DIA 13 DE DEZEMBRO DE 1838, EXPLODE A REVOLTA BALAIADA NO  MARANHÃO

 
    A história do Império brasileiro vivenciou no Período Regencial (1831/1840), além da experiência federativa, uma intensa agitação política com as rebeliões provinciais. Momento raro em nossa história, onde a brecha política da classe dominante, abriu espaço para participação da massa popular pobre e oprimida,  revoltar-se contra as elites agrárias privilegiadas em busca de melhores condições de vida. Caracterizada por um “liberalismo” ambíguo, a experiência federativa deixou intactas as bases da sociedade brasileira assentadas no latifúndio e escravidão.
    As rebeliões provinciais no geral, lutavam por autonomia e contra a ordem fiscal. No nordeste contaram com  a participação das massas deserdadas do sistema, que enfrentava o declínio econômico das exportações do açúcar, fumo e algodão no caso do Maranhão, onde explodiu a Balaiada. O conservador Regente Feijó criou a “Guarda Nacional” para deter o “vulcão da anarquia” ao que Caio Prado viu como “o povo em luta por suas reivindicações e melhoria das condições de vida”. A violência social marcou as revoltas como a Cabanagem (Pará -1835/40), a Balaiada (MA-1838/41), Sabinada (BA -1837), Farroupilha (RS 1835/1845), e     a Revolta dos Malês (BA-1835), desmentindo a lenda que fala da “índole pacífica e acomodada” do povo brasileiro, pois as grandes massas sempre lutaram por seus direitos.  
    A massa revoltada contra a opressão e a miséria em que viviam, sobretudo após o agravamento da crise de exportação do algodão, ascendeu o estopim da rebelião no dia 13 de dezembro de 1838, quando o vaqueiro Raimundo Gomes liderou o ataque à cadeia pública de Vila da Manga, e libertou vários presos além de levar armas e munições. Em seguida o fabricante de balaios Manoel dos Anjos Ferreira, revoltado pelo abuso ocorrido com uma de suas filhas pelos soldados das tropas imperiais, adere ao movimento. Sua participação deu o nome de Balaiada ao movimento, e aos revoltosos de balaios. A luta seguiu mobilizando as massas e foi engrossada com a participação de aproximadamente 3 mil negros liderados por Cosme Bento das Chagas chefe  do Quilombo de Cumbe. A classe média maranhense, politicamente insatisfeita com a oligarquia agrária dominante, aderiu inicialmente  ao movimento, chegando a organizar um jornal de ideias republicanas, o “ Bem -te-vi”.  
    Mesmo sem ter um planejamento estratégico e um projeto político definido, a rebelião conquistou algumas vitórias, tomando Caxias, a principal vila do Maranhão e estendendo a rebelião até o Piauí. Organizaram uma Junta provisória, tomaram medidas de grande repercussão política, como a abolição da Guarda Nacional, milícia de elite criada para conter as revoltas separatistas, expulsão dos portugueses residentes na cidade. Nas ruas a revolta caminhou para a violência social, o que provocou o afastamento das classes médias que passou a tomar medidas para contê-la.
    Como sempre, a repressão chegou com força para esmagar aqueles que ousaram desafiar a regime, a elite, e buscar seus direitos.  Os setores médios apoiaram a chegada das tropas imperiais, comandadas por Luís Alves de Lima e Silva. Os revoltosos perderam a vila de Caxias, o Balaio foi morto em combate, e os quilombolas, enfraquecidos, se refugiaram no interior. Em 1841, os últimos resistentes se renderam.
    A violência da revolta esmagou cerca de 12 mil sertanejos e escravos. O líder do Quilombo, Cosme foi  capturado e enforcado em 1841.  D. Pedro II havia subido ao poder e concedeu anistia aos revoltosos que sobreviveram. O coronel Luís Alves de Lima e Silva, pelo “ato de bravura e heroísmo” (?),  foi condecorado pelo imperador com o título de nobreza: Barão de Caxias”.
 
Assim se viu o fim da saga
Daqueles homens guerreiros
Sendo heróis ou rebeldes
Só queriam seus direitos”. (Barbara Melo, sobre a Balaiada).

 


DIA 12 DE DEZEMBRO DE 1962, MORRE PATRÍCIA GALVÃO, PAGU

 
O apelido Pagu foi dado pelo poeta Raul Bopp, quando Patrícia lhe mostrou alguns poemas. Bopp sugeriu que ela adotasse um nome literário feito com primeiras sílabas de seu nome e sobrenome: Pagu. Foi um engano de Bopp, pensando que ela se chamasse Patrícia Goulart. O poeta escreveu um poema para ela, O coco de Pagu, e o apelido acabou permanecendo. Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, foi uma das mais icônicas figuras femininas do século XX no Brasil. Nascida no seio de uma família burguesa, em 1910, Pagu afastou-se de sua classe social, passando a militar junto ao Partido Comunista Brasileiro, o que lhe rendeu mais de 20 prisões. Irreverente e  idealista, Pagu era movida por um incessante desejo de justiça e liberdade.
Pagu defendia a participação ativa da mulher na sociedade e na vida política do país. Já aos 15 anos, estudava para professora na Escola Normal e era colaboradora de um jornal de bairro em São Paulo, com o pseudônimo Patty. Sua futura carreira como escritora, jornalista e poeta já se anunciava desde então. Pagu publicou os romances, A Famosa Revista (Americ-Edit, 1945) e Parque industrial (edição da autora, 1933), sob o pseudônimo Mara Lobo, considerado o primeiro romance proletário brasileiro pois a obra é uma narrativa urbana sobre a vida das operárias da cidade de São Paulo.
   Escreveu também contos policiais, sob o pseudônimo King Shelter, publicados originalmente na revista Detective, dirigida pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, e depois reunidos em Safra Macabra (Livraria José Olympio Editora, 1998). Em seu trabalho, junto a grupos teatrais, Pagu revelou e traduziu grandes autores até então inéditos no Brasil como James JoyceEugène IonescoFernando Arrabal e Octavio Paz.
            Em 1928, com dezoito anos completou o curso de professora na Escola Normal de São Paulo. Nesse mesmo ano, conhece o célebre casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, que haviam fundado o Movimento Antropófago e se integra a esse Movimento. Em 1930, causa um escândalo na sociedade conservadora da época, quando Oswald de Andrade se separou de Tarsila e passa a viver com Pagu, grávida de seu primeiro filho,  Rudá de Andrade. Três meses após o parto, Pagu viajou pra Buenos Aires, para um festival de poesia, lá conheceu Luís Carlos Prestes e voltou entusiasmada com as ideias marxistas. Na volta filia-se ao Partido Comunista Brasileiro, junto com Oswald. Em 1931, intensificam-se suas atividades no Partido Comunista. Junto a Oswald fundou o jornal “O Homem do Povo”, que apoiava o grupo da esquerda revolucionária. Ao participar de uma greve de estivadores em Santos, Pagu foi presa pela polícia do governo de Getúlio Vargas tornando-se a primeira presa política do país.  Pagu foi libertada em 1933, e partiu logo após em viagem para a Europa e outros locais do mundo como repórter.
 
Na França, passou a frequentar alguns cursos na Sorbonne e, em 1935, filiou-se ao Partido Comunista Francês. Foi pega pela polícia francesa com documentos falsos, o que lhe garantiu mais uma prisão. Foi liberada após intervenção do embaixador brasileiro Souza Dantas junto ao governo francês. Ainda em 1935, Pagu teve a honra  de entrevistar o pai da psicanálise,  Sigmund Freud,  e participou da coroação do último imperador chinês Pu-Yi, de quem obteve as primeiras sementes de soja que foram trazidas ao Brasil. Ao voltar ao país, Pagu  separou-se de Oswald de Andrade, e retomou a atividade jornalística, sendo presa novamente pelas forças repressivas do Estado Novo, ficando cinco anos na prisão, período em que Pagu foi vítima de torturas e maus tratos pela polícia política de Getúlio Vargas.
 
Desligou-se do PCB em 1940, aproximando-se do trotskismo. Colaborou na revista Vanguarda Socialista, da qual fizeram parte Mário Pedrosa e o jornalista Geraldo Ferraz, que iria se tornar seu segundo marido e pai de seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz. Passou a viver em Santos, onde se dedicou também às artes cênicas.
Na década de 1950, com a abertura política, tentou candidatar-se à deputada estadual, mas não obteve sucesso. Em 1962, foi diagnosticada com um câncer e partiu novamente para Paris na esperança de curá-lo, mas infelizmente Pagu foi vencida por ele.  Já prevendo a própria morte, nesse mesmo ano, Pagu publicou um último poema, chamado Nothing, carregado de desesperança e sofrimento existencial.

DIA 11 DE DEZEMBRO DE 1990, VILA SOCIALISTA É DESPEJADA EM DIADEMA – SP

 
No final da década de 30, o crescimento e a mobilização do movimento operário no Brasil, levou o então Presidente da República, Washington Luís, a declarar que “A questão social era questão de polícia”. Assim seguem sendo tratadas com a devida truculência policial as questões sociais no Brasil. Foi o caso de despejo da Vila Socialista em Diadema, São Paulo, onde 2500 famílias sem moradia, que ocupavam o terreno abandonado  de 240 mil metros quadrados, foram despejadas pela Polícia Militar do estado  de São Paulo, governado por Orestes Quércia (PMDB). O batalhão com mais de 400 policiais armados e com bombas de gás lacrimogêneo avançou sobre a população que revidou com pedras e outras armas caseiras preparadas para o enfrentamento.  Dois sem teto foram mortos a tiros, Milton de Souza Frazão e Noraldino Ferreira Lima, mais de pessoas 40 ficaram feridas, sendo que o então vereador Manoel Boni do PT, teve uma das mãos decepadas pela explosão de uma bomba de gás lacrimogênio, e a audição prejudicada,  além de 23 sem teto presos e humilhados pelos policiais.  O fato ficou conhecido como “massacre da Vila Socialista”, no dia 11 de dezembro de 1990, episódio que se tornou um ícone do movimento de resistência da luta pela terra, e por moradia em nosso país. A ocupação havia recebido este nome depois de votação em assembleia, influenciada pela Convergência Socialista, organização trotskista.  
As cenas filmadas à época, ganharam as manchetes da mídia sendo noticiadas como um caso de reintegração de posse do proprietário Pedro Simões Filho e os “invasores” foram acusados pelo crime de resistirem e não acatarem a decisão judicial de desocupação do terreno até o prazo limite dado pelos poderes do estado. O caso demonstra a gravidade do problema da moradia no estado de São Paulo, como em todas grandes cidades brasileiras, estruturadas sob o capitalismo, no qual o espaço urbano se torna um conjunto de mercadorias onde o trabalhador, suas necessidades básicas e direitos são esmagados pelo sistema.   
Mais tarde a solução encontrada para o terreno foi a desapropriação e posterior construção de um conjunto habitacional no bairro Conceição, onde se pode chamar de nova Vila Socialista que conta com urbanização e uma escola pública, a EE Vila Socialista com 18 salas de aula. Outros loteamentos derivaram deste, como Jardim São Paulo, Vila Diadema e outros. Na nova Vila Socialista, as ruas tem nomes como Karl Marx, Engels, Lamarca, Vladimir Lênin, Che Guevara, Leon Trotsky, embora a maioria de seus moradores desconheçam estes personagens históricos. No local da antiga ocupação chamado à época de Jardim Inamar, está localizado hoje um campo de futebol.
 
Lamentavelmente a tragédia ocorrida em Diadema fruto da irresponsabilidade da prefeitura e do poder judiciário, da brutalidade dos policiais militares, do descaso da sociedade, e dos interesses do capital imobiliário, continuam fazendo suas vítimas em São Paulo e outras grandes cidades brasileiras.  “O capital, os políticos, a justiça, fazem sempre a opção: escolhem qual parcela da humanidade não merece viver e tampouco lugar para morar”. 

DIA 10 DEZEMBRO 1984, BISPO DESMOND TUTU RECEBE O PRÊMIO NOBEL DA PAZ

 
Desde o fim da “política segregacionista do Apartheid”  em 1994, Desmond Tutu tem sido uma das principais figuras na luta em defesa dos direitos humanos e contra a segregação racial na África do Sul. Ao lado de Nelson Mandela, Tutu  foi responsável por  centenas de protestos em locais públicos contra o governo sul-africano, mesmo assumindo posições altas no clero africano. Sua proposta para a sociedade sul-africana incluía direitos civis iguais para todos, abolição das leis que limitavam a circulação dos negros, um sistema educacional comum e o fim das deportações forçadas de negros.
Por sua firme posição contra a segregação racial foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz no dia 10 de dezembro de 1984.  Na mesma época foi eleito arcebispo de Johannesburgo e depois, da Cidade do Cabo. Recebeu o título de doutor honoris causa de importantes universidades dos EUA, do Reino Unido e da Alemanha. Seu parceiro de vida e lutas Nelson Mandela, certa vez declarou: “Desmond, você será a voz dos que não tem voz”. 
Desmond Tutu nasceu em Klerksdorp, a cerca de 200km de Joanesburgo. Foi professor, mas abandonou a profissão quando o governo decidiu implementar um sistema de ensino para os negros inferior ao da população branca. Tutu decidiu então pela carreira teológica. Foi o primeiro bispo anglicano negro de Joanesburgo e depois arcebispo da Cidade do Cabo. Politicamente, simpatizava com o partido Congresso Nacional Africano. Entre 1996 e 1998, Desmond Tutu liderou a Comissão de Reconciliação e Verdade, que abordou os crimes do Apartheid. Milhares de vítimas do regime partilharam o seu sofrimento e os culpados pediram perdão. Com a comissão, o arcebispo pretendia alcançar um equilíbrio entre a justiça e a anistia, o perdão e a reconciliação.  
O arcebispo se destaca pelo ativismo político contra a segregação racial e também por defender ideias consideradas bastante liberais contrariando o conservadorismo da Igreja Anglicana. Em 2016, aos 85 anos de idade, Desmond Tutu se declarou a favor da morte assistida, prática que consiste na decisão do próprio paciente em ter o direito de morrer conforme sua vontade.  Nesse mesmo ano defendeu abertamente os direitos dos homossexuais criticando a atitude de cristãos conservadores em relação aos gays.
No início de 2016, ele abençoou o casamento de sua filha Mpho com sua companheira, apesar de as regras da Igreja Anglicana na África do Sul dizerem que “o matrimônio sagrado vem da união exclusiva entre um homem e uma mulher”. Em meados dos anos 90, quando era arcebispo da Cidade do Cabo, ele também provocou polêmica ao apoiar medidas que tornavam o aborto mais acessível no país.
Com o seu modo alegre, sorridente e despreocupado, Desmond Tutu continua a ser muito querido entre os sul-africanos. Mas agora está mais resguardado. A saúde assim o obrigou. Em 1997, foi-lhe diagnosticado câncer na próstata. Três anos depois, aposentou-se.  Desde seu afastamento da política, Tutu tem mantido uma relação estreita com os políticos da África do Sul e tem feito duras críticas ao governo, acusando os governantes de corrupção e ineficácia para lidar com a pobreza e com os surtos de xenofobia recentes no país.
As principais críticas de Tutu são de que o país não conseguiu amenizar os índices de pobreza uma década após o Apartheid. Tutu também não se conforma com a exclusão dos negros em alguns ambientes. Tutu ainda se mantém extremamente crítico com os governantes de seu país e os acusa de xenofobia e corrupção ativa.

