu de infarto aos 78 anos em 10 de agosto de 1996, no Hospital Nª Sª de Fátima em Nova Iguaçu.







DIA 17 DE JANEIRO DE 1961, É ASSASSINADO PATRICE LUMUMBA

 Okit’ Asombo, líder da independência do Congo, ex-colônia belga, conhecido como Patrice Emery Lumumba, defensor do Pan Africanismo, ou seja, da unidade dos povos da África, superando os limites de nação, etnia, cultura, classe e gênero.  É considerado mártir e herói das lutas de emancipação dos países colonizados. Foi capaz de incorporar o anseio por liberdade dos povos oprimidos do continente africano.

Patrice Lumumba, no dia da independência (30/06/60), discursava  conclamando aos povos africanos a esquecerem as rivalidades tribais. “Elas nos exaurem. Elas trazem o risco de sermos humilhados no exterior”. Nesse mesmo dia tomava posse como 1º Ministro do país, hoje denominado República Democrática do Congo. Não imaginava o quão breve seria seu mandato. Foi deposto quatro meses depois e no dia 17 de janeiro de 1961 em Katanga, sul do país, Patrice Lumumba, com 35 anos, foi capturado, torturado por horas ou talvez dias, até o brutal assassinato por um esquadrão de execução, acompanhado por 20 soldados do exércitonacional e oficiais belgas, a mando das   forças imperialistas e colonialistas.  O crime permanece impune até os dias atuais. Quarenta anos mais tarde o sociólogo belga Ludo De Witte, denuncia em novo livro, a “evidência que todos já sabiam: a cumplicidade do governo belga, da CIA, e das Nações Unidas”.

O Congo, “um escândalo geológico” (dito por um geólogo), devido a riqueza em minerais, foi saqueado por 30 anos de maneira perversa pelo imperialismo belga, francês e estadunidense em conivência com os chefes locais. Lumumba foi a principal liderança na luta contra o violento domínio colonial belga, na colônia belga. Orientou sua luta para a criação de um Estado independente e laico, que pudesse unir as rivalidades tribais, criando um sentimento nacional e administrando as riquezas naturais do país, fora do domínio capitalista europeu ou norte americano.  Acreditava que a independência do Congo seria um passo decisivo para a libertação do continente inteiro.

Filho de uma família camponesa, nascido em 02 de julho de 1925, na aldeia Onalua, uma das regiões mais pobres do país, cursou escola missionária, única forma dos congoleses terem acesso à educação.  Iniciou a militância política fundando um Sindicato Independente de Funcionários Públicos Congoleses, motivo que o levará a ser perseguido.  Em 1958, fundou oMovimento Nacional Congolês (MNC) eparticipou da primeira conferência Pan Africana, que reuniu importantes lideranças nacionalistas do continente.  

O MNC saiu vitorioso nas eleições de maio de 1960, que elegeu Patrice Lumumba 1º Ministro do Congo independente, no dia 23 de junho de 1960.  O preço da independência foi caro. Os congoleses foram obrigados a aceitarem a dívida externa da Bélgica. Acresce a este fato, o fomento de uma rebelião pelas forças imperialistas na região das riquezas minerais. Para pacificar a desordem Lumumba pediu apoio à URSS, que enviou remédios, armas, alimentos. No contexto da Guerra Fria, este foi o estopim para que as potências colonialistas do bloco capitalista, articulassem a destituição de  Lumumba do ministério. A ONU enviou tropas para pacificação da rebelião.  Três meses depois o inimigo político do ministro, o coronel Joseph Mobutu, liderou um golpe de Estado. Patrice Lumumba foi destituído do cargo, preso, e colocado sob custódia da ONU até o assassinato em 1961.

Anos mais tarde o governo pediu desculpas à família e abriu uma comissão para averiguar. Matérias escritas sobre o assassinato dão conta de que houve a participação da CIA, do Reino Unido e Bélgica nesse crime. Colocaram o corpo de Lumumba em um barril de ácido para que desaparecesse. Depois de 55 anos os EUA reconheceram que se envolveram na destituição do líder. E o governo belga admitiu uma parcela de culpa no crime.










DIA 16 DE JANEIRO DE 1970, É ASSASSINADO O JORNALISTA MÁRIO ALVES.

Mário Alves de Souza Vieira, condinome “Vila”.  Esse nome sim, deveria estar sendo exibido em alguma   grande e notória avenida de nosso país. A bravura e o heroísmo desse companheiro jamais poderá ser esquecida.  O Jornalista e dirigente comunista, Mário Alves foi preso no dia 16 de janeiro de 1970, no Bairro da Abolição, subúrbio do Rio de Janeiro. No mesmo dia da detenção, agentes da Operação Bandeirante (OBAN) prenderam em São Paulo a jovem militante da VAR-Palmares Dilma Rousseff, que seria eleita presidenta do Brasil pelo PT em 2010, reeleita em 2014, e destituída pelo golpe parlamentar/jurídico /midiático em 2016.

 A polícia do 1º Exército já estava de tocaia para a captura de Mário Alves e após o surpreender na saída de casa, levou-o para o quartel da Polícia do Exército na rua Barão de Mesquita no Bairro da Tijuca. Ali, Mário Alves cumpriu o dever de um verdadeiro soldado combatente, resistindo à tortura até a morte, sem que lhe fosse arrancada uma informação sequer. O sadismo de seus torturadores obedeceu aos requintes de crueldade devidamente ensinados por Dan Mitrione, agente da CIA  integrante da  equipe que treinou  os militares brasileiros sobre as mais eficientes técnicas de tortura importadas diretamente dos EUA.

Mário Alves foi barbaramente espancado durante toda a noite, empalado com um cassetete dentado, o corpo todo esfolado por escova de arame, por se recusar a prestar informações exigidas pelos torturadores do 1º Exército e do Dops. Os presos da cela ao lado que passaram a noite em claro ouvindo a agonia de Mário Alves, Manoel João, Augusto Henrique e Antônio Carlos, foram levados à sala de torturas para limpar o chão sujo de sangue e de fezes, e reconheceram Mário moribundo em um estado absolutamente indigno e desumano. Enquanto limpavam a sala, os militares torturadores ainda estavam a sua volta, rindo, e não permitiram que lhe fosse prestado nenhum socorro.  Seu corpo nunca foi encontrado.

Mário Alves, começou a participar da vida política do país ainda na adolescência quando aos 15 anos ingressou no PCB da Bahia, em plena ditadura do Estado Novo. Durante a juventude participou das lutas estudantis e das lutas populares contra o avanço das “ideologias” de ultra direita que ganhavam força na Europa e que viriam a deflagrar em 1939  a Segunda Guerra Mundial. Durante todo o período em que o PCB esteve operando dentro e fora da legalidade Mário Alves jamais deixou de se dedicar às atividades do Partido. Em 1957 foi eleito membro do Comitê Central do PCB, e em 1958, viajou para a República Popular da China e assumiu a direção do jornal Novos Rumos que pertencia ao Partido Comunista.  Mário Alves dominava vários idiomas e durante o período de clandestinidade trabalhou como tradutor para garantir seu sustento.  Com o advento do regime militar no Brasil, seu perfil de militante alinhou-se ideologicamente a uma política mais revolucionária   que defendia a resistência armada e ações de guerrilha urbana contra a ditadura. Tal posicionamento levou Mário Alves a romper com o PCB e a fundar o PCBR, com o apoio de Carlos Marighela e outros dois companheiros de luta, Apolônio de Carvalho e Jacob Gorender em 1968. Alves passou então a secretário-geral do PCBR organizando grupos de resistência armada assim como a estrutura organizativa do Partido.

 O PCBR ousou enfrentar frontalmente a ditadura através da luta armada, que segundo seus fundadores, seria o único caminho para derrubar o regime militar instalado no Brasil em 1964 e implantar um governo popular revolucionário. O PCBR  foi uma das principais organizações que entre as décadas de 1960 e 1970 se dedicaram à guerrilha no país, tornando Mário Alves  um dos  grandes líderes revolucionários comunistas que os generais militares tiveram prazer em perseguir e executar. Seu nome consta na lista dos desaparecidos políticos vítimas da odiosa ditadura militar.

 Em depoimento à Comissão da Verdade criada em 2012 pela Presidenta Dilma Rousseff, em maio de 2013, um dos acusados de torturar e matar Mário Alves, o Major Valter da Costa, conhecido como Major Jacarandá, admitiu a participação nas torturas, mas negou envolvimento na morte do jornalista. Os outros acusados Luiz Mário Valle Correia Lima, (tenente Correia Lima), Luiz Timótheo de Lima (inspetor Timóteo), Roberto Augusto Duque Estrada (capitão Duque Estrada), e Dulene Aleixo Garcez dos Reis (tenente Garcez), não compareceram à Comissão para prestar esclarecimentos.

Há época, o Presidente da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro,  deputado Wadih Damous do Partido dos Trabalhadores, pediu a condução coercitiva dos outros envolvidos, o que nunca aconteceu. A CNV concluiu que os agentes de segurança do Estado foram responsáveis pelas torturas e as graves e sistemáticas   violações dos direitos humanos   que levaram Mário Alves ao falecimento.  A família ainda aguarda pela indenização financeira, localização dos restos mortais e a responsabilização de todos os agentes envolvidos na morte e desaparecimento de Mário Alves.









DIA 15 DE JANEIRO DE 1919, É ASSASSINADA ROSA DE LUXEMBURGO

 “Quantos tiros seriam necessários para matar o sonho da revolução alemã? No zoológico de Berlim quem seriam os animais”?

Em janeiro 1919, os spartaquistas desencadearam uma rebelião contra o governo, os operários tomaram as ruas, e ocuparam o parlamento alemão.  Relutante, a revolucionária Rosa de Luxemburgo, acabou participando do movimento que, depois de cinco dias de luta foi massacrado pela repressão alemã. Rosa e seu amigo Karl Liebknecht foram capturados, presos, e levados ao jardim Zoológico de Berlim, onde no dia 15 de janeiro de 1919, foram   brutalmente assassinados. Seus corpos foram atirados no canal de Berlim, e só reconhecidos cinco meses mais tarde.

Com esta trágica morte em plena luta revolucionária, Rosa acabou se tornando mártir da Revolução Socialista Internacional. Sua companheira spartaquista Clara Zetkin declarou após seu assassinato: “Em Rosa de Luxemburgo o ideal socialista era uma paixão dominante e poderosa, tanto da mente como do coração. Ela era a espada e a chama da revolução”.

 De nacionalidade polaco-alemã, a militante comunista revolucionária, foi também economista e filósofa. Fundadora do grupo Spartakista, do qual se originou o Partido Comunista Alemão, Rosa de Luxemburgo era dona de uma profícua produção marxista.  Lênin em seu discurso de abertura da III Internacional, se referiu a ela como “águia polonesa e heroína do proletariado mundial”.

 Rosa Luksemburg em polaco, nasceu em Zamosc na Polônia, em uma família judia abastada e culta. Ninguém poderia imaginar que a menina rica, se transformaria na Rosa Vermelha, dirigente do movimento comunista internacional. Ela cresceu no período em que a Polônia estava dominada pela Rússia czarista. Muito jovem se engajou em movimentos estudantis e operários de Varsóvia, lutando contra a estrutura arcaica e opressora das escolas polonesas. A partir daí, passou para a luta política contra a dominação russa sob viés socialista. Aos 22 anos, já sofria perseguições e refugiou-se na Suíça, onde estudou Ciências Naturais, Matemática, Direito, Economia Política. Aos 26 anos fundou a Social Democracia do Reino da Polônia (SDKP). Dois anos depois, publicou a obra que lhe deu projeção junto aos teóricos marxistas: Reforma Social ou Revolução?

 No período de 1906 retornou a Varsóvia para colaborar com a Revolução Russa de 1905, conhecida como Ensaio Geral, nessa ocasião ficou detida quatro meses.  Poucos anos depois em Berlim, se casou com um trabalhador alemão e obteve cidadania alemã. Filiou-se ao Partido Social Democrata Alemão, à época o mais influente partido socialista do ocidente, e durante alguns anos trabalhou na formação de quadros para o Partido, época em que elaborou obras como: Acumulação do Capital e Introdução à Economia política.  Entre 1915/16, ficou presa por um ano quando então, produziu importantes obras que contribuíram para o pensamento político da esquerda mundial como, A crise da social Democracia e Revolução Russa.

Suas obras continuam sendo estudadas e analisadas.  Em “Liberdade é sempre a liberdade de ter opiniões diferentes”, desenvolveu princípios do socialismo democrático. Defendia o internacionalismo proletário, entendendo ser a greve o mais importante instrumento revolucionário de luta do proletariado. Revolucionária convicta, atuava sempre à esquerda do partido, ala que se colocou frontalmente contra a Primeira Guerra Mundial, por ser uma guerra imperialista. Em contrapartida à guerra, propuseram uma greve geral como precursora da Revolução Socialista Internacional.  Nesta ocasião afastou-se do Partido Social-Democrata por discordar da maioria cuja posição era pró -guerra, e fundou em dezembro de 1914 com o amigo Karl Liebknecht, a Liga Spartaquista (homenagem ao escravo do império romano, Spartacus), e em maio de 1916 fizeram uma manifestação spartaquista contra a guerra, que resultou na sua prisão. Depois de alcançar a liberdade, em 1918 transformou a Liga Spartaquista em Partido Comunista Alemão (KPD).

Passados alguns anos Brecht escreveria seu epitáfio:

Aqui jaz Rosa de Luxemburgo

Judia da Polônia

Vanguarda dos operários alemães

Morta por ordem

Dos opressores.

 Oprimidos,










DIA 14 DE JANEIRO DE 1971, CHEGAM AO CHILE OS PRESOS POLITICOS LIBERTADOS EM TROCA DO EMBAIXADOR SUÍÇO GIOVANNI BUCHER.

O sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher foi a mais longa negociação da ditadura com as organizações clandestinas.  Após 38 dias de risco extremo, o Comandante Carlos Lamarca e os companheiros da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) que realizaram a operação de captura do embaixador suíço Giovanni Bucher, em dezembro de 1970, conseguiram em mais um ato heroico, a libertação de 70 presos políticos em troca da libertação do embaixador.   Essa foi a última grande ação da guerrilha urbana brasileira que terminou vitoriosa com achegada dos 70 presos políticos à cidade de Santiago no Chile no dia 14 de janeiro de 1971. O sucesso da operação poupou a vida de 70 companheiros que certamente seriam vítimas do sadismo e truculência dos agentes do Estado. Os cálculos e as estratégias nas negociações do comandante Carlos Lamarca, foram precisos. Ele viria a se tornar então, um dos guerrilheiros mais procurados pelo regime.

Na ocasião do sequestro no dia 07 de dezembro de 1970, A VPR exigiu a libertação dos 70 presos políticos, a divulgação de um manifesto, o congelamento de preços em todo o país por 90 dias e a liberação das catracas nos trens do Rio de Janeiro. O governo levou 48 horas para responder e avisou que negociaria apenas a libertação dos presos. Lamarca aceitou. Dois dias depois, o regime informou que não aceitava libertar 13 dos presos políticos listados, quase todos participantes dos sequestros anteriores. Feitas as substituições, o governo disse que 18 pessoas se recusavam a deixar o país. A ação caminhava para ser desmoralizada. A maioria da direção da VPR decidiu executar o embaixador, responsabilizando a ditadura pelo fracasso das conversações. Lamarca usou sua autoridade de comandante para poupar a vida de Bucher e continuou negociando. Houve novas recusas por parte do governo e novas trocas, num processo que durou um mês.

