DIA 23 DE JANEIRO DE 2002, MORRE PIERRE BOURDIEU

 
 
Pierre Bourdieu é considerado um dos maiores pensadores franceses do século XX. Transformou intencionalmente sua vida acadêmica e intelectual em uma arma política e sua sociologia, engajada e profundamente comprometida, como uma  denúncia dos mecanismos de dominação em uma sociedade capitalista injusta. De acordo com sua perspectiva, a sociedade ocidental capitalista é uma sociedade intencionalmente baseada em um desequilíbrio sócio-econômico, onde a consequência óbvia é a perpetuação das mesmas classes privilegiadas nos espaços de poder.
 Sua teoria, desenvolvida ao longo de décadas de pesquisa, e com elevado grau de complexidade, deu-nos instrumentos teóricos preciosos que nos permitem analisar e compreender a realidade social de uma forma anteriormente impossível. Conceitos como habituscampocapitaldominaçãodistinçãoviolência simbólica, entre outros, constituem o corpo da sua teoria. Sua obra é vastíssima e contou com reflexões que tratavam não somente da sociologia, mas também da cultura, literatura, arte, mídia, linguística e política. Entre os pensadores que influenciaram sua obra, estão Max Weber e Karl Marx.
Uma das principais contribuições de Bourdieu para a história da sociologia, foi a desconstrução da ideia determinista de que a essência dos indivíduos e seu valor intrínseco é determinado pela natureza ou pela biologia. Bourdieu desenvolve uma teoria sobre os mecanismos sociais ocultos que estão envolvidos na desconstrução das condições que permitem a reprodução (e a mudança) de situações e capacidades socialmente construídas e adquiridas através do tradicional processo de socialização.  Para Bourdieu, são as estruturas sociais que determinam,  em parte, a essência dos indivíduos e essas mesmas estruturas chegam às pessoas de formas diferentes pois  cada uma delas vive em condições sociais, econômicas e  culturais diferentes.
Pierre Félix Bourdieu, nasceu na cidade de Denguin, França, em 01 agosto de 1930,  em uma família de origem campesina. Ao completar seus estudos básicos, mudou-se para Paris, onde estudou na Faculdade de Letras. Em 1954, Pierre Bourdieu formou-se em Filosofia e iniciou sua vida profissional como professor em Moulins. Sua carreira sofreu uma interrupção em função do serviço militar obrigatório que o enviou para a Argélia. Aproveitando-se do deslocamento, assumiu o cargo de professor na Faculdade de Letras da capital do país, Argel. Em 1960, retornou para França e se tornou membro do Centro de Sociologia Européia, no qual ocuparia o cargo de secretário-geral dois anos depois. Suas publicações, entre as décadas de 1960 e 1980,  lhe renderam o título de um dos mais importantes sociólogos do século XX. A repercussão de suas reflexões o levou a lecionar em importantes universidades do mundo. Pierre Bourdieu destacou-se também por propor uma crítica sobre a formação do sociólogo, buscando o que ficou identificado como “Sociologia da Sociologia”.
        Pierre Bourdieu recebeu o título de Doutor honoris causa em três importantes instituições da Europa: na Universidade Livre de Berlim, em 1989, na Universidade Johann Wolfgang Goethe, em 1996, e na Universidade de Atenas, no mesmo ano. Pierre Bourdieu faleceu no dia 23 de janeiro de 2002 , na cidade de Paris,  deixando-nos um legado incomensurável.
 

DIA 22 DE JANEIRO DE 1922, NASCE LEONEL  DE MOURA BRIZOLA

 
Leonel de Moura Brizola entrou para a lista dos heróis nacionais pouco antes do golpe de 2016 se consumar. A então presidenta do Brasil Dilma Rousseff, reconheceu que o histórico de lutas e a trajetória em defesa da educação e patrimônio nacional tornaram Leonel Brizola digno de entrar para a seleta lista dos heróis da pátria do século XX. Conhecido por sua personalidade por vezes explosiva, Brizola conquistou muitos seguidores e despertou também muitos desafetos na política e principalmente na mídia brasileira oligopolizada. Crítico ferrenho e declarado da forma como o maior conglomerado de comunicação da América Latina, a TV Globo, conduzia e ainda conduz os rumos da política nacional, Brizola enfrentou um longo embate contra a emissora e chegou a ganhar na justiça o direito de resposta que foi veiculado em pleno horário nobre para milhões de pessoas em 1994.
Brizola nasceu em 22 de janeiro de 1922 no município de Carazinho, RS e iniciou sua carreira política no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) em agosto de 1945, integrando o primeiro núcleo gaúcho do novo partido. Foi eleito e reeleito deputado estadual, quando participou da elaboração da Constituição gaúcha em 1950. Em 1958, elegeu-se governador do Rio Grande do Sul, com mais de 55% dos votos válidos. Em 1962, pela primeira vez, Brizola foi eleito deputado federal pelo antigo Estado da Guanabara. Como parlamentar, fez discursos veementes defendendo a implantação da reforma agrária e a distribuição de renda no Brasil. Com a deposição do presidente João Goulart pelos militares, em 1964, Leonel Brizola foi obrigado a se exilar no Uruguai, somente retornando ao país em 1979,  quando a Lei da Anistia permitiu o retorno dos exilados políticos. Logo após seu retorno do exílio, Brizola tentou  reorganizar o PTB, mas perdeu a sigla numa disputa na Justiça Eleitoral.
Nasce assim o Partido Democrático Trabalhista (PDT) pelo qual se elege governador do Rio de Janeiro em 1982 e em 1990. Candidatou-se pelo  PDT em 1989 à Presidência da República, às primeiras eleições diretas após a ditadura e pelas quais lutou ativamente;  mas ficou em terceiro lugar,  apoiando então Luís Inácio Lula da Silva, do PT, no segundo turno.  Em 1998 foi candidato à Vice-presidência, na chapa de Luís Inácio Lula da Silva mas, infelizmente,  perdemos para o tucano Fernando Henrique Cardoso.
Durante sua administração como governador tanto no Rio Grande do Sul,  como no Rio de Janeiro, mais do que qualquer outro político, Brizola colocou a educação como prioridade de governo. Um de seus principais colaboradores foi ninguém menos que o antropólogo e educador Darcy Ribeiro, que idealizou os CIEPS, escolas modelo de tempo integral, que inspiraram os CEUs, da periferia de São Paulo. Sua posição política era sempre muito clara na defesa dos interesses nacionais, e contra a política de privatizações dos governos de FHC.
Ao final de sua carreira, Brizola foi candidato à prefeitura do Rio de Janeiro em 2000, ao Senado em 2002,  mas não conseguiu se eleger em nenhum dos dois.  
Brizola veio a falecer de enfarte no Rio de Janeiro em 21 de junho de 2004. À época, cogitava mais uma vez em lançar-se candidato a prefeito do Rio de Janeiro para as eleições daquele ano, em uma aliança que reuniria o PDT e o PMDB. Sua morte teve forte impacto na opinião pública e junto ao povo carioca. Milhares de pessoas estiveram presentes às cerimônias fúnebres que foram realizadas no Palácio Guanabara, sede do governo estadual. Seu corpo foi enterrado em São Borja, a cidade símbolo do trabalhismo brasileiro, no Rio Grande do Sul, na qual também estão enterrados os presidentes,  Getúlio  Vargas e João Goulart.

DIA 21 DE JANEIRO DE 1972, SÃO ASSASSINADOS GASTONE LUCIA BELTRÃO, ALEX DE PAULA XAVIER, GELSON REICHER

 
O assassinato da jovem militante da ALN (Ação Libertadora Nacional), Gastone Lúcia Beltrão nunca foi totalmente esclarecido. Os documentos apresentam grosseiras contradições, divergências e omissões. Enquanto o documento da Polícia de São Paulo  informa que ela morreu no dia 20 de janeiro de 1972,  a caminho do hospital após tiroteio na esquina das ruas Heitor Peixoto e Inglês de Souza, o laudo do Ministério da Aeronáutica informa o tiroteio em ruas diferentes. O responsável por esse  caso foi o delegado torturador Sergio Paranhos Fleury.
A pedido do CEMDP (Centro Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos), o processo foi submetido à perícia criminal por Celso Nenevê, que constatou 34 lesões incluindo ferimentos à faca, marcas de tiros à queima – roupa, ferimentos, fratura de ossos no corpo de Gastone, já o laudo oficial informava 13 lesões por tiros. Ficou comprovado que as lesões do laudo cadavérico emitido pela  polícia, eram incompatíveis com a alegação de “violento tiroteio”.
A militante nascida em 12 de janeiro de 1950, era alagoana de Cururipe, cursou Ensino Médio no Rio de Janeiro e completou o 3º grau na Universidade Federal de Alagoas. Gastone iniciou sua militância na JUC (Juventude Universitária Católica), e em 1969 como membro da ALN, recebeu treinamento militar em Cuba.  Apenas um mês após entrar clandestinamente no Brasil, fora executada depois de sofrer torturas, pelas forças de repressão do delegado Fleury, e enterrada como indigente no cemitério de Perus em São Paulo. Somente após três anos, a família conseguiu enterrar seu corpo no jazido da família em Maceió.
Era o mesmo dia 20 de janeiro de 1972, quando dois jovens Alex da Paula Xavier e Gelson Reicher, militantes da ALN, dirigiam um carro Volks na capital paulista, rua República do Líbano, quando foram presos,  levados ao Doi-Codi e executados sob torturas. Dois dias depois,  a imprensa divulgou uma nota oficial,  informando que os dois ocupantes do carro avançaram o sinal e foram parados por um cabo da PM. Eles teriam saído do carro atirando contra o cabo e após alguns minutos de tiroteio, o cabo e os dois  jovens estavam mortos.  Durante anos prevaleceu esta versão até as novas investigações da CEMDP (Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos) e da CNV (Comissão Nacional da Verdade), que após rigoroso trabalho de perícia científica, provas documentais, fotos de arquivo, chegaram às conclusões que desmontaram mais esta farsa montada pelo IML da polícia paulista, e assinada pelo médico legista Isaac Abramovitc, responsável também por outros falsos laudos. Este, mais tarde foi denunciado pelo Conselho Nacional de Medicina por conivência com as torturas e execuções praticadas pela   ditadura militar.
Os dois foram enterrados com seus codinomes de militantes, Alex, como João Maria de Freitas e Gelson, como Emiliano Sessa, assim dificultaria a identificação dos corpos que também foram enterrados como indigentes no cemitério de Perus. Os familiares de Alex conseguiram encontrar seus restos mortais em 1979 e depois de retificada a certidão de óbito, puderam então trasladá-los para o Rio de Janeiro, sob escolta ameaçadora dos agentes da repressão.
A família de Alex perdeu também,  cinco meses depois, outro filho, Iuri Xavier também militante da ALN, morto sob semelhantes circunstâncias no bairro da Mooca em São Paulo. A irmã mais nova Iara, representante da Comissão de Familiares Mortos e Desaparecidos, espera que “se identifique e puna os agentes públicos que cometeram tais crimes”.
Alex era carioca,  estudante do Colégio Pedro II, diretor do Grêmio estudantil, pertencia a uma família de militantes políticos. Ingressou no PCB ainda muito jovem e logo se uniu ao grupo de Marighela,  assumindo o controle do Grupo Tático Armado da ALN. Seu nome e foto apareciam em vários cartazes da repressão com os dizeres “bandidos e terroristas” procurados pelos órgãos de segurança nacional.
Gelson Reicher era estudante de medicina na USP, dava aulas no curso pré vestibular para medicina. Começou sua atuação política na vida estudantil, foi diretor do Centro Acadêmico Osvaldo Cruz (CAOC), era também poeta, escrevia peças de teatro, compunha músicas, dirigia peças teatro na faculdade, e junto com Iuri, irmão de Alex editavam os jornais, Ação e 1º de Maio. Era integrante da ALN, quando foi executado pelos órgãos da repressão junto com Alex de Paula Xavier. 
No governo do presidente LULA, a Secretaria Especial de Direitos Humanos  da Presidência da República, através de seu representante,  Paulo Vannuchi,  em parceria com o CAOC,  inaugurou em 2006,  o Memorial de Pessoas Imprescindíveis, no qual consta o nome de Gelson Reicher, como uma das vítimas da ditadura militar.
 

DIA 20 DE JANEIRO DE 1971, É PRESO O EX- DEPUTADO RUBENS PAIVA

 
 
“Era feriado no Rio, fazia bastante sol… agente morava numa casa de dois andares na  Rua Delfim Moreira…Meu pai tinha saído de manhã para caminhar na orla como amigo e confidente que também havia estado no exílio. Quando chegou deitou no sofá, acendeu um charuto e começou a ler os jornais …Era um pouco mais de 10 horas quando o telefone tocou.  Do outro lado da linha uma mulher queria nosso endereço para entregar uma encomenda do Chile. Meu pai não desconfiou de nada”. (Marcelo Paiva, filho de Rubens Paiva)
Naquele dia ficamos em casa numa espécie de prisão domiciliar. No dia seguinte nos colocaram num fusca…chegamos ao DOI_CODI na Tijuca, colocaram um capuz preto em nossas cabeças… me separaram da minha mãe, fui revistada de cima para baixo…fiquei o dia todo numa espécie de corredor polonês, um cheiro horrível, não via nada. Eles passavam e gritavam: Comuniiiiiiiiiiiiista! Passavam a mão nos meus peitos, me davam coques na cabeça. Não compreendia nada, era uma menina”…(Maria Eliana Paiva, filha de Rubens Paiva).
No intrincado quebra- cabeças que busca esclarecer o desaparecimento do deputado, veio a público pela primeira vez que um documento oficial datado de 25/01/71, mencionando que Paiva “foi localizado, detido e levado para o QG da 3ª Zona Aérea e, de lá para o DOI_CODI do Rio”.  Até então a única prova documental de que ele esteve em uma das unidades militares era a lista de seus pertences pessoais emitida no momento de sua entrada no DOI-CODI do Rio. O informe nº 70 dá conta das circunstâncias em que o deputado foi levado de sua casa, por agentes do CISA (órgão de Inteligência da Aeronáutica, hoje extinto). Foi encontrado no Arquivo Nacional em Brasília por Jason Tércio, autor de uma nova biografia de Rubens Paiva, Perfis Parlamentares.
O que jamais ficou esclarecido, mesmo depois das investigações da CNV (Comissão Nacional da Verdade), foram as circunstâncias da morte e o paradeiro dos restos mortais do deputado pelo PTB, Rubens Paiva.  A versão sustentada pelo exército é de que Rubem fugiu em um resgate enquanto era levado para reconhecer uma casa no subúrbio.
E o que fez de tão grave o deputado para pagar com a vida e sua família ficar como refém, acuada, amedrontada por tantos anos sem o direito de saber a verdade sobre a morte de seu pai? 
 
Cometeu o “crime” de defender o mandato constitucional do presidente João Goulart. No dia 1º de abril de 1964, com o golpe militar se impondo, ele discursava ao vivo na Rádio Nacional: “Julgamos indispensável que todo povo se mobilize tranquila e ordeiramente em defesa da legalidade prestigiando a ação reformista do presidente João Goulart que neste momento está empenhado em atender todas as legítimas reivindicações de nosso povo”…
Este outro trecho do discurso, que poderia ser repetido no momento atual de golpe continuado em nosso país, ele dizia: “está lançado inteiramente para todo o país o desafio: de um lado a maioria do povo brasileiro desejando reformas e que a riqueza se distribua, os outros são os golpistas que devem ser repelidos e desta vez definitivamente para que nosso país veja realmente o momento de sua libertação raiar”.
No dia 10 de abril com os militares no poder, o deputado teve seu mandato cassado pelo A I nº 1. A atuação de Rubens Paiva teve papel de destaque na CPI que investigou o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), concluindo que a entidade “interferia nas escolhas de representantes políticos do povo brasileiro para a tomada do poder através da corrupção eleitoral”.
A CNV registrou em relatório, que os militares do 1ºbatlhão de polícia do exército, foram testemunhas da morte sob tortura de Rubens Paiva no DOI-Codi. José Antônio Nogueira Belham, Rubens Paim Sampaio, Jurandyr Ochsenforf e Souza e Raimundo Ronaldo Campos atuaram na ocultação do cadáver e estão respondendo pelo crime em processo da 4ª Vara Criminal do Rio de Janeiro. A pedido dos advogados o processo foi suspenso pelo ministro Teori Zavascki e retomado pelo procurador Geral da República à época,  Rodrigo Janot.
Em depoimento á CNV o coronel reformado Paulo Manhães, 76 anos declarou que foi encarregado de ocultar o corpo do deputado, mas não chegou a realizar a incumbência por ter sido designado para outra ação. Um mês depois da declaração o coronel foi assassinado em sua casa em Nova Iguaçu. Sua esposa Cristina Manhães disse que ele teria mentido à CNV.
O Estado brasileiro, só reconheceu a responsabilidade pelo desaparecimento de Rubens Paiva por meio da lei Nº9140 de 4/12/95.
 


DIA 19 DE JANEIRO DE 1982, MORRE ELIS REGINA

 
Elis era emoção, contradição, paixão e a maior voz que o Brasil já teve. Sua ascensão como cantora coincidiu com o desenvolvimento e construção do que hoje conhecemos como Música Popular Brasileira. Seu temperamento forte e decidido lhe rendeu a alcunha de “pimentinha”, mas na verdade Elis era apenas uma mulher com um talento inigualável tentando conquistar seu lugar ao sol no cenário musical brasileiro da década de 60.
Nascida em Porto Alegre, Rio grande do Sul em 17 de março de 1945,  Elis Regina carvalho Costa, começou a carreira na rádio, ainda criança, e transitou por diversos gêneros musicais.  Ao lançar o primeiro disco, “Viva a Brotolândia” (1961), era vista como um novo nome do nascente rock, ao estilo de Celly Campelo. Mas o grande público só tomou conhecimento da cantora quando ela participou dos populares festivais de música daquela década, o que lhe rendeu o convite para apresentar, ao lado de Jair Rodrigues, o programa “O Fino da Bossa”, em 1965, na TV Record. A partir desse momento Elis não parou mais. Escolhia a dedo seus parceiros musicais, tanto músicos quanto compositores, o que também contribuiu significativamente para sacramentar o seu estilo enquanto a maior intérprete da música brasileira de seu tempo.
Gravou com nomes como Ivan Lins (“Madalena”, “Cartomante”, “Aos Nossos filhos”), João Bosco e Aldir Blanc (“Bala com Bala”, “O Mestre Sala dos Mares”, “Dois pra Lá, Dois pra Cá”), Gilberto Gil (“Ensaio Geral”, “Roda”, “Lunik 9”), Milton Nascimento (“Canção do Sal”, “Morro Velho”, “Cais”, “Nada Será Como Antes”), Belchior (“Como Nossos Pais”), Fagner (“Mucuripe”), Gonzaguinha (“Redescobrir”), Renato Teixeira (“Romaria”), entre outros. Em seus 34 anos de vida, Elis Regina gravou 27 LPs, 14 compactos simples e seis duplos. Mais de quatro milhões de cópias vendidas. Foi a primeira cantora a registrar sua voz como instrumento na Ordem dos Músicos do Brasil.
 
Elis era muito menos conhecida por participar da vida política do país. Mas desde que se mudara para o Rio de Janeiro, participou de uma série de movimentos de renovação política e cultural no Brasil. Em 1969, ao conceder uma entrevista na Holanda se referiu ao militares como “gorilas” o que lhe rendeu um interrogatório em um dos muitos quartéis generais assim que pisou em terras brasileiras. Elis passou a ser monitorada pelos militares e acabou sendo “convocada” para cantar o Hino Nacional na festa de abertura das olimpíadas do exército em 1972, despertando a desconfiança e muitas críticas da imprensa de esquerda. Henfil chegou a “enterrá-la” em algumas de suas brilhantes charges ao lado de outras figuras que eram consideradas simpatizantes dos militares como Pelé e Roberto Carlos.
 
No entanto, a redenção veio quando Elis passou a emprestar sua voz interpretando e imortalizando a canção de Aldir Blanc e João Bosco que ficaria conhecida como o hino da anistia, “O bêbado e o equilibrista” em 1979. Ela liderou grupo de cantores de esquerda e fez vários shows para arrecadar dinheiro para o fundo de   greve do sindicato dos metalúrgicos do ABC paulista.  Criticou muitas vezes a ditadura brasileira, nos chamados Anos de Chumbo, quando muitos músicos e artistas foram perseguidos e exilados, mas graças à sua fama e prestígio conseguiu escapar da fúria dos agentes de repressão da ditadura. Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores em 1981, um ano após sua fundação.
 
Elis foi casada com o compositor  Ronaldo Bôscoli e fruto dessa união nasceu João Marcelo Bôscoli em 1970. De seu segundo casamento com o músico César Camargo Mariano nasceram, Pedro Camargo Mariano 1975 e Maria Rita 1977.
Elis Regina faleceu com apenas 36 anos, em São Paulo, no dia 19 de janeiro de 1982 e foi enterrada com uma roupa que usaria no show Saudades do Brasil, proibida pela censura. Era uma camisa com a bandeira do Brasil, onde ao invés de Ordem e Progresso, estava escrito Elis Regina. A pimentinha  deixou -nos órfãos de sua figura cativante e sua voz absolutamente única.
 