DIA 07 DE DEZEMBRO DE 1927, NASCE DOM IVO LORSCHEITER

 
 
Dom Ivo Lorscheiter ficou conhecido por suas duras críticas às violações dos direitos humanos cometidas durante o regime militar brasileiro. Não era exatamente um revolucionário, mas sempre se posicionou de maneira coerente com os ideais de justiça e respeito à dignidade da pessoa humana. Além de líder religioso e um dos principais porta-vozes da Teologia da Libertação, Dom Ivo Lorscheiter destacou-se por sua influência e habilidade de negociação. Secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) por dois mandatos (de 1971 a 1978), e presidente da entidade também por dois períodos (de 1979 a 1982 e de 1983 a 1986), Dom Ivo Lorcheiter também desagradou ao Vaticano, quando criticou a instituição por não se alinhar com as propostas do Papa João Paulo II , que defendia maior participação dos cristãos nas decisões da Igreja. 
Durante toda a década de 70,  período que se organizaram e ganharam força as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que incluíram consciência política e social ao modo de agir da igreja,  Dom Ivo e de Dom Hélder Câmara (fundador da CNBB, em 1952), foi um expoente do cristianismo combativo que visava entre outras coisas  a libertação dos trabalhadores da herança maldita do regime de escravidão.
 De 1970 a 1974, Dom Ivo ainda fazia parte da Comissão Bipartite, formada secretamente por religiosos e militares, para discutir atritos que existiam entre as duas instituições.
Em 1977,  D. Ivo foi o principal responsável na CNBB pelos contatos com o governo federal. Entre suas muitas reivindicações, lutou para que o governo desistisse da expulsão de dom Pedro Casaldáliga do país, um dos fundadores da CTP (Comissão Pastoral da Terra) e ferrenho defensor dos direitos humanos na Amazônia.  Juntamente com o cardeal dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, conseguiu evitar que Dom Pedro Casaldáliga fosse expulso do Brasil, fato que certamente poupou a vida de inúmeros trabalhadores rurais e índios na Região do Araguaia.
Durante o período mais duro do regime, os embates entre a Igreja e o poder chegaram ao auge por causa das mortes, desaparecimentos e relatos de torturas. Muitas famílias que tiveram seus membros vítimas de militares facínoras assassinos e torturadores, recorriam à Dom Ivo na esperança de recuperá-los vivos ou ainda terem a chance de enterrar dignamente seus mortos.
 José Ivo Lorscheiter nasceu em 7 de dezembro de 1927,  gaúcho de São José do Hortênsio, em São Sebastião do Caí. Era filho do agricultor Francisco Lorscheiter e de Maria Mohr Lorscheiter. Um de seus irmãos, Vendelino Lorscheiter, era padre, e o primo Aluísio Lorscheider que tornou-se cardeal-arcebispo de Aparecida do Norte (SP).
Dom Ivo Lorscheiter cursou filosofia no Seminário Central de São Leopoldo (RS), de 1947 a 1949 e no ano seguinte, ingressou na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Doutorando-se em teologia, recebeu sua ordenação sacerdotal em dezembro de 1952.  Elevado a bispo em março de 1966, foi nomeado bispo-auxiliar de Porto Alegre, passando a atuar ao lado do arcebispo dom Vicente Scherer, que também ocupou a vice-presidência da CNBB. Bispo emérito de Santa Maria (RS), de 1974 à 2005, D. Ivo Lorscheiter, faleceu dia 5 de março de 2005 aos 79 anos, vítima de uma severa arritmia cardíaca e infecção generalizada.
 

DIA 06 DE DEZEMBRO DE 1988, ASSASSINADO DEPUTADO JOÃO CARLOS BATISTA

 
A estatística dos mortos pelo latifúndio, entre 1964 e 2011, passam de 2 mil, com raros casos de assassinos e mandantes julgados e condenados. O deputado estadual João Carlos Batista, infelizmente, faz parte dessa vergonhosa estatística. Batista, como era conhecido João Carlos Batista, foi o único deputado assassinado no Brasil após o fim do governo militar. Atuou junto aos camponeses do Pará na luta pela reforma agrária. Ele foi morto em 6 de dezembro de 1988, depois de ter sofrido três atentados à bala (1985, 86 e 87), mesmo tendo solicitado, inúmeras vezes, formalmente, segurança ao poder público, este se manteve omisso, e o deputado  acabou assassinado.
 O crime organizado pelo latifúndio sempre agiu assim. Com suas próprias regras e leis.  Durante a década de 80, foram inúmeros os assassinatos no campo,  uma vez que as tradicionais oligarquias se viram ameaçadas com o processo de redemocratização do país.  João Batista foi executado com 14 tiros, em pleno exercício de seu mandato parlamentar, na frente da família, quando chegava em sua casa, localizada no centro de Belém (PA), após sair de uma sessão da Assembléia  Legislativa do Pará.
 O caso de João Batista, assim como o de muitos outros, os verdadeiros mandantes dos crimes jamais foram punidos. Os dois pistoleiros que abriram fogo contra João Batista foram presos e pouco tempo depois também foram assassinados.  Eliminar assassinos assegura a impunidade dos mandantes, latifundiários, parlamentares e outras autoridades, de vários poderes, que se sustentam há décadas graças à  violência praticada por matadores de aluguel contra os que ousam organizar o povo e defender a reforma agrária e a justiça social. A impunidade dos mandantes mais uma vez será garantida, assim como o silêncio definitivo do assassino.
O histórico de lutas do deputado Batista, como era conhecido, era vasto e profícuo. Atuou na reconstrução da União Nacional dos Estudantes, integrando a Comissão Nacional que organizou o Congresso de reconstrução da UNE, em 1979, em Salvador. Antes, porém, liderou a primeira greve de estudantes no Pará após as mobilizações de 1968. Saiu com sua família do interior de São Paulo para a Amazônia em busca de terras, seguindo a propaganda dos militares, após 1964, que incentivaram a ocupação das terras do norte, com o slogan: “ocupar para não entregar”. Durante sua infância e adolescência,  João Batista pôde testemunhar de perto o estado de penúria e exploração a que os trabalhadores rurais estavam submetidos no interior do Brasil.
 O sentimento de justiça se desenvolveu rapidamente ao longo de sua curta vida;  João Batista era advogado dos posseiros e defensor da Reforma Agrária. Mesmo  com toda convicção de que se tornaria inimigo público número um dos latifundiários, nunca se furtou a desenvolver seu nobre trabalho em defesa dos direitos dos trabalhadores rurais e na denúncia dos muitos crimes que eram cometidos pelos “donos da terra”.  Como os pistoleiros que executaram João Batista também foram  mortos, até hoje o caso permanece sem solução, aumentando a triste e larga estatística da impunidade dos crimes cometidos no campo no Brasil.
Sua trajetória foi tema de um longa metragem documentário  “João Batista, o combatente do povo”, baseado no livro: João Batista, Mártir da Luta pela Reforma Agrária, de Pedro César Batista, seu irmão. O filme teve seu orçamento  devidamente aprovado pela Ancine e Ministério da Cultura e  captará os recursos pela Lei Rouanet.  No entanto,  a execução do projeto ainda precisa de doações para ser efetivamente lançado e distribuído.

DIA 5 DE DEZEMBRO DE 2012, MORRE OSCAR NIEMEYER

 
 
Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho, o arquiteto da suavidade e das  curvas, da liberdade e da  luz, da irreverência e da  genialidade,  cujas obras se espalharam pelo nosso país e o  mundo, levaram o Brasil a conquistar seu lugar na história da arquitetura modernista mundial. Deixou-nos também trabalhos de escultura, gravuras, desenhos e mobiliário. Optou pelo comunismo  por acreditar na igualdade de direitos para todos, na justiça social, na democracia e na  liberdade. Homem de pensamento humanista e revolucionário, desprezou honrarias e bens materiais. Foi incansável defensor da construção da sociedade socialista.
Nasceu no Rio de Janeiro em 15 de dezembro de 1907, e faleceu também no Rio de Janeiro dez dias antes de completar 105 anos de vida no dia 5 de dezembro de 2012.
Cursou a Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro onde se formou engenheiro arquiteto em 1934 e logo foi trabalhar como estagiário no escritório de Lúcio Costa. Seu primeiro trabalho em parceria com o arquiteto suíço Le Corbusier, foi o projeto do edifício Gustavo Capanema, o antigo Ministério da Educação e Cultura no Rio de Janeiro. O primeiro projeto individual foi o Conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte, que lhe trouxe destaque no Brasil e no mundo. No seu vastíssimo currículo estão alguns dos cartões postais de São Paulo, como o Parque do Ibirapuera e o Edifício COPAN. Também saíram de seus traços os projetos do Palácio Alvorada, Palácio do Planalto, Congresso Nacional, a Catedral, os edifícios das superquadras residenciais e comerciais, que embelezam a capital de nosso país. No ano de 1987,  Brasília recebeu o título de Patrimônio Mundial da Humanidade.
Sua criatividade e competência, levaram-no a participar da reconstrução de Berlim, do projeto da sede da ONU em Nova York, e em inúmeros projetos em países como Argélia, França, Itália, Israel, Líbano. Projetou o Memorial da América Latina, em São Paulo, o Memorial JK, o Sambódromo no Rio de Janeiro. Um dos últimos projetos foi o MAC (Museu de Arte Contemporânea de Niterói). Sobre as curvas de seus projetos, certa vez disse: “O que me chama a atenção é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, nas margens dos rios nas nuvens do céu e nas ondas do mar”.
Em 1945,  filiou-se ao PCB e militou por toda sua vida pela justiça social. Em 1963,  recebeu o “Prêmio Lênin da Paz”, na URSS, e no mesmo ano foi nomeado membro honorário do American Institute of Architeccts.
Com o golpe militar de 1964, Niemeyer e mais 200 professores se afastaram da UnB (Universidade de Brasília), onde davam aulas. Em 1965, foi intimado a depor no DOPS. Pressionado pela ditadura, exilou-se em Paris, onde se estabeleceu por 20 anos, viajando pela Europa, África e Ásia, realizando projetos em vários países, sendo muitos deles gratuitamente, como foi o caso de Argélia onde construiu universidade e prédios. Seu trabalho esteve sempre ligado às causas políticas e sociais. Niemeyer manteve amizade com Fidel Castro, Pablo Neruda, Luís Carlos Prestes, a quem ajudou financeiramente no final da vida, demonstrando que o homem militante comunista tinha a estatura de sua obra.
“Sua luta, sua história, seu compromisso com o marxismo e o socialismo, assim como a sua arte e ciência marcaram indelevelmente a memória do tempo presente”.
Niemeyer foi coerente e fiel aos seus princípios políticos até o fim de sua vida. “Nunca me calei. Nunca ocultei minha posição de comunista. É necessário protestar contra a miséria, as injustiças, as desigualdades. A arquitetura não muda a vida dos pobres. Para mudá-la, é preciso sair às ruas e protestar”, disse ele aos 99 anos.
Para Darcy Ribeiro “Oscar Niemeyer será o único brasileiro a ser lembrado no mundo todo daqui a mil anos”.
O arquiteto trabalhou até os últimos dias de vida e veio a falecer aos 104 anos no Hospital Samaritano,  no Rio de Janeiro, em consequência de complicações renais, no dia 5 de dezembro de 2012. 
 
 


DIA 04 DE DEZEMBRO DE 2011, MORRE O JOGADOR SÓCRATES

 
Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, um dos jogadores mais diferenciados da história do futebol brasileiro; culto e sempre interessado pela vida política do país, Sócrates brilhou dentro e fora dos campos. Além do talento para o esporte, se destacou como líder dos times em que integrou, foi técnico de futebol, comentarista esportivo, músico, ator e produtor teatral. No início da década de 70,  conseguiu  conciliar o esporte com a faculdade de medicina conquistando o título de médico em 1977. Magrão, como era chamado pelos companheiros, realizou 297 jogos, marcou 172 gols e conquistou os títulos paulistas de 79, 82 e 83. Pela seleção brasileira, ele disputou dois mundiais (1982 e 1986).
Nascido no dia 19 de fevereiro de 1954, em Belém (PA), Sócrates, começou a carreira no Botafogo, de Ribeirão, em 1974. Em 1978, foi para o Corinthians. Passou ainda pelo Fiorentina da Itália, Flamengo e Santos.
 Sócrates destacou-se por sua militância política, particularmente nos anos 1980, quando jogava pelo Corinthians. Liderou um movimento pela democratização do futebol e participou do movimento pelas Diretas Já! em 1984. No entanto, o ativismo político de Sócrates extrapolou as fronteiras do Brasil e na Copa de 1986, com cabelos compridos, barba e uma faixa branca amarrada na cabeça,  manifestou sua solidariedade ao povo mexicano que estava sofrendo com um terremoto que atingira o país. Ele clamou por justiça em todo o mundo. As causas humanitárias nunca lhe foram indiferentes.
De maneira coerente com seus ideais de democracia e igualdade de direitos,  Sócrates sempre se mostrou atento  ao bem-estar dos jogadores atuando enquanto  um dos principais idealizadores do movimento Democracia Corintiana (1982– 1984), que reivindicava para os jogadores mais liberdade e mais influência nas decisões administrativas do clube.  Por suas atividades e opiniões políticas, chegou a ser perseguido pela ditadura militar  juntamente com seu colega de equipe e grande amigo, Casagrande. Em 2011, ano de sua morte, Sócrates declarou que gostaria de trabalhar com o presidente venezuelano Hugo Chávez em projetos sociais ligados ao esporte. Foi colunista da revista Carta Capital  e  do jornal  Agora São Paulo , trabalhou também como  comentarista esportivo do programa Cartão Verde da TV Cultura. A vida desse brilhante personagem de nosso futebol foi retratada e reconhecida por diversas entidades dentro e fora do Brasil.
Em  1983 foi eleito o melhor jogador sul-americano do ano e incluído pela FIFA, em 2004, na lista dos 125 melhores jogadores vivos da história. Era também considerado pela mídia especializada (CNNWorld Soccer e Placar) como um dos grandes jogadores de todos os tempos. Em fevereiro de 2015, em seu tradicional quadro “The Joy of Six“, o jornal britânico The Guardian elegeu Sócrates como um dos seis esportistas mais inteligentes da história (ele é o único futebolista da lista). Para entrar nesta lista, o jornal levou em conta currículos que extrapolaram campos e quadras, tendo uma atuação preponderante em suas áreas e fora delas.
 Sócrates morreu no dia 4 de dezembro de 2011. No mesmo dia e mês, em 1983, ele marcou de pênalti contra o Palmeiras, em jogo válido pela semifinal do Paulistão. O placar de Sócrates foi vitorioso na vida e nas quadras.
 