Os companheiros que escaparam da morte chegaram ao Chile de Salvador Allende e puderam respirar os ares da liberdade, das grandes mobilizações populares, em um governo democrático e comprometido com a justiça social.    Foram acolhidos  como verdadeiros heróis pelo chilenos que ao saberem da chegada dos presos políticos brasileiros logo se prontificaram a auxiliar com as primeiras providencias necessárias.   Nossos companheiros puderam vivenciar o sonho da liberdade por pouco tempo pois em 11 de setembro de 1973, o Chile inauguraria um longo e tenebrosos período de ditadura sob o comando do general facínora Augusto Pinochet . A ditadura de Pinochet matou milhares de chilenos e também alguns de nossos companheiros que optaram por continuar a viver no Chile depois de libertados em troca do embaixador suíço. Outros companheiros optaram por viver em outros países por questões de militância e alguns voltaram clandestinamente para o Brasil onde infelizmente não escaparam do ódio e desejo de vingança dos militares brasileiros.

Para o espanto e indignação dos chefes militares, o embaixador suíço Giovanni Bucher recusou-se a identificar seus sequestradores ao ser interrogado pela polícia. Segundo relatos de alguns integrantes da VPR,  Giovanni e Carlos Lamarca tornaram-se grandes parceiros de “biriba” e Giovanni acabou criando uma ótima relação com os jovens guerrilheiros.  O embaixador foi libertado próximo à Igreja da Penha, zona norte do Rio de Janeiro três dias após o embarque dos 70 presos libertados, com os 13 deles substituídos por outros. Chegava ao fim o ciclo de sequestros políticos durante a ditadura militar.








DIA 13 DE JANEIRO DE 1999, MORRE O HISTORIADOR NELSON WERNECK SODRÉ

“A vida de Nelson Werneck Sodré é um compêndio de contradições: militar, comunista e marxista”. Como militar de carreira chegou a general de reserva, e como intelectual, professor e historiador, foi dono de uma produção intensa de 58 obras no âmbito da História, Economia, Política. Foi professor da Escola de Comando do Estado Maior do Exército e um dos fundadores do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), onde lecionou até sua extinção arbitrária pelo golpe militar de 1964.  Do curso de Formação Histórica do Brasil que ministrava, resultou o livro de referência para a literatura brasileira, e para o embasamento crítico  dos profissionais do magistério, a “Formação Histórica do Brasil”, publicado em 1962 e posteriormente na Argentina em 1964.

De origem modesta, Werneck Sodré   nasceu no Rio de Janeiro em 27 de abril de 1911. Cursou Colégio Militar e a Escola Militar de Realengo, graduando-se em artilharia. Designado para servir em Itu, SP,  onde começou a escrever como crítico literário no jornal Correio Paulistano. Em 1938 publicou seu primeiro livro, a História da Literatura Brasileira, e até 1945 produziu mais seis livros além de diversos artigos. No início da década de 50, foi desligado da Escola de Estado Maior por suas posições políticas identificadas com as do PCB. A partir de então foi sendo colocado em postos militares pouco relevantes e alguns até punitivos, como no interior do Rio Grande do Sul, em Cruz Alta onde ficou isolado.  Chegou a ser preso em 1961, por se posicionar contra o golpe que depôs João Goulart.

Com a implantação da ditadura militar em 64, teve seus direitos políticos cassados, foi proibido de lecionar, e para evitar a prisão, passou a viver na clandestinidade, no interior de São Paulo. Ao invés de se exilar, dedicou-se intensamente a escrever. Alguns de seus livros foram proibidos chegando a ser retirados das livrarias. 

Na historiografia fundamentou suas ideias sob a ótica marxista do “modo de produção”, como base de análise para compreender a formação das classes sociais brasileiras especialmente a chamada “burguesia nacional”. Foi um dos formuladores do nacional desenvolvimentismo que teve grande influência na política comunista que recomendava a aliança dos trabalhadores com a burguesia para o desenvolvimento brasileiro. Se esta visão com o avanço dos estudos historiográficos, representa hoje uma limitação, muitas outras contribuições foram postas pelo mestre, como a formação histórica da sociedade brasileira, a natureza da revolução em nosso país, as formas de pensar do povo brasileiro, o jornalismo, a literatura, entre outras.  Lutou pelo progresso social, pela soberania nacional, mesmo em momentos adversos como em 1964, com artigos publicados no Última Hora, denunciando a ditadura e o imperialismo norte americano.

Continuou escrevendo até os últimos anos de sua vida mantendo  convicções socialistas, mas reavaliando cada momento político brasileiro, como foi o caso na década de 90, com a ascensão do neoliberalismo, quando publicou seu último livro, “A Farsa do Neoliberalismo”(1995), uma desmontagem teórica do sistema que passou a nortear a República sob o governo tucano. Na ocasião foram reeditadas outras obras do autor, como “Capitalismo e Revolução Burguesa no Brasil”, Formação Histórica do Brasil, esta, com posfácio do analista social Emir Sader.

O professor Nelson Werneck Sodré faleceu dia 13 de janeiro de 1999 aos 97 anos em Itu, São Paulo. 









DIA 12 DE JANEIRO DE 2010, MORRE ZILDA ARNS NEUMANN

Médica pediatra e sanitarista, dedicou sua vida à implementação de projetos sociais na área da saúde pública combatendo a mortalidade infantil. Trabalhou arduamente na defesa das crianças pobres, desnutridas e vítimas de violência familiar. Fundou e coordenou aPastoral da Criança, e a Pastoral da Pessoa Idosa. Atuou como membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), e dirigiu o departamento Saúde-Materno- Infantil da Secretaria de Saúde do Estado do Paraná.

Optou pelo exercício da medicina área da saúde pública especializando-se   em Universidades como a USP, Universidade da Colômbia, OMS (Organização Mundial de Saúde), entre outras. Em Curitiba exerceu medicina no Hospital de Crianças César Pernetta. Depois de ter seu trabalho reconhecido, foi convidada para coordenar a campanha de vacinação contra poliomielite, ocasião em que desenvolveu um método próprio, através da   multiplicação do conhecimento, solidariedade entre as famílias, e educação das mães pelos líderes comunitários, estratégia que se expandiu e posteriormente foi adotada pelo Ministério da Saúde.

A experiência na Pastoral da Criança teve início na cidade catarinense de Florestópolis, cujo índice de mortalidade infantil era alarmante. Após um ano de trabalho, o êxito foi tal que chamou a atenção da UNICEF (ONU). A Pastoral promoveu ações educativas junto às famílias no que diz respeito à prevenção de doenças e combate à criminalidade infanto-juvenil. Os frutos deste trabalho atingiram 72% do território nacional, aproximadamente  20 países na América Latina, Ásia e África, auxiliando inúmeras comunidades carentes, contando com mais de 260 mil voluntários. Mais de um milhão de crianças menores de seis anos, 60 mil gestantes, 860 mil famílias pobres em 36660 municípios foram beneficiadas.  Ao sucesso deste trabalho, seguiu-se o da coordenação da Pastoral da Pessoa Idosa, a convite da CNBB, favorecendo mais   de 130 mil idosos contando com 15 mil voluntários.

Zilda foi a décima – terceira de dezesseis   filhos do casal de origem alemã, Gabriel Arns e Helene Steiner, nascida na cidade de Forquilhinha em Santa Catarina no dia 25 de agosto de 1934, foi mãe de seis filhos e avó de dez netos, irmã de D. Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo,  defensor dos direitos humanos, contra a repressão da ditadura militar brasileira. Em 2009 Zilda esteve no Timor Leste, onde a Pastoral auxiliava 6000 crianças; em janeiro de 2010, Zilda Arns viajou para Porto Príncipe no Haiti pra proferir palestras para religiosos haitianos. Ao terminar a palestra quando ainda estava no prédio respondendo perguntas, aconteceu o terremoto que destroçou a cidade. O edifício de três andares desmontou e Zilda foi atingida na cabeça, e morreu na hora. Era o dia 12 de janeiro de 2010. Seu corpo foi levado para Curitiba, transportado em carro aberto e aplaudido por uma multidão.

 Zilda Arns recebeu inúmeras honrarias. O título de cidadã honorária de 11 estados e 37 municípios brasileiros, 19 prêmios nacionais e internacionais, dezenas de homenagens de empresas, universidades e outras instituições pelo trabalho na Pastoral da Criança. Pelo conjunto da obra recebeu também prêmios de fundações e organizações norte americanas, espanholas; título de doutor Honoris Causa de universidades de 32 municípios,  título de cidadã honorária em onze estados brasileiros.  Foi três vezes indicada ao Prêmio Nobel da Paz pelo Brasil, junto com outras 999 mulheres pelo projeto Mil mulheres da associação suíça Mil Mulheres para o Prêmio Nobel.


DIA 11 DE JANEIRO DE 1945, NASCE GERALDO AZEVEDO

“Antes do tempo /  As folhas do calendário 
Fizeram dele inimigo / Quem se pensava que fosse 
De todos o mais / Rasgou-se o véu do meu rosto 
Quebrou-se o elo havido / Se a vida a morte o minuto 
Sempre estiveram comigo / Que culpa lá tenho eu 
Quem busca corre perigo”.

(Trecho da canção “Tudo no ar”, Geraldo Azevedo)

Geraldo Azevedo de Amorim é um grande nome da nossa música e responsável por difundir e fazer respeitada a cultura nordestina para além dos regionalismos. Sua  profunda  relação com a música veio ainda na infância sendo  reconhecida e incentivada pela família, que embora de origem humilde, era também profunda admiradora da própria cultura e das artes. Geraldo Azevedo nasceu na cidade de Petrolina, (PE), no dia 11 de janeiro de 1945, onde inicia sua carreira musical participando como apresentador do programa “Por Falar em Bossa Nova” na primeira rádio de Petrolina a Emissora Rural “ A Voz do São Francisco”. Em Recife chegou a estudar Arquitetura mas sua alma inquieta de músico não descansaria enquanto não se dedicasse integralmente à sua grande e maior vocação, a música.

Durante a década de 60 Geraldo Azevedo começa a participar da vida cultural da cidade e a tocar em Universidades. Em 1965 funda o grupo Raíz, fundamentado no teatro, na literatura e na música. Conhece Carlos Fernando, que se torna um de seus maiores parceiros. Trabalha no Teatro Popular do Nordeste com Emilio Borba Filho, na direção musical de suas peças. Começa a musicar os poemas dos espetáculos e a difundir o folclore sertanejo pelas grandes cidades.

            Tudo caminhava bem até o momento em que Geraldo Azevedo passa a  participar de reuniões clandestinas no Teatro Gláucio Gil, ao lado de cineastas, roteiristas, atores e músicos na tentativa de resistir à censura do Regime Militar.  Conhece Glauber Rocha, Walter Lima Junior, Caetano Veloso, entre outros, e se encarregou pessoalmente de recolher assinaturas para o manifesto contra a censura.

Em 1968 foi obrigado a sair do país e o grupo musical Quarteto Livre ao qual era integrante foi desfeito. No exílio compôs a “Canção da Despedida” que foi censurada e acabou se tornando um hino da resistência, mas só foi veiculada décadas depois.  Em 1969, Geraldo Azevedo foi preso pelos militares e sofreu com as barbáries da tortura por 41 dias. Vitória sua esposa, ficou 80 dias na prisão. Nesse momento terrível da nossa história, Geraldo assim como tantos outros, foi obrigado a abandonar a música e trabalhar em outras funções, no seu caso como arquiteto.  Em 1970 muda-se para o Rio de Janeiro onde desponta uma fase musical extremamente frutífera   realizando parcerias com Alceu Valença e Elba Ramalho. Nesse período surgiram verdadeiras pérolas da nossa música como “Talismã” (também censurada), “Bicho de sete cabeças” e “Táxi Lunar”.

 Em 1974 Geraldo Azevedo volta a viver o terror da tortura em seus requintes de crueldade.  Foi novamente preso pelo governo militar à época sob Geisel, ao lado da esposa grávida de seu segundo filho. Em um dos interrogatórios o colocam para tocar violão. Ele então é salvo das torturas pela música, sendo obrigado a tocar e cantar para os torturadores repetidas vezes. Geraldo Azevedo resistiu heroicamente às torturas, seguiu em frente e continuou a compor. Suas músicas seguem encantando o público e sendo veiculadas em rádios, programas musicais, novelas e festivais de música.

 Felizmente a partir da década de 80 fica livre da perseguição da ditadura e segue realizando seus trabalhos por todo o país,  divulgando  ritmos como o forró e o frevo para além das fronteiras do nordeste. Como não mencionar o antológico “O Grande Encontro”, sucesso total de público, crítica e vendas na década de 90 em parceria com Zé Ramalho, Alceu Valença e Elba Ramalho e que seria realizado outras vezes para o deleite dos amantes da música popular brasileira. Geraldo Azevedo continua em plena atividade nos presenteando com seus shows, e novas composições. Sua mais recente apresentação foi um inesquecível show realizado gratuitamente no espaço Lona Carioca em 2015. 








DIA 10 DE JANEIRO DE 1973, MASSACRE NA CHÁCARA SÃO BENTO

Um caso de extermínio, uma execução sumária e perversa de um grupo de guerrilheiros que sonhava com uma sociedade mais justa e socialista. Jovens idealistas que ousaram desafiar a ditadura e tiveram seus destinos marcados pela morte precoce. O caso do massacre da Chácara São Bento ocorrido em 10 de janeiro de 1973 no Recife – PE, ganhou as principais manchetes dos jornais do país, mas não comoveu a população, pois se tratava de um grupo de “terroristas”, que foram  mortos “acidentalmente” em confronto com os agentes de repressão. O saldo de mais essa ação criminosa do Estado resultou na morte dos militantes  Eudaldo Gomes da Silva, 26 anos; Evaldo Luiz Ferreira de Souza, 31 anos; Jarbas Pereira Marques, 24 anos; José Manoel da Silva, 33 anos; Pauline Philippe Reichstul, 26 anos e Soledad Barret Viedma, 28 anos.

Todas as seis vítimas após serem presas em lugares distintos, foram torturadas e mortas na Granja São Bento, em Abreu e Lima, na Região Metropolitana do Recife. Ao cenário foram adicionadas armas ao redor dos corpos para sugerir um confronto entre guerrilheiros e militares que nunca existiu. As vítimas foram delatadas pelo agente da ditadura militar, um dos personagens mais pusilânimes de nossa história, o Cabo Anselmo. Entre as vítimas, sua própria namorada grávida de 7 meses, também entregue para fazer parte da lista dos “inimigos da pátria” que deveriam ser executados.

O plano para executar os inimigos da ditadura foi muito bem calculado. Tudo começou com a ideia de criar uma personagem que pudesse se destacar como liderança de esquerda para ganhar a confiança dos guerrilheiros. Assim José Anselmo dos Santos, um jovem marinheiro que  havia assumido a direção do  Sindicato dos Metalúrgicos da Guanabara, em março de 1964 protagonizou um protesto na sede  do Sindicato com um discurso contundente. Anselmo se transformaria da noite para o dia numa personalidade nacional. Era assediado por correntes de esquerda, como a POLOP e a AP. Na verdade ele ainda não era cabo e sim marinheiro de primeira classe. Antes de assumir a direção da Associação não havia demonstrado nenhuma propensão política de esquerda. Pelo contrário, possuía boas relações com a alta oficialidade.

Na época o líder dos marinheiros já atraia a desconfiança de outros setores, especialmente os mais ligados a Jango. Várias pessoas suspeitavam que ele fosse um agente provocador infiltrado no seio do movimento. No final da década de 1970, o comandante Ivo Acioly Corseuil, que havia sido sub-chefe da Casa Militar da Presidência da República, declarou: “Eu tinha informações seguras de que elementos ligados ao governador da Guanabara, Carlos Lacerda, principal líder da oposição, estavam infiltrados no movimento dos marinheiros”. Afirmou também que um jornalista norte-americano havia lhe confidenciado que Anselmo era um agente da CIA. Vários acontecimentos suspeitos contribuíram para endossar essa hipótese, como o estranho fato de Anselmo enquanto líder do levante dos marinheiros, não ter sido alvo da fúria dos militares golpistas.