DIA 18 DE JANEIRO DE 1973, CENSURADO O MUSICAL “CALABAR: O ELOGIO DA TRAIÇÃO”

 
Os poucos intelectuais, artistas e convidados especiais que tiveram a chance de assistir aos ensaios da peça “Calabar, o Elogio da Traição” em 1973, consideraram o espetáculo uma das realizações mais sólidas e expressivas do teatro brasileiro em muitos anos. Lamentavelmente o espetáculo não chegou a ser exibido ao público em mais uma demonstração de moralismo doentio e retrógrado além das motivações políticas dos agentes censores do Estado. Com o pretexto de preservar a “integridade da família, da pátria e da propriedade” o espetáculo foi censurado no dia 18 de janeiro de 1973, sendo liberado para exibição somente em 1980.
O texto da peça escrito pelo cineasta Ruy Guerra e o compositor Chico Buarque de Holanda, aborda a traição de Domingos Fernandes Calabar, personagem da história brasileira considerado traidor por ficar ao lado dos holandeses e contra Portugal na guerra de ocupação holandesa no nordeste brasileiro (1630/1654).  Trata- se na verdade de  uma alegoria histórica que se passa na época das invasões holandesas em Pernambuco, e põe em questão a construção dos conceitos de  lealdade e  traição, fazendo uma referência sutil,  inteligente e bem humorada  à conjuntura política do período de censura e repressão  que atravessava o Brasil no início da década de 70. O objetivo da peça era de fato promover um debate ideológico de forma bem provocativa e debochada  sobre a figura do traidor, onde esse personagem poderia então tornar-se um vilão ou um herói, dependendo do ponto de vista de quem tem o poder da narrativa. Qualquer semelhança entre os detentores dos espaços de poder e os “subversivos” do Brasil silenciado pela censura do regime militar não foi mera coincidência.
O musical contou com canções famosas de Chico Buarque, como Anna de Amsterdã,  Bárbara,  Não existe pecado ao sul do Equador, entre outras. Após meses de testes, nos quais mais de 300 candidatos se apresentaram para fazer parte do elenco da peça, foram selecionados 40 intérpretes. Sob a produção de Fernando Torres, a equipe agregou nomes como Edu Lobo, Dory Caymi, entre outros. Foi considerada a produção teatral mais cara da época e empregava no total mais de 80 pessoas.
Depois de toda a montagem pronta e da primeira liberação do texto, para o total pesadelo de todos os envolvidos,  o general Antônio Bandeira, da Polícia Federal, sem motivo aparente, proibiu a peça, proibindo inclusive  o nome Calabar (do título) e a decisão da proibição não poderia ser divulgada.  O prejuízo para os autores e para o ator e produtor  Fernando Torres, foram gigantescos. Lamentavelmente esse episódio não foi o único em que o teatro brasileiro foi vítima da censura por cumprir seu papel social de promover o senso crítico e o livre pensamento.

DIA 17 DE JANEIRO DE 1976, É ASSASSINADO MANOEL FIEL FILHO

 
“Era uma sexta-feira, 16 de janeiro de 1976, e, por volta do meio-dia, dois homens sem qualquer ordem judicial, o retiram do trabalho, foram com ele até a sua residência, na Vila Guarani, revistam a casa em busca de exemplares do jornal Voz Operária, do Partido Comunista Brasileiro, nada encontram e, sob os olhares apreensivos da mulher, Thereza Fiel, levam o metalúrgico para o DOI-CODI”. 
“Ele me deu um beijo na testa e foi embora. Eu falava: Não leva ele não! E ele nunca mais voltou”.  (Thereza Fiel).
O assassinato do operário e metalúrgico Manoel Fiel Filho no dia 17 de janeiro de 1976, três meses após a execução do jornalista Vladimir Herzog, nas mesmas circunstâncias, no mesmo local, e sob a mesma versão oficial de “suicídio”, não causou a mesma comoção nacional. Pois o assassinato de Herzog chegou a ser visto como um fato que “estancou o golpe dentro do golpe”, e deu os “primeiros passos para a grande transformação que fez o Brasil voltar ao caminho da democracia”. A execução do metalúrgico, resultou em mudanças na repressão, que levaram ao afastamento do general do IIº Exército por parte do presidente Geisel  e consequentemente outras mudanças no encaminhamento do seria o golpe dentro do golpe, como afirmou a mulher de Manoel: “Meu marido morreu e salvou a turma que estava lá”, (Doi- Codi).
No dia seguinte à prisão, a mulher de Manoel e as filhas empreenderam uma verdadeira peregrinação às delegacias da cidade em busca de informações sobre o paradeiro do marido. Nesta mesma noite, por volta de 22h, parou um carro à frente de sua casa, “desceu um fulano com um saco de lixo preto na mão e disse: “esta é a roupa dele, e ele suicidou-se”.   Os órgãos responsáveis divulgaram uma nota declarando que o metalúrgico havia se suicidado na prisão, enforcando-se com as próprias meias. Apesar dos companheiros afirmarem que no dia da prisão ele usava sandálias sem meias.
Natural de Quebrangulo (AL), conterrâneo de Graciliano Ramos, Manoel Fiel Filho foi para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Na grande cidade trabalhou como padeiro, cobrador de ônibus, até se tornar metalúrgico da empresa Metal Arte, onde exerceu a profissão por 19 anos. E foi na fábrica que o metalúrgico atuava como organizador do PCB junto aos operários.  Era responsável pela difusão do jornal do Partido, Voz Operária. (informações obtidas pela Comissão Nacional da Verdade). Esse foi o grande “crime” pelo qual pagou com a vida, no DOI-CODI do II Exército, morrendo sob tortura.  Ele não era um líder sindical, nem participava da luta armada.
Na ação judicial movida pela família, a União foi responsabilizada pela tortura e assassinato do metalúrgico. A farsa do suicídio foi desmontada, mas a justiça não aceitou a denúncia do MPF, que acusa sete agentes pelo assassinato.  O procurador recorreu e aguarda decisão do TRF. Até o presente momento ninguém foi processado. Como se trata de crime contra a humanidade, não prescreve.
A vida e a morte de Manoel Fiel Filho foram tema de um documentário, “Perdão, Mister Fiel- o operário que derrubou a ditadura no Brasil”. O filme mostra inclusive a interferência dos EUA no Brasil e seu apoio às ditaduras latino americanas. Junta -se ao documentário, a homenagem  do jornalista Rodolfo Lucena,  para marcar os quarenta anos da morte do operário, a “Corrida por Manoel”, 40 dias de corrida partindo do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.

DIA 16 DE JANEIRO DE 1970, PRESO E ASSASSINADO MÁRIO ALVES.

 
Mário Alves de Souza Vieira, condinome “Vila”.  Esse nome sim, deveria estar sendo exibido em uma grande e notória avenida de nosso país. A bravura e o heroísmo desse companheiro não podem ser esquecidos. O Jornalista e dirigente comunista  Mário Alves  foi preso no dia 16 de janeiro de 1970 quando saía de casa no Bairro da Abolição, subúrbio do Rio de Janeiro. A polícia do 1º Exército já estava de tocaia e após o surpreender, levou-o para o quartel da Polícia do Exército à Rua Barão de Mesquita no Bairro da Tijuca. Ali, Mário Alves cumpriu o dever de um verdadeiro soldado combatente, resistindo à tortura até a morte, sem que lhe fosse arrancada uma informação sequer. O sadismo de seus torturadores obedeceu aos requintes de crueldade devidamente ensinados por Dan Mitrione, agente da CIA que se encarregou de treinar os militares brasileiros sobre as mais eficientes técnicas de tortura importadas diretamente dos EUA.
Mário Alves foi barbaramente espancado durante toda a noite, empalado com um cassetete dentado, o corpo todo esfolado por escova de arame, por se recusar a prestar informações exigidas pelos torturadores do 1º Exército e do Dops. Os presos da cela ao lado que passaram a noite em claro ouvindo a agonia de Mário Alves,  Manoel João, Augusto Henrique e Antônio Carlos,  foram levados à sala de torturas para limpar o chão sujo de sangue e de fezes, e reconheceram  Mário  moribundo em um estado absolutamente indigno e desumano. Enquanto limpavam a sala, os trogloditas riam   e não permitiram nenhum socorro. Seu corpo nunca foi encontrado.
Mário Alves, começou a participar da vida política do país ainda na adolescência quando aos 15 anos ingressou no PCB na Bahia, em plena ditadura do Estado Novo. Durante a juventude participou das lutas estudantis e populares contra o avanço das “ideologias” de ultra- direita que ganhavam força na Europa e que viriam a deflagrar em 1939, a Segunda Guerra Mundial. Durante todo o período em que o PCB esteve operando dentro e fora da legalidade Mário Alves jamais deixou de se dedicar às atividades do Partido. Em 1957 foi eleito membro do Comitê Central do PCB, viajando para a República Popular da China.
  Mário Alves dominava vários idiomas e durante o período de clandestinidade trabalhou como tradutor para garantir seu sustento. Foi redator chefe do jornal Novos Rumos, do Partido Comunista. Com o advento do regime militar no Brasil, seu perfil de militante alinhou-se ideologicamente a uma política mais revolucionária que defendia a resistência armada e ações de guerrilha urbana contra a ditadura. Tal posicionamento levou Mário Alves a romper com o PCB e a fundar o PCBR (Partido Comunista Revolucionário), com o apoio de Carlos Marighella e outros dois companheiros de luta, Apolônio de Carvalho e Jacob Gorender em 1968. Alves passou então a secretário-geral do PCBR organizando grupos de resistência armada assim como a estrutura organizativa do Partido.
  Mário Alves foi um dos grandes líderes revolucionários comunistas que os generais militares tiveram ganas em perseguir e executar. Seu nome consta na lista dos desaparecidos políticos vítimas da odiosa ditadura militar. Em depoimento à Comissão da Verdade criada em 2012 pela Presidenta Dilma Rousseff, em maio de 2013, um dos acusados de torturar e matar Mário Alves, o Major Valter da Costa, conhecido como Major Jacarandá, admitiu a participação nas torturas, mas negou envolvimento na morte de Mário. Os outros acusados Luiz Mário Valle Correia Lima, (“tenente Correia Lima”), Luiz Timótheo de Lima (“inspetor Timóteo”), Roberto Augusto Duque Estrada (“capitão Duque Estrada”), e Dulene Aleixo Garcez dos Reis (“tenente Garcez”) não compareceram à Comissão para prestar esclarecimentos.
À época, o Presidente da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro o deputado Wadih Damous do Partido dos Trabalhadores pediu a condução coercitiva dos outros envolvidos, mas isto nunca aconteceu. A conclusão da CNV foi que os agentes de segurança do Estado foram responsáveis pelas torturas e as graves e sistemáticas   violações dos direitos humanos, que levaram Mário Alves ao falecimento.  A família ainda aguarda pela indenização financeira, pela localização dos restos mortais e a responsabilização de todos os agentes envolvidos na morte e desaparecimento de Mário Alves.
 
 
 


DIA 15 DE JANEIRO DE 1919, É ASSASSINADA ROSA DE LUXEMBURGO

 
 
Militante revolucionária polaco-alemã, economista, filósofa, comunista, fundadora do grupo Spartakista, do qual se originou o Partido Comunista Alemão. Dona de uma profícua produção marxista, foi homenageada por Lênin no discurso da abertura da III Internacional, como “águia polonesa e heroína do proletariado mundial”.
Rosa Luxemburg em alemão, Rosa Luksemburg em polaco, nasceu em Zamosc na Polônia, em uma família judia abastada e culta. Cresceu no período em que a Polônia era dominada pela Rússia czarista. Desde muito jovem se engajou em movimentos estudantis e operários de Varsóvia, lutando contra a estrutura arcaica e opressora das escolas polonesas e a partir daí foi-se encaminhando para a luta política contra a dominação russa sob viés socialista. Aos 22 anos, já sofria  perseguições tendo que sair de seu país e refugiar-se na Suíça, onde estudou Ciências Naturais, Matemática, Direito, Economia Política. Aos 26 anos fundou a Social Democracia do Reino da Polônia (SDKP). Dois anos depois, publicou a obra que começou a lhe dar projeção junto aos teóricos marxistas: Reforma Social ou Revolução?
 No período de 1906 retornou a Varsóvia para  colaborar com a Revolução Russa de 1905, conhecida como Ensaio Geral. Nesta ocasião ficou detida quatro meses na prisão. Poucos anos depois em Berlim, se casou com um trabalhador alemão e obteve cidadania alemã. Filiou-se ao Partido Social Democrata Alemão, à época o mais influente partido socialista do ocidente, e durante alguns anos trabalhou na formação de quadros para o Partido, época em que elaborou obras como: Acumulação do Capital e Introdução à Economia política.  Entre 1915/16, ficou presa por um ano quando então, produziu importantes obras que contribuíram para o pensamento político da esquerda mundial como, A crise da social Democracia e Revolução Russa.
Suas obras,  sempre atuais,  continuam sendo estudadas e analisadas.  Rosa desenvolveu princípios do socialismo democrático que se encontram na obra “Liberdade é sempre a liberdade de ter opiniões diferentes”. Defendia o internacionalismo proletário, entendendo ser a greve o mais importante instrumento revolucionário de luta do proletariado.  Convicta revolucionária, atuava sempre à esquerda do partido, ala que se colocou frontalmente contra a Primeira Guerra Mundial, por ser uma guerra imperialista, inclusive propuseram em contraposição ao conflito, uma greve geral como precursora da Revolução Socialista Internacional.  Nesta ocasião afastou-se do Partido Social-Democrata por discordar da maioria cuja posição era pró-guerra, e fundou em dezembro de 1914 com o amigo Karl Liebknecht, a Liga Spartaquista (homenagem ao escravo do império romano, Spartacus), e em maio de 1916 fizeram uma manifestação spartaquista contra a guerra, que resultou na sua prisão. Depois de alcançar a liberdade, em 1918, transformou a Liga Spartaquista em Partido Comunista Alemão (KPD). Em 1919, os spartaquistas desencadearam uma rebelião contra o governo; relutante, a revolucionária acabou participando do movimento que foi massacrado pela repressão alemã. Rosa e seu amigo Karl Liebknecht foram capturados, presos, levados ao jardim Zoológico de Berlim, onde foram   cruelmente assassinados. Seus corpos foram atirados no canal de Berlim, e só reconhecidos  cinco meses mais tarde.
Com esta trágica morte em plena luta revolucionária, Rosa acabou se tornando mártir da Revolução Socialista Internacional. Sua companheira spartaquista Clara Zetkin declarou após seu assassinato: “Em Rosa de Luxemburgo o ideal socialista era uma paixão dominante e poderosa, tanto da mente como do coração. Ela era a espada e a chama da revolução”.
Aqui jaz Rosa de Luxemburgo
Judia da Polônia
Vanguarda dos operários alemães
Morta por ordem
Dos opressores.
 Oprimidos,
Enterrai vossas desavenças!
 (Bertold Brecht). 

DIA 14 DE JANEIRO DE 1971, CHEGAM AO CHILE OS 70 PRESOS POLíTICOS LIBERTADOS EM TROCA DO EMBAIXADOR SUÍÇO GIOVANNI BUCHER.

 
 
Após 38 dias de longas negociações e risco extremo, o Comandante Carlos Lamarca e os companheiros da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) que realizaram a operação de captura do embaixador suíço Giovanni Bucher, em 07 de dezembro de 1970, conseguiram em mais um ato heróico, a libertação de 70 presos políticos em troca da liberdade do embaixador.   Esta, que foi a última grande ação armada da guerrilha urbana brasileira,  terminou vitoriosa com a chegada dos 70 presos políticos à cidade de Santiago no Chile no dia 14 de janeiro de 1971. O sucesso desta estratégia poupou a vida de 70 companheiros que certamente seriam vítimas do sadismo perverso e covarde dos órgãos de repressão do regime militar, caso não fosse a astúcia nas negociações do comandante Carlos Lamarca.
Na ocasião do sequestro no dia 07 de dezembro de 1970, A VPR exigiu a libertação dos 70 presos políticos, a divulgação de um manifesto nos principais meios de comunicação, o congelamento de preços em todo o país por 90 dias e a liberação das catracas nos trens do Rio de Janeiro. O governo levou 48 horas para responder e avisou que negociaria apenas a libertação dos presos. Lamarca aceitou. Dois dias depois, o regime informou que não aceitava libertar 13 dos presos políticos listados, quase todos participantes dos sequestros anteriores. Feitas as substituições, o governo disse que 18 pessoas se recusavam a deixar o país. A ação caminhava para ser desmoralizada. A maioria da direção da VPR decidiu executar o embaixador, responsabilizando a ditadura pelo fracasso das conversações. Lamarca usou sua autoridade de comandante para poupar a vida de Bucher e continuou negociando. Houve novas recusas por parte do governo e novas trocas, num processo que durou um mês.
Os companheiros que escaparam da morte chegaram ao Chile de Salvador Allende e puderam respirar os ares da liberdade, das grandes mobilizações populares, da luta de classes ao vivo e a cores saltando diante de seus olhos.  Foram acolhidos  como verdadeiros heróis pelo chilenos que ao saberem da chegada dos presos políticos brasileiros, logo se prontificaram a auxiliar com as primeiras providencias necessárias às acomodações.   Nossos companheiros puderam vivenciar o sonho da liberdade por pouco tempo pois em 11 de setembro de 1973, o Chile enfrentaria um longo e tenebroso período de ditadura sob o comando do general facínora Augusto Pinochet. A ditadura de Pinochet matou milhares de chilenos e também alguns de nossos companheiros que optaram por continuar a viver no Chile. Outros companheiros optaram por viver em outros países por questões de militância e alguns voltaram clandestinamente para o Brasil onde infelizmente não escaparam do ódio e da vingança dos militares brasileiros.
Para o espanto e indignação dos militares brasileiros, o embaixador suíço Giovanni Bucher recusou-se a identificar seus sequestradores quando foi interrogado pela polícia. Segundo relatos de alguns integrantes da VPR, o embaixador e Carlos Lamarca tornaram-se grandes parceiros de “biriba” e Giovanni acabou criando uma ótima relação com os outros participantes da ação. O embaixador foi libertado na manhã de 14 de janeiro de 1971, próximo à Igreja da Penha, zona norte do Rio, três dias após o embarque dos 70 presos libertados, com os 13 nomes  substituídos por outros.  Foi o fim do ciclo de sequestros políticos durante a ditadura militar.

DIA 13 DE JANEIRO DE 1999, MORRE NELSON WERNECK SODRÉ

 
“A vida de Nelson Werneck Sodré é um compêndio de contradições: militar, comunista e marxista”. Como militar de carreira chegou a general de reserva, e como intelectual, professor e historiador, foi dono de uma produção intensa de 58 livros além de artigos sobre História, Economia, Política. Foi professor da Escola de Comando do Estado Maior do Exército, um dos fundadores do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), onde lecionou até sua extinção pelo golpe militar de 1964.  Era responsável pelo curso de Formação Histórica do Brasil, do qual resultou o livro de referência na literatura brasileira, contribuindo para o embasamento crítico na orientação dos profissionais do magistério, a “Formação Histórica do Brasil”,publicado em 1962 e posteriormente na Argentina em 1964.
De origem modesta, Werneck Sodré   nasceu no Rio de Janeiro em 27 de abril de 1911. Cursou Colégio Militar e a Escola Militar de Realengo. Graduado em artilharia foi designado para servir em Itu, SP, onde paralelamente começou a escrever como crítico literário no jornal Correio Paulistano. Em 1938 publicou seu primeiro livro, a História da Literatura Brasileira, e até 1945 produziu mais seis livros além de diversos artigos. No início da década de 50, foi desligado da Escola de Estado Maior por suas posições políticas identificadas com as do PCB. A partir de então foi sendo colocado em postos militares pouco relevantes e alguns até punitivos, como no interior do Rio Grande do Sul, em Cruz Alta onde ficou isolado.  Chegou a ser preso em 1961, por se posicionar contra o golpe para impedir a posse de João Goulart.
Com a implantação da ditadura militar em 64, teve seus direitos políticos cassados, ficou proibido de lecionar, e para evitar a prisão, passou a viver na clandestinidade, no interior de São Paulo, dedicando- se intensamente a escrever. Alguns de seus livros foram proibidos chegando a ser retirados das livrarias.  
Como historiador fundamentou suas ideias sob a ótica marxista do “modo de produção”, como base de análise para compreender a formação das classes sociais brasileiras especialmente a chamada “burguesia nacional”. Foi um dos formuladores do nacional desenvolvimentismo que teve grande influência na política comunista que recomendava a aliança dos trabalhadores com a burguesia para o desenvolvimento brasileiro. Se esta visão com o avanço dos estudos historiográficos, representa hoje uma limitação, muitas outras contribuições foram postas pelo mestre, como a formação histórica da sociedade brasileira, a natureza da revolução em nosso país, as formas de pensar do povo brasileiro, o jornalismo, a literatura entre outras.  Lutou pelo progresso social, pela soberania nacional, mesmo em momentos adversos como em 1964, com artigos publicados no Última Hora, posicionando-se contra a ditadura e o imperialismo norte americano.
Continuou escrevendo até os últimos anos de sua vida sempre fiel às convicções socialistas, reavaliando cada momento político brasileiro, como foi o caso na década de 90, com a ascensão do neoliberalismo, quando publicou seu último livro, “A Farsa do Neoliberalismo”,(1995) elaborando uma desmontagem teórica do sistema que passou a nortear a presidência da República no governo tucano. Na ocasião foram reeditadas outras obras do autor, como “Capitalismo e Revolução Burguesa no Brasil”, Formação Histórica do Brasil, esta,  com posfácio de Emir Sader.
 