DIA 03 DE DEZEMBRO DE 1932, NASCE HELONEIDA STUDART

 
A conhecida deputada estadual, escritora, jornalista e feminista, nasceu no Ceará em uma família aristocrática e de posses, no dia 3 de dezembro de 1932.  Era sobrinha neta do Barão Studart.  Pelo mérito de grande  historiador do Ceará, deu nome a uma importante avenida da capital cearense. Pelo lado paterno, dos Bezerra de Menezes, seu trisavô foi revolucionário condenado á morte pela participação na Confederação do Equador, movimento libertário ocorrido no nordeste.  Seu tio, um dos abolicionistas mais  destacados do Ceará, também deu nome a outra rua de Fortaleza.  De seu pai, um homem altamente intelectualizado, herdou o gosto pela leitura. Como ela mesma se expressou certa vez: “Fui portanto uma pessoa colocada numa espécie de encruzilhada”.
Desde criança manifestava seu desejo de ser escritora e jornalista, o que era considerado um devaneio de menina pela família burguesa e conservadora. Mas a jovem, de temperamento rebelde e obstinado, aos 16 anos começou a escrever para o jornal O Nordeste.   Aos 18 anos, já com o primeiro romance escrito,  A Primeira Pedra,  veio para o Rio de Janeiro em busca de  publicação. Em 1955 escreveu o segundo romance Diz- me o teu nome, que recebeu dois prêmios, o da Academia Brasileira de Letras e o Orlando Dantas,promovido pelo Diário de Notícias, onde concorreu com escritores conceituados.
Ainda muito jovem trabalhou no SESI onde obteve sucesso com uma tese sobre Favelas.  Daí surgiu o contrato para  trabalhar em uma experiência nova, uma  biblioteca ambulante  nos conjuntos habitacionais da Penha, Bonsucesso, Piedade. Deste contato direto com os trabalhadores foi-se politizando e se sensibilizando com questão social.  Na década de 60 trabalhava no Diário de Notícias e no Jornal Correio da Manhã.  Foi redatora chefe da revista Manchete por dez anos.
Na militância política foi chefe do Sindicato das Entidades Culturais (SENAMBRA), e pela coerência ideológica fazia oposição à ditadura militar instalada em 1964, o que lhe rendeu a destituição do cargo e a prisão em 1969 no presídio São Judas Tadeu. Do período de encarceramento brotaram dois trabalhos denunciando problemas sociais, “Quero meu filho” e “Não Roubarás”, que mais tarde se transformaram em seriados de sucesso na TV Globo. Na sequencia de sua carreira de escritora, destacamos como  denúncia política,  aTrilogia da tortura: “O pardal é um pássaro azul”, publicado em quatro idiomas. “O estandarte da agonia”, inspirado na vida de sua amiga Zuzu Angel. E “Torturador em Romaria”.  Um dos temas mais explorados por Heloneida foi a questão da mulher. Neste campo deixou uma espécie de bíblia do feminismo com a obra “Mulher objeto de cama e mesa”, com 280mil exemplares vendidos.
Prosseguindo nas suas bandeiras de luta, em defesa da democracia política e social, Heloneida foi eleita deputada estadual pelo PMDB em 1978. Reeleita em 1982, assumiu a vice-liderança da bancada de 1979 a 1988, quando participou da fundação do PSDB, partido que deixou em 1988 para fazer parte dos quadros do Partido dos Trabalhadores. NoPT, chegou a ser presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ). Atuou como vice-líder da bancada do PT de 1995 a 1999. Presidiu várias comissões especiais. Conseguiu  a provação de várias leis que beneficiaram as mulheres e aos trabalhadores. Fundou duas importantes instituições para apoio à mulher. O Centro da Mulher Brasileira,primeira entidade feminista do país, e o Centro dos Direitos da Mulher (CEDIM). A deputada além de escritora e jornalista, foi também teatróloga. Implantou um projeto cultural para explicar três lutas do povo brasileiro: Libertas quae sera tamen: “Tiradentes, o Zé de Vila Rica”, “Bárbara do Crato” e “Frei Caneca”. Peças didáticas destinadas aos alunos das escolas públicas,  que ficaram em cartaz por quatro anos. Com o mesmo sucesso a peça “Homem não entra”, ficou em cartaz por cinco anos.
Ela foi indicada como uma das 100 mulheres brasileiras mais importantes do século XX, no livro Mulheres Brasileiras da editora Record. A Fundação de Mulheres Suíçasescolheu 52 brasileiras dentre outras 1000, para concorrerem ao Nobel da Paz, entre elas esteva a cearense Heloneida Studart.

DIA 02 DE DEZEMBRO DE 1968, ATENTADO AO TEATRO OPINIÃO

 
Em tempos de repressão política e ideológica, a cultura e o movimento estudantil,  sempre se tornam  os primeiros alvos daqueles que saem à caça de seus opositores. E de fato a verdadeira função da arte é a função social, o questionamento do status quo e a precipitação do pensamento. O ano de 1968 foi um ano emblemático no que diz respeito à desonesta e covarde guerra que se estabeleceu entre o regime e seus opositores. O Teatro esteve presente de forma assídua durante os “anos de chumbo”,  marcando seu lugar de resistência e desempenhando coerentemente a função social que lhe é intrínseca.
No Brasil,  o teatro engajado politicamente, ou a nova dramaturgia, começou a surgir na década de 50, pelas mãos de autores como Augusto Boal, Oduvaldo Vianna Filho e Gianfrancesco Guarnieri. Graças a esses personagens icônicos que fazem parte da própria história do teatro no Brasil, o terreno começou a ser preparado para que os jovens de 1968 fossem à luta contra a ditadura. Augusto Boal, em 1961, ajudou a consolidar as bases do Teatro Opinião,  aproximando definitivamente  cultura e política.  Com o golpe militar em 1964, autores como Augusto Boal foram covardemente  perseguidos, torturados e exilados. As peças teatrais do Teatro do Oprimido, por exemplo, incitavam claramente o pensamento livre, a revolução e a não aceitação de qualquer autoritarismo.
Nesse contexto de perseguição aos opositores do regime, nasceu o  Comando de Caça aos Comunistas (CCC) em 1964,  organização de  extrema direita  e de caráter paramilitar, oriunda de São Paulo.  Compostos por estudantes da Mackenzie e da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, o CCC esteve presente no Golpe de 1964 e foi liderado por João Marcos Monteiro Flaquer, estudante de direito que, após formado, seguiu carreira na advocacia. Compunham  também o grupo, policiais do DOPS e recebiam treinamento do Exército Brasileiro.
Na noite de 02 de dezembro de 1968O Teatro Opinião, no Rio, onde estava sendo encenado o espetáculo “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores“, de Geraldo Vandré, tem sua bilheteria destruída por uma bomba. O atentado é atribuído ao CCC, que nesse mesmo  ano, já havia feito outros ataques a teatros, como o Galpão, em São Paulo, e o Maison de France, também no Rio. Cinco dias mais tarde, mais uma bomba explodiria no Rio de Janeiro, dessa vez na redação do jornal “Correio da Manhã”. Contando com a cumplicidade dos órgãos de segurança, o CCC continuava a agir impunemente alastrando suas ações por todo país.
No final da década de 1970, o grupo voltou-se contra os movimentos pela anistia e contra integrantes da Igreja Católica que atuavam em defesa dos mais pobres e com discursos considerados de esquerda por defenderem os direitos humanos. Nos últimos anos do processo de abertura política, o CCC cessou progressivamente suas atividades, ainda que existam simpatizantes do grupo até os dias atuais. No momento presente podemos observar claramente resquícios do CCC, presentes nos discursos de ódio, de perseguição aos artistas, às minorias e aos defensores da democracia e da igualdade de direitos.
A escalada da extrema direita,  aliada ao fundamentalismo religioso, configuram no Brasil atual um cenário pavoroso que faz relembrar os anos pré-fascistas, pregando a violência, a intolerância e a censura. A tentativa do atual governo ilegítimo de extinguir o Ministério da Cultura como uma de suas primeiras ações, não escapa ao cronograma dos golpistas. Qualquer semelhança com 1968 não terá sido mera coincidência.
 
 
 


 

DIA 1º DE DEZEMBRO DE 1955, ROSA PARKS É PRESA POR NEGAR ASSENTO A UM HOMEM BRANCO EM ÔNIBUS NOS EUA

 
A lei maior do país, a Constituição de 1776, dos EUA,  reza em seu 14º artigo que “todos os homens são iguais”, mas ser negro e viver no sul dos EUA nos anos 60, era um ato de heroísmo e resistência. Muito semelhante ao regime do apartheid da África do Sul, no Alabama a lei local determinava que os negros só poderiam viajar nos transportes públicos nos últimos lugares. E se estivesse cheio, o negro deveria ceder lugar ao branco.
Mas no dia 1º de dezembro de 1955, Rosa Louise McCauley, conhecida como Rosa Parks, embarcou num ônibus em Montgomery no Alabama, após um dia de trabalho, e sentou-se conforme a lei, nos assentos traseiros. Mas nesse dia o ônibus ficou completamente cheio, e quando um passageiro branco entrou, exigiu que Rosa lhe desse o assento. Rosa se recusou a  ceder o lugar e foi imediatamente presa, por desobedecer a lei, num ato de desobediência civil. Após pagar a fiança foi posta em liberdade. Mais tarde declarou: “Na verdade senti que tinha o direito de ser tratada como qualquer outro passageiro. Havíamos suportado aquele tipo de tratamento por muitos anos”.
Esta viagem de ônibus iria mudar a sua vida. Este fora o primeiro passo para que ela se tornasse a “Mãe dos movimentos negros pelos  direitos civis”, em todos os EUA. Rosa nascida em 4 de fevereiro de 1913, em Detroit, fora obrigada desde cedo a abandonar os estudos e trabalhar como costureira. Mais tarde em Montgomery casou-se com Raymond Parks, membro da NAACP (National Association for the Advancement of colores People), organização que lutava pelos direitos civis dos negros da qual Rosa também se tornou militante. Três dias após o evento foi convocado um boicote aos ônibus de Montgomery.  Um dos líderes do movimento foi o pastor Martim Luther King.
Mais de 50 mil negros usuários de ônibus da cidade e arredores conseguiram manter o boicote por 382 dias. Faziam transporte solidário, iam para o trabalho a pé, de bicicleta e outros.  Os empresários sentiram o impacto do boicote,  pois 70% dos usuários eram negros. Em dezembro de 1956, um ano após a repercussão do fato, a Suprema Corte dos EUA, considerou inconstitucionais as leis de segregação racial no estado do Alabama. O sucesso do boicote fora um de muitos movimentos de luta dos negros por direitos que marcaram a década de 60 nos EUA, e culminaram com a assinatura da Declaração dos Direitos de 1964, e 68, que acabavam com a discriminação no sistema eleitoral, nas fábricas, nos demais locais públicos, pelo menos no sistema judiciário.
Rosa Parks se tornou um ícone da luta pelos direitos civis nos EUA.  Mas pagou por sua atitude, sua militância,  um alto preço. Não conseguia empregos, sofria todo tipo de pressões, incluindo ameaças de morte.  Mudou-se para Virgínia, depois para Detroit. Continuou militando ativamente na causa junto ao Rosa and Raymond Parks Institute, criado por ela 1987. Em 1992 publicou sua autobiografia: Rosa Parks: My Story. Continuou enfrentando série  dificuldades, depois de viúva, chegou a ser despejada de seu prédio, o que causou grande comoção no país e levou o banco a perdoar suas dívidas.
Foi acometida de doenças mentais, mal de Alzheimer e veio a falecer em 24 de agosto de 2005 em seu apartamento. Seu corpo foi velado no Capitólio em Washington, o que representa uma grande honraria. Foi condecorada com a Medalha Presidencial da Liberdade pelo presidente  Bill Clinton, e em 1999 com a Medalha de Ouro do Congresso. Ao completar 50 anos de seu ato de desobediência civi, no dia 1º de dezembro de 2005, o presidente George W. Bush sancionou outra honraria, uma estátua no National Statuary Hall do Capitólio. A estátua foi inaugurada pelo presidente Obama em 2013.
A eleição de um presidente negro, pela primeira vez na história deste país, parecia a inauguração de uma nova era. Os discursos à época causavam a impressão de celebrar  o período  “pós racial”. No entanto, os recentes assassinatos de jovens negros por grupos de defesa da supremacia branca, demonstram que o racismo evoluiu para uma nova forma: não precisam mais de leis de segregação racial. 

DIA 30 DE NOVEMBRO DE 1979, A “NOVEMBRADA” CONFRONTA A DITADURA MILITAR

 
Vivia-se no país o momento da abertura política, apesar de “lenta gradual e segura”. Em agosto de 1978, revogava-se o AI -5. No ano seguinte em agosto de 79 aprovava-se a Lei da Anistia, “pela metade”, os exilados voltavam ao país, o bipartidarismo era extinto, reorganizavam-se os partidos, havia no ar um clima de volta à democracia. O presidente era João Baptista Figueiredo, que “prenderia e arrebentaria” quem fosse contra a abertura. Na sociedade civil, os movimentos se reorganizavam. Em Florianópolis os estudantes da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), protagonizaram uma revolta contra a ditadura militar, conhecida como Novembrada, que explodiu no dia 30 de novembro de 1979, representando um marco na campanha pela democratização do país, e assinalando o enfraquecimento da ditadura.
O governo estadual estava preparado para recepcionar o presidente militar no Palácio Cruz e Souza, na Praça XV de Novembro.  Figueiredo iria descerrar uma placa em homenagem ao Marechal Floriano Peixoto, que dera nome à cidade e visitar uma siderúrgica. Mas o clima era de hostilidade ao chefe da nação. Os estudantes ganharam a simpatia da população florianopolitana. Mais de quatro mil pessoas se concentravam na praça, exibindo faixas de “Abaixo a fome”, “Abaixo a Ditadura”, “Abaixo a exploração”. O presidente, contrariado,  gesticulou na sacada do palácio, e os manifestantes entenderam como gesto obsceno por parte dele. Daí em diante,  a confusão foi generalizada.  Gritaram palavras de ordem contra o presidente, além de muita pancadaria. A placa comemorativa foi destruída.
Nessa manifestação,  juntaram-se aos estudantes, os descendentes das vítimas do massacre da Anhatomirim, no qual Floriano Peixoto havia ordenado o massacre de seus opositores na Revolução Federalista (1893/95). Estavam presentes muitas pessoas da sociedade civil protestando contra a carestia, o desemprego, aumento dos combustíveis. O presidente, tentando um estilo popular, resolveu ainda tomar café no Senadinho, um ponto de encontro bastante tradicional na cidade. Novos protestos e agressões se seguiram. O ministro da Minas e Energia foi jogado ao chão.
 No dia seguinte veio a consequência de um Estado ditador. Sete estudantes foram presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional. A TV Cultura e a TV Barriga Verde, que fizeram a cobertura, tiveram todo o material apreendido.  Novo ato público foi organizado pelos estudantes contra a prisão dos companheiros. Políticos, estudantes, ativistas dos direitos humanos lotaram as escadarias da catedral, exigindo a libertação dos líderes estudantis.  A polícia agiu com a truculência de sempre contra os manifestantes, mas a população não cedeu. E num ato marcado pela emoção e resistência, em frente ao pelotão, cantaram o Hino Nacional.  Após quinze dias os estudantes foram liberados. Sete dias depois, foram julgados e inocentados pela Justiça Militar de Curitiba.
Esse episódio foi contado em um curta-metragem de Eduardo Paredes, com o título “Novembrada”, premiado no Festival de Gramado em 1996. 