                O objetivo de infiltrar um agente do Estado entre os guerrilheiros era muito bem definido. Assim Anselmo montou um núcleo de luta armada. Em Cuba e no Chile, exilados brasileiros queriam rearticular a esfacelada resistência armada no Brasil, um arremedo de foco guerrilheiro urbano. Para isso, armavam fachada legal, incluindo uma loja em Olinda, alugaram imóveis, compraram veículos e um sítio perto de Abreu e Lima, mas tudo era uma farsa.

Anselmo na verdade executava um plano articulado por Sérgio Fleury. Nessa época, 1971/1972, a esquerda armada (dividida em pequenos grupos com militantes que restaram da forte repressão do governo Médici) ainda não tinha certeza de que Anselmo se tornara um agente duplo. Ele se instalou em Olinda, com o cognome de Jadiel, simpático, fez amizades, frequentou bares da moda, criou ambiente. Um dia sumiu. Pouco depois, reapareceu com a bonita jovem, Lita.  Lita era Solidad Barret, com quem viveu numa casa em Olinda, na frente da qual instalaram a Butique Mafalda. Na verdade, um biombo para esconder a verdadeira missão: destruir o que restava de organizações clandestinas, cujo lance mais espetacular foi o massacre do grupo da Vanguarda Popular Revolucionária em janeiro de 1973 no massacre da granja São Bento.  O delegado Fleury comandou a ação, pessoalmente.

Depois da chacina no Recife, Anselmo passou para clandestinidade. Desta vez para proteger-se daqueles companheiros a quem havia traído. Nos porões do regime militar prestou serviço como analista de documentos e de interrogatórios de militantes presos. Deu palestras em vários estados para agentes dos órgãos de segurança. Fez operação plástica, mudou de identidade e passou a ser protegido por elementos vinculados à repressão política. Segundo o próprio Anselmo a sua ação teria acarretado o assassinato de mais de 100 pessoas!







 DIA 9 DE JANEIRO DE 1959, NASCE RIGOBERTA MENCHÚ TUM

 Rigoberta Menchú Tum é a expressão de um fato cultural e político sem precedentes, na história da Guatemala. Trata-se de uma personagem que resume, na sua condição de mulher, indígena e camponesa pobre, os traços radicalmente marginais de uma sociedade arrasada pela pobreza e por quase quatro décadas de uma sangrenta guerra civil. Localizada na região central da antiga Civilização Maia, a Guatemala somente conquistou a paz em 1996 quando foi assinado o acordo de paz entre governo e guerrilheiros. Durante os 36 anos de guerra civil, estima-se que cerca de 150 mil pessoas morreram e 50 mil desapareceram.

Rigoberta Menchú nasceu em 9 de janeiro de 1959, na aldeia de Chimel, região de Quiche. Analfabeta até os doze anos, trabalhou na agricultura e depois como empregada doméstica. Sua biografia resume o drama da violência guatemalteca. Seu irmão, Patrício, foi sequestrado em 1979 pelo Exército e não apareceu mais; o pai, Vicente Menchú, faleceu no incêndio da embaixada da Espanha, em janeiro de 1980; a mãe, Juana Tum, também foi sequestrada em 1980 e o irmão mais novo, Victor, foi assassinado em 1983 pelo Exército. Cresceu trabalhando na fazenda familiar, ou nos altiplanos do norte onde a família dela viveu, ou na costa de Pacífico onde adultos e crianças trabalhavam nas grandes plantações de café. Ainda adolescente se envolveu em atividades políticas por reformas sociais promovidas pela Igreja católica, e destacou-se no movimento de propriedade das mulheres.

 Seu trabalho social despertou o ódio dos poderosos, especialmente depois que uma organização de guerrilha se estabeleceu na área e sua família foi acusada de  subversão. Seu pai, Vicente Menchú, foi preso e torturado e depois da liberação, ajudou a fundar o Comitê da União de Camponês (CUC), organização que a filha também se filiou (1979).

            Rigoberta atuou proeminente na organização de uma greve promovida pelo CUC em 1980 e reivindicou melhores condições para os trabalhadores de fazendas na costa do Pacífico, e no dia 1 de maio (1981), encabeçou grandes manifestações na capital de seu país. Filiou-se àFrente Popular 31º de janeiro, onde sua contribuição principal consistiu na educação da população índia e camponesa a resistir contra a opressão militar. Perseguida, conseguiu fugir para o México, fato que marcou o começo de uma nova fase na sua vida. Tornou-se organizadora da resistência contra a opressão na Guatemala e da luta pelos direitos humanos dos índios camponeses. Foi uma das fundadoras da frente de oposição comum ao governo guatemalteco, a Representação Unida da Oposição Guatemalteca, a RUOG (1982).

Em 1985 publicou um depoimento pessoal onde registra sua história de vida e os princípios de sua luta:  Me chamo Rigoberta Menchú e assim nasceu minha consciência. Devido à intensa atividade em defesa dos povos indígenas, em 1992, ganhou o Prêmio Nobel da Paz, emreconhecimento aos trabalhos por justiça social e reconciliação étnico-cultural baseado no respeito aos direitos dos povos indígenas. Graças a seu trabalho reconhecido mundialmente, foi agraciada por vários doutorados honoris causa. O ano de 1992 coincidia com o quinto centenário da invasão espanhola na América por Cristóvão Colombo. Na leitura do prêmio, reivindicou os direitos históricos negados aos indígenas, a perseguição e a destruição imposta aos nativos desde a chegada de Colombo.

 Em 1993, foi escolhida pelas Nações Unidas como Embaixadora da Boa Vontade para o Ano Internacional dos Povos Indígenas. Atualmente é promotora da Década Internacional dos Povos Indígenas, por mandato da Assembleia Geral, e assessora pessoal do diretor-geral da Unesco. Realiza extensa atividade cívica na Guatemala, onde é citada como presidenciável. A embaixadora da boa-vontade da UNESCO é a mais nova apoiadora da candidatura de Luiz Inácio LULA da Silva ao Nobel da Paz em 2019, cuja campanha foi lançada em abril de 2018 pelo argentino Adolfo Perez Esquivel, agraciado com o Nobel da Paz em 1980. As entidades ganhadoras do prêmio são as únicas que têm o privilégio de apresentar  propostas ao Comité Nobel Norueguês.







DIA 8 DE JANEIRO DE 1967, PROTESTO CONTRA A LEI DA IMPRENSA NO TEATRO PARAMOUNT EM SÃO PAULO

Desde a tomada do poder do poder pelos militares através do golpe contra o Presidente João Goulart em 1964, artistas, intelectuais, estudantes, jornalistas ou qualquer cidadão civil que demonstrasse publicamente o seu descontentamento com a ditadura corria o risco de ser preso, interrogado, torturado e morto. Não necessariamente nessa ordem.  E para sacramentar o silêncio dos opositores, ainda em 1964, o então presidente, general Castelo Branco criou  o Serviço Nacional de Inteligência (SNI), órgão que ficou encarregado de monitorar todo o conteúdo de toda e qualquer mídia e  enviar agentes às redações de jornais, rádios e TV para fazer a censura prévia caso encontrassem algo que considerassem ameaçador ao regime.

No entanto, mesmo com todo o clima de terror que pairava nos anos de chumbo, muitos artistas, intelectuais e estudantes ousavam desafiar o regime realizando protestos públicos. Mas para evitar que tais manifestações continuassem a ocorrer, em janeiro de 1967, o governo de Castelo Branco anunciou que criaria medidas para exercer maior controle sobre a imprensa. Em resposta a tal arbitrariedade, no dia 8 de janeiro de 1967, um grupo de jornalistas (Luís Nassif, Ivan de Barros Bella, David de Moraes, Narcisio Kalili e outros) organizaram o Encontro com a Liberdade, no Teatro Paramount, em São Paulo, contra o projeto de lei de censura do primeiro ditador, o general Castelo Branco. O protesto contou com a participação de muitas lideranças nacionais de resistência à ditadura. O teatro estava abarrotado. Ali também estavam naturalmente, os investigadores do DOPS, prestando uma informação detalhada sobre os participantes, que inevitavelmente foram perseguidos.

Um mês após o anúncio do projeto de lei, em 8 de fevereiro de 1967, Castelo Branco sancionou a Lei de Imprensa, que restringia a liberdade de expressão no Brasil. Com a entrada em vigor desta lei, pelas novas regras, todos os programas exibidos na televisão deveriam apresentar na tela, antes do início, uma autorização rubricada pelos censores. O documento passou a considerar criminosa qualquer publicação que “faça propaganda de processos de subversão da ordem política e social”. Proibiu ainda circulação de livros, jornais e outras publicações que atentem contra a moral e os bons costumes”.

A Lei da Imprensa oficializou a censura no Brasil. Nenhum veículo de comunicação passava desapercebido aos olhos atentos e cheios de ódio dos agentes censores. A evolução do processo da imposição ao silêncio começou em 1964 e passou por várias etapas e graduações. Em 1968, com a publicação do AI-5, por Costa e Silva houve a institucionalização definitiva do caráter ditatorial do regime tornando a censura implacável até o início do governo Geisel, em 1975.  Por fim, durante os governos Geisel, de 1975 a 1979, e Figueiredo, de 1979 a 1985, a censura tornou-se gradativamente mais leve, até o restabelecimento do necessário regime democrático.








DIA 7 DE JANEIRO DE 1835, A REVOLTA DOS CABANOS TOMA BELÉM, CAPITAL DO GRÃO-PARÁ

Revolta dos Cabanos ou Cabanagem “é um dos mais, se não o mais notável movimento popular do Brasil. É o único em que as camadas inferiores da população conseguem ocupar o poder de toda uma província com certa estabilidade. Apesar de sua desorientação, da falta de continuidade que o caracteriza, fica-lhe contudo, a glória de ter sido a primeira insurreição popular que passou da simples agitação para uma tomada efetiva do poder”. (Caio Prado Júnior, Evolução Política do Brasil e Outros Estudos).

A região do Grão-Pará compreendia à época da revolta, no período Regencial (1831/1840), o atual estado do Pará e a comarca do Rio Negro, atual estado do Amazonas. A sobrevivência da província baseava-se no extrativismo dos produtos amazônicos e pequena produção de tabaco, cacau, algodão e arroz.  O comércio era monopolizado pelos portugueses, cujo mandonismo permanecia inalterado desde a “independência” do país em 1822. A exploração econômica, baseada no trabalho de escravos negros, mestiços, índios destribalizados, submetidos à semi- escravidão, criaram ao longo dos anos as razões dessa revolta marcada pela extrema violência, que deixou o incrível  saldo de 30 mil mortos do total de 100 mil habitantes do Grão-Pará.

 O Período Regencial  marcado por intensas rebeliões nas províncias, representou um momento raro em nossa história, onde a brecha política da classe dominante, abriu espaço para participação da massa popular pobre e oprimida, revoltar-se contra as elites agrárias privilegiadas, apesar de terem deixado  intactas as bases da sociedade brasileira assentadas no latifúndio e escravidão.

Por volta de 1833 começaram as manifestações contra a interferência do governo central, sediado no Rio de Janeiro, que nomeava os governadores provinciais. O novo governador nomeado para o Grão-Pará, Bernardo Lobo e Souza, perseguiu e deportou revoltosos, aumentando o clima de tensão.  Os Cabanos, assim chamados por morarem em cabanas nas margens dos rios, violentamente explorados, viviam em quase miséria absoluta, aliaram-se aos irmãos Vinagre, ao seringueiro Eduardo Angelim e outros, e radicalizaram o movimento. Tomaram a capital Belém no dia 7 de janeiro de 1835, executaram o governador, proclamaram a República que separava essa província do Império brasileiro. O governo de Angelim assumiu um caráter nitidamente popular e revolucionário aumentando as esperanças das camadas mais pobres. Diante destes fatos, a elite abandonou o movimento pois temia o prejuízo de seus interesses econômicos.

No fragmento do Manifesto dos Cabanos pode-se perceber o tom da revolta: “Saibam pois, o governo geral e o Brasil inteiro que os paraenses não são rebeldes, os paraenses querem ser súditos mas não querem ser escravos, principalmente dos portugueses… os paraenses querem ser governados com a lei e não com a arbitrariedade”. (agosto de 1835). Os combates violentos prosseguiram por dias inteiros, provocaram incidente diplomático com a Inglaterra ao atacarem um navio ancorado no porto de Belém e levarem as armas. A marinha inglesa mandou três navios exigindo o pagamento da carga, o hasteamento da bandeira inglesa no lugar da brasileira e chegou até propor ajuda aos rebeldes contra o governo central, tornando a província um vice-reinado britânico, o que não foi aceito pelos líderes revolucionários.

Os combatentes subiram o rio Amazonas, tomaram outras cidades da província. O governo central dirigido pelo Regente Feijó mandou tropas da Guarda Nacional para esmagar a população sem piedade. Com a ajuda de tropas estrangeiras mercenárias, como o almirante inglês Taylor, bombardearam Belém, incendiaram os assentamentos cabanos. Em 1839 a guerra dos cabanos chegou ao fim, deixando um rastro de destruição e mortes. Muitos revolucionários conseguiram fugir e levaram para a floresta os ideais da Cabanagem mesmo após sua derrota.

A história dessa insurreição deixou um vazio de explicações por muitos anos. Posteriormente, o movimento passou a ser estudado de forma sistemática. Surgiram então um leque de diversas interpretações históricas que consideram uma “guerra de independência tardia”, ou “luta legítima contra a hegemonia imperialista”, em visão marxista.









DIA 6 DE JANEIRO DE 1747, CHICO REI É COROADO REI EM MINAS GERAIS

No calendário cristão católico, comemora-se o Dia dos Reis no dia seis de janeiro. Na colônia portuguesa da América,  justamente nodia 6 de janeiro de 1747, Galanga, rei no Congo (África), batizado Francisco pelos portugueses, escravizado junto com seu filho nas minas de ouro de Vila Rica (Ouro Preto), foi aclamado rei de sua nação, e coroado pelo bispo de Mariana, rei da Irmandade do Rosário dos Pretos Alforriados, com a anuência do governador-geral das Minas Gerais,  Gomes Freire de Andrada, o conde Bobadela.  Com trabalho, habilidade, persistência e liderança, e a “cumplicidade” de alguns clérigos da Igreja Católica, soube aproveitar uma brecha no sistema colonial brasileiro, para “reconstruir” sua nação e seu reinado.

Alguns historiadores afirmam ser ficção a história de Chico rei, por não ter comprovação documental e registros históricos fidedignos, embora esteja  presente na tradição oral mineira desde o século XVIII. Outros estudiosos, defendem sua existência e apontam como legado deseu reinado uma das expressões culturais de Minas Gerais, que sobrevive ainda hoje, o Congado ou Congada, (originário do Congo).  A grande festa  mobilizava a cidade do ouro, há mais de 300 anos, ocorria no dia dedicado à Nª Sª do Rosário.

Chico Rei transferiu as tradições praticadas no Congo, como rei e sacerdote,  para as liturgias católicas nos dias dedicados à Santa Ifigênia, santa negra, e à Nª Sª do Rosário, padroeira dos escravos e negros forros. Chico rei coroado, desfilava em cortejo com a rainha e a corte, em ricas indumentárias, acompanhado por músicos, e dançarinos ao som de caxambus, pandeiros, marimbas e ganzás. Era na festa de Nª Sª do Rosário, era a festa de Chico Rei, que venceu a morte, sobreviveu à travessia do Atlântico.

 Galanga, conhecido como Chico rei, nasceu no Congo.  Era rei de uma das mais numerosas tribos da região e sacerdote do deus Zambi-Apungo. Ele, sua mulher, filha e filho e toda sua corte foram capturados na África, por comerciantes portugueses. Na travessia do “mar tenebroso”, para o Brasil, sua mulher, a rainha Djalô e a filha, a princesa Itulo, foram jogadas ao mar, “para aplacar a ira dos deuses “, que ameaçavam de naufrágio o tumbeiro de nome Madalena. Chegaram ao Brasil em 1740, no porto do Valongo, no Rio de Janeiro, onde foram comprados pelo major Augusto, de Andrade Góis, proprietário da mina Encardideira para trabalharem na exploração do ouro, em  Vila Rica, hoje Ouro Preto. Em pouco tempo Galanga conquistou a confiança do proprietário, e passou a conduzir a exploração dos veios auríferos.