O professor Nelson Werneck Sodré faleceu dia 13 de janeiro de 1999 aos 97 anos em Itu, São Paulo. 

DIA 12 DE JANEIRO DE 2010, MORRE ZILDA ARNS NEUMANN

 
Médica pediatra, sanitarista, dedicou sua vida à implementação de projetos sociais na área da saúde pública que combatessem a mortalidade infantil; além de trabalhar na defesa das crianças pobres, desnutridas e que sofrem violência no âmbito familiar. Fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança, e da Pastoral da Pessoa Idosa,  foi também  membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), e diretora do departamento Saúde-Materno- Infantil da Secretaria de Saúde do Estado do Paraná.
No exercício da medicina optou pela atuação na saúde pública fazendo diversos cursos de especialização na área em Universidades como a USP, Universidade da Colômbia, OMS (Organização Mundial de Saúde), entre outras. Exerceu medicina no Hospital de Crianças César Pernetta em Curitiba. Depois de ter seu trabalho reconhecido, foi convidada para coordenar a campanha de vacinação contra poliomielite, ocasião em que desenvolveu um método próprio, que funcionava através da   multiplicação do conhecimento, solidariedade entre as famílias, e educação das mães pelos líderes comunitários, estratégia que se expandiu e posteriormente foi adotada pelo Ministério da Saúde.
A experiência na Pastoral da Criança teve início na cidade catarinense de Florestópolis, cujo índice de mortalidade infantil era alarmante. Após um ano de trabalho, o êxito foi tal que chamou a atenção da UNICEF, órgão das Nações Unidas. A Pastoral promoveu ações educativas junto às famílias no que diz respeito à prevenção de doenças e combate à criminalidade infanto-juvenil. Os frutos deste trabalho se espalharam atingindo 72% do território nacional, além de 20 países na América Latina, Ásia e África, auxiliando inúmeras comunidades carentes, contando com mais de 260 mil voluntários, atingiu mais de um milhão de crianças menores de seis anos, 60 mil gestantes, 860 mil famílias pobres em 36660 municípios.  Ao sucesso deste trabalho, seguiu-se o da coordenação da Pastoral da Pessoa Idosa, a convite da CNBB, cujo trabalho atingiu mais de 130 mil idosos e contou com o trabalho voluntário de mais de 15 mil pessoas.
Zilda foi a décima – terceira de dezesseis   filhos do casal de origem alemã Gabriel Arns e Helene Steiner, nascida na cidade de Forquilhinha em Santa Catarina no dia 25 de agosto de 1934, foi mãe de seis filhos e avó de dez netos, irmã de D. Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo,  defensor dos direitos humanos e atuante contra a repressão da ditadura militar brasileira. Em 2009 Zilda esteve no Timor Leste, onde a Pastoral auxiliava 6000 crianças; em janeiro de 2010, Zilda Arns viajou para Porto Príncipe no Haiti pra proferir palestras para religiosos haitianos. Ao terminar a palestra quando ainda estava no prédio respondendo perguntas, aconteceu o terremoto que destroçou a cidade. O edifício de três andares desmontou e Zilda foi atingida na cabeça, e morreu na hora. Era o dia 12 de janeiro de 2010. Seu corpo foi levado para Curitiba, transportado em carro aberto e aplaudido por uma multidão.
Pelo exitoso trabalho prestado, Zilda Arns recebeu inúmeras honrarias. O título de cidadã honorária de 11 estados e 37 municípios brasileiros, 19 prêmios nacionais e internacionais, dezenas de homenagens de empresas, universidades e outras  instituições pelo trabalho na Pastoral da Criança. Pelo conjunto da obra recebeu também prêmios de fundações e organizações norte americanas, espanholas; título de doutor Honoris Causa de universidades de 32 municípios,  título de cidadã honorária em onze estados brasileiros.  Foi três vezes indicada ao Prêmio Nobel da Paz pelo Brasil, junto com outras 999 mulheres pelo projeto Mil mulheres da associação suíça Mil Mulheres para o Prêmio Nobel.
 


DIA 11 DE JANEIRO DE 1945, NASCE GERALDO AZEVEDO

 

Geraldo Azevedo de Amorim é um grande nome da música brasileira e responsável por difundir e fazer respeitada a cultura nordestina para além dos regionalismos. Sua intensa relação com a música veio ainda na infância, sendo reconhecida e incentivada pela família, que embora de origem humilde era também profunda admiradora da cultura e das artes. Geraldo Azevedo nasceu na cidade de Petrolina – PE, no dia 11 de janeiro de 1945, onde inicia sua carreira musical participando como apresentador do programa “Por Falar em Bossa Nova” na primeira rádio de Petrolina a Emissora Rural “A Voz do São Francisco”. Seguiu para Recife   onde chegou a estudar Arquitetura mas, sua alma inquieta de músico não descansou enquanto não se dedicou integralmente à sua grande e maior vocação, a música.

Durante a década de 60 Geraldo Azevedo começa a participar da vida cultural da cidade e a tocar em Universidades. Em 1965 funda o grupo Raiz, fundamentado no teatro, na literatura e na música. Conhece Carlos Fernando, que se torna um de seus maiores parceiros. Trabalha no Teatro Popular do Nordeste com Emilio Borba Filho, na direção musical de suas peças. Começa a musicar os poemas dos espetáculos e a difundir o folclore sertanejo pelas grandes cidades.

            Tudo caminhava bem até o momento em que Geraldo Azevedo passa a  participar de reuniões clandestinas no Teatro Gláucio Gil, ao lado de cineastas, roteiristas, atores e músicos em uma tentativa de resistir à censura do Regime Militar.  Interage com Glauber Rocha, Walter Lima Junior, Caetano Veloso, entre outros e se encarrega pessoalmente de recolher assinaturas para o manifesto contra a censura.

Em 1968 foi obrigado a sair do país e o grupo musical a que pertencia, Quarteto Livre foi desfeito. No exílio compôs a “Canção da Despedida” que foi censurada e acabou se tornando um hino da resistência, mas  somente pôde ser veiculada décadas depois.  Em 1969, Geraldo Azevedo foi preso pelos militares e sofreu com as barbáries da tortura por 41 dias. Vitória sua esposa, ficou 80 dias na prisão. Nesse momento terrível da nossa história, Geraldo assim como tantos outros foi obrigado a abandonar a música e trabalhar em outras funções, no seu caso como arquiteto.  Em 1970 muda-se para o Rio de Janeiro onde numa fase musical extremamente frutífera, realizou parcerias com Alceu Valença e Elba Ramalho. Nesse período surgiram verdadeiras pérolas da nossa música como “Talismã” (também censurada), “Bicho de sete cabeças” e “Táxi Lunar”.

 Em 1974 Geraldo Azevedo volta a viver o terror da tortura e seus requintes de crueldade.  Foi novamente preso pelo governo militar de Geisel ao lado da esposa grávida de seu segundo filho, que logo foi solta. Em um dos interrogatórios o colocam para tocar violão. Ele então foi salvo das torturas pela música, sendo obrigado a tocar e cantar para os torturadores repetidas vezes. Geraldo Azevedo resistiu heroicamente às torturas, seguiu em frente e continuou a compor. Suas músicas seguem encantando o público e sendo veiculadas em rádios, programas musicais, novelas e festivais de música.

 Felizmente a partir da década de 80, livre da perseguição da ditadura, segue realizando seus trabalhos por todo o país  divulgando os ritmos como o forró e o frevo para além das fronteiras do Nordeste. Cabe aqui mencionar o antológico “O Grande Encontro”, sucesso total de público, crítica e vendas na década de 90 em parceria com Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Alceu Valença e Elba Ramalho. Geraldo Azevedo continua em plena atividade nos presenteando com seus shows, e novas composições. Sua mais recente apresentação foi um inesquecível show realizado gratuitamente no espaço Lona Carioca em 2015. 


DIA 10 DE JANEIRO DE 1985, TEM INÍCIO O GOVERNO DE DANIEL ORTEGA NA NICARÁGUA

 
A América Latina continua a viajar em busca da ocidentalização, procurando tornar-se contemporânea do seu tempo. Mas essa é uma viagem acidentada, somando conquistas e frustrações, originalidades e distorções… Os séculos XIX e XX podem ser vistos como amplos cenários de tropelias oligárquicas, ensaios liberais, experiências populistas, reincidências ditatoriais, revoltas populares, revoluções democráticas, experimentos socialistas, golpes contra -revolucionários, estratégias modernizantes”. (Octávio Ianni, Labirinto Latino americano).
O experimento socialista de caráter popular a que se refere Ianni, teve seu lugar na História da Nicarágua, quando o movimento conhecido com o Revolução Sandinista alcançou a vitória em julho de 1979, com a derrubada da “dinastia” Somoza, que durante 45 anos deteve o controle da economia nacional, o poder militar (Guarda Nacional), através de uma ditadura com forte repressão aos movimentos oposicionistas e com o apoio irrestrito dos EUA. Lá como “em todos os países do continente, as condições para a insurreição estavam dadas: a miséria social, fome, injustiça, etc”.
Os diversos movimentos de oposição nicaraguenses se congregaram na FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional), uma organização popular heterogênea com matizes socialistas, que evocava a luta nacionalista do líder Augusto Sandino. Este, que em 1933 conseguira expulsar os marines norte- americanos,  foi assassinado pelo ditador Somoza. A FSLN constituída por membros da Igreja Católica progressista, comunistas, liberais, tomou o poder através de uma sangrenta luta armada, que levou à morte de mais de 30 mil homens, derrotou a Guarda Nacional e chegou ao poder.  Formaram a Junta de Reconstrução do país, cuja primeira tarefa reconstruir a nação devastada.
Buscaram a consolidação de uma nova hegemonia estabelecendo consensos com a burguesia nacional. Entre as principais medidas tomadas, destacam -se a expropriação dos bens da família Somoza (40% das riquezas nacionais), a nacionalização dos bancos, companhias de seguros, a redistribuição de renda, e uma considerável reforma agrária, além de conseguirem reduzir o analfabetismo de 52% a 12%, realizando cruzadas de alfabetização. Vários programas sandinistas receberam prêmios internacionais. No início dos anos 80, as relações com os EUA se deterioraram, foram impostas sanções à economia. E o mais grave:  passaram a financiar os “contras”, guerrilheiros anti – sandinistas, remanescentes da guarda somozista.
Em 1984 o líder guerrilheiro sandinista, Daniel Ortega, vence as primeiras eleições livres após a revolução e assume o governo no dia 10 de janeiro de 1985. Em 1986 os sandinistas fecharam o jornal La Prensa cuja linha editorial era contra revolucionária.  Em represália, os EUA aprovaram um amplo empréstimo aos “contras”, levando o país a uma situação de guerra, e o governo ao desgaste popular. Desta forma a população cansada de guerra, se rendeu à interferência descarada dos EUA, nas eleições de 1990, que deram a vitória a uma coalizão sob liderança de Violeta Chamorro, pró -EUA, depois de 11 anos de governos sandinistas. No poder, desfizeram todas as conquistas dos governos sandinistas.
Após uma sequência de governos neoliberais e conservadores e a permanência dos mesmos problemas que sempre afligiram a população, os sandinistas voltaram ao governo com a vitória de Daniel Ortega nas eleições de 2006 para enfrentar o retrocesso econômico, a inflação, o desemprego, a dívida externa, entre outros. Foi reeleito em 2011 e, pela terceira vez consecutiva Daniel Ortega vence as eleições em 2016.  Desta vez com 72% dos votos em 4, 34 milhões de eleitores sendo a vice – presidente,  Rosana Murillo sua esposa, chapa que terá  pela frente um horizonte de dificuldades, como o enfraquecimento da pareceria com a Venezuela, devido à crise econômica decorrente do baixo preço do petróleo,  a ameaça de veto norte americano ao Nica Act (lei de condicionalidade de investimentos na Nicarágua) , sobretudo depois da eleição do Trump  no “ império do norte”.  

DIA 09 DE JANEIRO DE 2003, LULA SANCIONA A LEI DE INCLUSÃO DA HISTÓRIA E CULTURA AFRO BRASILEIRA NO ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO

 
O Brasil é o segundo maior país negro do mundo depois do Continente Africano e no entanto, nossa população sofre do que poderíamos chamar de crise de identidade étnica desde os primórdios de nossa formação sócio cultural. O racismo e o preconceito contra a população negra foi perpetuado em todas as instituições formais do país mesmo após a abolição da escravatura em 1888 e que esse ano de 2018 completa 130 anos.
A urgência de se trazer para o âmbito educacional o valor da influencia da cultura africana no Brasil, foi o pano de fundo para a criação da Lei 10639/2003 que acrescentou à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) dois artigos fundamentais para a compreensão e o resgate histórico de nossas raízes étnicas e culturais. Em 09 de janeiro de 2003, foi sancionada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva a Lei 10639 que estabelece o ensino obrigatório em todas as escolas públicas e particulares da educação básica do país, conteúdos relacionados à História e à Cultura afro-brasileiras. A implementação desse conteúdo em nossas escolas foi sem dúvida um marco fundamental na história das lutas anti – racismo e incentivou a  democratização do ensino no Brasil.
A Lei nº 10.639/2003 acrescentou à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) dois artigos: 26-A e 79-B.  O primeiro estabelece o ensino sobre cultura e história afro-brasileiras e especifica que o ensino deve privilegiar o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional. O mesmo artigo ainda determina que tais conteúdos devem ser ministrados dentro do currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística, Literatura e História brasileiras. Já o artigo 79-B inclui no calendário escolar o Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro.
Essa inédita medida sem dúvida quebrou um ciclo de segregação e silêncio ao trazer para a sala de aula uma temática que afinal é inerente a nossa história. Através do estudo e do resgate de nossas origens cria-se a esperança de promover a tolerância, o respeito e a inclusão social. A construção de uma educação antirracista é fundamental para a democracia brasileira tão carente de compreensão sobre sua identidade étnica e cultural. Lamentavelmente após o golpe de 2016, estamos caminhando a passos largos para um retrocesso sem precedentes nas conquistas históricas que poderiam nos reconciliar com nosso passado de total violência e desrespeito aos nossos próprios ancestrais.
 

DIA 08 DE JANEIRO DE 1967, ATO NO TEATRO PARAMOUNT EM SÃOPAULO

 
Desde o ano de 1964 quando houve a ascensão do governo militar ao poder através do golpe contra o Presidente João Goulart com a total conivência e cobertura parcial da imprensa brasileira, os artistas, intelectuais, estudantes, jornalistas ou qualquer cidadão civil que demonstrasse publicamente o seu descontentamento com a ditadura corria o risco de ser preso, interrogado, torturado e morto. Não necessariamente nessa ordem.  E para sacramentar o silêncio dos opositores, ainda em 1964, o então presidente Castelo Branco criou o Serviço Nacional de Inteligência (SNI), órgão que ficou encarregado de monitorar todo o conteúdo de toda e qualquer mídia e enviar agentes às redações de jornais, rádios e TV para fazer a censura prévia caso encontrassem algo que considerassem ameaçador ao regime imposto.
No entanto, mesmo com todo o clima de terror que pairava sobretudo nos anos de chumbo, muitos artistas, intelectuais e estudantes ousavam desafiar o regime realizando protestos públicos. Mas para evitar que tais manifestações continuassem a ocorrer, em janeiro de 1967, o governo de Castelo Branco anunciou que criaria medidas para exercer maior controle sobre a imprensa. Em resposta a tal arbitrariedade, no dia 08 de janeiro de 1967, um grupo de jornalistas (Luís Nassif, Ivam de Barros Bella, David de Moraes, Narcisio Kalili e outros) organizaram   o Encontro com a Liberdade, no Teatro Paramount, em São Paulo, contra o projeto de lei de censura do primeiro ditador, o general Castelo Branco. O protesto contou com a participação de muitas lideranças nacionais da resistência à ditadura. O teatro estava abarrotado. Ali também estavam naturalmente, os investigadores do DOPS, prestando uma informação detalhada sobre os participantes, que inevitavelmente foram perseguidos.
Um mês após o anúncio do projeto de lei, em 08 de fevereiro de 1967, Castelo Branco sancionou a Lei de Imprensa, que restringia a liberdade de expressão no Brasil. Com a entrada em vigor desta lei, pelas novas regras, todos os programas exibidos na televisão deveriam apresentar na tela, antes do início, uma autorização rubricada pelos censores.
 
A Lei da Imprensa oficializou a censura no Brasil. Nenhum veículo de comunicação passava mais desapercebido pelos olhos atentos e cheios de ódio dos agentes censores. Infelizmente a Lei da Imprensa foi só o início de um longo e obscuro período de falta de liberdade que duraria até 1985. A evolução do processo da imposição ao silêncio começou em 1964 e passou por várias etapas e graduações. Em 1968, com a publicação do AI-5, por Costa e Silva houve a institucionalização definitiva do caráter ditatorial do regime, tornando a censura implacável até o início do governo Geisel, em 1975.  Por fim, durante os governos Geisel, de 1975 a 1979, e Figueiredo, de 1979 a 1985, a censura tornou-se gradativamente mais leve com a abertura “lenta, gradual e restrita”,  até o restabelecimento do regime democrático.

DIA 07 DE JANEIRO DE 1835, A REVOLTA DOS CABANOS TOMA BELÉM, CAPITAL DO GRÃO-PARÁ

 
Revolta dos Cabanos ou Cabanagem “é um dos mais, se não o mais notável movimento popular do Brasil. É o único em que as camadas inferiores da população conseguem ocupar o poder de toda uma província com certa estabilidade. Apesar de sua desorientação, da falta de continuidade que o caracteriza, fica-lhe contudo, a glória de ter sido a primeira insurreição popular que passou da simples agitação para uma tomada efetiva do poder”. (Caio Prado Júnior, Evolução Política do Brasil e Outros Estudos).
A região do Grão-Pará compreendia à época da revolta, o atual estado do Pará e a comarca do Rio Negro, atual estado do Amazonas. A sobrevivência da província baseava-se no extrativismo dos produtos amazônicos e pequena produção de tabaco, cacau, algodão e arroz.  O comércio ficava sob o monopólio dos portugueses, cujo mandonismo permanecia inalterado desde a independência do país em 1822. As autoridades provinciais chegaram ao ponto de propor que o Grão-Pará se transformasse em Província de Portugal.As precárias condições de vida e de trabalho decorrentes desta exploração econômica, baseada no trabalho de escravos negros, mestiços, índios destribalizados, submetidos à semi- escravidão, criaram ao longo dos anos as razões desta revolta marcada pela extrema violência, que deixou um saldo de 30 mil mortos do total de 100 mil habitantes do Grão-Pará.
 No Período Regencial começaram as manifestações contra a interferência do governo central, sediado no Rio de Janeiro, que nomeava os governadores provinciais. Em 1833 o novo governador Bernardo Lobo e Souza, perseguiu e deportou revoltosos, aumentando o clima de tensão.  Os Cabanos, assim chamados por morarem em cabanas nas margens dos rios, violentamente explorados, viviam em quase miséria absoluta, aliaram-se aos irmãos Vinagre, ao seringueiro Eduardo Angelim e outros, e radicalizaram o movimento. Tomaram a capital Belém no dia 7 de janeiro de 1835, executaram o governador, proclamaram a República que separava a província do Império brasileiro. O governo de Angelim assumiu um caráter nitidamente popular e revolucionário aumentando as esperanças das camadas mais pobres. Diante destes fatos, a elite abandonou o movimento pois temia o prejuízo de seus interesses econômicos.
No fragmento do Manifesto dos Cabanos pode-se perceber o tom da revolta: “Saibam pois, o governo geral e o Brasil inteiro que os paraenses não rebeldes, os paraenses querem ser súditos mas não querem ser escravos, principalmente dos portugueses… os paraenses querem ser governados com a lei e não com a arbitrariedade”. (Agosto de 1835). Os combates violentos prosseguiram por dias inteiros, provocaram incidente diplomático com a Inglaterra ao atacarem um navio ancorado no porto de Belém e levarem as armas. A marinha inglesa mandou três navios exigindo o pagamento da carga, o hasteamento da bandeira inglesa no lugar da brasileira e chegou até propor ajuda aos rebeldes contra o governo central, tornando a província um vice-reinado britânico, o que não foi aceito pelos líderes revolucionários.
Os combatentes subiram o rio Amazonas, tomaram outras cidades da província. O governo central dirigido pelo Regente Feijó mandou tropas da Guarda Nacional para esmagar a população sem piedade. Com a ajuda de tropas estrangeiras mercenárias, como o almirante inglês Taylor, bombardearam Belém, incendiaram  os assentamentos cabanos. Em 1839 a guerra dos cabanos chegou ao fim, deixando um rastro de destruição e mortes. Muitos revolucionários conseguiram fugir e levaram para a floresta os ideais da Cabanagem mesmo após sua derrota.
 
A história desta insurreição deixou um vazio de explicações por muitos anos. Posteriormente o movimento passou a ser estudado de forma sistemática. Surgiram então um leque de diversas interpretações históricas que consideram uma “guerra de independência tardia”, ou visões marxistas de “luta legítima contra a hegemonia imperialista”. 