DIA 29 DE NOVEMBRO DE 2016, DESASTRE AÉREO DA CHAPECOENSE

 
O vôo CP2933 da companhia boliviana LaMia, entrou para a história da aviação boliviana como uma das maiores tragédias aéreas do país. O vôo transportava a delegação da Chapecoense, e decolou no dia 28 de novembro  de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, rumo a Rionegro, na Colômbia. A aeronave trazia 77 pessoas a bordo, tendo por passageiros, atletas, equipe técnica e diretoria do time brasileiro da Chapecoense, jornalistas e convidados, que iriam a Medellín onde o clube disputaria a primeira partida da Final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional. Entre passageiros e tripulantes, 71 pessoas morreram na queda do avião e seis foram resgatadas com vida.
Entre os mortos, vinte eram jornalistas brasileiros, nove eram dirigentes (incluindo o presidente do clube) dois eram convidados, quatorze eram da comissão técnica (incluindo o treinador e o médico da equipe), dezenove eram jogadores e sete eram tripulantes; dos seis ocupantes que sobreviveram, quatro eram passageiros e dois eram tripulantes. Pelo total de vítimas, esta tragédia torna-se a maior da história com uma delegação esportiva e a maior do jornalismo brasileiro.
Os primeiros sinais da tragédia aconteceram por volta das 22h (horário local), quando a aeronave estava a cerca de 30 quilômetros do aeroporto internacional José María Córdova, quando o piloto comunicou uma emergência elétrica. Porém, outras três aeronaves estavam se aproximando da pista, e uma delas – o vôo FC8170 da Viva Colombia – sofreu um vazamento de combustível e pediu prioridade de pouso. Os controladores, então, colocaram os aviões restantes em espera. O da Chapecoense era o terceiro na fila e começou a voar em círculos.
Na terceira volta, o voo da LaMia voltou a declarar emergência elétrica e pediu para ser passado na frente da fila de espera. Neste momento, a aeronave iniciou, de forma acelerada, o processo de descida. Uma pane elétrica desligou por completo os equipamentos eletrônicos. O último sinal do voo foi recebido quando o avião estava a 2.743 metros de altitude – a altitude mínima a ser mantida na região é de 3.048 metros. Ou seja, o piloto estava voando às cegas, sem noção de altitude. Gravações de áudio mostram que ele pediu que os controladores ajudassem a guiá-lo até a pista.
A queda ocorreu na Serra El Gordo, zona rural do município de La Unión, em Antioquia, no dia 29 de novembro de 2015. A aeronave, que no momento deveria estar pesando por volta de 30 toneladas, bateu uma asa a uma velocidade de aproximadamente 250 km/h de um lado do morro, provavelmente capotou, e deslizou até o vale do outro lado daquele morro. Os destroços foram encontrados a 17 quilômetros do aeroporto. 
Das 71 vítimas fatais, entre passageiros e tripulantes, uma era paraguaia, outra venezuelana, cinco eram bolivianas e o restante era de brasileiros. Um clima de consternação e indignação tomou conta do país. Por todo o mundo os principais jornais imediatamente repercutiram o acidente, bem como as principais redes de notícia de todos os países; logo redes como CNN e BBC e jornais como The New York TimesEl País e Le Monde passaram a cobrir a tragédia.  Já na manhã do dia 29 as redes sociais  manifestavam apoio às vítimas da tragédia, assim como times de futebol de todo o mundo expressavam seu apoio ao time acidentado.
Mas,  afinal,  qual o real motivo da queda da aeronave? Em 26 de dezembro de 2016, 28 dias depois do acidente, a Unidade Administrativa Especial de Aeronáutica Civil da Colômbia, apresentou o relatório preliminar. De acordo com o relatório, não foi identificada uma falha técnica que tivesse causado ou contribuído para o acidente, nem apresentou ato de sabotagem ou tentativa de suicídio. As evidências revelaram que a aeronave sofreu falta total de combustível.
            A  Aerocivil  afirmou que as investigações iriam continuar até abril de 2017, quando apresentaria o relatório final, considerando esta análise preliminar, bem como os aspectos de organização, vigilância e supervisão operacional, planificação do combustível, tomada de decisões e sobrevivência. No entanto, até o final de 2017, o relatório final ainda não foi emitido. 
É de extrema importância ressaltar que a companhia La Mia A LaMia (Línea Aérea Mérida Internacional de Aviacón) é uma pequena companhia aérea de capital venezuelano fundada por Ricardo Albacete Vidal. A companhia foi criada após um acordo com o ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez, a LaMia onde foi registrada como uma companhia de ciência e tecnologia para poder receber o dinheiro de um fundo de investimento de chineses que visava estimular a economia venezuelana.
A LaMia iniciou suas operações em 2010, no estado venezuelano de Mérida. O negócio, no entanto, não deu certo pois os investimentos chineses foram interrompidos em função da prisão de Sam Pa, milionário de Pequim amigo de Albacete.   Em janeiro de 2015, Albacete desistiu de operar na Venezuela, transferiu os aviões para a Bolívia e criou a LaMia Bolívia, em sociedade com Miguel Quiroga, o piloto que comandava o voo da Chapecoense que foi morto no acidente. Nos últimos dois anos, a especialidade da companhia vinha sendoo transporte de times de futebol sul-americanos, por um valor 40% mais barato do que os vôos comerciais, o que naturalmente atraiu o interesse do Clube Chapecoense. Redução de custos que gerou uma dívida eterna para com as vítimas do acidente e seus familiares. Nenhuma assistência que qualquer ordem poderá por fim à dor,  a indignação e a perda das vidas que foram interrompidas de maneira tão precoce.
 

DIA 28 DE NOVEMBRO DE 1820, NASCE FRIEDRICH ENGELS

 
“Sem Friedrich Engels, não teria existido o marxismo… A obra de Engels tanto literária quanto prática, constitui junto com a de Marx um todo orgânico inseparável, que deu sua formulação teórica mais profunda, assim como sua estruturação política mais expressiva, ao desenvolvimento do proletariado”. (Coggiola 1995). Também Lênin afirmara que “desde o dia em que o destino juntou Karl Marx e Engels, a obra a que os dois amigos consagraram toda suas vidas, converteu-se numa obra comum”. Desta parceria de 40 anos resultou basicamente, a sistematização do socialismo científico e a organização do movimento comunista internacional, para a formação de uma nova  sociedade mundial, sem a exploração do homem pelo homem  e das nações pelas nações.
Friedrich Engels nasceu no dia 28 de novembro de 1820, na cidade de Barmem, reino da Prússia, antes da unificação da Alemanha. Filho de uma próspera família industrial, foi encaminhado pelo pai, que lhe traçara o destino de empresário, para uma  fábrica da família  em Manchester. A partir desta experiência direta, com a exploração capitalista dos operários ingleses, declarou: “abandonei a sociedade, os banquetes e a champanha e dediquei minhas horas livres ao contato com verdadeiros operários, tratando da vida real”. E sobre este período produziu segundo Lênin, uma das mais brilhantes obras de análise da situação do proletariado contemporâneo: “A situação da classeoperária na Inglaterra”(1844/45). Considerado o primeiro passo para a crítica comunista embasada na investigação da economia.
Alguns estudiosos apontam a modéstia de Engels para a supervalorização de Marx. Ele próprio se considerava “O segundo violino” da orquestra. Para ele “Marx era um gênio e nós outros, no máximo talentosos”. (notas de Engels -1886). Em diversos campos do conhecimento Engels deixou valiosas contribuições. Quer seja na sociologia urbana e ecologia, ao analisar as condições de mobilidade urbana, a insalubridade das moradias, a poluição do ar, a divisão espacial das cidades por classes sociais. Criticou também as relações de opressão do sexo masculino sobre o feminino nas relações de produção.
De 1845 a 47, Engels viveu em Bruxelas e Paris dedicando-se ao estudo e a militância na Liga dos Comunistas.  Com Marx em 1948, lançou em Paris, o célebre Manifesto Comunista, síntese da doutrina comunista, na qual analisam a evolução da humanidade e concluem, que a história é feita pela luta de classes, resulta do confronto dos interesses antagônicos entre patrões e operários.  E convocam a todos os trabalhadores para a luta armada, única forma de derrubar o capitalismo. “Trabalhadores do mundo, uni-vos”!  Após a tomada do  poder pelo proletariado, haveria o período de transição entre a ordem burguesa e o comunismo, a ditadura do proletariado. Ao final da transição, nasceria a sociedade ideal, sem classes, o comunismo.
 Ambos enfrentaram as barricadas na Revolução de 1848, que insurgiu na França e se espalhou pela Europa. Juntos deram os primeiros passos para a construção de partidos operários de massa, fundando a Associação Internacional dos Trabalhadores, mais conhecida como a Internacional. E um dos resultados práticos desta construção, foi a Comuna de Paris em 1871, o primeiro governo operário da história, e antecipador da ditadura do proletariado, mas, acabou sendo derrotado pelo exército burguês.
Engels conferiu ao marxismo um caráter filosófico, estendeu à natureza a concepção materialista da dialética, enquanto Marx se dedicou mais ao ser social. Após a morte de Marx em 1883, Engels assumiu a tarefa de concluir o segundo e o terceiro volumes de O Capital. Passou ainda a orientar o movimento operário europeu, sem deixar a condição de cientista social. Ambos tiveram o grande mérito ao demonstrar que “o socialismo não é uma invenção de sonhadores, mas o resultado inevitável do desenvolvimento das forças produtivas da sociedade atual”. Resultado que será conquistado pela luta de classes.
 
Em 1895 Friedrich Engels faleceu de câncer na garganta em 1895, em Londres. Após a cremação suas cinzas foram jogadas em Beachy Head, perto de Eastbourne, conforme tinha pedido.

 


DIA 27 DE NOVEMBRO DE 1983, MORRE SENADOR TEOTÔNIO VILELA

 
O “Menestrel de Alagoas”, também conhecido como “Peregrino da Democracia”, “Guerreiro da Paz”, ou “Senador da Diretas”, foi empresário, jornalista, cronista, poeta, boêmio e um político raro. Se auto- declarava liberal, e ganhou a fama de não fazer conchavos, nunca cochichar, sempre dizia “não falem baixo comigo, eu só falo alto”.  Nasceu no interior de Alagoas cidade de Viçosa em maio de 1917, em uma família de latifundiários.  Ao longo da carreira política transitou entre direita e esquerda, liberais e conservadores, mas sempre com ética e patriotismo.
Iniciou sua vida política no partido UDN (União Democrática Nacional), em 1948, fazendo oposição a Getúlio Vargas. Chegou a vice-governador pela mesma sigla. Por ocasião do impasse político provocado pela renúncia de Jânio, posicionou-se pela legalidade defendendo a posse de João Goulart. Mas em 1964, ingressou na ARENA (Aliança Renovadora Nacional), partido de apoio do regime militar.  Logo nos primeiros discursos na tribuna, manifestou sua insatisfação com a ditadura. Mais tarde trocou a ARENA pelo MDB(Movimento Democrático Brasileiro), o único a fazer oposição ao regime. Por ocasião da anistia presidiu a Comissão Mista da Anistia, chegou a levar deputados à celas de presos políticos, tornando-se um ícone da campanha pela “Anistia ampla, geral e irrestrita”.  Ingressou no PMDB, e chegou a dizer que “estava chegando onde sempre esteve”.
No ano de 1980, com a mobilização dos trabalhadores e as históricas greves dos metalúrgicos do ABC paulista, Teotônio participou intensamente e serviu de mediador  dos grevistas quando Lula esteve preso. Posicionando-se ao lado dos metalúrgicos, com presença frequente nas assembleias no estádio de Vila Euclides.  O governo endureceu as negociações, interveio nos sindicatos, prendeu a direção incluindo Lula. Teotônio em discurso exigia solução para a crise e propôs que o presidente Figueiredo recebesse a liderança sindical. A greve perdurou por 41 dias com o apoio da Igreja e da sociedade. Ao final, a direção do sindicato foi liberada, mas destituída de seus cargos.  Conseguiram ganhos políticos significativos.
Teotônio tinha coragem de falar coisas que ninguém tinha. Decepcionado com a “abertura lenta e gradual” do presidente Geisel, assumiu a missão de lutar pela democracia e passou a fazer viagens pelo Brasil atacando a “democracia relativa”, a manutenção do aparelho repressor, à figura do “senador biônico”, entre outras questões.   Participou do“Projeto Brasil”, em cujas propostas estava a extinção do AI-5,  eleições diretas para presidente e governadores, liberdade para organização sindical e estudantil, habeas corpus para crimes políticos, entre outras.
Em 1982, o Menestrel das Alagoas, assim chamado, por causa da música de Milton Nascimento em sua homenagem, retirou-se da vida política devido a um câncer. Em seu discurso deixou claro que “A vida política continua comigo, continuarei lutando prosseguirei na minha vida de velho menestrel, cantando aqui, cantando ali, as minhas pequeninas toadas políticas”.
A doença agravou-se rapidamente e o “Peregrino da Democracia” veio a falecer no dia 27 de novembro de 1983, em Maceió. No mesmo dia que em São Paulo acontecia o primeiro comício das Diretas Já, para as quai  batalhou arduamente.
Teotônio Vilela foi casado com Helena Henrique Brandão Vilela com quem teve sete filhos. Algumas frases de seus retumbantes discursos, merecem ser lembradas.
“A maior tragédia do Brasil não é a dívida externa, nem a dívida interna, é a dívida social”.
“Vivi contemplando a imagem do Zumbi, sinto -lhe os rumos dos sonhos, e o calor do sangue libertário”.
“O sentimento de pátria deve ser restaurado”.

DIA 26 DE NOVEMBRO DE 1911, NASCE MARIO LAGO

 
Grande compositor, ator, escritor, diretor, radialista, jornalista, carioca e boêmio, foi ao longo se sua vida, um militante político  do Partido Comunista Brasileiro.  Sua coerência aos princípios ideológicos de esquerda, lhe renderam muitos constrangimentos além de sete prisões. Apesar das perseguições na ditadura do  Estado Novo e posteriormente na ditadura militar de 64, jamais negou sua fidelidade e comprometimento de um militante político, mantendo sempre sua voz coesa contra qualquer forma de opressão. Como saldo do encarceramento produziu obras como  “O Povo escreve a história nas paredes” e “Primeiro de Abril”.  No final da década de 1998 alinhou-se ao Partido dos Trabalhadores, trabalhando como âncora na campanha presidencial de Luís Inácio Lula da Silva.
O compositor de “Ai que saudades da Amélia” e “Atire a primeira pedra”, (parceria com Ataulfo Alves) Mario Lago, nasceu no dia 26 de novembro de 1911, no Rio de Janeiro. Seu pai Antônio Lago, um maestro, seu avô, um anarquista e o neto, um comunista. Sua mulher, companheira por 40 anos, Zeli, filha de militante comunista. Nasceu no seio da arte e da política. Para custear seus estudos de Direito, no qual de formou, em 1933, escrevia peças de teatro. A primeira peça de sua autoria,“Flores à Acuña”. E foi na faculdade que iniciou sua militância política, no centro acadêmico Cândido de Oliveira.
Como escritor assumiu uma postura de artista popular optando pela linguagem coloquial de fácil acessibilidade ao povo, adequadas ao cotidiano. Objetivava assim tocar o povo, incluindo as questões políticas. Na década de 30 e 40, com intensa frequência nos cafés cariocas o autor foi dando lugar ao compositor.  Compôs mais de 200 músicas até a década de 50.  Com o advento da Televisão, nos anos 50, Mario Lago novamente teve que se reinventar e adaptar-se às técnicas de apresentação e gravação para teledramaturgia. Sua intenção era usar a TV como veículo de ideias progressistas e críticas. Tente impor em prática a ideia de fazer arte para o povo, sobretudo através deste veículo que atingia milhões de pessoas.
 Comunista inveterado, mas dotado de senso crítico, ética e coerência, avaliou sua viagem à URSS em 1957, declarando que pecavam pelo excesso de gravidade e autoritarismo, ao passo que os russos classificaram nossos programas de “burgueses e decadentes”. Lá esteve a convite da rádio Moscou para participar da reestruturação do programa Conversando com o Brasil, do qual participavam artistas e intelectuais brasileiros. A crítica em relação à URSS, não abalou suas convicções ideológicas. Dizia
 
sempre que a atividade política ajudava a manter-se sempre jovem. Para ele “O comunismo sempre foi a juventude do mundo”.
 