Consta na tradição oral que, Chico e outros, ao saírem das minas, levavam ouro escondido nos cabelos, depois jogavam na pia batismal da igreja com o apoio dos padres.  Assim juntou uma quantidade para alforriar seu filho, Muzinga.  Da mesma forma, foram alforriando outros escravos até conseguirem libertar toda a tribo. Como a mina começou a apresentar sinais de exaustão, seu proprietário vendeu-a ao negro alforriado Francisco, que já havia descoberto um filão de ouro sem comunica-lo ao antigo dono. Consta que Chico conseguiu libertar aproximadamente 400 escravos com o volume de ouro extraído da mina. Os escravos libertos que eram seus súditos no Congo, consideravam-no “rei”, aqui nessas terras.

Segundo a tradição, Chico rei teria morrido aos 72 anos, vítima de uma hepatite. Seu filho deu sequência à tradição do Congado, como sucessor do rei.  Ainda hoje são encontrados descendentes do lendário Chico rei em um quilombo, situado na localidade de Pontinha, Município de Paraopeba a 97 km da capital mineira, onde preservam algumas tradições africanas. Alguns moradores relatam que o filho de Chico rei teria criado a comunidade com negros vindos de Vila Rica.  Na região vivem aproximadamente 600 pessoas.

A história de Chico rei é citada em uma nota de rodapé no livro “História Antiga de Minas” (1904), de Diogo de Vasconcelos. Mais tarde, o romancista Agripa de Vasconcelos, escreveu um livro Chico rei (1966), com base nas informações do livro de Diogo de Vasconcelos.








DIA 5 DE JANEIRO DE 1932, NASCE UMBERTO ECO

Autor de títulos imortais da literatura, como O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault, e de ensaios filosóficos como Obra Aberta, Apocalípticos e Integrados e História da Beleza, Umberto Eco foi um exímio escritor, ensaísta, linguista e filósofo. Pilar internacional de toda uma disciplina, a Semiologia, ciência que estuda todos os sistemas de signos na vida social e trata de todos os estudos relacionados com a análise dos signos, quer linguísticos (vinculados à semântica e à escrita) quer semióticos (signos humanos e da natureza), Umberto Eco marcou os estudos de Comunicação no mundo.  Eco também é responsável   por um imenso e singular legado sobre estudos de estética, ou seja, a   filosofia da arte, ou estudo do que é belo nas manifestações artísticas e naturais.

Umberto Eco nasceu em 5 de janeiro de 1932 em Alexandria, nas imediações de Turim na Itália. Diplomou-se em Filosofia na Universidade de Turim. Discípulo do grande filósofo antifascista Luigi Pareyson, defendeu uma tese de fim de estudos sobre Thomas de Aquino, que seria publicado dois anos mais tarde com o nome O Problema Estético em Tomas de Aquino. Trabalhou como editor de cultura na televisão, lecionou na Universidade de Turim entre 1956 e 1964 e posteriormente em Florença e Milão para se tornar em 1971, professor da Universidade de Bolonha.

Desenvolveu seus primeiros trabalhos na área da Estética, mas logo ampliou seu campo de conhecimento à teoria da literatura, aos estudos de comunicação, à sociologia da cultura e principalmente à semiótica, ou semiologia. O reconhecimento internacional foi conquistado com a publicação de “O Nome da Rosa”, uma apaixonante história de detetives passada em um mosteiro italiano do século XIV, repleto de referencias históricas, filosóficas e literárias. Uma das justificativas para seu sucesso está no fato de ser uma narrativa dirigida a todos os públicos, visando desde os leitores interessados apenas na história policial quanto os que desfrutam das diversas relações intertextuais.

“O Pendulo de Foucault” é igualmente interessante, por mesclar elementos da Kabbalah, uma escola de pensamento ligada ao judaísmo, originada na Idade Média, alquimia e teorias da conspiração. Nesse livro lançado em 1988, sociedades secretas querem fazer um plano para governar a humanidade. O título faz referência a um pêndulo projetado pelo físico Léon Foucault, que demonstra a rotação da Terra.

Além desses (e outros) romances, Umberto Eco é responsável por dois livros lançados recentemente que são fundamentais para quem se interessa por ciências humanas: “História da Beleza” e “História da Feiura”. Eles nos propõem a refletir sobre como os conceitos de feio e belo estão inseridos nos padrões culturais da sociedade na qual vivemos.

Crítico ferrenho das novas formas de linguagem e comunicação, sobretudo da internet, Eco jamais abandonou sua paixão pela informação, pelo jornalismo e pela comunicação. Ao longo de sua vida, foi articulista assíduo e leitor inveterado da imprensa italiana e internacional. Eco se dizia fiel à ideia de Hegel de que jornais são “a reza cotidiana do homem moderno”. Até por admirá-la, o autor lamentava a recente pulverização da informação nas novas tecnologias e, sobretudo, a superficialidade de alguns veículos de mídia. Umberto Eco faleceu em 19 de fevereiro de 2016 aos 84 anos de idade devido a um câncer e deixa órfã toda uma civilização que agora carece mais do que nunca de produção de sentido em um mundo invadido pelo excesso de informação. 









DIA 04 DE JANEIRO DE 1988, MORRE HENFIL

Seu nome e legado estão registrados na nossa história e em uma das canções mais célebres de nossa música, “o bêbado e o equilibrista”, na inigualável voz de Elis Regina, composta por Aldir Blanc e João Bosco.  Henrique de Souza Filho, o Henfil, dispôs de toda sua inteligência e habilidade humorística e conseguiu através deu seus personagens, denunciar ainda que de maneira subliminar , todo o horror violência e opressão estatal que o país viveu a partir de 1964. Cartunista   humorista e escritor, Henfil não silenciou diante da falta de liberdade e participou da vida política do país de maneira criativa e inteligente e nem por isso menos combativa. Teve uma atuação marcante nos movimentos políticos e sociais lutando contra a ditadura, pela democratização do país, pela anistia aos presos políticos e na campanha pelas Diretas Já! em 1984.

Henfil foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores em 1980 e  atuou em jornais de grande circulação e também na televisão, mas se notabilizou principalmente por seus trabalhos na imprensa alternativa, como o semanário O Pasquim, além de publicar histórias em revistas próprias, como o Fradim. Ficou conhecido na década de 70 como o “Guerrilheiro dos cartoons”,  “ O rebelde do traço.” Entre os seus, para além do talento, “Henriquinho” era o amigo e irmão camarada. Seu maior desejo era ser a mão do povo através de seus desenhos. Não sem mais nobres motivações, O Brasil já temeu por esse irmão , que podia assim como muitos outros , ter partido no rabo do foguete, mas graças à sua linguagem espirituosa, conseguiu driblar a censura pois seu humor era inteligente demais para ser compreendido como ameaçador pelos agentes censores do Estado.

    Além do trabalho como cartunista Henfil também publicou livros de crônicas, entre eles Diário de um Cucaracha (1976), Henfil na China (1980) e Diretas Já! (1984). Também se envolveu com cinema, escrevendo o roteiro e dirigindo a comédia Tanga que chegou a ser notícia no jornal  norte – americano The  New York Times em 1987.   Apesar de toda a censura Henfil fazia comentários corajosos sobre política e comportamento na  televisão, com o quadro “TV Homem”, veiculado no programa matinal TV Mulher mesmo correndo o risco de ser preso ou mesmo torturado.  Além disso, Henfil também utilizava seu trabalho como escritor e cartunista para abordar os temas da moral religiosa expandindo essas ideias para uma crítica à moral político-burguesa brasileira.

    Henfil assim como seus irmãos Betinho e Francisco Mário,  era hemofílico de nascimento, e contraiu o vírus da AIDS durante uma transfusão o que não o impediu de continuar seu trabalho.  Junto com seu irmão Betinho, escreveu o texto “A Cura da AIDS”, no qual afirmava que a cura da doença era questão de tempo. Henfil faleceu dia 04 de janeiro de 1988, quando ainda estava em plena atividade e muitas de seus trabalhos continuaram sendo publicados depois de sua morte. Henfil conseguiu driblar a censura dos tempos de chumbo com seu humor e originalidade mas infelizmente não foi possível fazer o mesmo com relação a esse vírus letal que nos deixou órfãos  de seu humor inteligente.

Após sua morte,  o controle das doações de sangue passou a ter um foco mais rigoroso quando  a Constituição de 1988 incluiu o artigo 199, que proíbe a comercialização de sangue e de seus derivados. Essa decisão se concretizou através da  Lei Federal n.° 10.205, promulgada em março de 2001. “Meu pai foi a primeira pessoa pública a admitir que estava com Aids, e a denunciar o sistema de coleta de sangue vigente no Brasil”, relatou seu Filho Ivan, que em  2009,fundou o Instituto Henfil, com o objetivo de preservar a produção artística do pai. O acervo conta atualmente com 15 mil originais, número que tende a aumentar, já que ainda hoje amigos antigos devolvem originais resgatados dos diversos jornais que  Henfil realizou muitas de suas publicações. Graças ao Instituto e a colaboração dos amigos sua memória continua viva e sua luta atual.

Em 2017, foi lançado o documentário “    Henfil”, dirigido pela cineasta Ângela Zoé, onde  a vida de Henfil é retratada através de narrativas paralelas e  explorando um movimento de descoberta do artista junto aos jovens a partir de uma turma de animadores que tenta trazer seu trabalho para os dias atuais. Ainda traz revelações sobre a maneira como o artista usou seus desenhos como um aparato para driblar a censura política, e também como um recurso para lidar com sua saúde frágil, causada pela hemofilia, e para expor sua inquietação criativa.​








DIA 3 DE JANEIRO DE 1898, NASCE LUÍS CARLOS PRESTES

            “Sou um comunista revolucionário, por favor”. (Luís Carlos Prestes).   

Um dos maiores líderes revolucionários da América Latina no século XX, cuja trajetória de vida se confunde com a História das lutas populares pela democracia, justiça social e igualdade, enfim com a história do comunismo no Brasil. Foi fiel aos seus  ideais  até a morte. Figura icônica da nossa História que jamais desistiu da luta. Foi sem dúvida o Cavaleiro da Esperança!

 Formado em engenharia pela Escola Militar de Realengo no Rio de Janeiro em 1919, considerado aluno brilhante, ascendeu ao cargo de capitão do exército. Carreira que abandonou para ser político revolucionário. Foi o maior líder do movimento Tenentista brasileiro, comandante da histórica Coluna Prestes (1924/25), e do Levante Comunista de 1935. Presidente de honra da ANL (Aliança Nacional Libertadora), e do Partido Comunista Brasileiro por 50 anos. Foi perseguido, preso e obrigado por diversas vezes, a viver na clandestinidade e exílio por longos anos de sua vida.

Nasceu em Porto Alegre no dia 03 de janeiro de 1898, filho de oficial do exército e Leocádia Pereira Prestes. Após o término dos estudos no Rio de Janeiro, foi transferido para o Rio Grande do Sul, de onde liderou a Revolta Tenentista contra o governo oligárquico da República Velha presidido à época por Artur Bernardes.  O Tenentismo  expressava o descontentamento das classes médias urbanas com a República Oligárquica, exigindo reformas como voto secreto, convocação de Constituinte, repúdio ao imperialismo, entre outras. A Coluna dos tenentes liderada por Luís Carlos Prestes no Sul, se juntou à Coluna de Miguel Costa após a revolta na capital paulista e desta junção nasceu o movimento revolucionário que ficou conhecido como Coluna Prestes.

O líder revolucionário comandou 1500 homens que percorreram 25 mil quilômetros pelos mais inóspitos rincões do país, conhecendo a miséria e o abandono do povo brasileiro por parte da República do “Café com Leite”. Embora não tenham conseguido os objetivos revolucionários de conscientização da população sertaneja contra o governo central, Prestes alcançou grande prestígio militar e político, o que lhe valeu o título de “Cavaleiro da Esperança”. Ao final de 2 anos, Prestes refugiou-se na Bolívia (1927), período em que se converteu ao comunismo, e dedicou-se ao  estudo as obras de Marx e Engels. O conhecimento da miséria do interior do país levou-o à  luta pela Revolução Socialista.

Viveu na URSS, onde trabalhou como engenheiro e estudou marxismo. Por decisão da Internacional Comunista foi aceito em 1934 no PCB, pois este, até então, o considerava um pequeno burguês.  Ao final do mesmo ano, retorna ao Brasil clandestinamente acompanhado por Olga Benário, agente da IC (Internacional Comunista), que se tornaria sua esposa. Trouxeram as orientações estratégicas para a derrubada do governo Vargas através do Levante Comunista (1935), que ficou conhecido como Intentona. À insurreição fracassada  dos quartéis de Natal, Recife e Rio de Janeiro, seguiu-se uma tenebrosa repressão aos comunistas. Prestes e Olga foram presos. Meses depois Olga, que era judia estava grávida de sete meses, mas mesmo assim foi entregue pela polícia de Vargas ao regime nazista alemão sendo executada no campo de concentração Bernburg, em 1942.  A filha do casal nascida no campo de concentração, Anita Leocádia foi entregue à avó paterna D. Leocádia Prestes, depois de uma campanha internacional liderada por ela.

Prestes permaneceu preso pela repressão varguista até o fim do Estado Novo (1945). Quando foi posto em liberdade e ocupou o cargo de senador de 1946 a 1948. Em 1952 casou-se com Maria Prestes e teve  sete filhos.

Após o golpe militar de 1964, teve seus direitos políticos cassados, foi perseguido pela ditadura,  mas conseguiu fugir, exilando-se na URSS até a anistia de 1979, quando retorna ao Brasil. Nos anos 80 apoiou a candidatura de Leonel Brizola ao governo do Estado do Rio de Janeiro e em 1989 à   presidência do Brasil. Recebeu o título de presidente de Honra do PDT.

Em 7 de março de 1990 morreu na cidade do Rio de Janeiro. Recebeu incontáveis homenagens do povo e de figuras históricas da militância de esquerda.   Sua trajetória política foi tema de alguns filmes e documentários no cinema e TV, além de livros e biografias escritas. 

                             





DIA 2 DE JANEIRO DE 1950, MORRE MILITÃO RIBEIRO

O nome de Militão Ribeiro juntou-se à longa lista de comunistas e antifascistas assassinados pelo regime fascista de Salazar que vigorou em Portugal durante 41 anos sem interrupção, desde a aprovação da Constituição de 1933 até sua queda pela Revolução de 25 de Abril de 1974, a Revolução dos Cravos. Com a morte de Militão Ribeiro, em 2 de janeiro de 1950  na penitenciária de Lisboa, o PCP perdeu um dirigente firme, dedicado, corajoso, devotado inteiramente à luta contra o fascismo, à luta pela liberdade, ao socialismo.  A classe operária portuguesa, os trabalhadores, perderam um militante que dedicou o melhor da sua vida à luta em defesa dos seus interesses, pela libertação dos trabalhadores de todas as formas de opressão e exploração. Um militante cuja vida se confundia com a do Partido que ajudou a construir, com a a luta dos trabalhadores e do povo português.

Militão Ribeiro ao final da década de 40, já somava anos de prisão, vários dos quais, no Campo de Concentração do Tarrafal e sua saúde encontrava-se extremamente debilitada. O rigoroso regime prisional, a alimentação imprópria e a falta de tratamento, agravaram-lhe os padecimentos. Adoeceu gravemente e resolveu fazer a greve de fome como protesto contra a falta de assistência médica e de uma dieta adequada. Ao mesmo tempo, eram-lhe negadas quaisquer visitas ou correspondência. Militão morreu de fome.