DIA 06 DE JANEIRO DE 1873, NASCE JULIANO MOREIRA

 
Embora o movimento que se consagrou como Reforma Psiquiátrica só tenha ocorrido oficialmente em 2001 no Brasil, Juliano Moreira mesmo sem ter tido a intenção de iniciar tal movimento, foi protagonista no processo de humanização dos tratamentos para pacientes psiquiátricos no Brasil.  Nas primeiras décadas do século XX, na qual o discurso médico-científico se amparava basicamente na remissão dos sintomas a todo custo, Juliano Moreira introduz a possibilidade de lançar um outro olhar para compreender os transtornos da alma.
Suas primeiras medidas de impacto foram, a incineração de camisas-de-força e a criação de espaços para diálogo com os pacientes. Juliano Moreira, se mantinha sempre a par de todos acontecimentos importantes na comunidade científica nacional e internacional, e foi também pioneiro na introdução das técnicas da Psicanálise Freudiana na psiquiatria brasileira o que daria novos rumos à nossa psiquiatria. Juliano Moreira apoiado na primeira lei brasileira que dispõe sobre a assistência a “alienados” (termo oriundo da terminologia psicopatologizante da psiquiatria clássica) e em sua experiência na Europa, inicia um projeto que contou com uma rede de serviços interligados em saúde mental,  lançando um novo horizonte diante das técnicas de “tratamento” absolutamente desumanas que eram destinadas aos pacientes até então.
Juliano Moreira nasceu em 06 de janeiro de 1873 em Salvador (BA),  em uma   família de origem humilde, porém contrariando todas as expectativas para um jovem negro com poucos recursos, aos 13 anos ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia e  graduou-se aos 18 anos (1891), com a tese “Sífilis maligna precoce“. Cinco anos depois, já era professor substituto do departamento de doenças nervosas e mentais da mesma escola. Sua extensa obra escrita abrangeu várias áreas de interesse na medicina mas logo seu trabalho se voltaria para a pesquisa de doenças mentais e modelos assistenciais e sobre a legislação referente aos “alienados”.
Seu trabalho marcou definitivamente a história da medicina e da assistência psiquiátrica no Brasil. Além de ter que lutar contra um discurso médico autoritário e reducionista, Juliano Moreira precisou enfrentar muitos dramas pessoais em função do preconceito e do racismo nesta sociedade retrógada e excludente.  A comunidade científica da época e ainda hoje, é predominantemente reacionária e elitista. No entanto Juliano Moreira com seu brilhantismo e inteligência privilegiados,  transformou essa dura realidade em pesquisa científica desenvolvendo   também em  sua obra, um profundo estudo sobre o processo de miscigenação do povo brasileiro e sua influência na incidência de supostos transtornos mentais. Sua conclusão naturalmente, foi sua explícita discordância quanto à atribuição da degeneração do povo brasileiro à mestiçagem, especialmente a uma suposta contribuição negativa dos negros na miscigenação.
A posição de Juliano Moreira certamente era minoritária entre os médicos, na primeira década do século XX que defendiam abertamente o racismo científico.  Para ele, na luta contra as degenerações nervosas e mentais, os inimigos a combater, seriam o alcoolismo, a sífilis, as verminoses, as condições sanitárias e educacionais adversas.
Em sua homenagem o antigo Hospital Nacional dos Alienados, instituição criada na primeira metade do século XX e que foi dirigida por Juliano Moreira por mais de 20 anos, passou a se chamar Colônia Juliano Moreira. Localizada no bairro de Jacarepaguá na cidade do  Rio de Janeiro, até hoje  funciona recebendo  pacientes psiquiátricos e  serve também como residência para milhares de pessoas  além de abrigar o museu Bispo do Rosário.
 


DIA 05 DE JANEIRO DE 1971, É ASSASSINADO RAIMUNDO EDUARDO DA SILVA

 
Ele era um jovem de apenas 23 anos, estudante e operário que ousou contestar a ditadura militar brasileira e se tornou mais uma das vítimas da truculência do regime que deixou um rastro pelo menos 434 pessoas assassinadas sob os mais cruéis requintes de tortura.
Raimundo Eduardo da Silva nasceu na cidade mineira de Formiga em 23 de março de 1948. Deu início a luta por justiça social no movimento de jovens da Igreja Católica sob a orientação dos preceitos da Teologia da Libertação na região do Jardim Zaíra na cidade de Mauá, região do ABC paulista. O   Jardim Zaíra era um bairro operário que se tornou um foco de resistência à ditadurae contava com a liderança  de Hebert de Souza, o Betinho, na conscientização da população fazendo o  trabalho de base nas fábricas criando “células” operárias . Betinho residiu na cidade por dois anos realizando na clandestinidade sua militância.
 Raimundo foi o mais jovem dos presidentes da Associação dos Amigos do Jardim Zaíra. Esta associação nasceu da necessidade de buscar melhorias para o bairro, como saneamento, assistência médica, escolas, no período anterior à ditadura (1962). Com a implantação do regime militar, veio naturalmente a luta por direito de expressão e liberdade. A Associação foi perseguida e fechada, e o sonho dos jovens logo se tornou pesadelo. Aguns de seus membros presos e torturados, como foi o caso de Raimundo Eduardo da Silva que atuava na organização AP, (Ação Popular), oriunda de São Bernardo do Campo.
De 1967 a 1970 Raimundo Eduardo trabalhou nas fábricas de Fertilizantes Capuava, Laminação Nacional de Metais e Ibrape, onde atuava como coordenador do movimento operário. Como passou a ser perseguido mudou-se para a cidade de Santo André, onde foi ferido a facadas ao tentar defender um amigo em uma briga. Ferido, passou por duas cirurgias e estava internado no Hospital Sancil, com a saúde ainda precária quando foi retirado do leito do hospital no dia 22 de dezembro pelos agentes da repressão do DOI-CODI/SP, onde foi  torturado e levado agonizante  para o Hospital Geral do Exército onde morreu no dia 5 de janeiro de 1971. Foi enterrado como indigente no cemitério de Perus, SP.
A necrópsia foi realizada pelos médicos João Grigorian e Orlando José Bastos Brandão que deram como causa mortis“peritonite”, sem relatar as marcas das torturas. Um relatório sobre as circunstâncias da morte de Raimundo Eduardo foi elaborado pelaComissão dos Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos em 18/04/1996 e enviado à comissão especial sob o nº Lei nº 9.140/95. O caso foi abordado também  pela Comissão Nacional da Verdade em audiência pública no dia 15 de julho de 2013, quando ouviram o irmão da vítima, Hélio Jerônimo da Silva que contou que sua mãe estava  levando alimentos para serem entregues ao filho, quando um oficial lhe informou que “ele já estava fedendo há muito tempo”.
O corpo foi exumado em 1983, quando a família pode fazer o enterro no cemitério do bairro Guaianazes em São Paulo.
Recentemente foi criada uma associação do Centro de Memória do Grande ABC, que tem por objetivo esclarecer crimes cometidos pela ditadura, buscar o perfil dos torturadores, suas relações com as empresas privadas da região e as instituições públicas. Pretendem lançar um livro sobre os movimentos de resistência da região, o Livro Vermelho do ABC e ainda produzir um documentário relativo às lutas contra a ditadura.
 


DIA 04 DE JANEIRO DE 1988, MORRE HENFIL

 
Sua coragem junto à sua genialidade ao denunciar os trágicos acontecimentos do país através de seus personagens humorísticos, transformou Henrique de Souza Filho, o Henfil, em cartunista, humorista e escritor. Sua participação na vida política do país se deu de maneira criativa e inteligente e nem por isso menos combativa.  Henfil teve uma atuação marcante nos movimentos políticos e sociais, lutando contra a ditadura, pela democratização do país, pela anistia aos presos políticos e na campanha pelas Diretas Já! em 1984.
 
Henfil foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores em 1980 e atuou em jornais de grande circulação como também na televisão, mas se notabilizou principalmente pelos trabalhos na imprensa alternativa, como o semanário O Pasquimalém de publicar histórias em revistas próprias, como o Fradim.
 
            Além do trabalho como cartunista, Henfil também publicou livros de crônicas, entre eles Diário de um Cucaracha (1976), Henfil na China (1980) e Diretas Já! (1984). Atuou também no cinema, escrevendo o roteiro e dirigindo a comédia Tanga que chegou a ser notícia no jornal norte – americano The New York Times em 1987.   Apesar de toda a censura, Henfil fazia comentários corajosos sobre política e comportamento na televisão, com o quadro “TV Homem”, veiculado no programa matinal TV Mulher mesmo correndo o risco de ser preso. Além disso, Henfil também utilizava seu trabalho como escritor e cartunista para abordar os temas da moral religiosa expandindo essas ideias para uma crítica à moral político-burguesa brasileira.
 
            Henfil assim como seus irmãos Betinho e Francisco Mário, era hemofílico de nascimento, e contraiu o vírus da AIDS durante uma transfusão o que não o impediu de continuar seu trabalho.  Junto com seu irmão Betinho, escreveu o texto “A Cura da AIDS”, no qual afirmava que a cura da doença era questão de tempo. Henfil faleceu dia 04 de janeiro de 1988, quando ainda estava em plena atividade e muitos de seus trabalhos continuaram sendo publicados depois de sua morte. Henfil conseguiu driblar a censura dos anos de chumbo com seu humor e originalidade mas infelizmente não foi possível fazer o mesmo com relação a esse vírus letal que nos deixou órfãos de seu humor inteligente.
 
Após sua morte, o controle das doações de sangue passou a ter um foco mais rigoroso quando a Constituição de 1988 incluiu o artigo 199, que proíbe a comercialização de sangue e de seus derivados. Essa decisão se concretizou através da  Lei Federal nº  10.205, promulgada em março de 2001. “Meu pai foi a primeira pessoa pública a admitir que estava com Aids, e a denunciar o sistema de coleta de sangue vigente no Brasil”, relatou seu Filho Ivan, que em 2009, fundou o Instituto Henfil, com o objetivo de preservar a produção artística do pai.  O acervo conta atualmente com 15 mil originais, número que tende a aumentar, já que ainda hoje antigos amigos devolvem originais resgatados dos diversos jornais nos quais  Henfil publicava.   Graças ao Instituto e a colaboração dos amigos, sua memória continua viva e sua luta atual.
 


DIA 03 DE JANEIRO DE 1898, NASCE LUÍS CARLOS PRESTES

 
Um dos maiores líderes revolucionários da América Latina no século XX, sua trajetória de vida se confunde com a História das lutas populares pela democracia, justiça social e igualdade, enfim com a história do comunismo no Brasil, cujos ideais permaneceu fiel até sua morte. Uma figura icônica da nossa História que jamais desistiu da luta. Foi sem dúvida o Cavaleiro da Esperança!
 Formado em engenharia pela Escola Militar de Realengo no Rio de Janeiro em 1919, considerado aluno brilhante, ascendeu ao cargo de capitão do exército. Carreira que abandonou para ser político revolucionário. Foi o maior líder do movimento Tenentista brasileiro, comandante da histórica Coluna Prestes (1924/25), e do Levante Comunista de 1935. Presidente de honra da ALN(Aliança Libertadora Nacional), presidiu o Partido Comunista Brasileiro por 50 anos, foi perseguido, preso e obrigado  por diversas vezes,  a viver na clandestinidade e exílio por longos anos de sua vida.
Nasceu em Porto Alegre no dia 03 de janeiro de 1898, filho de oficial do exército e Leocádia Pereira Prestes. Após o término dos estudos no Rio de Janeiro, foi transferido para o Rio Grande do Sul, de onde liderou a Revolta Tenentista contra o governo oligárquico da República Velha presidido à época por Artur Bernardes.  O Tenentismo  expressava o descontentamento das classes médias urbanas com a República Oligárquica, exigindo reformas como voto secreto, convocação de Constituinte, entre outras. A Coluna dos tenentes liderada por Luís Carlos Prestes no sul, se juntou à Coluna de Miguel Costa após a revolta na capital paulista e desta junção nasceu o movimento revolucionário que ficou conhecido como Coluna Prestes.
O líder revolucionário comandou 1500 homens que percorreram 25 mil quilômetros pelos mais inóspitos rincões do país, conhecendo a miséria e o abandono do povo brasileiro por parte da República do “Café com Leite”. Embora não tenham conseguido os objetivos revolucionários de conscientização da população sertaneja contra o governo central, Prestes alcançou grande prestígio militar e político, o que lhe valeu o título de “Cavaleiro da Esperança”. Refugiaram-se na Bolívia (1927), onde Prestes travou contato com o histórico chefe do Partido Comunista Brasileiro,  Astrojildo Pereira. Momento em que se converteu-se ao comunismo, e passou a  estudar as obras de Marx e Engels. O conhecimento da miséria do interior do país levou-o a sentir a necessidade de lutar pela Revolução Socialista.
Em 1931 foi viver na URSS, onde trabalhou como engenheiro e estudou marxismo. Por decisão da Internacional Comunista foi aceito em 1934 no PCB, pois este, até então, o considerava um pequeno burguês.  Ao final do mesmo ano, retorna ao Brasil clandestinamente acompanhado por Olga Benário, agente da IC (Internacional Comunista), que se tornaria sua esposa. Chegaram com as orientações estratégicas para a derrubada do governo Vargas através do Levante Comunista (1935).  Como presidente de honra da ALN, logo se colocou publicamente contra o governo de Vargas. O Levante Comunista conhecido como Intentona, insurgiu nas guarnições dos quartéis de Natal, Recife e Rio de Janeiro. Mas foi rapidamente sufocado.  Ao  fracasso da revolução, seguiu-se uma tenebrosa repressão aos comunistas. Prestes e Olga foram presos. Meses depois Olga, que era judia estava grávida de sete meses, mas mesmo assim foi entregue pela polícia de Vargas ao regime nazista alemão sendo executada no campo de concentração Bernburg, 1942.  A filha do casal nascida no campo de concentração, Anita Leocádia foi entregue à avó paterna depois de uma campanha internacional liderada por D. Leocádia Prestes.
Prestes permaneceu preso pela repressão varguista até o fim do Estado Novo. Quando foi posto em liberdade e ocupou o cargo de senador de 1946 a 1948. Em 1952 casou-se com Maria e teve outros sete filhos.
Após o golpe militar de 1964, teve seus direitos políticos cassados, foi perseguido pela ditadura,  mas conseguiu fugir, exilando-se na URSS, onde permaneceu até a anistia de 1979, quando retorna ao Brasil. Nos anos 80 apoiou a candidatura de Leonel Brizola ao governo do Estado do Rio de Janeiro e em 1989 à   presidência do Brasil. Recebeu o título de presidente de Honra do PDT.
Em 07 de março de 1990 morreu na cidade do Rio de Janeiro. Recebeu incontáveis homenagens do povo e de figuras históricas da militância de esquerda.   Sua trajetória política foi tema de alguns filmes e documentários no cinema e TV, além de livros e biografias escritas.  


DIA 02 DE JANEIRO DE 1952, ADMISSÃO DO PRIMEIRO ESTUDANTE NEGRO NA UNIVERSIDADE DO TENNESSEE NOS EUA.

 
 
 
Este acontecimento foi um dos marcos iniciais resultantes do conhecido e famoso Movimento dos Direitos Civis dos negros nos Estados Unidos, entre 1955 e 1968, visando a abolir a discriminação e a segregação racial no país. Com o aparecimento de movimentos negros como o Black Power e os Panteras Negras nos meados dos anos 60, o clamor da sociedade negra por igualdade racial acabou aumentando seu pleito para a dignidade racial, igualdade econômica, autonomia  política e libertação da autoridade branca do país.
 
Em 02 de janeiro de 1952, um estudante negro foi admitido pela primeira vez na Universidade de Tennessee, nos Estados Unidos, como estudante de pós-graduação. Seu nome era Gene Mitchell Gray. Sua admissão na Universidade do Tennessee só foi conquistada após uma longa batalha judicial assim como vários outros estudantes negros durante a década de 50. O estudante de apenas 22 anos trabalhava em um hotel e aguardava sua admissão na Universidade, assim que ingressou na graduação foi demitido de seu emprego e enfrentou as maiores dificuldades para conseguir outro trabalho. Graças a atuação de um grupo de Afro Americanos de sua localidade, Gene Mitchell obteve o suporte necessário para que pudesse se manter na Universidade até conseguir completar seu curso de bioquímica.
 
As décadas de 50 e 60 foram extremamente conturbadas sob o aspecto social e racial nos EUA sobretudo nos Estados do Sul, onde historicamente sempre fomentaram políticas de exclusão racial e ideologias de supremacia branca respaldadas na lei.  Sob a liderança de Martin Luther King, Bayard Rustin e outros importantes líderes negros a luta pela igualdade dos direitos civis ganhou força e conquistou vitórias.   O início desse movimento tem como pauta a luta pela não segregação racial das escolas públicas, que em 1954 contou com o apoio do Supremo Tribunal dos Estados. A partir da segunda metade da década de 50, cresceram as campanhas pelos direitos civis dos negros, baseadas na filosofia da não violência, pregada pelo líder indiano Manhatma Gandhi. Rustin passou algum tempo na Índia aprendendo as técnicas da resistência civil não-violenta
 
Em 1960 Martin Luther King conseguiu liberar o acesso dos negros em parques públicos, bibliotecas e lanchonetes. Em 1963 liderou a Marcha sobre Washington, que reuniu 250 mil pessoas, quando faz seu importante discurso, que começa com a frase “I Have a dream” (Eu tenho um sonho), e descreve uma sociedade, onde negros e brancos possam viver harmoniosamente. Em 1964 foi criada a Lei dos Direitos Civis, que garantia a tão esperada igualdade entre negros e brancos. Nesse mesmo ano Martin Luther King recebeu o “Prêmio Nobel da Paz”. Tragicamente Luther King morreu em combate na guerra contra o racismo sendo assassinado em abril de 1968.
 



DIA 30 DE DEZEMBRO DE 1968, SAI A PRIMEIRA LISTA DE CASSAÇÕES DO AI Nº 5

 
As manifestações contra o regime militar ganharam ímpeto ao longo do ano de 1968.  Observou-se uma contestação generalizada através de passeatas estudantis, greves do movimento operário, manifestações de artistas e intelectuais, a até no Congresso cresceu o número de deputados oposicionistas, do MDB. Havia chegado no Brasil os ecos daPrimavera da Paris de maio de 1968. O ápice das manifestações foi a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro em junho de 68. Neste contexto de radicalização política os setores mais “duros” do regime pressionaram o governo do então presidente Costa e Silva, que baixou o decreto mais virulento do regime militar, o Ato Institucional nº 5, aprovado no dia 13 de dezembro de 1968, no Palácio Laranjeiras no Rio de Janeiro.
O governo ampliava os poderes para reprimir seus opositores. Liquidava com os resquícios do Estado de Direito e das liberdades democráticas.  O ato lhes dava o poder de cassar mandatos políticos; suspender habeas corpus; aplicar a pena de morte e prisão perpétua para crimes políticos; possibilidades de privar o judiciário de sua autonomia; suspender por 10 anos os direitos políticos de qualquer pessoa; censura aos meios de comunicação em caráter prévio, como alguns exemplos. Na mesma noite os efeitos do AI 5, já foram sentidos. O Congresso Nacional foi fechado por tempo indeterminado.  O ex-presidente Juscelino Kubitschek foi preso ao sair de uma solenidade no Theatro Municipal no Rio de Janeiro e levado para um quartel em Niterói. No dia seguinte fora preso Carlos Lacerda, ex-governador do Estado da Guanabara.  
No dia 30 de dezembro de 1968, saiu a primeira lista de cassações com 11 deputados federais. Encabeçava a lista o deputado Márcio Moreira Alves (MDB), cujo discurso na tribuna provocara a ira dos generais e o pedido de cassação de seu mandato à Câmara. Ele havia proposto um boicote ao militarismo e às comemorações do dia da Independência, bem como apelava às moças “ardentes de liberdade” que não saíssem com oficiais das forças armadas. A Câmara havia negado o processo de cassação do seu mandato por 75 votos no dia 12 de dezembro. No dia seguinte saiu o AI-5. Seguia a lista as cassações de outros deputados do partido de oposição MDB, como Hermano Alves (SP), que escrevera artigos no Correio da Manhã considerados “ofensivos” ao governo militar, Renato Archer (MA), David Lerer (SP), Gastone Righi (SP), Héio Navarro (SP), Henrique Heiki (SP), José Luís Sabiá (SP), Matheus Schimit (RS), Maurílio Ferreira Lima (PE), José Carlos Guerra (ARENA-PE).
O AI 5 provocara uma verdadeira devassa e segundo o jornalista Zuenir Ventura em “O Ano que não Terminou”, a Herança das Trevas, na vigência dos 10 anos, tivera um saldo de: 500 filmes proibidos, 450 peças de teatro, 200 livros censurados, 100 revistas retiradas de circulação, 50 letras de músicas, 313 mandatos cassados, 348 aposentadorias compulsórias, 139 militares reformados, 129 demissões do executivo do governo, 66 direitos políticos perdidos, 12 capítulos de novela cancelados.
“Na verdade, o AI-5 foi a alternativa mais despótica ainda que civis e militares da ditadura encontraram para aprofundar o projeto de entreguismo que assolou o país a partir de 1964, o qual enfrentava grande resistência ainda em 1968. A partir dali, sobretudo com eliminação direta dos oponentes e com o “milagre econômico”, sustentado na poupança externa, a ditadura consolidou seu projeto. E, em 21 anos de duração, elevou nossa dívida externa de 4 para 100 bilhões de dólares, massacrou uma geração e impediu que o desenvolvimento do país encontrasse a maioria de seu povo”.
 