Sua trajetória de vida foi contada no enredo “Mario Lago: na rolança do tempo e na vida de histórias” pela escola de samba Acadêmicos de Santa Cruz, em 2001.  Em março de 2006 foi criado um musical em sua homenagem “Ai que saudades do Lago”, que esteve em cartaz no Centro Cultural dos Correios no Rio de Janeiro. Na sua última entrevista disse que “fiz um acordo com o tempo, nem ele me persegue nem eu fujo dele”.
Trabalhou em mais de 38 filmes, teve mais de 57 participações na teledramaturgia e nunca deixou de atuar no teatro.
Em 2002 ano de sua morte, foi criado o Prêmio Mario Lago para homenagear artistas, principalmente atores.  Mario Lago foi o nome escolhido para o assentamento do MST em Ribeirão Preto, São Paulo em 2003.
 
 Sofria de edema pulmonar, esteve internado, e retornou à sua casa na zona sul do Rio de Janeiro, onde faleceu em 30 de maio de 2002. Para o velório, o Teatro João Caetano abriu o palco. Justo ali onde tantas vezes representou em sua longa carreira de sucessos.  

DIA 25 DE NOVEMBRO DE 2016, MORRE FIDEL CASTRO, O REVOLUCIONÁRIO

 
Fidel Alejandro Castro Ruz, 15º presidente de Cuba, o eterno revolucionário, foi um dos mais carismáticos líderes políticos do planeta no século XX, e comandante do país por 48 anos. Sua história e a da revolução se confundem. Figura paternal, “quase imortal”, respeitada, temida e onipresente. Desafiou a 11 presidentes do “império”, sobreviveu a 643 atentados, ao colapso da URSS, aos limites de recursos naturais da ilha,  ao embargo econômico imposto pelos EUA , aos mercenários invasores da Baía dos Porcos em 1961  financiados pelos EUA, à exclusão de seu país da OEA,  à crise dos mísseis soviéticos de 1962, e a reaproximação entre EUA e Cuba.
O comandante que fascinava às massas, aos políticos, aos artistas e às mulheres, manteve sua vida privada longe da publicidade. Sabe-se que foi pai de sete filhos, com três mulheres. A partir de 2006, foi saindo de cena após sofrer hemorragias e se submeter à várias cirurgias delicadas. Com escassas aparições públicas, foi visto pelo povo na ocasião da comemoração de seu 90º aniversário, quando em discurso parecia se despedir, “logo serei como todos os outros, que para todos nossa hora deve chegar”.
O líder que aos 32 anos entrou triunfante em Havana, afastara-se definitivamente do poder em 2006 e fora sucedido por seu irmão Raul, então vice-presidente, teve sua morte anunciada no dia 25 de novembro de 2016. O povo cubano lhe rendeu homenagens por nove dias durante o luto oficial. Suas cinzas percorreram a ilha depois de homenagens e cerimônias na Praça da Revolução, o coração político de Cuba, onde o Comandante fazia seus longos discursos, O cortejo partiu no sentido inverso ao da “caravana da liberdade”, até Santiago de Cuba, de onde partira a revolução vitoriosa em 1959. Na ocasião de sua morte, o Partido dos Trabalhadores  lançou nota de pesar, lembrando que a Revolução Cubana foi inspiração para muitos revolucionários da América Latina.
O Comandante conseguiu sustentar a ilha, militar e economicamente apesar do bloqueio econômico norte americano vigente desde 1962. Não conseguiu todas as vitórias almejadas, como exemplo, a devolução do território de Guantánamo ao seu país natal. Mas conseguiu derrotar o analfabetismo em praticamente um ano. Fez com que os 3000 médicos existentes em Cuba na época da revolução, se multiplicassem por 88mil especialistas, um para cada 640 habitantes. Elevou o país à potência no esporte. Cuba que era o quintal traseiro dos EUA, explorado de todas as formas, passou a ser referência mundial em questões de direitos humanos, no que diz respeito à saúde, educação, e habitação, apesar dos períodos de escassez de gêneros alimentícios industrializados com o fim da URSS.
 Ao derrotar o exército do corrupto Fulgêncio Batista, mantido pelos EUA, a Revolução Cubana através de seu maior líder Fidel Castro, desafiou o gigante na sua escalada para asfixiar Cuba, alterando a geopolítica do Caribe. “Foi com um   destampar da panela de pressão imposta por uma dominação retrógada implacável de interesses de empresas e do imperialismo americano mancomunados como forças oligárquicas e patrimonialistas locais, em diferentes países. Especialmente na América Latina”.
 Fidel Castro morreu num momento em que nossos sonhos de mudar o aqui e agora, vêm sendo atropelados por uma onda de retrocessos a caminho de um fosso sem horizontes. O poder invisível sob a ditadura do capital em detrimento do trabalho, se aliam ao autoritarismo, fundamentalismo, xenofobia, racismo e fascismo.
Mas nossos sonhos continuam vivos. Precisamos de coragem e determinação, para ousar. Ousar lutar, ousar vencer, pois como nos mostrou o Comandante “um outro mundo é ´possível”. “Ideias não precisam de armas, se elas podem convencer as massas”. (Fidel Castro).
¡Hasta la victoria! siempre !

DIA 24 DE NOVEMBRO DE 1966, MORRE O JORNALISTA PEDRO MOTTA LIMA



        
Jornalista, editor e escritor, o mineiro da cidade de Viçosa, nascido em dezembro de 1898, deixou o seu recado no exercício do jornalismo profissional e na militância política pela democracia, e pelo respeito à liberdade de expressão. Comunista assumido, fundou e dirigiu jornais que deram voz ao Partido Comunista Brasileiro, aos movimentos políticos e sociais que enfrentaram a ditadura, o imperialismo e o fascismo.
Na década de 1920, em pleno domínio da oligarquia cafeeira, apoiou o movimento Tenentista,  através do jornal O Imparcial. Sua militância jornalística levou-o a fundar outros jornais como “A Esquerda” e  “A Batalha”, nesse último tentou aproximar o tenentismo, movimento apoiado pelas classes médias, do movimento operário dentro da atuação da ANL (Aliança Nacional Libertadora). Defendia insistentemente o retorno do tenente Luís Carlos Prestes,  exilado em Buenos Aires.
No ano de 1935, fundou e dirigiu o jornal “A Manhã”, que se tornou um órgão semi- oficial da ANL, contra ponto da grande imprensa, que hostilizava o movimento. Entusiasmado com o Levante Comunista de 1935, chamado pejorativamente de Intentona Comunista, chegou a publicar a “Edição da Vitória”, quando eclodiu a Insurreição.  O jornal contou com a participação de nomes ilustres como Jorge Amado, Di Cavalcanti, Rubem Braga, Anísio Teixeira, Álvaro Moreira, entre muitos outros militantes das lutas sociais e democráticas com ideologia de esquerda.
A Manhã” era um matutino que circulava no Rio de Janeiro, priorizando notícias sobre as manifestações operárias e anti-fascistas ocorridas pelo mundo. Trazia relatórios dos acontecimentos na área sindical, destacando greves, assembléias, campanhas salariais. Divulgava atividades da Frente Única Parlamentar Anti-integralista, da União dos Negros no Brasil, União Feminista do Brasil, Centro de Defesa da Cultura Popular. Em 5 de julho de 1935 publicou um importante manifesto de Luís Carlos Prestes, conclamando o povo à insurreição contra o governo de Vargas. No dia 11 de julho, a ANL foi fechada. O jornal continuou circulando e culpava aos “agentes internacionais” (família Guinle, Diários de Assis Chateaubriand, Roberto Simonsen e o British Intelligence Service) pela responsabilidade no fechamento da ANL.
Em setembro,  o jornal “A Manhã” lançou um suplemento dominical para valorizar a cultura nacional e combater os estrangeirismos;  promovia concursos de escola de samba, cobria desfiles. Até outubro de 1935, o diário era um dos mais vendidos na capital. A partir desta data, o jornalismo de Pedro Motta intensificou os ataques ao governo de Vargas, chamando-o de fascista. A repressão varguista foi cruel, após Levante Comunista.  Toda a imprensa foi posta sob censura. A sede do jornal foi invadida pela polícia e a edição que conclamaria o povo a aderir ao movimento, foi toda destruída antes de sua circulação. Lamentavelmente,  “A Manhã” teve vida curta.  O jornalista Pedro Motta foi preso e exilou-se na Argentina.
Em 1937 foi julgado à revelia por tribunal de Segurança Nacional. Em 1943, antes da anistia do período da redemocratização, Motta Lima foi indultado por Vargas, retornando ao país.
Seguiu sua carreira jornalística, trabalhou no Correio da Manhã; em O Globo escrevia um suplemento dominical, “O Expedicionário”, destinado a facilitar contatos entre familiares dos expedicionários brasileiros. Com o fim do Estado Novo e o retorno do PCB à legalidade, passou a dirigir o jornal Tribuna Popular, no qual divulgava atuações dos deputados eleitos pelo PCB, mas foi fechado em 47,quando do cancelamento do registro do partido. Em 1948 passou a fazer parte do jornal Imprensa
O jornalista faleceu em desastre aéreo no dia 23 de novembro de 1966 na antiga Thecoslováquia.
Deixou alguns romances escritos como Coronel Lousada (1925), Bruhaha (1932), premiado  pela ABL (Academia brasileira de Letras) e Idade da Pedra (1950).

DIA 23 DE NOVEMBRO DE 1990, MORRE O ESCRITOR CAIO PRADO JUNIOR

 
 
Escritor, editor, historiador marxista, um dos mais importantes intelectuais brasileiros. Suas  obras são essenciais para a compreensão da formação histórica do país e indispensáveis para os que pretendem contribuir para a construção de um país democrático.  Filho de uma abastada família paulista, teve acesso à uma formação intelectual de alto nível. Bacharel em Direito, chegou a exercer a advocacia, mas na década de 20 e 30 iniciou sua militância política. Participou ativamente da Revolução de 1930; e por volta de 1933,  já filiado ao Partido Comunista Brasileiro, viajou à URSS, de onde retornou encantado com o socialismo, e disposto a aplicar o instrumental teórico marxista à realidade brasileira (Evolução Política do Brasil).
Caio Prado manteve-se sempre um militante comunista, mesmo com a repressão que o governo varguista desencadeou sobre os comunistas após o Levante Comunista de 1935, no qual ele atuou como vice-presidente da ANL (Aliança Nacional Libertadora). Ficou preso de 1935 a 37, quando passou a escrever textos esboçando ideias que viriam a ser um dos seus principais livros, A Formação do Brasil Contemporâneo (1942), que lhe deu grande prestígio intelectual. Viveu na Europa de 1937 a 39 como auto-exílio.
 No final da década de 40, afastou-se um pouco do partido e dedicou-se à sua editora, A Editora Brasiliense, e a Gráfica Urupês, publicando textos e análises na revista Civilização Brasileira, cuja pauta destacava a luta da classe trabalhadora, a Questão Agrária, entre outras.  Seu pensamento é bastante instigante e reflexivo. Estudou o Brasil de dentro, sem importar esquemas prontos. Buscou nas origens o sentido da formação do Brasil e o sentido da colonização, apontando para o fato da colônia servir ao mercado europeu, e ser um capítulo do comércio europeu, sem  interesse no mercado interno. Nos seus escritos não usava uma terminologia estritamente marxista, como exemplo, o modo de produção, chave de tudo para os marxistas ortodoxos. Partiu de uma análise estrutural comercial, daí passar a ser chamado de circulacionista.
No clima de pós IIª Guerra Mundial, libertação de Prestes, dedicou-se ativamente à reorganização do partido.  E foi eleito deputado constituinte em 1947, mas perdeu o mandato quando o registro do PCB foi cassado no período chamado redemocratização.  A experiência política levou-o a formar uma concepção negativa da classe política brasileira. Fez críticas a ela, considerando-a de baixo nível político, com discursos empolados, mas voltados para a manutenção dos seus privilégios. Para ele,  havia uma relação proporcional entre a miséria moral e cultural da população brasileira e o baixo nível político da classe burguesa nacional, de mentalidade colonizada. Suas teorias polêmicas levaram-no   a um certo isolamento. Tentou por duas vezes ser professor da USP e não conseguiu.
Com o golpe militar de 1964, Caio Prado, teve  novamente suas ideias cerceadas. Foi detido e submetido a interrogatórios frequentes, até que em 1968 foi indiciado por um tribunal militar por incitar a subversão da ordem. Em 1970, foi  julgado e condenado a quatro anos de prisão e detido no Presídio Tiradentes. Em 1971, amargou o suicídio de seu filho. Em 1984 apoiou a campanha das Diretas Já. Desde 1987, encontrava-se debilitado pelo Mal de Alzheimer, vindo a falecer no dia 23 de novembro de 1990, aos 83 anos.  
No sentido geral de sua obra, que foi por algum tempo esquecida, e vem sendo reavaliada, Prado deixou claro que “somos  um país periférico, capaz de acompanhar os ritmos da civilização capitalista em muitas áreas, mas ainda incapaz de mudar a forma subalterna de nossa inserção no mundo globalizado”.
A obra de Caio Prado permanece atual. E após o golpe em  2016, atualíssima no que diz respeito à  subserviência do país ao complexo financeiro empresarial global, cuja ideologia é a supremacia do mercado e do lucro.
 