 As perseguições realizadas ao PCP entre  março e abril  de 1949, atingiu nomes como   Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro, ambos membros do Secretariado do Partido, militantes como Sofia Ferreira, António Lopes, Mercedes Oliveira, José Martins e Casimira Silva, todos funcionários clandestinos do Partido.  Fundado em 1921, o PCP se tornou um grande partido nacional, profundamente ligado aos trabalhadores, gozando de autoridade política junto da classe operária e de largos setores antifascistas.

Nascido em Murça em 1896, Militão Bessa Ribeiro emigrou para o Brasil em busca de trabalho, com apenas 13 anos. Aqui trabalhou como operário têxtil e, aos 15 anos começou a participar das lutas da classe operária brasileira. Tornou-se dirigente sindical e membro do Partido Comunista Brasileiro. Expulso do Brasil na década de 30 em função de seu  envolvimento nas lutas operárias, consegue evitar a prisão e regressar à sua terra natal, onde toma contato com o PCP e com o Socorro Vermelho Internacional. É preso pela primeira vez em 1934 e enviado, dois anos depois, para o Tarrafal, prisão equivalente a um campo de concentração em Portugal para onde eram enviados os presos políticos para serem abandonados até morrerem por falta de assistência médica.

Libertado em 1940, retoma a atividade partidária, assumindo um papel destacado na reorganização do PCP de 1940/41 mas por ter se tornado membro do secretariado do Partido, foi novamente preso e enviado para o Tarrafal. Com o fim da Segunda Guerra em 1945,  o fascismo é obrigado a recuar e Salazar decreta uma anistia,  e  Militão é libertado. De volta ao país, integra novamente o Secretariado e participa no IV Congresso do PCP, realizado em 1946.                 Desde esta data e até à sua prisão, no Luso, em 1949, Militão Ribeiro teve um importante papel na aplicação da linha política definida pelo Congresso.

Mas Militão Ribeiro não foi um simples participante na reorganização do Partido, que, posteriormente desenvolvida com Álvaro Cunhal e outros camaradas, transformaria o PCP num grande partido nacional, força fundamental da resistência ao fascismo. Militão Ribeiro, como membro do Secretariado da reorganização dedicou-lhe particular empenho e o melhor que podia e sabia. Em condições extremamente difíceis não se poupou a sacrifícios de toda a ordem para reerguer o Partido. Percorreu o país em busca da retomada do contato com organizações desligadas, com o objetivo de criar outras, e assim fortalecer a capacidade política, o entusiasmo e o  dinamismo do Partido.  

Militão Ribeiro era um militante comunista simples, modesto e convicto na defesa das ideias que considerava justas e do interesse do Partido. Um militante comunista que fez da entrega plena ao Partido e à luta a razão de toda a sua vida. Como qualquer revolucionário, cometeu erros e reavaliou situações. A sua atividade partidária pautou-se por um princípio que salienta na sua carta ao Partido, escrita na penitenciária em 1949 quando já tinha a morte como coisa certa: “Fiz tudo o que pude pelo Partido, bem ou mal, foi sempre julgando que fazia o melhor”. Militão Ribeiro morreu como um revolucionário, convicto da justeza da causa que abraçou, convicto de que o fascismo seria derrubado e de que o povo português conquistaria a liberdade.







DIA 1 º DE JANEIRO DE 2003, LULA TOMA POSSE COMO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

“Nunca antes na História do Brasil houve tão grande festa popular para saudar a posse de um presidente da República. Nunca antes, afinal, o presidente havia sido um trabalhador, um nordestino retirante, um vendedor de amendoim, um sindicalista que liderou greves na ditadura ou o fundador de um partido comprometido com os trabalhadores”.

Nas eleições de outubro de 2002, ao concorrer pela quarta vez, ex-metalúrgico, Luiz Inácio Lula da Silva, candidato pelo Partido dos Trabalhadores, ganhou o pleito, tornando-se o primeiro presidente operário da nossa História. Venceu no segundo turno o opositor José Serra (PSDB), com 61,27%, contra 38,72% dos votos. No dia 1º de janeiro de 2003, em meio a grandes manifestações populares de apoio ao novo presidente, Brasília assistiu emocionada a posse do líder sindical. A multidão ocupava a Esplanada dos Ministérios, de 150 a 200 mil pessoas, vestidas de vermelho e exibindo bandeiras com a estrela petista da esperança. A esperança que venceu o medo. Um operário na cadeira de presidente era como a realização da Utopia, tornando-se realidade no Brasil. Era a ruptura da lógica de quinhentos anos de dominação das elites escravocratas sobre a massa trabalhadora e o povo. “A teoria se torna força material quando se apodera das massas”.(Karl Marx). Como disse em seu discurso o Ministro da Cultura, Gilberto Gil: “o recado enviado pelos brasileiros, através da consagração popular do nome de um trabalhador brasileiro identificado por cada um de nós como um seu igual, como um companheiro”.

Lula tomava posse em meio às consequências de uma devastadora agenda neoliberal que impôs ao povo brasileiro profunda recessão, inflação, entrega de nosso patrimônio ao capital estrangeiro, exclusão social, desemprego, precarização das relações de trabalho, redução do Estado, a Estado Mínimo. Essa foi a herança maldita, dos governos de FHC (PSDB), a que o PT se contrapôs, pregando contra a especulação e a favor da produção. A eleição de Lula simbolizava a vitória de um projeto social alternativo para a consolidação da cidadania plena em nosso país. “A classe trabalhadora tornou-se de fato sujeito político, dispondo de instrumentos de ação de um programa criados a partir de suas lutas”. (Frei Betto, “A biografia política de um operário”, 1989).  

“O que dissemos é que iremos recuperar a dignidade do povo brasileiro, recuperar a auto-estima e gastar cada centavo que tivermos na perspectiva de melhorar as condições de vida de mulheres, homens e crianças”. “Aquelas três promessas do meu discurso de posse – primeiro, eu vou fazer o necessário, depois eu vou fazer o possível e, quando menos imaginar, estarei fazendo o impossível”- deram certo. (Lula em entrevista a Emir Sader, sociólogo, 2013).

Lula deixou o governo com 87% de popularidade, algo raro em qualquer biografia política no planeta. O Brasil dez anos depois, era outro.  O crescimento da economia acelerou, subiu no ranking das maiores economias do mundo, da 16ª posição para a 6ª economia mundial. A inflação foi controlada, o país acumulou volume considerável de reservas internacionais, adotou uma política externa altiva e soberana, elevou o número de empregos (4,5 milhões de empregos formais), com aumento sustentável dos salários reais, 74% foi o aumento real do salário mínimo. A inclusão de 36 milhões de pessoas no mercado formal e na sociedade de consumo, formando o que analistas chamaram de “nova classe média”. Retirou o Brasil do mapa da fome pela ONU.  O programa Bolsa Família foi elogiado pelo Banco Mundial, FMI, ONU.  O Brasil se tornou mais estável e menos desigual. Grandes avanços foram implementados nas políticas para mulheres, nas políticas de igualdade racial, de meio ambiente, incentivo à pesquisa científica e tantos outros. Foram criadas 18 novas universidades e 250 escolas técnicas. LULA reconheceu que “recuperamos o orgulho nacional, a autoestima, passamos a ser mais respeitados no mundo”. (2013).

E hoje, dia 1º de janeiro de 2019, dezesseis anos depois da vitória do projeto político inclusivo, democrático, nacional e soberano, estamos assistindo tristemente a posse de um presidente que representa a “reintegração de posse” da casa-grande, das elites, e do sistema. A eleição de Bolsonaro só foi possível, porque o golpe continuado e o respectivo estado de exceção encarceraram  o possível vencedor das eleições de2018, que hoje estaria recebendo a faixa presidencial, Luiz Inácio da Silva. Estamos perplexos com a chegada ao poder de um personagem, cujas características representam o trágico   somatório do ultraliberalismo na economia, do neofascismo na política, fundamentalismo religioso, uma verdadeira distorção do nosso tecido social, contaminado pelo ódio ao PT, ao LULA, à diversidade, à democracia, à liberdade, à modernidade. É a vitória do amadorismo, da intolerância, do anti-patriotismo, racismo, marcado por posições machistas, misóginas, de um programa de retrocesso civilizatório.





DIA 31 DE DEZEMBRO DE 1972, MORRE CARLOS NICOLAU DANIELLI

“Danielli foi assassinado lentamente; mesmo com o corpo todo esfolado, respondeu sempre de maneira altiva a seus inquisidores: ‘É isso que vocês querem saber? Pois é comigo mesmo, só que eu não vou dizer’. Afirmou diversas vezes: ‘Só faço o meu testemunho político”.

Carlos Nicolau Danielli nasceu em Niterói, no dia 14 de setembro de 1929. Desde muito jovem o sangue revolucionário já corria em suas veias. Nos anos 40 dirigiu a Juventude Comunista. Iniciou sua militância sindical aos 15 anos quando começou a trabalhar nos estaleiros da construção naval em São Gonçalo. Foi membro da alta hierarquia do PCB e em 1962, participou da fundação do PC do B, tornando-se um dos cérebros do partido na luta contra a ditadura.   Era descrito pelos companheiros como solidário, bem-humorado e não se recusava a desempenhar nenhuma tarefa política.   Atuava na área de contatos externos, visitando países vizinhos estreitando laços políticos com os revolucionários do nosso continente.

Foi responsável pela edição do jornal do partido, A Classe Operária, que na clandestinidade chegava a vários estados brasileiros, distribuídos de mão em mão pelos quadros do partido. Chegava a editar 400 exemplares mensais cumprindo sua principal missão, que era a resistência à ditadura. Foi um dos principais organizadores da guerrilha do Araguaia, preparava os militantes, providenciava remédios, armas e equipamentos necessários.  “Apesar de não possuir formação acadêmica debatia com o mesmo nível intelectual dos dirigentes que eram filósofos e sociólogos… estava à altura de Maurício Grabois, e João Amazonas”… (biógrafo de Danielli,  jornalista Oswaldo Bertolino). “Era extremamente determinado pela justiça social. Era o lado político que me fez admirá-lo. Coerência e determinação”. (Amelinha Telles, sobrevivente da ditadura).

Carlos Danielli “foi preso no dia 28 de dezembro de 1972, às 19 h, na Rua Loefgreen, no bairro de Vila Mariana, pelos agentes do DOI-CODI/SP, para cuja sede Danielli foi levado. Durante três dias Carlos Nicolau foi muito torturado sob o comando do então major do Exército, Carlos Alberto Brilhante Ustra, do capitão Dalmo Lúcio Muniz Cirillo e do “capitão Ubirajara”, codinome do Delegado de Polícia Aparecido Laerte Calandra. Apesar das torturas, seus algozes não conseguiram arrancar dele nenhuma informação, conforme os testemunhos dos militantes políticos que estiveram presos junto com ele”. 

Foi submetido a bárbaras torturas por três diferentes equipes que se intitulavam respectivamente equipe A, B, e C, durante três dias consecutivos até ser finalmente  assassinado na madrugada do dia 31 de dezembro de 1972, conforme depoimentos feitos na Justiça Militar nos dias 04/07 e 07/07/1973, pelos militantes políticos Maria Amélia de Almeida Teles  e seu marido César Augusto presos junto com Carlos Danielli. A versão oficial divulgada pelos grandes jornais era a que Danielli, “o subversivo”, o “terrorista” e “aliciador de jovens” foi morto em tiroteio com policiais, o que veio a ser desmentido pelos depoentes no STM (Superior Tribunal Militar). O caso chegou à imprensa sendo veiculado no jornal O Estado de São Paulo (09/05/78). Danielli foi enterrado como indigente pelos agentes do DOI-CODI no cemitério de D Bosco em Perus na cidade de São Paulo. Somente após a promulgação da Lei da Anistia, seus restos mortais foram transladados para sua cidade natal, Niterói em abril de 1980.

“O Superior Tribunal Militar negou a apuração das denúncias sobre a morte do estudante Alexandre Vanucchi Leme e Carlos Nicolau Danielli”… O relatório dos Ministérios da Aeronáutica e Marinha mantém a farsa da morte no tiroteio e que ele teria morrido a caminho do hospital. O Ministério do Exército, sequer menciona o caso Danielli em seus relatórios, embora tenha ocorrido dentro das dependências do DOI- CDI do II Exército.

O delegado Aparecido Laertes Calandra, codinome capitão Ubirajara, um dos responsáveis pelas torturas e morte de Danielli, prestou depoimento à Comissão Nacional da Verdade e negou todas as acusações, afirmando que suas funções no órgão eram puramente administrativas, apesar de reconhecido pelos ex militantes políticos que afirmaram ser uma de suas especialidades, torturar mulheres. Calandra é réu de uma ação civil pública desde 2010. O Ministério Público Federal o reconhece como suspeito de atos de tortura, abuso sexual, desaparecimentos e homicídios e pede sua responsabilização pessoal. 



DIA 30 DE DEZEMBRO DE 1968, DIVULGADA LISTA DOS POLÍTICOS CASSADOS PELO AI-5

Para driblar a censura, o “Jornal do Brasil” tentava dar a dimensão dos acontecimentos na sua seção de meteorologia publicada no dia seguinte à decretação do AI-5 em 14 de dezembro de 1968).

“Previsão do tempo:
Tempo negro.
Temperatura sufocante.
O ar está irrespirável.
O país está sendo varrido por fortes ventos.
Máx.: 38º, em Brasília. Mín.:5º, nas Laranjeiras.

O Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, marcou o início do período mais duro da ditadura militar (1964-1985). Editado pelo general então presidente Arthur da Costa e Silva, ele deu ao regime uma série de poderes para reprimir seus opositores: fechar o Congresso Nacional e outros legislativos (medida regulamentada pelo Ato Complementar nº 38), cassar mandatos eletivos, suspender por dez anos os direitos políticos de qualquer cidadão, intervir em Estados e municípios, decretar confisco de bens por enriquecimento ilícito e suspender o direito de habeas corpus para crimes políticos. Nenhuma dessas medidas estava sujeita à apreciação da Justiça. O AI-5 representou uma vitória da linha dura militar, cujas medidas afetaram profundamente direitos civis e políticos considerados básicos numa democracia.

Em 30 de dezembro de 1968, saiu a primeira lista de cassações, com 11 deputados federais entre eles Márcio Moreira Alves (MDB-RJ), que encabeçada a lista. Hermano Alves (MDB-RJ) e Renato Archer (MDB-MA), Maurílio Ferreira Lima (MDB-PE), Emereciano Prestes de Barros (MDB-SP), Mateus Schmidt, e outros.  A segunda lista, de 19 de janeiro de 1969, incluiu dois senadores, Aarão Steinbruck e João Abraão, 35 deputados federais, três ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), Hermes Lima, Vítor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva,  e um ministro do STM (Superior Tribunal Militar), Peri Constant Bevilacqua, que, segundo escreveu o porta-voz de Costa e Silva, Carlos Chagas, era acusado de “dar habeas corpus demais”.

Três meses desde a edição do AI-5, encarregados dos inquéritos políticos passaram a poder prender quaisquer cidadãos por 60 dias, dez dos quais deveriam permanecer incomunicáveis. Sessenta e seis professores foram expulsos das universidades, dentre eles Fernando Henrique Cardoso, Florestan Fernandes e Caio Prado Júnior. Emissoras de televisão e de rádio e redações de jornais foram ocupadas por censores. Artistas como Marília Pêra, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram apenas os primeiros a conhecer as carceragens da polícia política.

O jornal Folha de São Paulo realizou uma matéria em memória aos 50 anos do AI-5,  revelando que documentos produzidos pelos militares e relatórios da Comissão Nacional da Verdade (CNV), mostraram que o endurecimento promovido pelo AI-5 atingiu pelo menos 1.390 brasileiros até 31 de dezembro de 1970 em diversos setores e diferentes escalões da vida pública no país.