 
 


DIA 28 DE DEZEMBRO DE 1972, É PRESO CARLOS NICOLAU DANIELLI

 
“Danielli foi assassinado lentamente; mesmo com o corpo todo esfolado, respondeu sempre de maneira altiva a seus inquisidores: ‘É isso que vocês querem saber? Pois é comigo mesmo, só que eu não vou dizer’. Afirmou diversas vezes: ‘Só faço o meu testemunho político”.
Carlos Danielli era membro da alta hierarquia do PCB, ativista sindical, integrou e dirigiu a Juventude Comunista nos anos 40.  Quando do episódio da “crise dos mísseis de Cuba”, em 1962, esteve presente no país para prestar solidariedade aos companheiros cubanos. No mesmo ano participou junto a outros companheiros da fundação do PC do B(Partido Comunista do Brasil), dissidência do PCB. Atuava na área de contatos externos, visitando países vizinhos estreitando laços políticos com os revolucionários do nosso continente. Foi responsável pela edição do jornal do partido, A Classe Operária, que mesmo na clandestinidade chegava a vários estados brasileiros, distribuídos de mão em mão pelos quadros do partido.
Carlos Danielli nasceu em Niterói, no dia 14 de setembro de 1929. Desde muito jovem o sangue revolucionário já corria em suas veias, pois aos 15 anos quando começou a trabalhar nos estaleiros da construção naval em São Gonçalo, iniciou também sua militância sindical. Tornando-se depois dirigente da Juventude Comunista. Era descrito pelos companheiros como solidário, bem humorado e não se recusava a desempenhar nenhuma tarefa política. Foi um dos principais organizadores da guerrilha do Araguaia, preparava os militantes, providenciava remédios, armas e equipamentos necessários. Foi casado e pai de quatro filhos.
Carlos Danielli “foi preso no dia 28 de dezembro de 1972, às 19 h, na Rua Loefgreen, no bairro de Vila Mariana, pelos agentes do DOI-CODI/SP, para cuja sede Danielli foi levado. Durante três dias Carlos Nicolau foi muito torturado sob o comando do então major do Exército, Carlos Alberto Brilhante Ustra, do capitão Dalmo Lúcio Muniz Cirillo e do “capitão Ubirajara”, codinome do Delegado de Polícia Aparecido Laerte Calandra. Apesar das torturas, seus algozes não conseguiram arrancar dele nenhuma informação, conforme os testemunhos dos militantes políticos que estiveram presos junto com ele”. 
Foi submetido a bárbaras torturas por três diferentes equipes que se intitulavam respectivamente equipe A, B, e C, durante três dias consecutivos até ser finalmente  assassinado na madrugada do dia 30 de dezembro de 1972, conforme depoimentos feitos na Justiça Militar nos dias 04/07 e 07/07/1973, pelos militantes políticos Maria Amélia de Almeida Teles  e César Augusto presos junto com Carlos Danielli. A versão oficial divulgada era a que Danielli foi morto em tiroteio com policiais, o que veio a ser desmentido pelos depoentes no STM (Superior Tribunal Militar). O caso chegou à imprensa sendo veiculado no jornal O Estado de São Paulo (09/05/78). Danielli foi enterrado como indigente pelos agentes do DOI-CODI no cemitério de D Bosco em Perus na cidade de São Paulo. Somente após a promulgação da lei da Anistia, seus restos mortais foram transladados para sua cidade natal, Niterói em abril de 1980.
“O Superior Tribunal Militar negou a apuração das denúncias sobre a morte do estudante Alexandre Vanucchi Leme e Carlos Nicolau Danielli”… O relatório dos Ministérios da Aeronáutica e Marinha mantém a farsa da morte no tiroteio e que ele teria morrido a caminho do hospital. O Ministério do Exército, sequer menciona o caso Danielli em seus relatórios, embora tenha ocorrido dentro das dependências do DOI- CDI do II Exército.
O delegado Aparecido Laertes Calandra, codinome capitão Ubirajara, um dos responsáveis pelas torturas e morte de Danielli, prestou depoimento à Comissão Nacional da Verdade e negou todas as acusações, afirmando que suas funções no órgão eram puramente administrativas, apesar de reconhecido pelos ex militantes políticos que afirmaram ser uma de suas especialidades,  torturar mulheres. Calandra é réu de uma ação civil pública desde 2010. O Ministério Público Federal o reconhece como suspeito de atos de tortura, abuso sexual, desaparecimentos e homicídios e pede sua responsabilização pessoal.

DIA 27 DE DEZEMBRO DE 1943, NASCE MAURÍCIO TAPAJÓS

 
Além de um dos melodistas mais apaixonados, Maurício Tapajós entrou para a história da Música Popular Brasileira também como renomado cantor, produtor, arranjador e compositor.  Sua canção “Tô voltando” gravada na década de 70, acabou virando hino da anistia junto com “Bêbado e o Equilibrista” de João Bosco e Aldir Blanc. Ainda na década de 70, teve inúmeros trabalhos censurados, mas ainda assim não desistiu de fazer de sua arte um instrumento de luta contra ditadura. A canção “Pesadelo” de 1972 em parceria com Paulo César Pinheiro, também se tornou um hino à resistência durante os anos de chumbo e é lembrada até hoje por muitos companheiros que viveram as barbáries das torturas cometidas pelos agentes de repressão militar.  
Nascido em uma família carioca em 27 de dezembro de 1943, Maurício era filho de   Paulo Tapajós, radialista e também compositor e cantor. Paulo e seus irmãos foram responsáveis pela estreia musical do poeta Vinicius de Moraes na parceria “Loura ou Morena”, de 1928.
Maurício Tapajós chegou a se formar pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1968, mas o talento para música acabou decidindo seu futuro como músico profissional. Sua primeira música apresentada ao público foi “Amor de gente moça”, interpretada ao vivo no rádio por Neli Ramos e a Orquestra do Maestro Radamés Gnatalli. Em 1963, teve pela primeira vez registrada em disco uma composição de sua autoria, “Carro de boi”, com Cacaso, gravada pelo grupo vocal Os Cariocas. A partir de então Maurício Tapajós realizou inúmeras parcerias com grandes nomes da nossa MPB.
Compôs em dupla com grandes letristas, além  Paulo César Pinheiro e Aldir Blanc (“Querelas do Brasil”), Hermínio Bello de Carvalho (“A Mangueira é lá no céu”), Nei Lopes (“A cidade se diverte”), Cacaso (“Carro de boi”), Capinam (“A gente ama”), Suely Costa (“O Barco”), João Nogueira (“Dama da Noite”), entre outros parceiros e tantas outras melodias, construindo uma obra marcada pela canção de protesto e pela inspiração em temas nacionais. Em 1977 criou sua própria gravadora, Saci (Sociedade de Artistas e Compositores Independentes) e através dela lançou “Olha Aí” e o LP duplo “Aldir Blanc & Maurício Tapajós”. Foi fundador da Amar (Associação dos Músicos, Arranjadores e Regentes) e presidente da entidade conquistando a admiração e o respeito entre os músicos de todo Brasil por seu trabalho em defesa da categoria.
Na década de 1980, excursionou por diversos países, apresentando-se com Beth Carvalho e Paulo Moura em Angola (1981), com Marcos Vinicius no “XV Festival da Canção Política” realizado na Alemanha (1985) e com Joyce no Equador (1987).
Maurício dirigiu diversos shows com o objetivo de promover novos artistas abrindo-lhes espaço para espetáculos na Funarte (Fundação Nacional de Arte), sempre com o objetivo de perpetuar e descobrir novos talentos de nossa música. Deu sua contribuição também ao Teatro musicando as peças “Yerma”, de García Lorca, e “Coronel de Macambira”, de Joaquim Cardoso, e ainda assinou a direção musical de “Arena Conta Tiradentes”, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal. Após sua morte em 21 de abril de 1995, os amigos Moacyr Luz, Luiz da Vila e Aldir Blanc compuseram uma obra-prima, a canção “Saindo à francesa” para homenagear Maurício e seu legado para a história de nossa MPB.
 


DIA 26 DE DEZEMBRO DE 1893, NASCE MAO TSE TUNG

 
Grande líder revolucionário, um dos fundadores do Partido Comunista Chinês, fundador da República chinesa, trouxe contribuições teóricas ao marxismo-leninismo para a realidade dos países coloniais, canonizado por uns e demonizado por outros, governou a China desde a fundação da República Popular da China em 1949 até sua morte em 1976 e ficou conhecido como o Grande Timoneiro.
Nasceu no dia 26 de dezembro de 1893, na aldeia de Shaoshan em Hunan, numa família de camponeses, interrompeu os estudos para trabalhar na lavoura. Posteriormente, estudou para o magistério numa escola em que veio a se tornar o diretor. Desde muito jovem adotou o socialismo e idealizou uma nova China livre e independente em contraposição à China feudal, arcaica, milenarmente dominada pelas dinastias que se submeteram à exploração capitalista estrangeira.
Foi fundamental a liderança de Mao na fundação do Partido Comunista Chinês (1921), pois o país vivia uma grave turbulência política e econômica interna, além da pressão internacional contra as lideranças comunistas. Mao exerceu sua práxis revolucionária no meio campesino, onde formou as bases do Exército Vermelho que percorreu quase 12 mil quilômetros pela China na famosa Longa Marcha (1934), inicialmente com 90 mil soldados mobilizando a população para a causa revolucionária. O Exército Vermelho expulsou os invasores japoneses da Mandchúria durante a 2ª GM, e foi avançando sobre as áreas não conquistadas procedendo a Reforma Agrária garantindo a adesão camponesa à Revolução. Terminada a Guerra, o exército de Mao triunfou. Os nacionalistas apoiados pelos EUA, sob comando de Chiang Kai Shec se refugiaram na ilha de Formosa (Taiwan), fundando a China Nacionalista. “O movimento social camponês provara na prática sua capacidade política e potencial revolucionário agrupando demais classes e setores sociais em torno de suas lutas e se constituindo na força social principal da revolução”. (Daniel Aarão Reis).
Com a vitória da revolução, Mao implantou radicais mudanças. A Reforma Agrária beneficiou mais de 300 milhões de pessoas; nacionalizou as empresas estrangeiras; estatizou as empresas particulares; adotou os Planos Quinquenais (1953/1057); fez aproximação diplomática com a URSS, depois rompida. Em 1958 adotou o Grande Salto para a Frente caracterizado pela coletivização da terra e de todos os instrumentos de trabalho. O resultado não foi satisfatório, gerando a grande fome entre 1959/61, devido a baixíssima produção agrícola.
Todas estas medidas foram acompanhadas de um verdadeiro culto à personalidade.  Nesse contexto que em 1965/66, Mao implementou a Revolução Cultural, para combater os velhos quadros (velhos costumes, velhas ideias, velha cultura). O movimento impunha também uma obediência cega aos pressupostos teóricos contidos no Livro Vermelho (uma verdadeira bíblia da juventude comunista). Nesta fase empreendeu uma caça aos intelectuais influenciados pelos valores ocidentais.
 
Em 1972 reuniu-se com o presidente dos EUA, aliviando as tensões entre os dois países. Em 1976 aos 82 anos Mao Tse Tung faleceu vítima de complicações com a doença de Parkinson. Deixou um legado controverso. É considerado um estrategista político e militar e “salvador da pátria”. Promoveu a rápida industrialização, lançou as bases para o desenvolvimento da China no século XX. Por outro lado é rejeitado por erradicar a cultura tradicional chinesa e  carregar a responsabilidade por milhões de mortes. 

DIA 25 DE DEZEMBRO DE 1977, MORRE CHARLES CHAPLIN

 
 
O gênio do cinema mudo impactou o mundo ocidental com seu talento e versatilidade artística. Foi ator, diretor, compositor, músico, humorista, roteirista, produtor, escritor, empresário, poeta, coreógrafo, dançarino e regente de orquestra. Elevou a comunicação mímica ao mais alto padrão e à expansão global. É considerado por alguns, como “pai do cinema” junto aos irmãos Lumière.  Na sua longa na carreira artística de 75 anos, produziu inúmeros longas-metragens e 34 curtas. Soube maravilhosamente criar um personagem comediante que encantou o mundo por longas décadas.
Seu  marcante personagem, O Vagabundo,  foi tipificado em um pobre andarilho, que vestia uma casaca desgastada, sapatos maiores que seus pés, um chapéu coco, uma bengala de bambu e grandes bigodes, mas tinha um ar altivo e gestos polidos como um verdadeiro gentleman. No Brasil o personagem ficou conhecido como Carlitos. Sua mímica e seus trejeitos o popularizam nos EUA e Europa nas décadas de 30 e 40. Ele resistiu a fazer filmefalado alegando que “A ação é geralmente mais  entendida que as palavras… Ouça a explicação -um javali africano- por exemplo, depois olhe para uma foto do animal e veja como você fica surpreso”.
Sir Charles Spencer Chaplin nasceu em Londres em abril de 1889, em uma família de artistas do teatro musical. Teve uma infância sofrida, desde os três anos quando passou a viver com a mãe que perdera o emprego de cantora após a separação, e foi internada em um sanatório.  A convivência com pai foi curta, pois  a madrasta o internou junto ao irmão em abrigo de órfãos e eles jamais viram o pai que morreu como alcóolatra. Absolutamente sem dinheiro, ele e o irmão começaram a trabalhar na Cia Eight Lancashire Lads Clog Dancing Troupe e logo alcançaram sucesso e passaram a excursionar pelo Reino Unido. Devido ao grande sucesso foram se apresentar nos EUA. Seis meses depois foi convidado a trabalhar no cinema pela produtora Keystone.
Em 1919 lançou sua própria produtora e começaria sua melhor fase cinematográfica. Nos anos 20 lançou “O Imigrante”, “O Garoto”, “Em Busca do Ouro”, “O Circo”, “Luzes da Cidade” e “Tempos Modernos”. Neste, Chaplin levou pela última vez seu personagem o “Vagabundo”. Já estava inaugurado o cinema falado, mas Chaplin só colocou voz no personagem dono da fábrica que vigiava os operários e ditava as ordens do patrão. Este roteiro exibiu cenas inesquecíveis e hilárias, como por exemplo, a da máquina automática de alimentação que visava retirar dos trabalhadores  o intervalo do almoço.  Seria antecipação das leis trabalhistas a serem aprovadas no Brasil, desmontando a CLT? … Sem dúvida o filme apresentava uma irônica crítica ao capitalismo e à exploração dos trabalhadores. 
 Da mesma forma, o filme “O Grande Ditador”, lançado durante a 2ªGuerra, representou um ato de coragem pois satirizava  Hitler e  sua   política anti- semita.  O posicionamento político de Chaplin era de esquerda por isso o governo americano sentiu-se incomodado com suas sátiras. Por motivos políticos seus filmes foram proibidos na Itália e Alemanha fascista.  Surgiram vários atritos com o governo americano que o acusava de comunista em pleno período de caça às bruxas do Macarthismo. Passou a ser perseguido pelo FBI que foi aumentando a pressão sobre o artista, até chegar ao ponto crítico com o filme “ Monsieur Verdoux” (1947), visto como uma crítica ferrenha ao capitalismo. A partir daí ele foi incluído na Lista Negra de Hollywood e seu filme boicotado em várias cidades americanas, apesar de grande sucesso na França e outros países europeus.
Em 1952 quando Chaplin viajou para Londres, o FBI negociou com o Serviço de Imigração a revogação de seu visto, exilando-o do país. Em relação a este fato Chaplin se manifestou: “Tenho sido alvo de mentiras e propagandas por poderosos grupos reacionários que, por sua influência e com a ajuda da imprensa marrom, criaram um ambiente doentio no qual os indivíduos de mente liberal são perseguidos”…Nestas condições, é praticamente impossível continuar meu trabalho nos EUA”…
Escolheu então viver na Suíça, país onde produziu alguns filmes como “ Luzes da Ribalta”, “Um Rei em Nova Iorque”, “A Condessa de Hong Kong”. A Suíça  o acolheu até sua morte aos 88 anos na cidade de Corsier-sur-Vevey , Vaud, onde morreu  dormindo no dia 25 de dezembro de 1977.
Em 1971 foi premiado com o Oscar “por sua incalculável contribuição ao cinema aos 83 anos, além de outros recebidos ao longo da carreira.
 


DIA 24 DE DEZEMBRO DE 1970, DESAPARECE CELSO GILBERTO DE OLIVEIRA

 
No ano de 1970 o Brasil estava embalado pela alegria contagiante da conquista do   tricampeonato de futebol no México. O país recebia definitivamente a taça Jules Rimet. Aplausos, torcida, brindes à importante conquista!  Foi também o ano do aparecimento da TV a cores, e das taxas inéditas de crescimento do “milagre econômico”. Mas os anos 70, foram também Os Anos de Chumbo. Coexistiram negando-se.  Neste contexto a opinião pública “dormia” no silêncio de uma noite turva que durou 21 anos. Vozes jovens, audazes, guerreiras, eram caladas nos porões da ditadura. A barbárie tomava conta do país sob o governo do presidente Médici, quando acirrou-se a violência contra lideranças estudantis e sindicais, torturas, extermínios, desaparecimentos de vidas que lutavam na busca de uma sociedade menos desigual, livre e democrática.
Nesta luta “desapareceu” o jovem gaúcho de Porto Alegre, com 25 anos de idade, militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) nodia 24 de dezembro de 1970. Celso Gilberto de Oliveira foi preso pela CISA, setor de inteligência da Polícia da Aeronáutica no Rio de Janeiro em 10 de dezembro do mesmo ano. Em seguida transferido para o DOI-CODI do Rio de Janeiro, na Rua Barão de Mesquita, onde foi torturado pelos tenentes Hulk, Teles e James, do Exército. Outro preso político, Sinfrônio Mesa Neto, afirma em seu depoimento, que participou de uma acareação junto com Celso no dia 24 de dezembro, ocasião em que este constatou as torturas sofridas por Celso. Tudo montado   para que ele fosse incriminado como militante da VPR, e sequestrador do embaixador suíço Giovani Enrico Bucher. Neste momento as forças repressoras estavam terrivelmente vorazes, em busca de pistas que levassem ao cativeiro do diplomata e à caça dos grupos de guerrilha responsáveis pelo sequestro.
 Na verdade, não se encontram registros biográficos de sua militância na VPR. Os documentos encontrados registram: desaparecido constante na lista anexa à lei 9.140/95. Constam dados sobre a filiação: João Adelino de Oliveira e Julieta Pedroso de Oliveira, data de nascimento: 25 de dezembro de 1945,  profissão: corretor de imóveis, Organização política: VPR. Os relatórios dos Ministérios do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, apresentam respectivamente, três diferentes versões sobre a morte e ou desaparecimento de Celso de Oliveira. A morte de Celso nunca foi assumida pelos órgãos repressores, apesar das informações constantes nos documentos oficiais. Em um dos documentos do CISA, (6/10/1971), de número 160, consta o codinome Alan ao lado nome de Celso Gilberto de Oliveira,  como preso.
Um de seus  amigos do sul, editor do jornal  Gazeta de la Stampa nos anos 90, lhe rendeu uma homenagem por meio de uma crônica, na qual Celso é lembrado como simpático, bem humorado e de pouca fala. “Sequer algum de nós …imaginava ou desconfiava do envolvimento de Celso com grupos revolucionários do centro do país. Quando tinha que viajar ao Rio de Janeiro alegava estar trabalhando na Enciclopédia Barsa …só depois de sabê-lo morto é que tomei conhecimento de seu ideal revolucionário”.
A Comissão Nacional da Verdade depois de levantamentos documentais,  considera o desaparecimento de Celso um dos mais nebulosos do período. Segundo depoimento do advogado Sergio Roberto de Oliveira, irmão de Celso, a família foi bombardeada com as mais diferentes versões ao longo de anos.  Seu pai empreendeu uma verdadeira peregrinação em busca de informações sobre o filho, que permanecem nebulosas.
“Era um dia do mês de dezembro de 1970. E assim chegava ao fim a luta de um jovem por um ideal de liberdade…e de suplício, que suportou com fidelidade” (Chico Júnior).
 