 


DIA 22 DE NOVEMBRO DE 1910, ECLODE A REVOLTA DA CHIBATA NO RIO DE JANEIRO

 
A história entrara no século XX, o mundo caminhava a largos passos para as benesses tecnológicas da IIª Revolução Industrial, a jovem República brasileira começava a traçar planos para o crescimento do país, a Marinha modernizava sua frota com dois poderosos  e modernos  encouraçados, o  Minas Gerais e o São Paulo, e os  marinheiros negros e mulatos ainda eram castigados com as chibatadas pela elite branca na Marinha do Brasil. De forma poética, a música  de Aldir Blanc e João Bosco busca o resgate de uma das muitas de nossas lutas sociais, ressaltando o seu significado histórico e elucidando os motivos desta revolta que eclodiu no Rio de Janeiro no dia 22 de novembro de 1910, liderada pelo marinheiro João Cândido.
“Rubras cascatas
Jorravam das costas dos negros
Entre cantos e chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão …
Glória todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais”.
A Marinha no Brasil era marcada por profunda desigualdade social. A “marujada” era formada em sua maioria por negros pobres e analfabetos, muitas vezes obrigados a se alistar, e forçados a embarcar, pois era uma das poucas alternativas que restavam àqueles filhos de ex-escravos na recém criada República brasileira. O oficialato era composto por pessoas oriundas da aristocracia,  ligadas às oligarquias regionais.  O cenário do racismo era perfeitamente reproduzido dentro da marinha. 
 O uso da chibata, uma espécie de “pelourinho marítimo” era uma  herança do período escravocrata, e sua permanência simbolizava não só a dor física, mas objetivava marcar a alma dos marinheiros negros, reforçando a sua “inferioridade”.   Além dos castigos físicos,  a alimentação era péssima e os soldos baixíssimos. A humilhação e o clima de revolta atingiram o ápice quando um marinheiro, Marcelino Rodrigues,  levou 250 chibatadas por uma insubordinação.
Os navios de guerra ancorados no porto, sob o controle dos marinheiros revoltados,  ameaçaram bombardear a cidade, caso as exigências não fossem aceitas. O episódio faz lembrar a revolta do encouraçado Potemkin,  na Rússia de 1905.  O governo e as elites não acreditavam que os “rudes” marinheiros conseguissem manobrar os modernos navios. Ao perceberem a perícia e a habilidade dos marujos, foram obrigados a negociar com os revoltosos. João Cândido Felisberto, um dos principais líderes da revolta, por sua habilidade, teve a oportunidade de viajar embarcado por vários países da Europa e travar contatos com outras marinhas. Uma das que mais lhe influenciou, na conscientização de luta por direitos,  foi o contato com os militantes sindicalistas ingleses, e pôde perceber que as condições dos marinheiros no Brasil, era uma das piores do mundo.
 O número de marinheiros amotinados passava de 2.400, mais de quarenta canhões dos quatro navios de guerra, apontados para a capital da República, o que fazia deste movimento uma das maiores revoltas sociais representativas do movimento negro, que a história, escrita pelos dominadores, tentou apagar.
O presidente,  à época, Hermes da Fonseca,  prometeu atender a todas reivindicações, inclusive a anistia. Mas, evidentemente não cumpriu. Grande parte dos marinheiros foi presa, torturada e morta. Muitos foram sufocados com cal nos porões dos navios. Outra parte foi mandada para trabalhos forçados nos seringais da Amazônia. João Cândido sobreviveu, mas foi perseguido a vida toda. Foi considerado um desequilibrado e chegou a ser internado em manicômio, uma das formas de descontruir a revolta. Foi absolvido das acusações de conspiração em 1912, mas foi expulso da marinha. Conseguiu sobreviver como pescador e vendedor.
Somente em 2008, no governo LULA, foi concedida a anistia aos marinheiros e finalmente João Cândido  passou a ter um monumento que deixou de ser “as pedras pisadas do cais”. Uma estátua foi inaugurada na região do porto na Praça XV.

DIA 21 DE NOVEMBRO DE 1965, MORRE ASTROJILDO PEREIRA

 
Intelectual, escritor, editor e jornalista, amante e estudioso da obra machadiana, na busca da compreensão da formação nacional. Inicialmente anarquista, optou pelo comunismo após a Revolução Bolchevique de 1917. Foi um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro, a sua segunda paixão, pois a primeira era a obra de Machado de Assis. Definia-se como “intransigente libertário”. Firme na militância política, lutou bravamente pela estruturação, legitimidade e direção do PCB, tornando-se o seu primeiro historiador. Com o mesmo espírito combativo dedicou-se ao jornalismo, atividade em que atuou a maior parte de sua vida.
Ainda muito jovem iniciou sua militância em organizações operárias anarquistas, liderando a organização do II Congresso Operário Brasileiro. Participou  de uma frustrada insurreição anarquista, o que lhe rendeu quase  um ano de prisão. Em 1922, no Congresso da fundação do Partido Comunista Brasileiro, foi eleito para secretário geral. Em 1924, viajou para a URSS como seu representante. Foi ele o encarregado do partido para levar ao jovem tenente Luís Carlos Prestes a literatura marxista, quando este esteve exilado na Bolívia após o fracasso da Coluna Prestes.  Em Moscou foi eleito para o Comitê Executivo da Internacional Comunista. Retorna ao Brasil em 1930 com a missão de “proletarizar” o PCB, ou seja, substituir intelectuais por operários na direção do partido.  Ele próprio acabou perdendo a secretaria do partido, do qual se desligou mais tarde.
Como pensador e convicto nacionalista, foi o pioneiro na aplicação das teorias marxistas para a realidade brasileira. Seu foco era sobretudo a questão nacional popular e na literatura foi fundamentando a teoria da revolução brasileira, casando o internacionalismo com a realidade nacional.  Após o desligamento do partido, sendo um crítico literário bastante reconhecido, fez do jornalismo sua expressão da ideologia de esquerda.  Chegou a doar recursos para a fundação do jornal A Classe Operária, órgão oficial do Partido.
Entre os textos marxistas deixados pelo militante, percebe-se a tentativa de encontrar na formação histórica e política brasileira os fundamentos de um marxismo nacional. Segundo Astrojildo, o marxismo concebido numa visão ética da política e da sociedade, se conciliaria à realidade brasileira pela sua própria sensibilidade aos temas da opressão da injustiça presentes na formação da sociedade brasileira, e  consequentemente superaria estas questões. Assim o marxismo brasileiro seria o herdeiro do movimento abolicionista. Para ele os clubes abolicionistas chamados de “associações comunistas”, abriam um cenário de possibilidades de dissolução da ordem estabelecida. Se a abolição como afirmava André Rebouças havia resolvido metade do problema, caberia ao socialismo no país lutar pela libertação do povo brasileiro ainda escravo.
O velho comunista e revolucionário de sempre, ao que parece não suportou o golpe militar de 1964. Foi obrigado a abandonar sua casa no bairro do Rio Comprido para sobreviver na clandestinidade.  Após dois meses, foi indiciado e compareceu a um comando militar, onde foi preso e submetido a longos interrogatórios. Durante três meses de prisão, houve campanhas intensas pela sua libertação, e  através de habeas corpus foi posto em liberdade em janeiro de 1965.
Com a saúde já debilitada, seu coração deixou de bater. E finamente no dia 21 de novembro de 1965, veio a falecer.
Em 1962 em São Paulo foi fundado o Instituto Astrojildo Pereira (IAP), para ser um espaço de convergência dos diferentes setores da política e da intelectualidade sob a orientação socialista.  No ano 2000, o Partido Popular Socialista criou a Fundação Astrojildo Pereira (FAP), para preservar a memória do revolucionário, bem como  de tantos outros comunistas históricos brasileiros.

DIA 20 DE NOVEMBRO DE 2004, MORRE O ECONOMISTA CELSO FURTADO

 
Celso Monteiro Furtado, nascido em Pombal, na Paraíba, em 1936, foi  arquiteto do pensamento social e econômico da contemporaneidade, deixou sua marca indelével na história econômica do Brasil, (Formação Econômica do Brasil, 1959).  Produziu uma obra indispensável para o estudo das ciências econômicas e sociais   na América Latina. O intelectual não se limitou à teoria, deixou a práxis em vários cargos que ocupou na administração pública.  Seus estudos acadêmicos resultaram na criação da SUDENE, da qual foi o primeiro superintendente (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) e partícipe do Plano de Metas (50 anos em 5), e diretor do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento), no governo democrático do presidente Juscelino Kubitschek. Foi Ministro do Planejamento no governo João Goulart e Ministro da Cultura no governo José Sarney, depois da anistia.
Bacharel em Direito pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) em 1944. Foi diretor da Divisão de Desenvolvimento da CEPAL (Comissão Econômica para Desenvolvimento da América Latina, 1949/1957), órgão da ONU para o progresso econômico dos países da América Latina. No exercício do cargo, cumpriu missões em países como Chile, Argentina, Venezuela, Equador e México. Doutorou-se em Economia pela Sorbonne (1944), com a tese “A economia colonial no Brasil nos séculos XVII e XVII”.
Uma contribuição específica de Furtado, que ficou conhecida como teoria estruturalista, foi a análise das relações colônias / metrópoles, países desenvolvidos/ subdesenvolvidos, centro/periferia. Nela chamou atenção entre outros problemas,  para a influência cultural, como por exemplo, os padrões de consumo das classes dominantes latino americanas,  que se constituem  em um fator de perpetuação do subdesenvolvimento.
Celso Furtado (Formação Econômica do Brasil, 1959), peça chave para a análise da realidade sócio econômica brasileira, como Caio Prado Jr. ( Formação do BrasilContemporâneo, 1942), e Antônio Cândido ( Formação da Literatura Brasileira), analisam como se formaram o Estado, a economia a sociedade e a literatura no Brasil. Furtado chama a atenção para o peso da economia colonial  voltada para o mercado externo, como abastecedora da metrópole com a mão de obra escrava. Propõe em suma que a economia privilegie o mercado interno, não mais o externo, que se forme verdadeiramente a nação brasileira. Apontou medidas que o Brasil deveria tomar para que se tornasse uma economia industrial mundial. Para Guido Mantega, ex-ministro da fazenda dos governos petistas, Furtado conseguiu como nenhum outro “definir um método analítico e amarrar com tanta pertinência os determinantes da economia brasileira”.
Com o golpe militar de 1964, o economista intelectual tornou-se vítima da fúria obscurantista que assolou o país, e teve seus direitos políticos cassados.  Exilou-se no Chile, mais tarde nos EUA, e França, onde viveu por 20 anos e viajou pelo mundo como professor das Nações Unidas. Em 1985 foi nomeado embaixador do Brasil junto à Comunidade Econômica Europeia, mudando-se para Bruxelas.
Em 1997 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Em 2003 foi indicado para o prêmio Nobel de Economia.
Nos anos 80 confessou-se estarrecido com a degradação econômica do país na era neoliberal capitaneada por Fernando Henrique Cardoso.  Em 2003 apoiou o governo de LULA, mas recusou convite para reorganizar a SUDENE.  Projetou no Estado sua paixão por uma sociedade mais justa, “acalentou a esperança marxista de arrancar da sociedade os parâmetros de uma razão capaz de se encarnar no Estado”.
Faleceu no Rio de Janeiro em 20 de novembro de 2004.

DIA 19 DE NOVEMBRO DE 1936, NASCE O ATOR FRANCISCO MILANI

 
 
O ator Francisco Ferreira Milani, mais conhecido como  humorista, foi também dublador, roteirista, político de esquerda e caminhoneiro. Nasceu em São Paulo no dia 19 de novembro de 1936. Começou muito cedo na carreira artística, trabalhando na rádio no interior paulista desde os 13 anos de idade. Passou também pela extinta TV Tupi e TV Cultura.  Pelas mãos do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, foi trabalhar no CPC (Centro Popular de Cultura), depois na UNE (União Nacional dos Estudantes). Após o golpe de 1964, passou a ser perseguido;  então abandonou a carreira artística, saindo de São Paulo.  Neste período trabalhou na profissão de  caminhoneiro até 1973, quando retornou ao Rio de Janeiro e à carreira artística.
Em 1992,  foi eleito para vereador do Rio de Janeiro pelo PCB.  Foi de sua autoria a lei que criou o Riofilme. Por ocasião do IX Congresso Nacional do PCB, devido às  divergências ideológicas que levaram a “rachas” em nível nacional, optou pela desfiliação, bem como vários outros militantes. Em 1995 filiou-se ao PC do B, no qual foi candidato a vice-prefeito na chapa da petista Benedita da Silva, nas eleições de 2000, mas foram derrotados. Foi sempre elogiado pelos companheiros de partido, como Jandira Feghali, que se refere a ele como “uma pessoa muito coerente e generosa. Nunca vi na vida ele mudar suas opiniões por nenhum espaço pessoal”. Segundo o próprio “não vale a pena levar a vida pensando em bens materiais ou em si próprio. Quanto mais você divide, mais feliz você é… e também não vou levar o dia a dia a sério demais, é preciso por humor em todas as situações”.
Na carreira artística, a veia humorística sempre foi o traço mais forte, criando sempre empatia com o público. Um dos personagens marcantes foi o Saraiva no programa Zorra Total. Dirigiu o programa Viva o Gordo, estrelado por Jô Soares, que  foi ao ar de 1981 a 1987. Trabalhou como narrador de programas como, Casseta e Planeta, Urgente! Todos na rede Globo.  Interpretou vários papéis no cinema nacional, como no filme Terra em Transe de Glauber Rocha, Eles não usam Black-tie deLeon Hirszman, O Coronel e o Lobisomen, dirigido por Maurício Farias. No teatro atuou em textos importantes como Barrela do dramaturgo  Plínio Marcos, A Morte de um Caixeiro Viajante, de Artur Miller. Atuou também em novelas antigas  como Irmãos CoragemSelva de Pedra, Barriga de Aluguel,  Elas por elas.
Foi casado duas vezes, sendo uma delas com a atriz Joana Fromm. Pai de três filhos. Depois de 50 anos de carreira, o ator cuja saúde estava debilitada em consequência de um câncer, veio a falecer no Rio de Janeiro aos 67 anos. 