Desde a ruptura da ordem democrática com a deposição ilegal da ex-presidenta Dilma em 2016, a celebração da ditadura militar parece ter voltado à tona, tantas décadas depois. Não por acaso o inominável futuro presidente de nossa “ex- Nova República”, exalta o coronel Brilhante Ustra, primeiro militar condenado pela justiça por tortura, como herói. Não por acaso um general manda um recado ameaçando o Supremo Tribunal Federal às vésperas do julgamento do Habeas Corpus do maior líder político que o Brasil já teve, e que se livre, poderia mudar a correlação das forças políticas no país.  Não por acaso nossa suprema corte tem um assessor militar ditando as decisões que o ministro Dias Tóffoli deve tomar para garantir que o processo iniciado em 2016 não seja maculado.

                O cenário político nacional encontra-se novamente tutelado pelos militares. Esse é um fantasma que deixou de ser apenas um prognóstico fantasmagórico e se revela real. Por enquanto a ameaça é “apenas” de um governo autoritário e conservador. O projeto de “recolonização” do Brasil está caminhando a passos largos e com a participação das mesmas forças políticas e econômicas do passado. Somente uma massiva mobilização social contra a desconstrução de nossa soberania e pela liberdade de Lula, poderá resgatar o país e reconduzi-lo na direção do desenvolvimento e da democracia.








DIA 29 DE DEZEMBRO DE 1917, LEIS TRABALHISTAS SÃO APROVADAS EM SÃO PAULO

Na virada do século XX, o Brasil recebia mais de um milhão de imigrantes italianos, muitos desses trazendo nas bagagens, as ideias anarquistas, que influenciaria decisivamente aos movimentos operários brasileiros desse início de século.  O anarquismo se espalhou através de panfletos, jornais e até nas salas de aula, resultando em ações concretas, como, a criação em 1905 da Federação Operária em São Paulo, realização do 1º Congresso Operário Brasileiro, no Rio de Janeiro, considerado a origem do sindicalismo, a greve de 1907,  e os diversos movimento operários.

            As condições de trabalho, no Brasil no início da década de 20, eram brutais.  O quadro se agrava em razão da 1ª Guerra Mundial, pois para atender ao aumento da demanda industrial, o empresariado arrochou ainda mais a exploração da classe operária.  As jornadas chegavam a 16 horas, em contrapartida, os salários eram miseráveis.  As mulheres representavam 67% da força de trabalho, sofriam abusos e maus tratos. Crianças entravam nas fábricas as 7 horas da noite e saíam às 6h da manhã. Praticamente não existiam leis trabalhistas, carteira assinada, férias. Cada fábrica fazia a sua lei. As fábricas funcionavam em fétidos porões, assim como as moradias eram igualmente deploráveis.

Esse quadro aterrador resultou na maior mobilização do operariado brasileiro  em junho de 1917:  a greve geral iniciada em São Paulo e suas  repercussões no restante do país. A cidade de São Paulo parou. Mais de 15 mil trabalhadores, 35 empresas paralisaram suas atividades. A paralisação começou no Cotonifício Crespi e se estendeu para outras empresas, do ramo têxtil, de bebidas e outras. Os grevistas reivindicavam os mais básicos direitos.  Melhores salários, diminuição das jornadas de trabalho, regulamentação do trabalho feminino, assistência ao trabalhador doente ou acidentado e uma das principais reivindicações era o fim do trabalho infantil.

 A repressão policial aos grevistas, foi violenta. Afinal a “questão social era caso de polícia”. Dos choques com os policiais resultou a morte de um sapateiro de 23 anos, Antônio Gimenez Martinez, e seu enterro se transformou em um campo de batalha. O movimento só terminou quando os grevistas conseguiram um aumento de 20% nos salários, não demissão dos grevistas, a promessa por parte dos empresários em respeitar as organizações do operariado. A greve representou uma conquista histórica: foi a primeira vez que o poder público negociou com os trabalhadores.

 Algumas sementes foram plantadas com a greve de 1917. Ela impulsionou o fortalecimento da estrutura sindical e o surgimento de diversas organizações operárias como comitês, associações políticas ou mutualistas dos movimentos operários. Entre outras conquistas do movimento de 17, podemos citar a  reorganização  do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, que no dia 29 de dezembro de 1917, sancionou  a Lei Estadual nº 1.596, que proibia o trabalho de crianças antes dos 12 anos em todo e qualquer estabelecimento industrial e fixaria as condicionalidades quanto a permitir as atividades laborais na faixa etária entre 12 e 15 anos. Proibia trabalho infantil em fábrica de bebidas alcoólicas, lidar com máquinas perigosas, insalubres, que exigissem atenção especial. Mantinha-se proibição do trabalho noturno para menores de 18 anos e às mulheres em qualquer idade.

“Muitos fatores explicam, portanto, a intensidade da agitação dos trabalhadores em várias partes do Brasil e do mundo no ano de 1917 e nos anos que se seguiram: o agravamento das condições de vida e de trabalho em virtude da Primeira Guerra Mundial, que aprofundou ainda mais a imensa desigualdade social; a propaganda desenvolvida pelas várias lideranças anarquistas, socialistas e sindicalistas revolucionárias; as atividades concretas de organização da classe trabalhadora com a criação de sindicatos, uniões, ligas e federações, e também a conjuntura internacional, marcada pela Revolução Russa e por uma onda revolucionária que atingiu a Europa. Esse ciclo de agitação global do período 1917-1920 teve um papel crucial na ampliação e politização do movimento operário em todo o mundo, e esses foram também os anos de maior mobilização dos trabalhadores na Primeira República, fundamentais para a construção dos trabalhadores como sujeitos políticos no Brasil”.

(Artigo de Edilene Toledo. “Um ano extraordinário, greves, revoltas, e circulação de ideias no Brasil em 1917”).




DIA 28 DE DEZEMBRO DE 1925, COLUNA PRESTES CERCA TERESINA, CAPITAL DO PIAUÍ

Movimento Tenentista que deu origem a série de levantes na década de 20, comandado por tenentes e capitães do exército, colocava-se contra a miséria imposta às massas pela República dos Coronéis e reivindicava a consolidação das instituições republicanas.  Entre outras reivindicações, estavam, a redução dos privilégios das oligarquias, o fim da corrupção política, a representação das minorias através do voto secreto. Defendiam ainda, o ensino fundamental gratuito, a proteção das riquezas nacionais contra o capital estrangeiro e o estímulo ao desenvolvimento industrial. Em nome da solução dos problemas sociais, planejavam derrubar o governo da República semi-feudal, exercido à época, por Artur Bernardes.

Das rebeliões tenentistas fracassadas de São Paulo e do Rio Grande do Sul (1924), os revolucionários formaram aColuna Miguel Costa-Prestes ou simplesmente  Coluna Prestes, que atravessou 25 mil km do território brasileiro, durante 29 meses, com cerca de 1200 homens sob a liderança de Juarez Távora, Miguel Costa, e Luís Carlos Prestes, escapando de cerco policiais, tropas estaduais, e unidades do exército. Penetraram no Paraguai rumo ao Mato grosso, entraram nos estados de Minas Gerais, Goiás, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco. Em dezembro chegaram ao Piauí, ao encalço das tropas legalistas que fugiram de São Luís (MA).

A passagem da Coluna pelo Piauí, foi marcante. O governador tentou impedir a entrada da Coluna, na cidade de Teresina, capital do estado, construindo um canal ligando os rios Poti e Parnaíba. Esta foi a única capital brasileira a sofrer ataque dos revolucionários.  Cercaram a capital a partir do dia 28 de dezembro de 1925, travando sérios combates nas cercanias por nove dias. Dentre os fatos ocorridos, vale destacar a prisão de Juarez Távora. A população em pânico, devido à propaganda negativa espalhada pelo governo sobre os revolucionários, e pelas  derrotas das tropas legalistas em cidades vizinhas,  abandonou a cidade, chegando até a saquear os cofres da prefeitura.  Na cidade de Floriano (PI), o movimento passou por duas vezes. Na segunda, foram bem recebidos pelos comerciantes locais, requisitaram mercadorias e distribuíram o restante para os pobres da cidade. Organizaram comícios, e chegaram a publicar um número do “Jornal Libertador”. Um comerciante abastado ofereceu uma festa com música, à qual compareceu toda a oficialidade da Coluna.  Depois passaram por vários outros municípios, e deixaram o Piauí abastecidos, armados e bem equipados, mas lamentavelmente não conseguiram adesão à causa revolucionária que os levou à longa marcha pelos sertões brasileiros.

Ao final de 1926, com mais da metade dos combatentes atacados pela cólera, e sem poder continuar a luta, a Coluna se dividiu. Miguel Costa seguiu para Argentina, enquanto Prestes procurou asilo na Bolívia. A maioria dos tenentes acabou se aliando às oligarquias dissidentes, que iria engrossar o “movimento revolucionário” de 1930, que pôs fim à República Velha.

Apesar de não produzirem a Revolução no Brasil, por outro lado, a  invencibilidade da Coluna, contribuiu para o prestígio político do tenentismo, reforçou as críticas às oligarquias, e afirmou a liderança de Prestes, que passa a ter associado à sua imagem o título de “Cavaleiro da Esperança”. O revolucionário chegou a ser indicado para chefiar oMovimento de 30, mas recusou. Preferiu seguir a outros apelos revolucionários, em nome de um setor social esquecido pelas oligarquias e também pelo tenentismo: a classe operária.





DIA 27 DE DEZEMBRO DE 1965, NASCE O DEPUTADO FEDERAL MARCO MAIA

Deputado federal pelo Rio Grande do Sul por quatro legislaturas consecutivas,  Marco Maia foi reconhecido em 2014, pelo oitavo ano consecutivo, como um dos Cem Cabeças do Congresso Nacional, em pesquisa realizada pelo DIAP, Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar. É filiado ao Partido dos Trabalhadores desde 1985, e assim como Lula, Marco Maia é metalúrgico e torneiro mecânico. A sua vida política teve início na Pastoral da Igreja e durante 15 anos atuou no sindicalismo, dirigindo o Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas, da Confederação Nacional dos Metalúrgicos e da CUT.

Marco Aurélio Spall Maia nasceu no dia 27 de dezembro de 1965 na cidade de Canoas no Rio Grande do Sul.  O deputado federal também foi Secretário de Administração e Recursos Humanos do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, no Governo Olívio Dutra, e Presidente da TRENSURB, empresa de trens urbanos de Porto Alegre,  no Governo Lula. Assumiu seu primeiro mandato como deputado em 2005 e em 2009, foi eleito Vice-Presidente da Câmara, período no qual se destacou como um hábil articulador político com trânsito entre os diversos partidos. No Legislativo Federal, Marco Maia foi titular da Comissão de Trabalho, da Administração Pública, das Relações Exteriores e da Defesa Nacional. Relator da CPI do Tráfego Aéreo e da CPMI da Petrobras, coordenador da Comissão da Estiagem no Rio Grande do Sul, Vice-Presidente da Câmara dos Deputados. Foi o 4º gaúcho na história a ser eleito Presidente da Câmara dos Deputados.

Por ser o Presidente da Câmara, segundo posto na ordem de sucessão, Maia assumiu a Presidência da República, interinamente, por quatro vezes, quando a presidenta eleita Dilma e o então vice-presidente Michel Temer realizaram missões oficiais ao exterior.

Sempre atento aos princípios éticos e aos compromissos ideológicos do Partido dos Trabalhadores para com o povo, Marco Maia apresentou dezenas de projetos de Lei e uma Proposta de Emenda à Constituição. Seu mais recente PL (9.187/2017), propõe  a proibição de reajustes abusivos de preços dos combustíveis automotivos e do gás de cozinha acima da inflação, em todo território nacional. A PEC 41/2015 proposta por Maia prevê a fixação de  parâmetros para a remuneração da Carreira de Auditoria da Receita Federal do Brasil, da Carreira de Auditoria Fiscal do Trabalho, da Carreira de Nível Superior de Fiscal Federal Agropecuário e das carreiras de Auditoria, Fiscalização, Arrecadação e Finanças dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios que sejam Capital de Estado ou que tenham população superior a quinhentos mil habitantes.

Desde o golpe de Estado de 2016, Marco Maia vem demonstrando incansável força ao denunciar o estado de exceção que se instalou no país. Em abril deste ano,  quando Lula foi feito refém na sede da polícia federal,  em Curitiba, Maia esteve presente no acampamento Marisa Letícia para dar apoio aos militantes que fazem vigília em apoio ao presidente Lula, denunciando a ilegalidade de sua prisão. Lutou bravamente pela candidatura de Lula nas eleições de 2018.

Após a visita ao acampamento em maio desse ano, Maia declarou: “Essa resistência democrática que transcende a liberdade de Lula faz parte da nossa estratégia de construção de poder democrático e popular. Queremos reafirmar nosso projeto de país, onde o povo seja centro da construção desse projeto e sejamos capazes de continuar as mudanças que fizemos na vida do povo durante os governos de Lula e Dilma. Que nosso legado, embora neste momento esteja sendo alvo de pesada e cruel artilharia, jamais seja esquecido”.






DIA 26 DE DEZEMBRO DE 1893, NASCE MAO-TSÉ -TUNG

 Líder da Revolução que possibilitou uma nova dimensão ao movimento comunista internacional, particularmente pela sua especificidade em relação ao modelo soviético, abriu uma alternativa à luta para a construção do socialismo. Fundador da República Popular da China e um dos fundadores do Partido Comunista Chinês, o Grande Timoneiro, governou a China desde a vitória da Revolução Chinesa em 1949 até sua morte em 1976. O líder revolucionário vem sendo incensado por alguns pensadores e demonizado por outros.  

Mao Tsé-tung, nasceu no dia 26 de dezembro de 1893, na aldeia de Shaoshan em Hunan, numa família de camponeses pobres, o que o levou a interromper os estudos para trabalhar na lavoura. Posteriormente, estudou para o magistério na escola em que veio a se tornar o diretor. Abraçou o socialismo na juventude e idealizou uma nova China livre e independente em contraposição à China feudal, arcaica, milenarmente dominada pelas dinastias submetidas à exploração capitalista estrangeira.

No momento em que o país vivia uma grave turbulência política e econômica interna, além da pressão internacional contra as lideranças comunistas, foi fundamental a liderança de Mao para a fundação do Partido Comunista Chinês. O PCC criou bases operárias mas sua força principal passou a ser o campesinato, onde Mao exerceu sua práxis revolucionária formando as bases do Exército Vermelho que percorreu quase 12 mil quilômetros pela China na   Longa Marcha (1934), mobilizando a população para a causa revolucionária.

Exército Vermelho conseguiu expulsar os invasores japoneses da Mandchúria durante a 2ª GM, e foi avançando sobre as áreas não conquistadas realizando a Reforma Agrária, distribuindo terras aos camponeses miseráveis, garantindo a adesão camponesa à Revolução. Terminada a Guerra Mundial, reiniciou a guerra civil entre o Exército Nacional e o Exército de Libertação, mas o Exército Vermelho de Mao triunfou no dia 1º de outubro de 1949, proclamando a República Popular da China, com Mao na presidência. E os nacionalistas apoiados pelos EUA, sob comando de Chiang Kai Shek se refugiaram na ilha de Formosa (Taiwan), fundando aChina Nacionalista. “O movimento social camponês provara na prática sua capacidade política e potencial revolucionário agrupando demais classes e setores sociais em torno de suas lutas e se constituindo na força social principal da revolução”. (Daniel Aarão Reis, historiador).

A China Continental foi então reorganizada sob os moldes socialistas com apoio soviético. A Reforma Agrária beneficiou mais de 300 milhões de pessoas; nacionalizou  empresas estrangeiras; e estatizou  empresas particulares. Em 1958 Mao lançou a campanha do Grande Salto para a Frente objetivando transformar a China em um país desenvolvido, industrializado.  Foram definidas gigantescas metas numa China majoritariamente rural. O resultado não foi satisfatório, gerando a grande fome entre 1959/61, devido a baixíssima produção agrícola, a desorganização da economia e a morte de milhões de pessoas.