 


DIA 23 DE DEZEMBRO DE 1971, MORRE RAUL PEDROSO

 
Para os militares ele foi um desertor, um traidor da pátria. Acusado de participar dos movimentos nacionalistas que congregavam liberais e comunistas sob a liderança de Luís Carlos Prestes no início da década de 30, Raul Pedroso fez carreira militar chegando a patente de segundo tenente em agosto de 1934. Nascido no Rio de Janeiro em 15 de maio de 1911, participou da Aliança Nacional Libertadora (ANL),  uma grande frente de esquerda que congregava socialistas, liberais, comunistas visando  combater o avanço do imperialismo norte americano, a expansão  do  fascismo, o latifúndio, e defendia a nacionalização das empresas estrangeiras e o cancelamento da dívida externa.  A organização foi posta na ilegalidade em julho do mesmo ano, mas continuou atuando principalmente pela participação dos comunistas, que planejaram, em nome da ANL, um levante revolucionário, irrompido afinal em novembro de 1935 que ficou conhecido como Levante Comunista. Uma revolução frustrada que acabou por desencadear uma forte repressão sobre seus membros.
Raul Pedroso foi o responsável pela rebelião da Companhia de Metralhadoras Leves do 3º Batalhão (CM 3) e pela prisão do capitão João Gomes Monteiro, que a comandava. Liderou ainda duas das tentativas dos revolucionários de sair do quartel, todas elas frustradas em razão do cerco estabelecido pelas tropas legalistas de Getúlio, sendo ferido numa dessas incursões.
Sufocado o movimento, foi preso e processado juntamente com os demais revolucionários, teve sua patente militar cassada em dezembro de 1935. Devido a sua participação no Levante Comunista foi intimado a comparecer ao Tribunal de Segurança Nacional (TSN), que julgava os revoltosos. Raul Pedroso declarou não ter cometido nenhum crime contra a ordem e sim participado de um movimento patriótico, assumindo responsabilidade total por seus atos. Dispensou a defesa fornecida pelo tribunal e declarou que só havia comparecido àquela sessão à força. Condenado pelo TSN em maio de 1937 a oito anos de prisão, foi libertado mediante habeas-corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em abril de 1941.
Novamente preso em 22 de dezembro de 1944 sob a acusação de manter contato com elementos comunistas, foi solto no dia se seguinte. Com o fim do Estado Novo (1937-1945) e a redemocratização do país, participou de articulações políticas e sindicais. Compareceu, em novembro de 1946, em uma reunião de jornalistas filiados ao Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT), realizada na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). O MUT constituiu-se em uma articulação de sindicalistas, em sua maioria comunistas, embrião da central sindical Confederação dos Trabalhadores do Brasil (CTB), que teve curta existência legal.
Trabalhou como técnico de orçamento da Secretaria Geral de Finanças do Rio de Janeiro. Foi anistiado durante o governo João Goulart (1961-1964), em dezembro de 1961, tendo sido reformado com a patente de segundo-tenente em março de 1964.
Raul Pedroso faleceu no dia 23 de dezembro de 1971, deixando um legado de grande militância e participação sindical ativa.
 


DIA 22 DE DEZEMBRO DE 1968, CAETANO VELOSO E GILBERTO GIL SÃO  PRESOS NO RIO DE JANEIRO

 
    No dia 22 de dezembro de 1969, poucos dias após a decretação do AI-5, os cantores Caetano Veloso e Gilberto Gil, líderes do movimento tropicalista, foram presos no Rio de Janeiro após protestarem publicamente contra o regime militar do Brasil. O motivo oficial da prisão foi a “tentativa da quebra do direito e da ordem institucional”, com mensagens “objetivas e subjetivas à população” para subverter o regime de governo estabelecido. Por conta da popularidade dos dois artistas, ambos foram aconselhados a deixar o país.
    Após um mês de prisão, os militares se deram por satisfeitos com a investigação que inocentou Caetano e Gil de qualquer crime. Entretanto, ficaram presos por mais um mês. Só foram soltos em fevereiro de 1969.
    Ambos embarcaram em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para Salvador. Ao chegaram foram novamente presos, porque as autoridades locais ainda não tinham sido informadas de que o pedido de prisão já tinha sido cumprido. Mas de nada adiantou. Sem acusação formal ou processo tramitando contra os dois, eles foram submetidos à prisão domiciliar. Não podiam sair de Salvador, trabalhar e ainda eram obrigados a se apresentarem na Polícia Federal diariamente.
A prisão dos dois artistas acabou se tornando um problema até mesmo para o coronel Luís  Artur, que chefiava a Polícia Federal soteropolitana, pois este considerava  esquisita a situação. Os militares declararam que a única alternativa para os rebeldes, seria deixar o país. Foi autorizado apenas que fizessem um show, o que aconteceu nos dias 20 e 21 de julho de 1969, para arrecadar fundos para a viagem.
    No começo do exílio, sem poder trabalhar, viveram de direitos autorais, contando com a solidariedade de artistas brasileiros que gravaram suas composições: Roberto Carlos (“Como Dois e Dois”), Erasmo Carlos (“De Noite na Cama”), Elis Regina (“Fechado pra Balanço), Maria Bethânia (“Janelas Abertas nº 2″) e Gal Costa (“Deixa Sangrar”). Em Londres, Caetano gravou um álbum com canções do exílio, como “London London” e “It’s a Long Way” (“Maria Bethânia, please send me a letter…”). De volta ao Brasil, lançou “Transa”, em que revisitou os clássicos brasileiros Luiz Gonzaga e Monsueto Menezes e musicou um poema de Gregório de Matos do século 17 (“Triste Bahia”). O histórico “Expresso 2222”, de Gilberto Gil, também trouxe uma forte canção de exílio: “Back in Bahia” (“Lá em Londres vez em quando me sentia longe daqui…”).
    Em janeiro de 1971, Caetano obteve permissão para retornar ao Brasil para a missa de 40 anos de casamento de seus pais, na Bahia. Na ocasião, foi interrogado por militares e se negou a atender um pedido para fazer uma canção elogiando a construção da rodovia Transamazônica. Durante o tempo que ficou no Brasil, Caetano foi monitorado de perto por agentes do regime, que acompanhavam e anotavam o que era dito pelo artista nas poucas entrevistas que deu nesse período. O regresso definitivo ao país se deu somente em janeiro de 1972.
    Caetano e Gil, assim como outros artistas que estavam conquistando sua popularidade junto ao grande público na década de 60, puderam “optar” pelo exílio. Naturalmente que enquanto figuras públicas, não poderiam sofrer o mesmo tratamento que os demais presos políticos recebiam, afinal, os militares não iriam produzir provas contra eles mesmos e muito menos manchar a sua imagem perante a hipócrita sociedade brasileira. Lamentavelmente muitos companheiros que ousaram desafiar o regime não tiveram a mesma sorte. Foram presos arbitrariamente, torturados com requintes de crueldade e   mortos. Muitas famílias não tiveram sequer o direito de oferecer um funeral digno aos verdadeiros heróis da pátria. Que os artistas de hoje estejam atentos e não se furtem à sua função pública/política de alertar a população sobre o Estado de exceção que vivemos atualmente. Censura nunca mais!
 


DIA 21 DE DEZEMBRO DE 1879, NASCE JOSEPH STALIN

 
Iosef Besarionus Dze Vissarionovith, conhecido como Joseph Stálin, que significa em russo “homem de ferro”, foi o pseudônimo adotado por ele na ocasião de um   exílio na Sibéria.   O líder revolucionário russo nasceu na pequena cidade de Gori na Geórgia, no dia 21 de dezembro de 1879, em uma família muito pobre, cujo pai era sapateiro e a mãe lavadeira.  Figura polêmica, de personalidade inconstante, centralizador e autoritário, empreendeu grandes expurgos ideológicos, ordenou prisões e execuções de milhões de opositores. Empreendeu uma luta fraticida pelo poder, após a morte de Lênin,  e chegou a ser acusado por Trotsky de “prostituir o marxismo”. É identificado como ditador pelo  olhar de muitos historiadores, desafetos e opositores.  Para Oscar Niemeyer “tudo não passava de invenções dos capitalistas”.
Apesar dos duros conceitos classificando-o como ditador cruel, devemos fazer a seguinte pergunta:  E se Stálin não ganhasse a guerra contra o nazismo? Venceria a fúria exterminadora nazista?  O papel da URSS sob o comando supremo de Stálin naquela guerra capitalista, foi determinante para a vitória do comunismo sobre o nazi-fascismo. A derrota de Hitler, provocou a mudança no rumo da guerra e da história da humanidade.  Os inúmeros trabalhos escritos ou filmados a partir de uma visão burguesa, nunca lhe deram o devido mérito. Justo no front oriental onde se concentravam a maior força das tropas nazistas, e ocorreram as mais sangrentas batalhas. Os alemães chegaram aos arredores de Moscou, submeteram Leningrado a um cerco mortífero. Eles resistiram por mil dias.  Travaram uma guerra de extermínio racial contra os civis eslavos, ciganos e judeus. Mas o Exército Vermelho resistiu ao custo de milhões de vidas. Os russos perderam 27 milhões de pessoas não só em campos de batalhas, mas também em campos de extermínio dos chamados resistentes pelos generais nazistas.  Himmler, chefe da SS, teria dito: “é uma guerra de extermínio entre duas raças e povos”.
Outro grande mérito do chefe russo, que não se pode esquecer, é  que a Rússia era um país agrário até a revolução de 1917,  e que foi através dos Planos, Quinquenais traçados por Stálin, priorizando a  industrialização  para “edificar o socialismo”, que a Rússia transformou-se em potência industrial.
O “Koba”, como era chamado entre os amigos na juventude, chegou a iniciar os estudos para o sacerdócio, mas logo adotou outra fé: a revolução socialista. Desde 1902 era um militante e   revolucionário, liderando greves e, consequentemente, sofrendo repressões. Eleito para o Comitê Central do Partido Bolchevique, passou a ser perseguido, preso e deportado. Conseguiu fugir das prisões várias vezes. Em 1912 colaborava com Trotsky no jornal Pravda (Verdade). Em 1922 foi eleito Secretário Gerado Partido Comunista da URSS, e no ano seguinte começou a divergir de Trotsky quanto aos rumos da Revolução. Enquanto Trotsky defendia que a “revolução permanente”, deveria se estender para todos os países europeus, Stálin admitia a possibilidade da “construção do socialismo em um só país”, e defendia que a “ mãe Rússia” seria a pátria do socialismo real.   No XIV Congresso do Partido Comunista a tese de Stálin foi aprovada. Trotsky acabou sendo expulso do partido, exilado e mais tarde assassinado no exílio, a mando de Stálin no México.
A gestão stalinista (1922/1953), mudou radicalmente a face da URSS, modernizando-a e colocando-a em condições de competir com as nações capitalistas. Foram implantados os Planos Quinquenais estabelecendo ambiciosas metas para cada cinco anos. Priorizou inicialmente as indústrias de base, mineração, máquinas, energia. Na coletivização da terra, criou os sovkhozes (fazendas do estado) e kolkhozes (coperativas), sistema que gerou conflitos entre os camponeses e levou a deportações e mortes de muitos. Criou uma estrutura militar poderosa e de policiamento. Nos setores da “inteligência” russa seus opositores foram duramente perseguidos deportados ou mesmo exterminados, o que contrariava a formação de um a sociedade igualitária e libertária defendidas por Marx. Nas escolas Stálin implantou o ateísmo.
A 5 de março de 1953, Stálin sofreu um ataque cardíaco e veio a falecer aos 74 anos de idade. Seu, sucessor Nikita Khruschev, praticou o que ficou conhecido como desestalinização, denunciou o culto à personalidade e os constantes expurgos.  Muitas medidas repressivas foram amenizadas e introduziu mudanças na economia. Em 1961 seu corpo embalsamado foi retirado do mausoléu de Lênin.
 

DIA 20 DE DEZEMBRO DE 1996, É PROMULGADA A LEI DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

 
 
A educação nunca foi prioridade em nosso país desde a independência negociada com Portugal. A primeira Constituição, a de 1824, chegou a mencionar “instrução gratuita para todos os cidadãos”, fato que não vigorou, em se tratando de uma sociedade escravista, elitista, segregacionista, caracterizada pela bipolaridade da “casa grande e senzala”. Na era Vargas,  a primeira constituição,  a de 1934, traçou  as diretrizes da educação nacional   e sugeriu o Plano Nacional da Educação.
Trinta anos depois da Carta de 34, no governo de João Goulart, foi publicada a 20 de dezembro de 1961, a primeira LDB (4024/61), prevendo a regulamentação do ensino a nível nacional. Após a promulgação da Constituição de 1988, a LDB de 61 foi considerada obsoleta. Finalmente após oito anos de discussão (1988/96), entre os diversos grupos da sociedade,  com   destaque para o antropólogo  e educador Darcy Ribeiro,  foi aprovado o texto da atual LDB (lei nº 9394/96, no dia 20 de dezembro de 1996, também chamada de Carta Magna da Educação. Sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e o ministro da Educação Paulo Renato, teve como relator Darcy Ribeiro.
Baseada no princípio do Direito Universal à educação para todos, garantido pela Constituição Federal, buscou-se uma educação de qualidade visando transformação da ordem social, pois um povo educado será consequentemente agente transformador da sociedade, no exercício da cidadania e atuando no espaço político. Nesse sentido a LDB regulamenta o ensino público ou privado, da educação básica ao ensino superior. Ela trouxe novidades em relação às anteriores, do tipo educação infantil (creches e pré-escolas), como primeira etapa da educação básica. Estabelece os deveres do Estado enquanto agente provedor da educação pública, definindo as responsabilidades em regime de colaboração entre a União, Estados, Distrito Federal e os Municípios. Estabelece também uma gestão democrática do ensino público e uma progressiva autonomia pedagógica e administrativa da gestão financeira das unidades particulares. Além de prever a criação do Plano Nacional de Educação (PNE).
 A partir de 04 anos de idade,  a educação passou a ser obrigatória e gratuita. Estabeleceu carga horária mínima de oitocentas horas distribuídas em 200 dias letivos na educação básica.  Previu um núcleo comum para o ensino fundamental e médio e uma parte diversificada para atender às particularidades regionais, uma vez que se vive em um país continental e diverso nos aspectos econômicos, culturais e sociais. Estipulou que a União deve gastar no mínimo 18% e os estados e municípios 25% de seus respectivos orçamentos na manutenção do ensino público. Tratou também da valorização dos profissionais da educação, como planos de carreira, formação profissional e piso salarial. Os ISEs (Institutos Superiores de Educação) eram o sonho de Darcy Ribeiro, instituições que deveriam municiar o professor na prática do dia a dia na sala de aula, através da educação continuada.
Hoje vemos tristemente o sonho de Darcy Ribeiro, e de muitos outros, por uma educação democrática e de qualidade, necessária para alavancar o crescimento com desenvolvimento econômico, político, social e cultural, ser desmontado por um governo ilegítimo sem respaldo do voto popular e que ousa chamar de “reforma”, outro golpe e  verdadeiro desmonte da educação pública em nosso país.
Várias iniciativas dos governos petistas vêm sendo suspensas ou “revistas”, como Programa Brasil Alfabetizado, para jovens e adultos, Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC), Fundo de Financiamento Estudantil (FIES). Além da “entrega” do pré-sal às empresas estrangeiras, o que vem a comprometer importante fonte de recursos destinados à educação pública. Sem falar na malfadada PEC 241 que limita os gastos públicos à inflação do anterior por 20 anos.
“Os movimentos do governo revelam que o macarthismo ideológico da ‘escola sem partido’, é só cortina da fumaça. O verdadeiro objetivo é uma escola sem Estado”. (Carta Capital, ed. 918).
 

DIA 19 DE DEZEMBRO DE 1985, ASSASSINADO JOÃO CANUTO

 
 
João Canuto de Oliveira foi mais um herói que morreu em combate na luta pela reforma agrária, pela defesa e promoção dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. Assim como João Canuto, muitos trabalhadores   e suas lideranças foram assassinados covardemente pelas mãos dos pistoleiros a mando dos que se julgam “donos da terra”. Pelos latifúndios do Brasil afora, a década de 80, foi marcada por centenas de mortes de trabalhadores que ousaram desafiar os herdeiros dos antigos coronéis. Mesmo com as centenas de denúncias assinadas inúmeras entidades da região do Araguaia, do Pará, e outras tantas pelo Brasil, denunciando o caráter violento do latifúndio e do Sindicato do Crime, patrocinado pela abominável  União Democrática Ruralista (UDR) , João Canuto foi assassinado com doze tiros em 19 de dezembro de 1985.
Vindo de Goiás, pai de oito filhos, dois deles, José e Paulo, também assassinados em 1990 pelo latifúndio e a PM do Pará e já avô, embora ainda jovem, Canuto se projetou como uma liderança de imenso prestígio entre os posseiros e demais camponeses da região do Sul do Pará. Dois anos depois de chegar a Rio Maria, foi despejado de suas posses, teve queimados seus pertences e sua casa. Sua mãe já idosa, faleceu em consequência desse ato de vandalismo. Mas Canuto, como muitos de sua geração, seguiu adiante e continuou a lutar pela causa dos trabalhadores rurais.
            Em 1983 assumiu a presidência do STR (Sindicato dos Trabalhadores Rurais) de Rio Maria. Seus companheiros lembram-se de sua bondade sem limites, sua força e resiliência ao passar as maiores privações, sem jamais se abater. Era também incorruptível e em vão os latifundiários e grileiros lhe ofereciam terras, gado ou dinheiro para que abandonasse a causa dos posseiros da região. Canuto era muito admirado, obstinado e solidário.  Por estas características pessoais despertou o ódio dos coronéis e seus capangas.
 O assassinato de João Canuto causou grande comoção na população do  município de Rio Maria no sul do estado do Pará. Sua morte representou mais do que a eliminação de mais um líder sindical.   Para a população rural que  vinha sofrendo com a exploração,  perdas sucessivas de outras lideranças, sua morte enterrou também  uma grande  liderança política,  um ativista comunista totalmente  dedicado à causa da reforma agrária.
 Sua morte mobilizou diversas entidades de direitos humanos nacionais e internacionais, inclusive a OEA. A partir de 1991, teve início uma grande pressão da sociedade civil, nacional e internacional, organizada e articulada pelo Comitê Rio Maria (criado em março de 91) e por seus Comitês de apoio no Brasil e em outros países, como USA e França. Finalmente, em 2001, um dos dois acusados foi pronunciado como mandante do assassinato. O fazendeiro Ubiratan Ubirajara, assassino de Canuto e de seu irmão, foi  condenado a 50 anos de prisão. Após dois anos, fugiu  da penitenciária de Belém. 
O MHuD (Movimento de Direitos Humanos), que atua na luta por um país melhor, visitando áreas de conflitos, promovendo debates sobre o  tema,  entre outras ações,  concedeu a alguns líderes comunitários, militantes, escritores, padre, advogado, entre outros,  o  Prêmio João Canuto 2013.
 A região de Marabá no Pará continua sendo uma das mais tensas e perigosas do Brasil, foi apelidada de Marambala.  Lá no acampamento João Canuto, próximo a estrada PA-150,  líderes do MST, continuam ameaçados de morte. 

DIA 18 DE DEZEMBRO DE 2005, EVO MORALES É ELEITO PRESIDENTE DA BOLÍVIA

 
Filho de agricultores de uma família de sete filhos, na qual  apenas três chegaram à vida adulta, sua infância foi marcada pelo trabalho na lavoura e pela impossibilidade da educação formal. Juan Evo Morales Ayma, percorreu um longo e heroico caminho até conseguir derrotar seu adversário nas eleições presidenciais de dezembro de 2005,  obtendo 53,74% dos votos, frente a 28,59% de  Jorge Quiroga. Pela primeira vez na Bolívia, um indígena subia ao poder pelo voto popular, com uma margem considerável sem passar pelo segundo turno. Nada mais justo e pertinente a escolha de um autêntico representante do povo, em um país cuja população é constituída em sua maioria por pessoas de origem indígena.
 
Evo Morales nasceu na cidade de Orinoca, em 26 de outubro de 1959, no departamento de Oruro e pertence à etnia indígena uru-aimará. Após ter vivenciado o sacrificante trabalho no campo durante sua infância e adolescência, em 1980 dá início a sua trajetória de lutas e ingressa na vida política de seu país. Em 1981 foi nomeado Secretário de Esportes no sindicato de cocaleros da região, uma vez que o cultivo da folha de coca é uma das poucas fontes de renda para os trabalhadores rurais bolivianos. Apesar de toda política contra o cultivo da folha de coca por parte da oposição, Evo Morales sempre lutou para que a cultura e tradição indígenas fossem preservadas. Há milênios os povos indígenas fazem uso da folha de coca na fabricação de chás e medicamentos portanto a erradicação do cultivo traria forte impacto na vida dos trabalhadores rurais, além de ferir a  identidade e  ancestralidade  do povo..  
 
Nesta luta, Evo  Morales foi eleito deputado em 1997  representando os cocaleros  das províncias de Chapare e  Carrasco de Cochabamba, com 70% dos votos do distrito – mais que qualquer outro dos parlamentares eleitos naquela ocasião. Obviamente  a bandeira de luta de  Evo Morales na defesa de seu povo e sua cultura, entraram em conflito com as antigas oligarquias locais. Em 2002 foi candidato pela primeira vez à presidência pelo partido MAS (Movimento para o Socialismo) e enfrentou uma série de acusações que feriam sua integridade moral. Artifício usado pelos poderes tradicionais,  para impedir  o surgimento de um grande líder popular. Apesar de seu vigoroso crescimento nas intenções de voto, nesta ocasião, Evo Morales  ficou em segundo lugar e perderia para Sánchez de Lozada.
 