DIA 18 DE NOVEMBRO DE 2011, CRIAÇÃO DA COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE

 
 
          “Conhecer a história é condição imprescindível para conhecê-la melhor. A verdade não significa revanchismo. A verdade liberta todos daquilo que ficou por dizer”. Dilma Rousseff.
Finalmente,  após três décadas do fim da ditadura militar, o Brasil tenta reescrever sua triste e amarga história, que foi ocultada dos registros oficiais, dos livros e da memória social. Esta Comissão chegou bastante atrasada em nosso país, quando países como África do Sul, Argentina, Chile e Peru, já esclareceram tais questões e até efetuaram prisões após os trabalhos. Para apurar “as graves violações de direitos humanos, ocorridos entre 18 de setembro de 1946 a 5 de outubro de 1988”, foi instituída em maio de 2011 a lei 12528 e sancionada em 18 de novembro de 2011 pela presidenta Dilma Rousseff. “A fim de efetivar o direito à memória à verdade histórica e promover a reconciliação nacional, promover o esclarecimento dos casos de torturas, mortes, desparecimentos forçados, ocultação de cadáveres… identificar e tornar públicos os locais as estruturas … relacionadas à violação dos direitos humanos… encomendar adoção de medidas e políticas públicas para prevenir a violação dos direitos humanos… colaborar para que seja prestada assistência às vítimas”…  
 Embora seja algo novo no nosso campo jurídico, ela foi o resultado de uma longa e incansável luta de familiares vitimados pela ditadura  e de grupos de defesa dos direitos humanos.   Grande mérito da Comissão foi colocar em pauta para a sociedade a questão da ditadura e da violação dos direitos humanos, buscando descobrir a verdade dos fatos de forma imparcial,  por representantes da sociedade e não representantes do governo. A Comissão contou, inicialmente, com sete membros entre professores e juristas renomados, que tiveram o acesso aos arquivos mantidos sob sigilo e depoimentos de agentes diretamente envolvidos em ações de violação dos direitos humanos e contrárias à democracia brasileira. Teve a missão de investigar crimes de morte e circunstâncias desconhecidas para prevenir atos futuros, mas não teve caráter punitivo. Inclusive, o STF decidiu por 7 votos  a 2, que não seria alterada a lei da Anistia (1979), que impede a responsabilização penal por crimes por crimes políticos ocorridos durante a ditadura militar (1964/1985).
Além de passar a limpo este nefasto período da ditadura militar, a CNV formulou 29 recomendações para que o Estado possa reparar simbólica, financeira e psicologicamente às vítimas. Alguns exemplos das recomendações são: o prosseguimento da abertura dos arquivos da ditadura, estabelecimento de órgão permanente para dar seguimento às ações recomendadas, localização, identificação dos restos mortais para sepultamento digno, desmilitarização das polícias militares estaduais, revogação da lei de segurança nacional, garantia de atendimento médico e psicossocial ás vítimas, dignificação do sistema prisional, criação de mecanismos de combate à tortura, reconhecimento pelas forças armadas de sua responsabilidade institucional pelas graves violações dos direitos humanos durante a ditadura militar, forçados, entre outras.
Apesar das críticas de setores da direita e da esquerda, após dois anos e sete meses de trabalhos, em 10 de dezembro de 2014Dia Internacional dos Direitos Humanos, a CNV entregou à presidenta Dilma Rousseff, com 4328 páginas, o relatório final dos trabalhos,   que concluiu que a prática de detenções ilegais e arbitrárias, tortura, violência sexual, execuções, desparecimentos forçados, e ocultação de cadáveres, resultou de uma política estatal, contra a população civil , caracterizando-se como crimes contra a humanidade. Colheram 1121 depoimentos, sendo 132 dos agentes públicos, realizaram  80 audiências públicas, percorreram  o país de norte a sul.  Foram identificados 434 casos de mortes e desaparecimentos Enumeraram  a participação de 377agentes públicos acusados de crimes contra os direitos humanos, 6591 militares foram perseguidos pelos órgãos de repressão da ditadura.
“O Brasil merece a verdade, as novas gerações merecem a verdade e,  sobretudo,  merecem a verdade factual aqueles que perderam amigos, e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia”. Dilma Rousseff na abertura dos trabalhos da Comissão.

DIA 17 DE NOVEMBRO DE 2000, É ASSASSINADO SEBASTIÃO MAIA, LÍDER DO MST

 
No Paraná os conflitos com mortes no campo passavam de mil, apenas no curto  período do final da década de 90 a 2000. No governo federal vigorava a tutela do neoliberalismo, na presidência de Fernando Henrique Cardoso, e no estado, a permissividade de Jaime Lerner.  O Paraná vivia a marca da violência, a impunidade das milícias ruralistas, as arbitrariedades dos despejos violentos e ilegais, feito durante a madrugada, separando pais de filhos, torturas e assassinatos dos trabalhadores rurais sem -terras. Predominava a ordem do latifúndio no rastro do colonialismo destruidor. Investigações da polícia apontaram para ligações das milícias com o contrabando internacional de armas.  A Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA), condenou o Brasil duas vezes por violação de direitos das vítimas e seus familiares, entre eles os direitos judiciais e proteção judicial. O relatório foi emitido em 2009 e incluído na reunião anual da OEA em Honduras (2011).
Seis anos após o assassinato do líder sem terras, Sebastião Maia, ocorrido no dia 17 de novembro de 2000, pela  primeira vez na história do Paraná, ocorreu o julgamento de  um pistoleiro acusado de matar um agricultor sem terras. Era a terceira tentativa de realização do julgamento, apesar do empenho da Comissão Pastoral da terra (CPT) e doMST. Esperava-se um julgamento histórico, que fizesse justiça, desse fim às impunidades dos crimes contra os sem terras.  No entanto, o júri presidido pela juíza Elizabeth Khater, foi contrário às provas, saturado de vícios, com a aceitação de testemunha que não estava arrolada no processo, e revoltantemente, o acusado José Luís Carneiro foi absolvido por unanimidade.
O assassinato de Tiãozinho Maia como era conhecido, ocorreu próximo à fazenda Água Prata em Querência do Norte, no noroeste do Paraná, em uma emboscada na qual o trabalhador foi morto com vários tiros na cabeça e seu colega que escapou com vida, prestou depoimentos declarando ter visto o assassino. A família de Tiãozinho Maia havia sido despejada da Fazenda Rio Novo, no município de Querência do Norte, dezoito meses antes de sua morte, e  D. Adelina Ventura, sua mulher, havia sido torturada pela polícia. O horror que ela viveu nas mãos da polícia, foi tema de uma reportagem premiada, publicada pela revista Caros Amigos (nº 27, 06/1999). A morte do líder do MST era um crime anunciado.
 Neste período ocorria paralelamente ao aumento da repressão no campo, uma forte atuação do MST, pela Reforma Agrária, diante da omissão do Estado frente a má  distribuição de terras. A gravidade da situação levou entidades como a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), tentarem várias negociações com os representantes do governo, mas foram frustradas. A certeza da impunidade só faz aumentar a violência no campo, pois o poder judiciário se mostra aliado ao latifúndio a ao agronegócio. Prova isto, a lentidão para julgar os crimes contra os trabalhadores sem terras, e a rapidez em atender às demandas dos proprietários para expedir liminares, reintegração de posse e outras demandas dos proprietários. Contra os trabalhadores rurais não só poder judiciário, mas sobretudo o executivo na figura do governante ilegítimo e golpista, que reduziu o orçamento da Reforma Agrária de 460 milhões em 2015 para 122milhoes em 2016,  além da suspensão de programas de financiamento, alterações na legislação, e muito mais, segundo dados do Portal Transparência. Medidas enviadas para votação na Câmara, visam destruir os mecanismos construídos há décadas no Brasil, para a Reforma Agrária, marcando as relações promíscuas deste governo com o agronegócio.  A cada dia o preço do golpe fica mais caro para os brasileiros.
 
 


DIA 16 DE NOVEMBRO DE 1922, NASCE JOSÉ SARAMAGO

 
 
Na pequena aldeia de Azinhaga, província de Ribatejo, região central de Portugal, nascia de uma família de agricultores e pais analfabetos, em 16 de novembro de 1922, um dos maiores expoentes da literatura contemporânea e, possivelmente,  o maior nome da literatura portuguesa, José de Souza Saramago.  Aos dois anos de idade a família mudava-se para Lisboa, mas dificuldades continuavam. Aos 12 anos, José foi obrigado a abandonar os estudos secundários pela falta de recursos dos pais. Mais tarde após   cursar a escola técnica começou a trabalhar como serralheiro mecânico.
Fascinado pelos livros, frequentava a Biblioteca Municipal no horário noturno. Aos 25 anos , publicava seu primeiro romance, Terra do Pecado (1947). No espaço de cinco anos, depois de publicar dois livros de poesia, muda sua produção literária para a jornalística, passando a diretor adjunto do Diário de Notícias e depois Diário de Lisboa, como comentarista político, mas teve sua liberdade de expressão cerceada ao perder o cargo pela interferência dos militares, pois representava um dos excessos da Revolução dos Cravos (1974).  Foi tradutor, contista, poeta, dramaturgo, editor. A partir de 1976 resolveu a dedicar-se à literatura, no gênero do romance.
Em 1977,  publicou “Manual de Pintura e Caligrafia”, depois vieram os contos de “Objeto Quase” (1978), a peça “A Noite”, em 1979. Mas o reconhecimento mundial só veio depois de “Memorial do Convento” em 1982, que junto com “A Morte de Ricardo Reis”, foram premiados. Uma de suas obras mais polêmicas foi “Evangelho segundo Jesus”(1991), onde ao humanizar  a figura de Jesus, provocou a ira da Igreja Católica, sendo proibido em Portugal e boicotada sua  indicação ao Prêmio Literário  Europeu. A relação com a Igreja ficou mais ácida ao declarar que “A Bíblia é um manual de maus costumes”, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”. Essa polêmica levou o escritor ao auto-exílio, retirando-se do país.
Passou a residir com a companheira Pilar del Rio na ilha de Lanzarote,  no arquipélago espanhol das Canárias, onde permaneceu até sua morte em 18 de junho de 2010. Para José Manuel Pureza, um dos líderes da esquerda portuguesa, Saramago foi sempre “um escritor insubmisso no estilo e nas causas, um homem das letras, que através dessa ferramenta, serviu combates pela justiça e pela decência”. Em “Ensaio sobre a Cegueira”, mostra a que ponto de selvageria as pessoas podem chegar na luta pela sobrevivência, os conflitos éticos, a perda do limite entre o certo e o errado. A   obra, uma metáfora da cegueira social, foi levada ao cinema em uma produção hollywoodiana, dirigida pelo diretor  brasileiro Fernando  Meirelles.  
Como para ele “ser comunista é um estado de espírito”, continuou levantando sua voz contra o sistema capitalista, as injustiças sociais, a concentração das riquezas pelos conglomerados econômicos, a religião conservadora e omissa. Cético, ateu e muitas vezes pessimista, como declarou em 2008 em Madri: “Estamos afundando na merda do mundo e não se pode ser otimista. O otimista, ou é estúpido, ou insensível ou milionário”. Filiou-se ao Partido Comunista Português  logo após a queda da ditadura salazarista. Sempre autêntico em suas falas, não se furtou em apontar as mazelas do Partido Comunista Português, que ele via a caminho da direita.  Sua visão sobre democracia aparece na obra “Ensaio sobre a Lucidez”. “Sou comunista, e por isso sou tratado como inimigo da democracia. Pelo contrário, eu quero é salvar a democracia, e para isso é preciso criticar esse simulacro de democracia em que vivemos”.
À parte as desavenças políticas e religiosas, sua obra lhe rendeu vários prêmios. Em 1995 recebeu o Prêmio Camões, o maior da literatura portuguesa. A consagração maior veio com o Nobel de Literatura em 1998, aos 76 anos. Sobre a premiação,  o júri assim se manifestou: “com parábolas portadoras de imaginação, compaixão, e ironia, torna constantemente compreensível uma realidade fugidia”.  Foi o primeiro e único escritor premiado da literatura lusófona, ou seja, onde a língua portuguesa é falada. No Brasil foi sempre bem acolhido entre os escritores e políticos, como exemplo. Chegou a participar de um tribunal internacional simbólico, em Brasília,  para julgar o massacre de trabalhadores sem terras em Eldorado dos Carajás; e pelo mesmo motivo,  recusou um título honoris causa da Universidade do Pará. 

DIA 15 DE NOVEMBRO DE 2008,  CONCEDIDA ANISTIA POLÍTICA AO EX-PRESIDENTE JOÃO GOULART

 
 
 Quase meio século após ser derrubado da Presidência da República pelo regime militar, o ex-presidente João Goulart recebeu anistia política. Fato histórico inédito, pois foi a primeira vez que o Estado reconhece a perseguição política a um ex-presidente, cidadão brasileiro.  Justo no dia em que se comemora a proclamação da República brasileira, o Estado promulga uma ação republicana, fazendo o contraponto ao ato anti-republicano ocorrido em nosso país em 31 de março de 1964.
A Comissão de Anistia do Senado, reunida no dia 15 de novembro de 2008, na XX Conferência Nacional dos Advogados do Brasil, na cidade de Natal (RN), concedeu,  por unanimidade, anistia política ao ex-presidente João Goulart e sua esposa Maria Tereza Goulart. Para o presidente da Comissão de Anistia Paulo Abrão, anistiar João Goulart representa  “um pedido de desculpas ao presidente pelo ato de perseguição número um que foi a sua deposição”. A família foi representada pelo advogado e neto de Jango, Cristofer Goulart, que, emocionado pelo reconhecimento, declarou: “creio que é uma consolidação das instituições democráticas no Brasil e uma resposta àquele regime de exceção que perdurou em nosso país”.
O ex-presidente teve os direitos políticos cassados por 10 anos e partiu para o exílio fora do Brasil (Uruguai e Argentina), onde permaneceu até sua morte em 1976, sem ter o direito de voltar à sua terra natal. Além do reconhecimento da perseguição política, a Comissão de Anistia decidiu por uma indenização equivalente ao salário de um advogado sênior (Jango era bacharel em Direito), o que soma a 644 mil reais a serem pagos em parcelas durante 10 anos, e mais 100 mil pelos 15 anos que Maria Tereza viveu no Uruguai e Argentina. O Ministro da Justiça à época, Tarso Genro (PT), lembrou “que o presidente João Goulart foi derrubado por suas virtudes e não por seus eventuais defeitos, e esta anistia é na verdade um encontro do Brasil consigo mesmo. Um ato de justiça que o Estado faz e o reconhecimento de um grande brasileiro, que ele foi”.
A concessão da anistia, uma decisão justa e necessária, de certa forma,  permitiu a volta de João Goulart à história do país, mas lamentavelmente, ainda permanece um profundo silêncio na memória brasileira, sobre quem foi João Goulart. Sua morte não foi matéria de jornalística, apenas algumas notas da imprensa. Só depois de morto,  foi permitida a entrada no país, e sob controle dos militares.
Jango,  como era conhecido, teve uma carreira política de rápida ascensão. Em 1950, foi presidente do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e no ano seguinte, foi eleito  deputado federal. Já em 1955, eleito vice-presidente na chapa de Juscelino Kubistchek, e novamente vice presidente eleito ao lado de Jânio Quadros (1961), cuja renúncia,  após seis meses de governo, levou o país a um impasse político, impedindo ao vice de assumir a presidência. Naquela ocasião,  o golpe político foi disfarçado de emenda constitucional, ao criar o parlamentarismo para limitar os poderes presidenciais de Jango. “O governo João Goulart nasceu, conviveu e morreu sob o signo do golpe de Estado…que rondou e perseguiu permanentemente o regime liberal democrático inaugurado em 1946”…
As forças políticas conservadoras e reacionárias que tomaram o poder em 1964, impediram ao presidente João Goulart de realizar o projeto político que daria continuidade à legislação trabalhista de Vargas, à modernização das estruturas sócio econômicas  à aplicação das Reformas de Base que tirariam o país do atraso, reduziriam as desigualdades sociais, visando  a soberania do país.  O que importava e ainda importa às nossas elites, é manter o Brasil dentro dos quadros do capitalismo internacional numa relação de dependência e subserviência econômica, bem como o afastamento das camadas populares do  acesso à cidadania.
 Quanto ao golpe de 2016, sem maiores disfarces, optaram por “rasgar” a constituição. Os donos do poder, um complexo consórcio midiático, financeiro-empresarial nacional e internacional com a garantia do judiciário brasileiro, mais uma vez  impediu o projeto político de soberania nacional e inclusão social, que havia sido interrompido no período de Goulart e  retomado nos governos petistas nos últimos 13 anos anteriores ao golpe.
 