Mao pretendia eliminar os resquícios do passado imperial e capitalista da memória chinesa. Implementou a Revolução Cultural Proletária (1966), para combater os velhos quadros (velhos costumes, velhas ideias, velha cultura). O movimento impunha também uma obediência cega aos pressupostos teóricos contidos no Livro Vermelho (uma verdadeira bíblia da juventude comunista). Neste período o culto à pessoa de Mao foi reforçado.  Empreendeu uma caça aos intelectuais influenciados pelos valores burgueses, promovendo eliminação indiscriminada dos que considerava inimigos da Revolução.

Aos 83 anos, no dia 9 de setembro de 1976, em Pequim, Mao Tsé Tung morreu vítima de uma doença não revelada. Milhares de pessoas se reuniram nas praças chorando a morte do líder, que deixou um legado controverso. Considerado um estrategista político e militar e “salvador da pátria”, por outro lado, e rejeitado por muitos ao erradicar a cultura tradicional chinesa e carregar a responsabilidade por milhões de mortes.










DIA 25 DE DEZEMBRO DE 1977, MORRE CHARLES CHAPLIN

“Ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode / caminham numa estrada de pó e esperança”. (Carlos Drummond de Andrade).

Esse gênio da sétima-arte, que tinha habilidade única de nos fazer e rir e chorar,   impactou o mundo ocidental com seu talento e versatilidade. Influenciou e continua inspirando artistas no mundo inteiro. Além de ator, diretor, compositor, músico, humorista, roteirista, produtor, foi também escritor, empresário, poeta, coreógrafo, dançarino e regente de orquestra. Elevou a comunicação mímica à expansão global e ao mais alto padrão.  É considerado por alguns, como “pai do cinema” junto aos irmãos Lumière.  Na longa na carreira artística de 75 anos, premiada  algumas vezes com o Oscar,   produziu inúmeros longas-metragens e 34 curtas. Soube maravilhosamente criar um personagem comediante que encantou o mundo por longas décadas.

Seu marcante personagem, O Vagabundo,  foi tipificado em um pobre andarilho, que vestia uma casaca desgastada, sapatos maiores que seus pés, um chapéu coco, uma bengala de bambu e grandes bigodes, mas tinha um ar altivo e gestos polidos como um verdadeiro gentleman. No Brasil o personagem ficou conhecido como Carlitos. Sua mímica e seus trejeitos o popularizam nos EUA e Europa nas décadas de 30 e 40. Ele resistiu a fazer filme falado alegando que “a ação é geralmente mais entendida que as palavras. Embora tenha resistido a dar fala aos personagens, conseguiu dar voz ao clamor por justiça e paz.

Sir Charles Spencer Chaplin nasceu em Londres em abril de 1889, em uma família de artistas do teatro musical. Sua infância e adolescência foram marcadas pelas dificuldades financeiras, traumas e conturbações familiares. A mãe que perdera o emprego de cantora após a separação, foi internada em um sanatório.  A convivência com pai foi curta, pois a madrasta o internou junto ao irmão em abrigo de órfãos e eles jamais viram o pai que morreu como alcóolatra. Absolutamente sem dinheiro, ele e o irmão começaram a trabalhar na Cia Eight Lancashire Lads Clog Dancing Troupe e logo alcançaram sucesso e passando  a excursionar pelo Reino Unido. Devido ao grande sucesso foram se apresentar nos EUA. Seis meses depois, ele foi convidado a trabalhar no cinema pela produtora Keystone.

Em 1919 lançou sua própria produtora iniciando sua melhor fase cinematográfica. Nos anos 20,  lançou “O Imigrante”, “O Garoto”, “Em Busca do Ouro”, “O Circo”, “Luzes da Cidade” e “Tempos Modernos”. Nesse último, Chaplin levou pela última vez seu personagem o “Vagabundo”. Embora já estivesse inaugurado o cinema falado, Chaplin só colocou voz no personagem dono da fábrica que vigiava os operários e ditava as ordens do patrão. Sem dúvida o filme apresentava uma irônica crítica ao capitalismo e à exploração da classe trabalhadora. 

 Corajosamente, lançou o filme  “O Grande Ditador”,  durante a 2ªGuerra,  uma das mais ousadas declarações políticas. Satirizava Hitler e sua política anti-semita, denunciava o poder alienante do fascismo e a perseguição às minorias.   O posicionamento político de Chaplin à esquerda incomodou ao governo norte-americano. Pelos mesmos motivos, seus filmes foram proibidos na Itália e Alemanha fascista.  Surgiram vários atritos com o governo americano que o acusava de comunista em pleno período de caça às bruxas do Macarthismo. Passou a ser perseguido pelo FBI, até ser incluído na Lista Negra de Hollywood e seus filmes boicotados em várias cidades americanas, apesar de grande sucesso na França e outros países europeus.

Em 1952 quando Chaplin viajou para Londres, o FBI negociou com o Serviço de Imigração a revogação de seu visto, exilando-o do país. Em relação a este fato Chaplin se manifestou: “Tenho sido alvo de mentiras e propagandas por poderosos grupos reacionários que, por sua influência e com a ajuda da imprensa marrom, criaram um ambiente doentio no qual os indivíduos de mente liberal são perseguidos”… Nestas condições, é praticamente impossível continuar meu trabalho nos EUA”…

Escolheu então viver na Suíça, país onde produziu alguns filmes como “Luzes da Ribalta”, “Um Rei em Nova Iorque”, “A Condessa de Hong Kong”. A Suíça o acolheu até sua morte aos 88 anos na cidade de Corsier-sur-Vevey , Vaud, onde morreu  dormindo no dia 25 de dezembro de 1977.

O amigo que desejaríamos reter / na chuva, no espelho, na memória / e todavia perdemos”. (Carlos Drummond de Andrade).








DIA 24 DE DEZEMBRO, NASCEM OS DEPUTADOS FEDERAIS ARLINDO CHINAGLIA E ANDRÉS SANCHEZ

Dois deputados petistas que nasceram no mesmo dia, na noite da maior festa cristã do mundo e presentearam ao Partido dos Trabalhadores com suas militâncias  e contribuições para o bem do interesse público. Arlindo Chinaglia em 2007 e 2008, foi eleito, entre os 513 deputados e 81 senadores, o parlamentar mais influente do Congresso Nacional. Em 2013, o terceiro mais influente. O presidente Lula escolheu Arlindo Chinaglia para ser seu Líder de Governo na Câmara dos Deputados e exercer um papel decisivo na aprovação das principais conquistas de seu mandato tais como: o Bolsa Família, o PROUNI e a Política de Valorização do Salário Mínimo. Por seu trabalho, Arlindo Chinaglia foi eleito presidente da Câmara dos Deputados em 2007/2008 e colocou na pauta de votação importantes projetos de interesse da sociedade, como a aprovação de emendas do PAC (Programa de Aceleração de Crescimento) e a licença maternidade de seis meses, além de tornar mais produtiva e eficiente as votações no Congresso.

Graduado em Medicina pela Universidade de Brasília com especialização em saúde pública, Chinaglia presidiu a Central Única dos Trabalhadores (1988 – 1989) e o Sindicato dos Médicos, ambos do estado de São Paulo.  No ano de 1980, junto com Lula e outras lideranças sindicais, intelectuais e políticas, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Inicia sua atividade política em 1990 quando se elege deputado estadual em São Paulo e em 1995 é eleito deputado federal e está atualmente em sua quinta legislatura consecutiva, destacando-se  por sua liderança e capacidade de diálogo. Foi eleito pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), por 15 vezes seguidas, um dos “Cabeças do Congresso”. Arlindo Chinaglia foi presidente da mais importante Comissão Especial do Pré-Sal na Câmara dos Deputados e relator do Orçamento Geral da União. A presidenta Dilma Rousseff também escolheu Arlindo Chinaglia para ser seu líder de Governo, cargo que exerceu até maio de 2014, quando foi eleito vice-presidente da Câmara e do Congresso Nacional.

O deputado Andrés Sanchez é conhecido pelo seu amor e dedicação ao time de futebol que frequentou e militou desde sua infância, o Corinthians,  até se tornar conselheiro vitalício (1997) e presidente (2007/2011) do clube mais popular do estado de São Paulo. Filiado ao PT desde 1981, foi eleito deputado federal nas eleições de 2014, alcançando 169.834 votos, sendo o mais votado entre os candidatos petistas em São Paulo.

Nascido em Limeira (SP), Andrés trabalhou em mercados e CEASAs dos 12 aos 26 anos. Seguindo a tradição da família, de esquerda e sempre envolvida nos movimentos sindical e popular, Sanchez foi presidente da Associação dos CEASAs de Campinas (SP) e diretor da Associação Brasileira das Centrais de Abastecimento. Andrés dirigiu uma empresa de embalagens plásticas por mais de 15 anos. O empreendimento foi crescendo e tornou-se um dos líderes no mercado. Em 2001, participou da fundação do Instituto Sol, que desenvolveu projetos sociais com comunidades carentes.

Assumiu a presidência do time do Corinthians em 2007, pouco antes da maior tragédia esportiva do clube, o rebaixamento para a Série B do Campeonato Brasileiro. Desde então comandou uma grande e profunda reformulação da estrutura funcional do clube e do futebol que culminou com o retorno do Corinthians à elite do futebol brasileiro. Deixou a presidência do Corinthians em dezembro de 2011 sem ter conseguido levar a equipe à conquista da Copa Libertadores da América, tida como “principal projeto” durante todo seu mandato. No entanto, conseguiu construir um moderno Centro de Treinamento no Parque Ecológico do Tietê, além de agilizar a construção do tão sonhado estádio em Itaquera, anunciado como sede da abertura da Copa de 2014.

Foi chefe da delegação brasileira na Copa da África do Sul em 2010, e fez parte da comitiva liderada pelo presidente da CBF. Em 28 de novembro 2012 Andrés deixou o cargo de diretor de seleções da CBF. No mesmo ano publicou, em co-autoria com seu primo Tadeo Sánchez Oller seu livro autobiográfico “O mais louco do bando” pela editora G7 Books. Em fevereiro de 2018, foi eleito novamente presidente do Sport Club Corinthians Paulista e divide sua vida entre as atividades como parlamentar e dirigente de um dos maiores e populares clubes de futebol do país. 








DIA 23 DE DEZEMBRO DE 1971, MORRE RAUL PEDROSO

Para os militares ele foi um desertor, um traidor da pátria. Acusado de participar dos movimentos nacionalistas que congregavam liberais e comunistas sob a liderança de Luís Carlos Prestes no início da década de 30, Raul Pedroso fez carreira militar chegando a patente de segundo tenente em agosto de 1934. Nascido no Rio de Janeiro em 15 de maio de 1911, participou daAliança Nacional Libertadora (ANL),  uma  frente de esquerda que congregava socialistas, liberais, comunistas, anti-fascistas, visando  combater o avanço do imperialismo norte americano,  o latifúndio,  defendia a nacionalização das empresas estrangeiras, o cancelamento da dívida externa, e tinha como presidente de honra Luís Carlos Prestes. Entre seus membros, estava por incrível que pareça,  Carlos Lacerda! A organização foi posta na ilegalidade em julho de 1935 pelo governo Vargas.  Apesar de “ilegal”, planejaram, um levante revolucionário, irrompido em novembro de 1935 o Levante Comunista, que o discurso oficial pejorativamente chamou de Intentona Comunista.  Uma revoluçãofrustrada que desencadeou forte repressão sobre seus membros, inclusive a deportação de Olga Benário, comunista alemã, mulher de Luís Carlos Prestes.

Raul Pedroso foi o responsável pela rebelião da Companhia de Metralhadoras Leves do 3º Batalhão (CM 3) e pela prisão do capitão João Gomes Monteiro, que a comandava. Liderou ainda duas das tentativas dos revolucionários de saírem do quartel, todas elas frustradas emrazão do cerco estabelecido pelas tropas legalistas de Getúlio, sendo ferido numa dessas incursões.

Sufocado o movimento, foi preso e processado juntamente com os demais revolucionários, teve sua patente militar cassada em dezembro de 1935. Devido a sua participação no Levante Comunista foi intimado a comparecer ao Tribunal de Segurança Nacional (TSN), que julgava os revoltosos. Raul Pedroso declarou não ter cometido nenhum crime contra a ordem e sim participado de um movimento patriótico, assumindo responsabilidade total por seus atos. Dispensou a defesa fornecida pelo tribunal e declarou que só havia comparecido àquela sessão à força. Condenado pelo TSN em maio de 1937 a oito anos de prisão, foi libertado mediante habeas-corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em abril de 1941.

Novamente preso em 22 de dezembro de 1944 sob a acusação de manter contato com elementos comunistas, foi solto no dia se seguinte. Com o fim do Estado Novo (1937-1945) e a “redemocratização” do país, participou de articulações políticas e sindicais. Compareceu, em novembro de 1946, em uma reunião de jornalistas filiados ao Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT), realizada na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). O MUT constituiu-se em uma articulação de sindicalistas, em sua maioria comunistas, embrião da central sindical Confederação dos Trabalhadores do Brasil (CTB), que teve curta existência legal.

Trabalhou como técnico de orçamento da Secretaria Geral de Finanças do Rio de Janeiro. Foi anistiado durante o governo João Goulart (1961-1964), emdezembro de 1961, tendo sido reformado com a patente de segundo-tenente em março de 1964.

Raul Pedroso faleceu no dia 23 de dezembro de 1971, deixando um legado de grande militância e participação sindical ativa.








DIA 22 DE DEZEMBRO DE 1968, CAETANO VELOSO E GILBERTO GIL SÃO PRESOS NO RIO DE JANEIRO

No dia 22 de dezembro de 1969, poucos dias após a decretação do AI-5, os cantores Caetano Veloso e Gilberto Gil, líderes do movimento tropicalista, foram presos no Rio de Janeiro após protestarem publicamente contra o regime militar do Brasil. O motivo oficial da prisão foi a “tentativa da quebra do direito e da ordem institucional”, com mensagens “objetivas e subjetivas à população” para subverter o regime de governo estabelecido. Por conta da popularidade dos dois artistas, ambos foram aconselhados a deixar o país.

Após um mês de prisão, os militares se deram por satisfeitos com a investigação que inocentou Caetano e Gil de qualquer crime. Entretanto, ficaram presos por mais um mês. Só foram soltos em fevereiro de 1969.

Eles embarcaram em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para Salvador. Quando chegaram foram novamente presos, porque as autoridades locais ainda não tinham sido informadas de que o pedido de prisão já tinha sido cumprido. Mas de nada adiantou. Sem acusação formal ou processo tramitando contra os dois, eles foram submetidos à prisão domiciliar. Não podiam sair de Salvador, trabalhar e ainda eram obrigados a se a se apresentar diariamente na Polícia Federal.

A prisão dos dois artistas acabou se tornando um problema até mesmo para o coronel Luís Artur, que chefiava a Polícia Federal soteropolitana.  Os militares informaram que a única alternativa para eles, seria deixar o País. Foi autorizado apenas que fizessem um show, que aconteceu nos dias 20 e 21 de julho de 1969, para arrecadar fundos para a viagem.

No começo do exílio, sem poder trabalhar, viveram de direitos autorais, contando com a solidariedade de artistas brasileiros que gravaram suas composições: Roberto Carlos (“Como Dois e Dois”), Erasmo Carlos (“De Noite na Cama”), Elis Regina (“Fechado pra Balanço), Maria Bethânia (“Janelas Abertas nº 2″) e Gal Costa (“Deixa Sangrar”). Em Londres, Caetano gravou um álbum com canções do exílio, como “London London” e “It’s a Long Way” (“Maria Bethânia, please send me a letter…”). De volta ao Brasil, lançou “Transa”, em que revisitou os clássicos brasileiros Luiz Gonzaga e Monsueto Menezes e musicou um poema de Gregório de Matos do século 17 (“Triste Bahia”). O histórico “Expresso 2222”, de Gilberto Gil, também trouxe uma forte canção de exílio: “Back in Bahia” (“Lá em Londres vez em quando me sentia longe daqui…”).