Apoiado fortemente pela população indígena que representa 51% da população boliviana, Morales vence as eleições no dia 18 de dezembro  de 2005 e se consolida como representante oficial do povo indígena alcançando uma vitória histórica. Coerente com seu discurso,  aproximou-se dos  governos de esquerda na América Latina  encabeçados pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez; e seguidos por Rafael Correa, Equador; Nestor Kirchner, Argentina; Fidel Castro, em Cuba e Lula   no Brasil. Assim surgiu a “Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América” (ALBA), constituindo-se em  uma alternativa de esquerda aos organismos tradicionais existentes na região, desafiando as tradicionais elites locais  alinhadas aos interesses imperialistas estrangeiros.
Desde que tomou posse em 22 de janeiro de 2006, Evo Morales se reelegeu por duas vezes e continua pautando seu   discurso contra o capitalismo e se declara abertamente antiamericano. Fiel às suas origens, Morales continua fazendo questão de preservar a cultura e a identidade indígena do povo boliviano além de ter conquistado grandes melhorias na qualidade de vida das minorias historicamente desfavorecidas. A partir da gestão de Morales no comando do país, a média de crescimento do PIB boliviano foi de 4,8% no período entre 2006 e 2012. O investimento estatal aumentou 252% e a construção de estradas praticamente dobrou.  Na era anterior a Morales (1999 – 2005), o poder de compra do salário mínimo subiu apenas 17%, enquanto que de 2006 a 2012, aumentou 41%. O Brasil é um grande parceiro da Bolívia no tocante às exportações, mais de 50 % do gás natural consumido no país é importado da Bolívia.
 
Evo Morales acusa a oposição de ter manipulado o resultado do referendo em 2016 que decidiu sobre o direito de Morales de disputar seu quarto mandato. Com 51,3% dos votos contra 48,7% Morales não poderia disputar a eleição em 2019, no entanto, a Justiça da Bolívia, por meio do Tribunal Constitucional Plurinacional (TCP), a Suprema Corte do país, decidiu que o presidente Evo Morales poderá tentar a reeleição em 2019 e continuar seu projeto de governo nacionalista lutando contra  as interferências europeias e as forças imperialistas norte-americanas.
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DIA 17 DE DEZEMBRO DE 1830, MORRE SIMÓN BOLÍVAR, O LIBERTADOR

 
Simón José  Antonio de la Santísima Trinidad Bolívar y Palacios Ponte Andrade y Blanco, conhecido como Simón Bolívar, o libertador da América, “é possivelmente o personagem histórico mais complexo e de maior influência no imaginário político continental. Sua obra é colossal. Além de liderar guerras de independência e de exercer influência direta em pelo menos cinco dos atuais países da região –  Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, e Bolívia – ele deixou vastíssima obra escrita constituída por artigos, cartas e discursos”.
Simón Bolívar nasceu em 24 de julho de 1873 em Caracas na Venezuela. Pertencia a uma família abastada e teve oportunidade de receber uma educação refinada, aperfeiçoada na Espanha, onde se casou. Visitou outros países como Itália, EUA e França, onde tomou contato com as ideias iluministas e revolucionárias. De formação militar e origem “criolla”(apelido depreciativo que designava os descendentes dos espanhóis nascidos na América e que representavam a elite econômica colonial,  proprietária de grandes fazendas, minas e comércio). No entanto, os criollos eram colocados em posição de inferioridade política e social. Esta é a classe que vai liderar os movimentos de independência na América Espanhola.
O horizonte político de Bolívar era fundamentado na unidade da América, “Para nosostros la pátria es la América”.  Ele soube reconhecer  o momento de crise do sistema colonial montado pelos países europeus em decorrência do desenvolvimento do capitalismo inglês, que exigia a abertura dos mercados coloniais.  Influenciado pelo ideário   iluminista, assumiu posição anti-colonialista e anti-monarquista. Estava em Roma quando jurou “não dar descanso ao meu braço nem repouso à minha alma até que sejam rompidas as amarras que nos oprimem por vontade do poder espanhol”.  Idealizou uma república igualitária perante a lei com a valorização das instituições políticas e culturais próprias sem a escravidão.  
Bolívar ampliou as bases sociais da revolução constituindo um exército popular com as diversas   etnias, brancos, negros e índios. A esse, uniu seu talento militar e obteve muitas vitórias na luta contra as tropas legalistas coloniais. Libertou do domínio espanhol e proclamou a República da Colômbia em 1819, formada pela Venezuela, Colômbia, Equador e Panamá, redigiu sua Constituição e foi seu primeiro presidente.  Prosseguiu no seuprojeto bolivariano de construir a unidade política continental. Chegou a organizar o Congresso do Panamá (1826), que apesar da pouca representatividade, deixou claro seu sonho: “Uma liga verdadeiramente americana, não formada apenas dentro dos princípios de uma aliança ofensiva e defensiva. Nossa sociedade deve ser de nações irmãs, unidas, fortes, e capazes de suportar a agressão de potências externas”. Além da Gran Colombia, fundou também a República Federal da América Central (1824/1839), formada por El Salvador, Honduras, Nicarágua, Guatemala e Costa Rica).   Venceu os espanhóis trazendo a independência para o Peru e Bolívia, formando a Confederação Peruana-Boliviana (1836/1838).  
Sua utopia de unidade não prosperou. A sustentação das “nações ampliadas”, enfrentou muitas dificuldades, desde a distância entre os núcleos de colonização, a disputa pelo poder entre as oligarquias locais, a interferência da Inglaterra aliada ao modelo de colonização espanhola, de “dividir para melhor centralizar”. Bolívar chegou a ver  a fragmentação da Gran Colômbia em três estados, Venezuela, Colômbia e Equador. Em 1830 Bolívar renunciou à presidência e retirou-se da cena política. Decepcionado, ele teria dito: “A América é ingovernável…fazer a revolução é como arar no mar”. Veio a falecer aos 47 anos no dia 17 de dezembro de 1830 de tuberculose em Santa Clara na Colômbia.
O político e filósofo cubano Jose Martí teria afirmado que seria necessária “uma segunda independência da América”. É nesse sentido que Hugo Chávez retoma o legado político e histórico de Bolívar. Ele não é o único, são inúmeros grupos, movimentos políticos e sociais que reivindicam o ideário bolivariano. Além das incontáveis estátuas, praças, avenidas batizadas com o nome do herói. O bolivarianismo, especialmente o de esquerda, defende a luta contra o imperialismo e alguns chegam ao culto sagrado marcado por um nacionalismo ás vezes exacerbado.
 


DIA 16 DE DEZEMBRO DE 1976, OCORRE A CHACINA DA LAPA EM SÃO PAULO

 
 
O triste episódio conhecido como Chacina da Lapa, foi uma das últimas ações de extermínio usadas sistematicamente pelos órgãos de repressão na longa noite de 21 anos da ditadura militar no Brasil. O fuzilamento a sangue frio dos dirigentes do Comitê Central do PCdoB, um dos piores crimes da ditadura,  objetivava eliminar o partido que liderara  a guerrilha do Araguaia, a principal ação de resistência armada contra o regime militar. O brutal assassinato, para Pedro Estevam Pomar, autor do livro “Massacre da Lapa: Como o Exército liquidou o Comitê central do PC do B”, expõe a contradição do governo Geisel sobre o “fim dos excessos”, prometidos após a morte de Herzog (1975) e Manoel Fiel Filho (1976). A operação contou com o aval do general Dilermando Gomes Monteiro colocado à frente do IIº Exército, por Geisel.
A reunião do Comitê para avaliação da guerrilha do Araguaia, acontecia nos dias 14 e 15 de dezembro em um aparelho do partido, situado em uma casa na Rua Pio XI no bairro paulista da Lapa. Estiveram presentes à reunião nove membros do Comitê Central. Seguiam as normas rigorosas de segurança, nunca reunindo toda a direção, mas o que não sabiam é que seriam traídos.  Jover Telles que havia sido preso meses antes, fizera acordo com a repressão e informara aos órgãos sobre a reunião. Declaração feita pelo general Leônidas Pires em entrevista. Três anos mais tarde a direção do partido fez a mesma acusação a Manoel Jover Teles.  
A operação foi planejada por meses e executada pela articulação do CIE (Centro de Informações do Exército), DOI-CODI do Rio de Janeiro, e a Polícia Civil da região. No comando do DOPS estava Sergio Paranhos Fleury, o torturador.  A rua foi interditada, e às 6 h da manhã do dia 16 de dezembro de 1976, a casa que já estava vigiada durante quatro dias, foi cercada por um grande aparato com 50 agentes que avançaram em intenso tiroteio por 20 minutos. A intensa fuzilaria destruiu parte da casa e assassinou Ângelo Arroio e Pedro Pomar. Um terceiro integrante da reunião havia deixado a casa pela madrugada, João Baptista Drummond, mas foi preso e torturado no DOPS, vindo a falecer na mesma noite das torturas.           Outros participantes que haviam saído da reunião como Aldo Arantes, Elza Monnerat, Haroldo Lima e Maria Trindade também foram presos e torturados. Lembramos que estas prisões e mortes ocorreram já no período da “distensão” do general Geisel, que enfaticamente declarara: “A questão não era mais a força que eles tinham, mas não podíamos deixar o comunismo recrudescer. Fizemos tudo para evitar o recrudescimento das ações comunistas.”.
No entanto, a Chacina da Lapa, não conseguiu alcançar todos os seus objetivos. Um deles era assassinar o líder João Amazonas que supunham estar na casa. Outro, era acabar com o PC do B. Mas, este sobreviveu na clandestinidade e à intensa perseguição. O partido havia formado um centro dirigente no exterior, que pôde garantir a continuidade da orientação política, apesar do duro golpe que foi a Chacina da Lapa. Chegaram a realizar no exterior a VII Conferência Nacional do Partido (1978), publicação de importantes documentos no jornal A Classe Operária.
 


DIA 15 DE DEZEMBRO DE 1959, É CRIADA A SUDENE



            
Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste ( SUDENE) foi uma forma de intervenção do Estado no Nordeste, com o objetivo de promover e coordenar o desenvolvimento da região. Foi idealizada no governo do presidente Juscelino Kubitschek, tendo à frente o planejamento do economista Celso Furtado, como parte do programa desenvolvimentista adotado por Juscelino. Criada pela Lei no 3.692, de 15 de dezembro de 1959, o principal objetivo da instituição,  em um primeiro momento, era estabelecer a definição do espaço que seria compreendido como Nordeste, objeto da ação governamental. Seriam diretamente beneficiados os estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e parte de Minas Gerais. Esse conjunto, equivalente a 18,4% do território nacional e que abrigava, em 1980, cerca de 35 milhões de habitantes, o que correspondia a 30% da população brasileira.
Logo após o acordo que definira os Estados beneficiados, a meta passou a ser o implemento de soluções que permitissem a progressiva diminuição das desigualdades ecomômicas e sociais entre as regiões geoeconômicas do Brasil. Assim foram desenvolvidas ações de grande impacto, tais como os projetos de irrigação em áreas úmidas, o cultivo de plantas resistentes às secas, entre outras. No esforço de criação da Sudene estiveram presentes empresários industriais, políticos interessados no desenvolvimento industrial da região, representantes de forças populares e de esquerda, como Francisco Julião, das Ligas Camponesas , além de membros da Igreja envolvidos em ações de combate à pobreza como D. Helder Câmara. Todas essas forças se uniram contra aqueles que defendiam o latifúndio.
Lamentavelmente,  logo após a criação do projeto da SUDENE ainda em 1958, houve nova seca que aumentou o desemprego rural e o êxodo da população. Somado a isso, houve uma série de denúncias que revelaram os escândalos da “indústria das secas”. Surgiram inúmeras denúncias de corrupção na administração das frentes de trabalho, como existência de trabalhadores fantasmas, construção de açudes nas fazendas dos “coronéis”,  etc. Na verdade,  a antiga oligarquia agrária nordestina, composta pelos latifundiários e seus coronéis, jamais permitiram que o processo de desenvolvimento chegasse efetivamente à essa região. Tentativas anteriores como a Inspetoria de Obras Contra as Secas (1909) e mais tarde,  em 1945,  o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), não conseguiram ir adiante,  uma vez que a região era completamente dominada pelo mandonismo dos coronéis, que sabotavam definitivamente qualquer possibilidade de mudança e melhoria das condições de vida e de trabalho dos sertanejos.
            Com o golpe militar em 1964, a SUDENE foi incorporada ao novo Ministério do Interior, e sua autonomia, seus recursos e objetivos foram enfraquecidos e deturpados.  Naturalmente durante a ditadura militar, a preocupação com o bem estar social, manutenção da instituição e dos objetivos iniciais para os quais foi criada a SUDENE, não estavam na lista das prioridades dos militares. Após uma sucessão de escândalos, descaso e falta de interesse em levar o projeto adiante, em 1999 a imprensa iniciou um debate sobre a existência do órgão, extinto finalmente em 2001 por Fernando Henrique Cardoso.
Com a eleição de Lula em 2002 a SUDENE foi recriada e desenvolvida com um organograma totalmente diferente onde a principal finalidade passou a ser a promoção do desenvolvimento econômico da região aliado ao desenvolvimento social. 

DIA 14 DE DEZEMBRO DE 1947, NASCE DILMA ROUSSEFF

 
  “O tempo tem sido o senhor da razão, ao menos no caso da ex-presidenta Dilma. Bastaram um ano e seis meses, para ficarem claros os arranjos e negociatas que alicerçaram o processo de impeachment sem crime de responsabilidade”.   
Em agosto de 2016, sob o aplauso de uma parte da sociedade e a apatia de outra, o golpe parlamentar,  jurídico e  midiático, avançou sobre o mandato da presidente eleita, Dilma Rousseff, através de um impeachment comprado, pois seu governo representava a continuidade do projeto político de um pais soberano, inclusivo,  em desenvolvimento. Tendo perdido quatro eleições consecutivas, as forças derrotadas decidiram acabar com a democracia, aliás a “Democracia não agrada aos dominadores”. (Noam Chosmky). Somente através de um golpe, seria possível implementar o projeto neoliberal selvagem que está em curso em nosso país.  As forças retrógadas e nefastas desta elite perversa, misógina, e protofascista, em conluio com o judiciário partidarizado mais a mídia vendida, vêm sistematicamente procurando destruir o PT e o legado dos governos de Lula e Dilma  em nome do combate à corrupção.
Dilma Vana Rousseff nasceu em 14 de dezembro de 1947 em uma família de classe média em Belo Horizonte. O pai, um advogado, poeta e empresário,  de origem búlgara, a mãe professora. Aos 16 anos a jovem estudante começa sua militância política  contra a ditadura militar na organização marxista, Política Operária ( POLOP),  de inspiração trotskista. Na universidade UFMG, cursando Ciências Econômicas integrou-se ao movimento COLINA (Comando de Libertação Nacional), que defendia a luta armada. Mais tarde opta pela atuação na organização VAR- PALMARES (Vanguarda Armada Revolucionária).  Presa em 1970, foi entregue à OBAN (Operação Bandeirantes), e depois ao DOPS, onde foi torturada pelos órgãos de repressão. “Na luta contra a ditadura recebi no meu corpo as marcas da tortura. Amarguei por anos o sofrimento da prisão. Vi companheiros sendo violentados e até assassinados”.  
Após a anistia política em 1979, mudou-se para Porto Alegre, casou-se com o militante de esquerda Carlos Araújo, com quem teve sua única filha. Filiou-se ao PDT de Leonel Brizola. Ocupou cargos administrativos na prefeitura de Porto Alegre e na secretaria de Estado do Rio Grande do Sul.  Em 2001 filiou-se ao PT e veio a se tornar uma figura de  importância central no governo  do presidente Lula.  Ocupou o ministério das Minas e Energia, e substituiu ao José Dirceu na Casa Civil, quando este deixou o cargo. Em 2009 foi submetida a tratamento de um câncer.  Em 2010, no IVº Congresso do Partido dos Trabalhadores, foi aclamada candidata à presidência da República, e vence as eleições no segundo turno, tornando-se a primeira mulher a ser eleita presidenta do Brasil.  Também foi a primeira mulher a fazer o discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU. Ao tomar posse no cargo de presidente, deixou claro: “Meu compromisso supremo …é honrar as mulheres, proteger os mais frágeis e governar para todos…A luta mais obstinada do meu governo será pela erradicação da pobreza e a criação de oportunidades para todos”.
A gestão de Dilma Rousseff foi pautada pelo crescimento econômico e inclusão social. Mesmo em tempos de crise econômica mundial, a presidenta não abandonou os investimentos visando a inclusão social.  Programas como Brasil sem Miséria, retirou 16,4 brasileiros da  pobreza extrema; transferiu bilhões aos beneficiários  do Bolsa-família; foram criados milhões de empregos formais;  o país atingiu o recorde histórico de desemprego até o final de 2013.  
Foram feitos grandes investimentos no  Minha Casa Minha Vida; expandiu-se o  crédito; implementou redução da tarifa de energia elétrica; ampliação do PRONATEC- Programa de acesso ao ensino técnico e emprego; ocorreu o crescimento em 127% do número de escolas que aderiram ao Mais Educação; ampliou-se a queda do desmatamento da Amazônia;  modernização dos aeroportos; criação do Plano Brasil Medalhas de 2016 em apoio aos atletas olímpicos e paraolímpicos que trouxeram retorno em medalhas de ouro  para o país;  investimentos de milhões em obras de infra-estrutura;  contratação do Mais Médicos que atendeu às populações carentes do interior; inaugurou a primeira estação de bombeamento no projeto de Integração do Rio São Francisco , projeto histórico estudado  desde o período imperial, que teve início no governo de Lula Sem a devida cobertura da mídia, esta foi a maior obra da política de recursos hídricos, garantido recursos hídricos para mais de 390 municípios do nordeste, visando beneficiar mais de 12 milhões de pessoas.
 Poderíamos enumerar muitas outras obras de seu governo, mas, por estes dados fica claro que o projeto de inclusão social era prioridade em seu governo.
Pelo saldo positivo de seu primeiro mandato, Dilma foi reeleita em outubro de 2014, com 51,64% dos votos válidos, contra seu opositor com 48,36 %. Mas os verdadeiros “donos do poder” articularam um dos mais torpes golpes da nossa história.  A elite financeira, que comanda os bancos, fundos de investimentos, com as taxas escorchantes de juros, que representam a verdadeira corrupção, legalizada por um Congresso comprado para isso, atuando sobre a população submetida à sistemática distorção da realidade por uma mídia sócia do golpe, aliada ao complexo jurídico policial do Estado, tomam de assalto a democracia, rasgam a Constituição e derrubam a presidenta legitimamente eleita, através do “velho acordão brasileiro”.
O processo de impeachment da presidenta da República, nos termos da decisão de sua admissibilidade pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, viola todos os princípios do processo democrático e da ordem constitucional brasileira”. Esta foi a sentença proferida por nove especialistas em direitos humanos que constituíram o júri do Tribunal Internacional sobre Democracia no Brasil realizado no Rio de Janeiro em 2016.
Com certeza o Brasil tem uma grande dívida para com Dilma Vana Rousseff, contra quem nenhum ato de corrupção foi provado, apesar de toda perseguição midiática, jurídica. Acrescente -se ainda, o caráter misógino e falocrata da cultura social  brasileira.

 


DIA 13 DE DEZEMBRO DE 1838, EXPLODE A REVOLTA BALAIADA NO  MARANHÃO

 
    A história do Império brasileiro vivenciou no Período Regencial (1831/1840), além da experiência federativa, uma intensa agitação política com as rebeliões provinciais. Momento raro em nossa história, onde a brecha política da classe dominante, abriu espaço para participação da massa popular pobre e oprimida,  revoltar-se contra as elites agrárias privilegiadas em busca de melhores condições de vida. Caracterizada por um “liberalismo” ambíguo, a experiência federativa deixou intactas as bases da sociedade brasileira assentadas no latifúndio e escravidão.
    As rebeliões provinciais no geral, lutavam por autonomia e contra a ordem fiscal. No nordeste contaram com  a participação das massas deserdadas do sistema, que enfrentava o declínio econômico das exportações do açúcar, fumo e algodão no caso do Maranhão, onde explodiu a Balaiada. O conservador Regente Feijó criou a “Guarda Nacional” para deter o “vulcão da anarquia” ao que Caio Prado viu como “o povo em luta por suas reivindicações e melhoria das condições de vida”. A violência social marcou as revoltas como a Cabanagem (Pará -1835/40), a Balaiada (MA-1838/41), Sabinada (BA -1837), Farroupilha (RS 1835/1845), e     a Revolta dos Malês (BA-1835), desmentindo a lenda que fala da “índole pacífica e acomodada” do povo brasileiro, pois as grandes massas sempre lutaram por seus direitos.  
    A massa revoltada contra a opressão e a miséria em que viviam, sobretudo após o agravamento da crise de exportação do algodão, ascendeu o estopim da rebelião no dia 13 de dezembro de 1838, quando o vaqueiro Raimundo Gomes liderou o ataque à cadeia pública de Vila da Manga, e libertou vários presos além de levar armas e munições. Em seguida o fabricante de balaios Manoel dos Anjos Ferreira, revoltado pelo abuso ocorrido com uma de suas filhas pelos soldados das tropas imperiais, adere ao movimento. Sua participação deu o nome de Balaiada ao movimento, e aos revoltosos de balaios. A luta seguiu mobilizando as massas e foi engrossada com a participação de aproximadamente 3 mil negros liderados por Cosme Bento das Chagas chefe  do Quilombo de Cumbe. A classe média maranhense, politicamente insatisfeita com a oligarquia agrária dominante, aderiu inicialmente  ao movimento, chegando a organizar um jornal de ideias republicanas, o “ Bem -te-vi”.  
    Mesmo sem ter um planejamento estratégico e um projeto político definido, a rebelião conquistou algumas vitórias, tomando Caxias, a principal vila do Maranhão e estendendo a rebelião até o Piauí. Organizaram uma Junta provisória, tomaram medidas de grande repercussão política, como a abolição da Guarda Nacional, milícia de elite criada para conter as revoltas separatistas, expulsão dos portugueses residentes na cidade. Nas ruas a revolta caminhou para a violência social, o que provocou o afastamento das classes médias que passou a tomar medidas para contê-la.
    Como sempre, a repressão chegou com força para esmagar aqueles que ousaram desafiar a regime, a elite, e buscar seus direitos.  Os setores médios apoiaram a chegada das tropas imperiais, comandadas por Luís Alves de Lima e Silva. Os revoltosos perderam a vila de Caxias, o Balaio foi morto em combate, e os quilombolas, enfraquecidos, se refugiaram no interior. Em 1841, os últimos resistentes se renderam.
    A violência da revolta esmagou cerca de 12 mil sertanejos e escravos. O líder do Quilombo, Cosme foi  capturado e enforcado em 1841.  D. Pedro II havia subido ao poder e concedeu anistia aos revoltosos que sobreviveram. O coronel Luís Alves de Lima e Silva, pelo “ato de bravura e heroísmo” (?),  foi condecorado pelo imperador com o título de nobreza: Barão de Caxias”.
 