 


DIA 14 DE NOVEMBRO DE 1904, CHEGA AO ÁPICE A REVOLTA DA VACINA

 
 
A Revolta da Vacina foi uma das principais revoltas urbanas populares de contestação à República Oligárquica, ou seja, a República sob o mando das oligarquias agrário-estaduais, especialmente as do café.  Explodiu no Rio de Janeiro no período de 10 a 16 de novembro, protagonizada pelas camadas mais pobres e oprimidas da população contra as medidas excludentes,  segregadoras e autoritárias  do regime dos coronéis.
O presidente da República era Rodrigues Alves, cujo projeto político visava a modernização da capital federal, à moda urbanizadora  do barão Haussmann, prefeito de Paris. Pereira Passos, foi nomeado para a prefeitura do Rio de Janeiro, e deu início à derrubada dos casarões antigos no centro da cidade para construir palacetes, jardins e largas avenidas, como exemplo, a Avenida Central, hoje,  Rio Branco, bem como “limpar” a região central da população pobre, que sempre representa uma ameaça à disciplina urbana capitalista. Para esta “higienização social” contaram com o médico sanitarista Oswaldo Cruz que recebeu todos os poderes para acabar com as epidemias de peste bubônica, febre amarela, varíola, etc.
No ano de 1904 parecia que a cidade estava vindo abaixo. Barracos e cortiços eram demolidos da noite para o dia sem que seus moradores fossem consultados. Milhares de famílias foram expulsas para a periferia pois “dificultavam o avanço da civilização e do progresso”. A insatisfação crescia com o aumento da  marginalização dos pobres, a ausência de cidadania, carestia, desemprego e a utilização da medicina como forma de controle social.  A aprovação da lei da vacinação obrigatória em outubro de 1904,   foi apenas mais detalhe para a eclosão da revolta popular.
Embora as intenções sanitaristas fossem boas, os métodos não foram adequados, pois não foram precedidos de campanhas esclarecedoras à população. As brigadas sanitárias interditavam prédios, removiam doentes à força, desinfetavam as casas sem autorização e outros abusos.  A reação popular não tardou. No dia 10 de novembro,  começaram as manifestações. Espancamentos de policiais, incêndios de bondes, saques, construção de barricadas, tiroteios, até que no dia 14 de novembro de 1904, os militares da Escola Militar de Cadetes da Praia Vermelha aderiram ao movimento contra o autoritarismo do governo, enfrentando as tropas oficiais na Rua da Passagem, no bairro de Botafogo, marchando em direção ao Palácio do Catete, marcando o auge da sublevação.  O Rio de Janeiro parecia uma praça de guerra. Os distúrbios se seguram até o dia 16 de novembro.
A repressão, como sempre, foi violenta. Tropas do exército entraram em prontidão contra a revolta popular. Aproximadamente 1000 pessoas foram presas, mais de 30 mortas, 461 foram deportadas para o Acre, que havia sido incorporado recentemente ao país. Operários anarquistas foram expulsos. E a vacinação foi retomada com todo rigor.
Ficou claro que essa revolta popular se inseriu no contexto mais amplos das contestações sociais que marcaram os primeiros anos da República. Seus principais líderes eram homens do povo, inclusive alguns capoeiristas, que sem um projeto político definido, revelaram  a capacidade de resistência e de luta pela cidadania.
“Era para não andarem dizendo que o povo é carneiro. De vez em quando, é bom essa negrada mostrar que sabe morrer como homem”. ( Depoimento de um dos participantes da revolta).
 

DIA 13 DE NOVEMBRO DE 1981, MORRE MESTRE PASTINHA

 
Vicente Ferreira Pastinha, mestre da capoeira e filósofo popular. Foi o maior propagador da Capoeira de Angola, dando a ela a merecida visibilidade e seu respectivo valor.  Fundador do Centro Esportivo de Capoeira de Angola (CECA) em Salvador e organizador dos princípios e fundamentos da capoeira, que é  um dos maiores símbolos do patrimônio imaterial da cultura brasileira. Pregador da não violência, transformou a capoeira em arte. Entre seus  desejos, estava o de ser pintor, mas acabou se tornando um grande professor.
Ie
Bahia minha bahia
Capital do Salvador
Quem não conhece a capoeira
Não lhe dá o seu valor
Todos podem aprender
General também que é doutor
Quem desejar aprender
Venha a Salvador
Procure o Pastinha
Ele é Professor!
Mestre Pastinha nasceu em Salvador, em 5 de abril de 1889, filho do espanhol José Señor e a  baiana Eugênia Maria Carvalho.  Começou aprender capoeira aos 10 anos com o velho africano, Benedito. Em 1902 entrou para a escola de aprendizes de marinheiros, onde ficou por oito anos, tendo oportunidade de estudar música, violão e artes plásticas, ao mesmo tempo que ensinava  capoeira aos companheiros.  Ao sair da corporação, passou a dar aulas de capoeira clandestinamente devido a proibição pelo Código Penal Brasileiro. Mas a repressão ao “jogo” da capoeira foi-se tornando mais violenta e Mestre Pastinha foi obrigado a trabalhar como pedreiro, pintor, entregador de jornais, segurança da casa de jogos na luta pela sobrevivência.
Mais tarde, em 1941, foi convidado por um ex-aluno para assistir a uma roda de capoeira. E nessa oportunidade recebeu  a missão de “mestrar” esta roda  de capoeira. Estava nascendo assim o CECA (Centro Esportivo Capoeira de Angola), a semente do que seria a primeira escola de Capoeira de Angola.  Mestre Pastinha deu-lhe as cores de seu querido time, o Ypiranga, o preto e amarelo, cuja torcida agregava as classes mais populares de Salvador. E posteriormente, quando o mestre já estava com seus 66 anos o CECA foi reconhecido como centro de estudos da capoeira genuinamente angolana, e mudou-se para um nobre endereço, o Largo do Pelourinho, 19, onde funcionou por  16  anos.
Na sua escola reuniam-se mestres consagrados da capoeira, e recebia visitas ilustres como o escritor Jorge Amado, o artista plástico Mario Cravo, o filósofo  Jean Paul Sartre, entre outros.  Na música Transa, Caetano Veloso homenageia o velho  Mestre. Pastinha teve um raro reconhecimento do Estado brasileiro, quando realizou seu sonho de conhecer a África, e foi representante do Brasil no 1º Festival Mundial das ArteNegras no Senegal. Mas, não só o seu sonho estava envelhecido, ele já estava quase cego e não chegou a “ jogar”.
Em 1971,  a sua escola foi vítima da higienização social no Pelourinho para dar lugar à especulação do turismo na região. Foi obrigado pela Prefeitura a desocupar o casarão, com a promessa de retorno após a restauração, o que não aconteceu.  A partir daí,  Pastinha entrou em depressão e sua saúde foi-se degradando, sofreu três enfartos, perdeu a visão. Ficou um ano internado em hospital público. Passou os últimos anos morando em uma casa escura,  úmida e sem janelas, pois era o que ele podia pagar. Finalmente foi enviado para um abrigo de idosos, D. Pedro II, onde morreu no dia 13 de novembro de 1981, cego, paralítico, esquecido e desamparado, aos 92 anos.
Sua morte não apagou totalmente seu brilho. Sua obra disseminou a capoeira pelo país e pelo mundo. Um de seus discípulos, João grande,  ensina capoeira em Nova York. Em 2000 foi lançado um documentário, “Pastinha uma vida pela capoeira”, e relançado em 2009 em vários idiomas.  O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), registrou a Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira como patrimônios culturais imateriais brasileiros em 2008, estando inscritos no Livro de Registros das Formas de Expressão e no Livro de Registro dos Saberes.
A UNESCO em 2014 conferiu à Roda de Capoeira o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
 
 


DIA 12 DE NOVEMBRO DE 1969, É PRESO JEOVÁ GOMES ASSIS

 
Jeová Gomes de Assis foi mais um companheiro que morreu em combate na guerra contra o regime militar brasileiro. Preso e torturado com requintes de crueldade em 12 de novembro de 1969 pelos agentes do DOI-CODI, Jeová foi assassinado,  friamente,  dois anos depois, assim como outros 23  integrantes do MOLIPO. Dos 28 militantes do Movimento de Libertação Popular treinados  em Cuba, 23 foram executados,  assim que retornaram ao Brasil. O Movimento de Libertação Popular, Molipo foi um grupo formado em Cuba, sob o patrocínio direto do comandante Fidel, a partir de uma dissidência de exilados da Aliança Libertadora Nacional, ALN, então a maior organização revolucionária nacional. Entre seus membros, o jovem companheiro José Dirceu de Oliveira e Silva. 
Jeová nasceu em Araxá – MG, e se tornou uma liderança entre os estudantes de Física da USP, destacando-se também nas mobilizações dos moradores no CRUSP – conjunto residencial da Universidade. Em 1966, liderou a “Greve das Panelas”, que se realizou no CRUSP e precedeu a efervescência de 1968. Com a decretação do AI-5, em dezembro desse ano, o CRUSP, onde moravam 1.500 universitários, foi cercado, os prédios desocupados e muitos estudantes foram presos. Jeová, que na época era um dos dirigentes da DISP –Dissidência Estudantil do PCB/SP, foi expulso do CRUSP e da USP. Já procurado pelos órgãos de segurança,  passou a atuar em Brasília e Goiás, transferindo-se com muitos outros militantes daquele agrupamento dissidente para a ALN, em 1969.
Depois de ser preso em Goiás,  em 1969,  por conta de sua  pela militância na ALN, foi transferido para a OBAN, (Operação Bandeirante) onde sofreu torturas que lhe causaram fraturas nas duas pernas. Jeová permaneceu preso até junho de 1970, quando foi banido para a Argélia em troca do embaixador alemão Von Holeben, sequestrado numa operação conjunta entre VPR (Vanguarda Popular Revolucionária)  e ALN. Da Argélia,  viajou para Cuba, onde recebeu treinamento militar e retornou clandestinamente ao Brasil em 1971, como militante do MOLIPO, com a tarefa de construir uma base de guerrilha na área rural.
Há relatos que em janeiro de 1971, Jeová foi localizado por conta de um delator que teria integrado o MOLIPO em Cuba. No dia 09 de janeiro desse ano, Jeová foi morto em um campo de futebol em Guaraí (Goiás na época, hoje Tocantins). Documentos dos órgãos de segurança o apontavam como coordenador nacional do Molipo, ao lado de Antonio Benetazzo e Carlos Eduardo Pires Fleury. Segundo a versão apresentada pelos militares, e ratificada pelos jornais O Globo, O Estado de São Paulo e o Jornal do Brasil, Jeová teria reagido à  “abordagem” dos policiais  e portava  uma bomba de fabricação caseira no momento da prisão. No entanto essa versão foi contestada por Nilmário Miranda deputado estadual e federal pelo Partido dos Trabalhadores , secretário dos Direitos Humanos no governo  Lula e  relator do caso na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos (CEMDP).  Miranda ressaltou as contradições do relatório do 2º Sargento da PM e do comunicado dos militares. Para ele, os agentes que desembarcaram em Guaraí sabiam que Gomes estaria no campo de futebol e que a versão divulgada pelos órgãos de segurança, reproduzida pela mídia conivente, foi criada para justificar o assassinato do militante. O então presidente da CEMDP,  Miguel Reale Júnior, concordando com Miranda e acrescentando ser improvável que alguém levasse uma granada para o estádio e deixasse uma arma no hotel, admitiu que, possivelmente, o guerrilheiro estava desarmado quando levou o tiro.
Em 2 de junho 2005, o então presidente da CEMDP, Augustino Veit, juntamente com a assessora Iara Xavier,  foram à cidade de Guaraí com a finalidade de buscar informações sobre as circunstâncias da morte de Jeová e localizar sua sepultura, para posterior exumação e identificação. Três meses depois,  a polícia técnica de Brasília fez escavações para exumar os restos mortais de Jeová,   confirmando  que Jeová foi assassinado em 09/01/1972, e  enterrado no cemitério da cidade. 
 
 


DIA 11 DE NOVEMBRO DE 1975, PROCLAMA-SE A INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA

 
 
Depois de cinco séculos de domínio, o novo governo português,  nascido da Revolução dos Cravos em abril de 1974, abriu perspectivas históricas imediatas para a entrega da soberania de Portugal ao povo angolano.  A independência de Angola deixou  um saldo de quatro milhões de mortos, 1,7 milhões de refugiados e 80 mil mutilados. Os três movimentos que lutaram contra a dominação portuguesa, o MPLA (Movimento pela Libertação de Angola), o FNLA (Frente Nacional pela Libertação de Angola), e UNITA (União pela Libertação de Angola), declararam a independência no dia 11 de novembro de 1975, em três diferentes lugares, respectivamente, em Luanda, em Ambriz e Huambo. No entanto, só a proclamação do MPLA foi reconhecida internacionalmente.
A libertação do país proclamada por Agostinho Neto: “Diante da África e do Mundo proclamo a independência de Angola”, encerrou a campanha independendista, iniciada em 1961. O fim da luta armada foi estabelecido pelo Acordo de Alvor (Algarve), firmado pelos três movimentos e Portugal. Mas, a independência de Angola, não representou o fim das hostilidades e sim, o início de uma longa guerra civil. Os três grupos passaram a disputar o poder central.
O MPLA, liderado por Agostinho Neto, de orientação marxista,  era apoiado pela URSS e Cuba. A UNITA, controlada por Jonas Savimbi, era apoiada pela África do Sul e China, cuja área de atuação se limitava ao leste da Angola.  A FNLA, controlada por Holden Roberto, treinava suas tropas no Zaire e era declaradamente anti-soviética,  apoiada pelos EUA que, mais tarde, apoiaram também a UNITA, pois a estratégia do império  americano era dividir Angola.
Em 1977,  ocorreu um golpe conhecido como “fracionismo” do MPLA, terminando em um banho de sangue que se prolongou por dois anos. Neste contexto, o MPLA realizou seu 1º Congresso, onde se proclamou  como partido marxista-leninista, mas tiveram que enfrentar uma guerra devastadora,  liderada pelos adversários, UNITA e FNLA, que se colocavam como antimarxistas e pró- ocidentais.
Antes da independência, o povo angolano havia empreendido uma intensa luta política contra o opressor português, que jamais admitiu sequer conversações sobre a autodeterminação, portanto, não restou aos angolanos outra opção, senão a luta armada que perdurou por 14 anos, sem recursos, enfrentando as maiores dificuldades.
Na longa guerra civil angolana, após a independência, mais de 30 países se envolveram com apoio logístico aos três movimentos. Somente no ano 2002, chegava ao fim a luta armada pela independência daquela que fora a mais rica colônia portuguesa na África, a joia da coroa, submetida a cinco séculos de dominação. Portugal só reconheceu a independência em fevereiro de 1976, depois de mais de 80 países o terem feito.
A afirmação da República Popular de Angola como Estado soberano, exerceu um papel fundamental na luta de libertação por parte de outros países como Namíbia, Zimbabue. Agostinho Neto,  que se tornou o primeiro presidente do país, empreendeu grande esforço para mudar o quadro desolador da guerra. Adotou o regime de economia planificada. Realizaram -se as primeiras eleições na história de Angola;  mas Agostinho Neto ficou à frente de seu país somente até o ano de 1979, pois adoeceu e veio a falecer em Moscou no dia 10 de setembro.