Em janeiro de 1971, Caetano obteve permissão para retornar ao Brasil para a missa de 40 anos de casamento de seus pais, na Bahia. Na ocasião, foi interrogado por militares e se negou a atender um pedido para fazer uma canção elogiando a construção da rodovia Transamazônica. Durante o tempo que ficou no Brasil, Caetano foi monitorado de perto por agentes do regime, que acompanhavam e anotavam o que era dito pelo artista nas poucas entrevistas que deu nesse período. O regresso definitivo ao país se deu somente em janeiro de 1972.

Caetano e Gil, assim como outros artistas que estavam conquistando sua popularidade junto ao grande público na década de 60, puderam “optar” pelo exílio. Naturalmente que enquanto figuras públicas, não poderiam sofrer o mesmo tratamento que os demais presos políticos recebiam afinal, os militares não iriam produzir provas contra eles mesmos e muito menos manchar a sua imagem perante a hipócrita sociedade brasileira. Lamentavelmente muitos companheiros que ousaram desafiar o regime não tiveram a mesma sorte. Foram presos arbitrariamente, torturados com requintes de crueldade e   mortos. Muitas famílias não tiveram sequer o direito sagrado de oferecer um funeral digno aos verdadeiros heróis da pátria. Que os artistas de hoje estejam atentos e não se furtem a sua função política de alertar a população sobre o Estado de Exceção que vivemos atualmente. Censura jamais em tempo algum.








DIA 21 DE DEZEMBRO DE 2009, LULA HOMOLOGA MILHÕES DE HECTARES DE TERRAS INDÍGENAS







DIA 20 DE DEZEMBRO DE 1996, É PROMULGADA A LEI DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA, LEI Nº 9. 304/96

A educação nunca foi prioridade em nosso país desde a independência negociada com Portugal. A primeira Constituição, a de 1824, chegou a mencionar “instrução gratuita para todos os cidadãos”, o que obviamente, não vigorou, em se tratando de uma sociedade escravista, elitista, segregacionista, caracterizada pela bipolaridade da “casa grande e senzala”. Na Era Vargas, a Constituição, a de 1934, traçou as diretrizes da educação nacional   e sugeriu o Plano Nacional da Educação.

Trinta anos depois da Carta de 34, no governo de João Goulart, foi publicada a 20 de dezembro de 1961, a primeira LDB (4024/61), prevendo a regulamentação do ensino a nível nacional. Sob a égide da ditadura militar, a lei 4024/61, foi reformulada pela lei 5692/1971, prevendo oito anos de duração para o ensino fundamental e a profissionalização no Ensino Médio, mas as dificuldades de implantação da lei levaram ao parecer 76/75, e o ensino profissionalizante ficaria a cargo das escolas técnicas.

 Após a promulgação da Carta de 1988, a Constituição Cidadã, a LDB de 61 foi considerada obsoleta. Finalmente, após oito anos de discussão (1988/96), entre os diversos grupos da sociedade,  foi aprovado o texto da atual LDB (lei nº 9.394/96, no dia 20 de dezembro de 1996, também chamada de Carta Magna da Educação. Sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e o ministro da Educação Paulo Renato, teve como relator o educador, antropólogo e sonhador, Darcy Ribeiro.

Baseada no princípio do Direito Universal à educação para todos, garantido pela Constituição Federal, buscou-se uma educação de qualidade visando transformação da ordem social, pois um povo educado será consequentemente agente transformador da sociedade, no exercício da cidadania e atuando no espaço político. Nesse sentido,  a LDB regulamenta o ensino público ou privado, da educação básica ao ensino superior. Ela trouxe novidades em relação às anteriores, do tipo educação infantil (creches e pré-escolas), como primeira etapa da educação básica. Estabelece os deveres do Estado enquanto agente provedor da educação pública, definindo as responsabilidades em regime de colaboração entre a União, Estados, Distrito Federal e os Municípios. Estabelece também uma gestão democrática do ensino público e uma progressiva autonomia pedagógica e administrativa da gestão financeira das unidades particulares. Além de prever a criação do Plano Nacional de Educação (PNE).

 A partir de 4 anos de idade,  a educação passou a ser obrigatória e gratuita. Estabeleceu carga horária mínima de oitocentas horas,  distribuídas em 200 dias letivos na educação básica.  Previu um núcleo comum para o ensino fundamental e médio e uma parte diversificada para atender às particularidades regionais, uma vez que se vive em um país continental e diverso nos aspectos econômicos, culturais e sociais. Manteve a obrigatoriedade do ensino de História, Geografia, Português, Matemática, Educação Artística, Educação Física. Incluiu Sociologia, Filosofia no Ensino Médio. Tratou também da valorização dos profissionais da educação, como planos de carreira, formação profissional e piso salarial. Os ISEs (Institutos Superiores de Educação) eram o sonho de Darcy Ribeiro, instituições que deveriam municiar o professor na prática do dia a dia na sala de aula, através da educação continuada.

Atualmente, vemos o sonho de educadores como Darcy Ribeiro,  por uma educação democrática e de qualidade, necessária para alavancar o crescimento com desenvolvimento econômico, político, social e cultural, ser desmontado a partir da tomada do poder pelo governo ilegítimo sem respaldo do voto popular e que ousa chamar de “reforma”, outro golpe,  o  verdadeiro desmonte da educação pública em nosso país. Em se tratando de um golpe continuado, com a eleição do capitão reformado, o fantasma da escola sem partido, escola amordaçada, ronda o futuro da sociedade brasileira, apesar da derrota na Câmara dos Deputados neste ano de 2018. Cogitam o revisionismo sobre a ditadura, incentivam a vigilância aos professores, e ameaçam “expurgar Paulo Freire” das escolas.  Já chegaram até a questionar a Evolução, defender a teoria do Criacionismo no ensino das Ciências.

“Os movimentos do governo revelam que o macarthismo ideológico da ‘escola sem partido’, é só cortina da fumaça. O verdadeiro objetivo é uma escola sem Estado”. (Revista Carta Capital, ed. 918).





DIA 19 DE DEZEMBRO DE 1985, É ASASSINADO JOÃO CANUTO

João Canuto de Oliveira foi mais um guerreiro que morreu em combate na luta pela Reforma Agrária, pela defesa e promoção dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. Assim como João Canuto, muitos trabalhadores e trabalhadoras e suas lideranças foram assassinados covardemente pelas mãos dos pistoleiros a mando dos que se julgavam os “donos da terra”. Pelos latifúndios do Brasil afora, a década de 80, ficou marcada por centenas de mortes de trabalhadores que ousaram desafiar aos herdeiros dos antigos coronéis.

Canuto agia com integridade e respeito em acordo com os anseios de sua classe, pela valorização do ser humano, contra o trabalho escravo. Em consequência de sua dedicação e luta pelos interesses da classe trabalhadora, João Canuto foi convocado pelo povo a se candidatar a Prefeito de Rio Maria, município desmembrado de Conceição do Araguaia em 1982, e aceitou o desafio. Era um candidato pobre, morador de casa de chão batido e andava a pé pelo município.  Debateu com a sociedade, envolveu pessoas do município, delinearam planos com diretrizes, metas e objetivos para a cidade. Nessa ação coletiva, seu prestígio crescia e os fazendeiros voltaram a persegui-lo, temendo que chegasse a ser eleito. Comentava-se que fraudes ocorreram nessas eleições. Apuradas as urnas, Canuto alcançou o 2º lugar com uma diferença de 200 votos em relação ao prefeito eleito.

João Canuto ficou cada vez mais conhecido, participava de atos públicos contra a violência e a impunidade, bem como dos comícios pelas Diretas Já! Transformou a recém-criada Delegacia Sindical de Rio Maria em Sindicato dos Trabalhadores Rurais, articulado com outros municípios e despertou a ira das oligarquias locais. Mesmo com as centenas de denúncias assinadas por dezenas de entidades da região do Araguaia, do Pará e do Brasil que denunciavam o caráter violento do latifúndio e do Sindicato do Crime, patrocinado pela abominável União Democrática Ruralista (UDR), os latifundiários, em especial aqueles que tinham grilado terras do Estado ou que as tinham ocupado indevidamente, estavam incomodados com os avanços das ocupações de terras por parte dos trabalhadores rurais e então definem plano de eliminação física de João Canuto, que era também presidente estadual do PC do B.

Em 18 de dezembro de 1985, tomba o sindicalista João Canuto de Oliveira, presidente do STR de Rio Maria com 12 tiros certeiros de pistoleiros a mando dos latifundiários.

De acordo com inquérito policial, entre os acusados de serem mandantes estavam o então prefeito de Rio Maria, o fazendeiro Adilson Carvalho Laranjeira e o fazendeiro Vantuir Gonçalves de Paula. Vale ressaltar que, embora estes dois tenham sido conduzidos ao Tribunal do Júri, o assassinato de Canuto foi planejado por um número de aproximadamente 20 pessoas, incluindo políticos, fazendeiros e empresários.

O assassinato de João Canuto causou grande comoção na população do município de Rio Maria no sul do estado do Pará, Vale do Araguaia, “a terra da morte”. Sua execução representou mais do que a eliminação de mais um líder sindical. Para a população rural que já vinha sofrendo com as perdas sucessivas de outras lideranças, sua morte enterrou também uma liderança política e ativista comunista dedicado integralmente à causa da Reforma Agrária.

Sua morte mobilizou diversas entidades de direitos humanos nacionais e internacionais, inclusive a OEA. A partir de 1991, teve início uma grande pressão da sociedade civil, nacional e internacional, organizada e articulada pelo Comitê Rio Maria (criado em março de 91) e por seus Comitês de apoio no Brasil e em outros países, como USA e França. Finalmente, em 2001, um dos dois acusados foi pronunciado como mandante do assassinato. O fazendeiro Ubiratan Ubirajara assassino de Canuto e de seu irmão, foi condenado a 50 anos de prisão. Após dois anos fugiu da penitenciária de Belém.

Vindo de Goiás, pai de oito filhos, dois deles, José e Paulo, também assassinados em 1990 pelos latifundiários e a PM do Pará. Canuto havia se projetado como uma liderança de imenso prestígio entre os posseiros e demais camponeses da região do Sul do Pará. Dois anos depois de chegar a Rio Maria, foi despejado de suas posses, teve queimados seus pertences e sua casa. Sua mãe, já idosa, faleceu em consequência desse ato de vandalismo. Mas Canuto, como muitos de sua geração, seguiu adiante e continuou a lutar pela causa dos trabalhadores rurais. Em 1983, assumiu a presidência do STR (Sindicato dos Trabalhadores Rurais) de Rio Maria. Seus companheiros lembram-se de sua bondade sem limites, sua força e resiliência ao passar as maiores privações, sem jamais se abater. Era também incorruptível e em vão os latifundiários e grileiros lhe ofereciam terras, gado ou dinheiro para que abandonasse a causa dos posseiros da região. Canuto era muito admirado e despertou muitos afetos com seu jeito simples, obstinado e solidário.



DIA 18 DE DEZEMBRO DE 2005, EVO MORALES É ELEITO PRESIDENTE DA BOLÍVIA

A conquista do poder pela esquerda na América Latina inaugurada há 15 anos, com a eleição de Chávez na Venezuela (2000), vem sofrendo fortes revezes políticos, nos quais podemos incluir Honduras, Paraguai, Argentina de Macri, Brasil, com a deposição da presidenta Dilma Rousseff; e a eleição de um representante da extrema direita em 2018. Enquanto isso, na Bolívia, a gestão de Evo Morales segue em marcha, no “processo de mudança”, cumprindo seu terceiro mandato em nome da revolução social, da valorização dos direitos da população autóctone, das classes menos favorecidas. Assim, a convocação de um referendo para ser votado fevereiro de 2019, poderá aprovar mudança na Constituição, abrindo a possiblidade de permitir a Morales seu quarto mandato.

Juan Evo Morales Ayma, é filho de agricultores de uma família de sete filhos, na qual apenas três chegaram à vida adulta. Sua infância foi marcada pelo trabalho na lavoura e consequentemente pela impossibilidade da educação formal.Percorreu um longo e heroico caminho até sua vitória nas eleições presidenciais de dezembro de 2005. Pela primeira vez na história da Bolívia, um indígena chega ao poder pelo voto popular, sem passar pelo segundo turno. Nada mais justo e pertinente que um autêntico representante do povo, seja o escolhido em um país cuja sua maioria é constituída pela população indígena e mestiça.

Evo Morales nasceu na cidade de Orinoca, em 26 de outubro de 1959, no departamento de Oruro e pertence à etnia indígena uru-aimará. Em 1980 dá início a sua trajetória de lutas e ingressa na vida política de seu país. Em 1981, foi nomeado Secretário de Esportes no sindicato de cocaleros da região, uma vez que o cultivo da folha de coca é uma das poucas fontes de renda para os trabalhadores rurais bolivianos. Apesar da política contra o cultivo da folha de coca por parte da oposição, capitaneada pelos EUA, Evo Morales sempre lutou para que a cultura e tradição milenar dos indígenas fossem preservadas, pois para ele “é um patrimônio cultural dos povos andinos e parte inseparável da cultura boliviana”, portanto a erradicação do cultivo traria forte impacto na vida dos trabalhadores rurais, além de ferir a identidade e a ancestralidade do povo.

Foi eleito deputado em 1997, representando os cocaleros das províncias de Chapare e Carrasco deCochabamba, com 70% dos votos do distrito. Evo Morales se mantém na defesa de seu povo e sua cultura, entrando em conflito com as antigas oligarquias locais. Em 2002, foi candidato pela primeira vez à presidência pelo partido MAS (Movimento para o Socialismo) e enfrentou uma série de acusações que feriam sua integridade moral. Artifício usado pela classe dominate, para impedir a ascensão de um grande líder popular, fato que os brasileiros conhecem bem. Apesar de seu vigoroso crescimento nas intenções de voto, nesta ocasião, Evo Morales ficou em segundo lugar.

Finalmente, apoiado pela população indígena que representa 70% da população boliviana, Morales vence as eleições no dia 18 de dezembro de 2005 e se consolida como representante oficial do povo indígena, alcançando uma vitória histórica. Coerente com seu discurso, aproximou-se dos governos de esquerda na América Latina, encabeçados pelo presidente da Venezuela,Hugo Chávez; e seguidos por Rafael Correa, Equador; Nestor Kirchner, Argentina; Fidel Castro, em Cuba e Lula no Brasil. Assim surgiu a “Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América” (ALBA),constituindo-se em uma alternativa de esquerda aos organismos tradicionais existentes na região, desafiando as tradicionais elites locais, alinhadas aos interesses imperialistas estrangeiros, notadamente os norte-americanos.

Desde sua posse, em 22 de janeiro de 2006, Evo Morales se reelegeu por duas vezes e continua pautando seu discurso contra a exploração capitalista e o imperialismo norte-americano, pela nacionalização de setores estratégicos da economia, implementação da Reforma Agrária. Continua preservando a cultura e a identidade indígena do povo boliviano, além de trazer grandes melhorias na qualidade de vida das minorias historicamente desfavorecidas. A partir da gestão de Morales no comando do país, a média de crescimento do PIB boliviano foi de 4,8% no período entre 2006 e 2012. O investimento estatal aumentou 252% e a construção de estradas praticamente dobrou. Na Era Morales, o poder de compra do salário mínimo subiu 41%. O Brasil é um grande parceiro da Bolívia no tocante às exportações, mais de 50 % do gás natural consumido no país é importado da Bolívia.