Assim se viu o fim da saga
Daqueles homens guerreiros
Sendo heróis ou rebeldes
Só queriam seus direitos”. (Barbara Melo, sobre a Balaiada).

 


DIA 12 DE DEZEMBRO DE 1962, MORRE PATRÍCIA GALVÃO, PAGU

 
O apelido Pagu foi dado pelo poeta Raul Bopp, quando Patrícia lhe mostrou alguns poemas. Bopp sugeriu que ela adotasse um nome literário feito com primeiras sílabas de seu nome e sobrenome: Pagu. Foi um engano de Bopp, pensando que ela se chamasse Patrícia Goulart. O poeta escreveu um poema para ela, O coco de Pagu, e o apelido acabou permanecendo. Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, foi uma das mais icônicas figuras femininas do século XX no Brasil. Nascida no seio de uma família burguesa, em 1910, Pagu afastou-se de sua classe social, passando a militar junto ao Partido Comunista Brasileiro, o que lhe rendeu mais de 20 prisões. Irreverente e  idealista, Pagu era movida por um incessante desejo de justiça e liberdade.
Pagu defendia a participação ativa da mulher na sociedade e na vida política do país. Já aos 15 anos, estudava para professora na Escola Normal e era colaboradora de um jornal de bairro em São Paulo, com o pseudônimo Patty. Sua futura carreira como escritora, jornalista e poeta já se anunciava desde então. Pagu publicou os romances, A Famosa Revista (Americ-Edit, 1945) e Parque industrial (edição da autora, 1933), sob o pseudônimo Mara Lobo, considerado o primeiro romance proletário brasileiro pois a obra é uma narrativa urbana sobre a vida das operárias da cidade de São Paulo.
   Escreveu também contos policiais, sob o pseudônimo King Shelter, publicados originalmente na revista Detective, dirigida pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, e depois reunidos em Safra Macabra (Livraria José Olympio Editora, 1998). Em seu trabalho, junto a grupos teatrais, Pagu revelou e traduziu grandes autores até então inéditos no Brasil como James JoyceEugène IonescoFernando Arrabal e Octavio Paz.
            Em 1928, com dezoito anos completou o curso de professora na Escola Normal de São Paulo. Nesse mesmo ano, conhece o célebre casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, que haviam fundado o Movimento Antropófago e se integra a esse Movimento. Em 1930, causa um escândalo na sociedade conservadora da época, quando Oswald de Andrade se separou de Tarsila e passa a viver com Pagu, grávida de seu primeiro filho,  Rudá de Andrade. Três meses após o parto, Pagu viajou pra Buenos Aires, para um festival de poesia, lá conheceu Luís Carlos Prestes e voltou entusiasmada com as ideias marxistas. Na volta filia-se ao Partido Comunista Brasileiro, junto com Oswald. Em 1931, intensificam-se suas atividades no Partido Comunista. Junto a Oswald fundou o jornal “O Homem do Povo”, que apoiava o grupo da esquerda revolucionária. Ao participar de uma greve de estivadores em Santos, Pagu foi presa pela polícia do governo de Getúlio Vargas tornando-se a primeira presa política do país.  Pagu foi libertada em 1933, e partiu logo após em viagem para a Europa e outros locais do mundo como repórter.
 
Na França, passou a frequentar alguns cursos na Sorbonne e, em 1935, filiou-se ao Partido Comunista Francês. Foi pega pela polícia francesa com documentos falsos, o que lhe garantiu mais uma prisão. Foi liberada após intervenção do embaixador brasileiro Souza Dantas junto ao governo francês. Ainda em 1935, Pagu teve a honra  de entrevistar o pai da psicanálise,  Sigmund Freud,  e participou da coroação do último imperador chinês Pu-Yi, de quem obteve as primeiras sementes de soja que foram trazidas ao Brasil. Ao voltar ao país, Pagu  separou-se de Oswald de Andrade, e retomou a atividade jornalística, sendo presa novamente pelas forças repressivas do Estado Novo, ficando cinco anos na prisão, período em que Pagu foi vítima de torturas e maus tratos pela polícia política de Getúlio Vargas.
 
Desligou-se do PCB em 1940, aproximando-se do trotskismo. Colaborou na revista Vanguarda Socialista, da qual fizeram parte Mário Pedrosa e o jornalista Geraldo Ferraz, que iria se tornar seu segundo marido e pai de seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz. Passou a viver em Santos, onde se dedicou também às artes cênicas.
Na década de 1950, com a abertura política, tentou candidatar-se à deputada estadual, mas não obteve sucesso. Em 1962, foi diagnosticada com um câncer e partiu novamente para Paris na esperança de curá-lo, mas infelizmente Pagu foi vencida por ele.  Já prevendo a própria morte, nesse mesmo ano, Pagu publicou um último poema, chamado Nothing, carregado de desesperança e sofrimento existencial.

DIA 11 DE DEZEMBRO DE 1990, VILA SOCIALISTA É DESPEJADA EM DIADEMA – SP

 
No final da década de 30, o crescimento e a mobilização do movimento operário no Brasil, levou o então Presidente da República, Washington Luís, a declarar que “A questão social era questão de polícia”. Assim seguem sendo tratadas com a devida truculência policial as questões sociais no Brasil. Foi o caso de despejo da Vila Socialista em Diadema, São Paulo, onde 2500 famílias sem moradia, que ocupavam o terreno abandonado  de 240 mil metros quadrados, foram despejadas pela Polícia Militar do estado  de São Paulo, governado por Orestes Quércia (PMDB). O batalhão com mais de 400 policiais armados e com bombas de gás lacrimogêneo avançou sobre a população que revidou com pedras e outras armas caseiras preparadas para o enfrentamento.  Dois sem teto foram mortos a tiros, Milton de Souza Frazão e Noraldino Ferreira Lima, mais de pessoas 40 ficaram feridas, sendo que o então vereador Manoel Boni do PT, teve uma das mãos decepadas pela explosão de uma bomba de gás lacrimogênio, e a audição prejudicada,  além de 23 sem teto presos e humilhados pelos policiais.  O fato ficou conhecido como “massacre da Vila Socialista”, no dia 11 de dezembro de 1990, episódio que se tornou um ícone do movimento de resistência da luta pela terra, e por moradia em nosso país. A ocupação havia recebido este nome depois de votação em assembleia, influenciada pela Convergência Socialista, organização trotskista.  
As cenas filmadas à época, ganharam as manchetes da mídia sendo noticiadas como um caso de reintegração de posse do proprietário Pedro Simões Filho e os “invasores” foram acusados pelo crime de resistirem e não acatarem a decisão judicial de desocupação do terreno até o prazo limite dado pelos poderes do estado. O caso demonstra a gravidade do problema da moradia no estado de São Paulo, como em todas grandes cidades brasileiras, estruturadas sob o capitalismo, no qual o espaço urbano se torna um conjunto de mercadorias onde o trabalhador, suas necessidades básicas e direitos são esmagados pelo sistema.   
Mais tarde a solução encontrada para o terreno foi a desapropriação e posterior construção de um conjunto habitacional no bairro Conceição, onde se pode chamar de nova Vila Socialista que conta com urbanização e uma escola pública, a EE Vila Socialista com 18 salas de aula. Outros loteamentos derivaram deste, como Jardim São Paulo, Vila Diadema e outros. Na nova Vila Socialista, as ruas tem nomes como Karl Marx, Engels, Lamarca, Vladimir Lênin, Che Guevara, Leon Trotsky, embora a maioria de seus moradores desconheçam estes personagens históricos. No local da antiga ocupação chamado à época de Jardim Inamar, está localizado hoje um campo de futebol.
 
Lamentavelmente a tragédia ocorrida em Diadema fruto da irresponsabilidade da prefeitura e do poder judiciário, da brutalidade dos policiais militares, do descaso da sociedade, e dos interesses do capital imobiliário, continuam fazendo suas vítimas em São Paulo e outras grandes cidades brasileiras.  “O capital, os políticos, a justiça, fazem sempre a opção: escolhem qual parcela da humanidade não merece viver e tampouco lugar para morar”. 

DIA 10 DEZEMBRO 1984, BISPO DESMOND TUTU RECEBE O PRÊMIO NOBEL DA PAZ

 
Desde o fim da “política segregacionista do Apartheid”  em 1994, Desmond Tutu tem sido uma das principais figuras na luta em defesa dos direitos humanos e contra a segregação racial na África do Sul. Ao lado de Nelson Mandela, Tutu  foi responsável por  centenas de protestos em locais públicos contra o governo sul-africano, mesmo assumindo posições altas no clero africano. Sua proposta para a sociedade sul-africana incluía direitos civis iguais para todos, abolição das leis que limitavam a circulação dos negros, um sistema educacional comum e o fim das deportações forçadas de negros.
Por sua firme posição contra a segregação racial foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz no dia 10 de dezembro de 1984.  Na mesma época foi eleito arcebispo de Johannesburgo e depois, da Cidade do Cabo. Recebeu o título de doutor honoris causa de importantes universidades dos EUA, do Reino Unido e da Alemanha. Seu parceiro de vida e lutas Nelson Mandela, certa vez declarou: “Desmond, você será a voz dos que não tem voz”. 
Desmond Tutu nasceu em Klerksdorp, a cerca de 200km de Joanesburgo. Foi professor, mas abandonou a profissão quando o governo decidiu implementar um sistema de ensino para os negros inferior ao da população branca. Tutu decidiu então pela carreira teológica. Foi o primeiro bispo anglicano negro de Joanesburgo e depois arcebispo da Cidade do Cabo. Politicamente, simpatizava com o partido Congresso Nacional Africano. Entre 1996 e 1998, Desmond Tutu liderou a Comissão de Reconciliação e Verdade, que abordou os crimes do Apartheid. Milhares de vítimas do regime partilharam o seu sofrimento e os culpados pediram perdão. Com a comissão, o arcebispo pretendia alcançar um equilíbrio entre a justiça e a anistia, o perdão e a reconciliação.  
O arcebispo se destaca pelo ativismo político contra a segregação racial e também por defender ideias consideradas bastante liberais contrariando o conservadorismo da Igreja Anglicana. Em 2016, aos 85 anos de idade, Desmond Tutu se declarou a favor da morte assistida, prática que consiste na decisão do próprio paciente em ter o direito de morrer conforme sua vontade.  Nesse mesmo ano defendeu abertamente os direitos dos homossexuais criticando a atitude de cristãos conservadores em relação aos gays.
No início de 2016, ele abençoou o casamento de sua filha Mpho com sua companheira, apesar de as regras da Igreja Anglicana na África do Sul dizerem que “o matrimônio sagrado vem da união exclusiva entre um homem e uma mulher”. Em meados dos anos 90, quando era arcebispo da Cidade do Cabo, ele também provocou polêmica ao apoiar medidas que tornavam o aborto mais acessível no país.
Com o seu modo alegre, sorridente e despreocupado, Desmond Tutu continua a ser muito querido entre os sul-africanos. Mas agora está mais resguardado. A saúde assim o obrigou. Em 1997, foi-lhe diagnosticado câncer na próstata. Três anos depois, aposentou-se.  Desde seu afastamento da política, Tutu tem mantido uma relação estreita com os políticos da África do Sul e tem feito duras críticas ao governo, acusando os governantes de corrupção e ineficácia para lidar com a pobreza e com os surtos de xenofobia recentes no país.
As principais críticas de Tutu são de que o país não conseguiu amenizar os índices de pobreza uma década após o Apartheid. Tutu também não se conforma com a exclusão dos negros em alguns ambientes. Tutu ainda se mantém extremamente crítico com os governantes de seu país e os acusa de xenofobia e corrupção ativa.

DIA 07 DE DEZEMBRO DE 1927, NASCE DOM IVO LORSCHEITER

 
 
Dom Ivo Lorscheiter ficou conhecido por suas duras críticas às violações dos direitos humanos cometidas durante o regime militar brasileiro. Não era exatamente um revolucionário, mas sempre se posicionou de maneira coerente com os ideais de justiça e respeito à dignidade da pessoa humana. Além de líder religioso e um dos principais porta-vozes da Teologia da Libertação, Dom Ivo Lorscheiter destacou-se por sua influência e habilidade de negociação. Secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) por dois mandatos (de 1971 a 1978), e presidente da entidade também por dois períodos (de 1979 a 1982 e de 1983 a 1986), Dom Ivo Lorcheiter também desagradou ao Vaticano, quando criticou a instituição por não se alinhar com as propostas do Papa João Paulo II , que defendia maior participação dos cristãos nas decisões da Igreja. 
Durante toda a década de 70,  período que se organizaram e ganharam força as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que incluíram consciência política e social ao modo de agir da igreja,  Dom Ivo e de Dom Hélder Câmara (fundador da CNBB, em 1952), foi um expoente do cristianismo combativo que visava entre outras coisas  a libertação dos trabalhadores da herança maldita do regime de escravidão.
 De 1970 a 1974, Dom Ivo ainda fazia parte da Comissão Bipartite, formada secretamente por religiosos e militares, para discutir atritos que existiam entre as duas instituições.
Em 1977,  D. Ivo foi o principal responsável na CNBB pelos contatos com o governo federal. Entre suas muitas reivindicações, lutou para que o governo desistisse da expulsão de dom Pedro Casaldáliga do país, um dos fundadores da CTP (Comissão Pastoral da Terra) e ferrenho defensor dos direitos humanos na Amazônia.  Juntamente com o cardeal dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, conseguiu evitar que Dom Pedro Casaldáliga fosse expulso do Brasil, fato que certamente poupou a vida de inúmeros trabalhadores rurais e índios na Região do Araguaia.
Durante o período mais duro do regime, os embates entre a Igreja e o poder chegaram ao auge por causa das mortes, desaparecimentos e relatos de torturas. Muitas famílias que tiveram seus membros vítimas de militares facínoras assassinos e torturadores, recorriam à Dom Ivo na esperança de recuperá-los vivos ou ainda terem a chance de enterrar dignamente seus mortos.
 José Ivo Lorscheiter nasceu em 7 de dezembro de 1927,  gaúcho de São José do Hortênsio, em São Sebastião do Caí. Era filho do agricultor Francisco Lorscheiter e de Maria Mohr Lorscheiter. Um de seus irmãos, Vendelino Lorscheiter, era padre, e o primo Aluísio Lorscheider que tornou-se cardeal-arcebispo de Aparecida do Norte (SP).
Dom Ivo Lorscheiter cursou filosofia no Seminário Central de São Leopoldo (RS), de 1947 a 1949 e no ano seguinte, ingressou na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Doutorando-se em teologia, recebeu sua ordenação sacerdotal em dezembro de 1952.  Elevado a bispo em março de 1966, foi nomeado bispo-auxiliar de Porto Alegre, passando a atuar ao lado do arcebispo dom Vicente Scherer, que também ocupou a vice-presidência da CNBB. Bispo emérito de Santa Maria (RS), de 1974 à 2005, D. Ivo Lorscheiter, faleceu dia 5 de março de 2005 aos 79 anos, vítima de uma severa arritmia cardíaca e infecção generalizada.
 

DIA 06 DE DEZEMBRO DE 1988, ASSASSINADO DEPUTADO JOÃO CARLOS BATISTA

 
A estatística dos mortos pelo latifúndio, entre 1964 e 2011, passam de 2 mil, com raros casos de assassinos e mandantes julgados e condenados. O deputado estadual João Carlos Batista, infelizmente, faz parte dessa vergonhosa estatística. Batista, como era conhecido João Carlos Batista, foi o único deputado assassinado no Brasil após o fim do governo militar. Atuou junto aos camponeses do Pará na luta pela reforma agrária. Ele foi morto em 6 de dezembro de 1988, depois de ter sofrido três atentados à bala (1985, 86 e 87), mesmo tendo solicitado, inúmeras vezes, formalmente, segurança ao poder público, este se manteve omisso, e o deputado  acabou assassinado.
 O crime organizado pelo latifúndio sempre agiu assim. Com suas próprias regras e leis.  Durante a década de 80, foram inúmeros os assassinatos no campo,  uma vez que as tradicionais oligarquias se viram ameaçadas com o processo de redemocratização do país.  João Batista foi executado com 14 tiros, em pleno exercício de seu mandato parlamentar, na frente da família, quando chegava em sua casa, localizada no centro de Belém (PA), após sair de uma sessão da Assembléia  Legislativa do Pará.
 O caso de João Batista, assim como o de muitos outros, os verdadeiros mandantes dos crimes jamais foram punidos. Os dois pistoleiros que abriram fogo contra João Batista foram presos e pouco tempo depois também foram assassinados.  Eliminar assassinos assegura a impunidade dos mandantes, latifundiários, parlamentares e outras autoridades, de vários poderes, que se sustentam há décadas graças à  violência praticada por matadores de aluguel contra os que ousam organizar o povo e defender a reforma agrária e a justiça social. A impunidade dos mandantes mais uma vez será garantida, assim como o silêncio definitivo do assassino.
O histórico de lutas do deputado Batista, como era conhecido, era vasto e profícuo. Atuou na reconstrução da União Nacional dos Estudantes, integrando a Comissão Nacional que organizou o Congresso de reconstrução da UNE, em 1979, em Salvador. Antes, porém, liderou a primeira greve de estudantes no Pará após as mobilizações de 1968. Saiu com sua família do interior de São Paulo para a Amazônia em busca de terras, seguindo a propaganda dos militares, após 1964, que incentivaram a ocupação das terras do norte, com o slogan: “ocupar para não entregar”. Durante sua infância e adolescência,  João Batista pôde testemunhar de perto o estado de penúria e exploração a que os trabalhadores rurais estavam submetidos no interior do Brasil.
 O sentimento de justiça se desenvolveu rapidamente ao longo de sua curta vida;  João Batista era advogado dos posseiros e defensor da Reforma Agrária. Mesmo  com toda convicção de que se tornaria inimigo público número um dos latifundiários, nunca se furtou a desenvolver seu nobre trabalho em defesa dos direitos dos trabalhadores rurais e na denúncia dos muitos crimes que eram cometidos pelos “donos da terra”.  Como os pistoleiros que executaram João Batista também foram  mortos, até hoje o caso permanece sem solução, aumentando a triste e larga estatística da impunidade dos crimes cometidos no campo no Brasil.
Sua trajetória foi tema de um longa metragem documentário  “João Batista, o combatente do povo”, baseado no livro: João Batista, Mártir da Luta pela Reforma Agrária, de Pedro César Batista, seu irmão. O filme teve seu orçamento  devidamente aprovado pela Ancine e Ministério da Cultura e  captará os recursos pela Lei Rouanet.  No entanto,  a execução do projeto ainda precisa de doações para ser efetivamente lançado e distribuído.

DIA 5 DE DEZEMBRO DE 2012, MORRE OSCAR NIEMEYER

 
 
Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho, o arquiteto da suavidade e das  curvas, da liberdade e da  luz, da irreverência e da  genialidade,  cujas obras se espalharam pelo nosso país e o  mundo, levaram o Brasil a conquistar seu lugar na história da arquitetura modernista mundial. Deixou-nos também trabalhos de escultura, gravuras, desenhos e mobiliário. Optou pelo comunismo  por acreditar na igualdade de direitos para todos, na justiça social, na democracia e na  liberdade. Homem de pensamento humanista e revolucionário, desprezou honrarias e bens materiais. Foi incansável defensor da construção da sociedade socialista.
Nasceu no Rio de Janeiro em 15 de dezembro de 1907, e faleceu também no Rio de Janeiro dez dias antes de completar 105 anos de vida no dia 5 de dezembro de 2012.
Cursou a Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro onde se formou engenheiro arquiteto em 1934 e logo foi trabalhar como estagiário no escritório de Lúcio Costa. Seu primeiro trabalho em parceria com o arquiteto suíço Le Corbusier, foi o projeto do edifício Gustavo Capanema, o antigo Ministério da Educação e Cultura no Rio de Janeiro. O primeiro projeto individual foi o Conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte, que lhe trouxe destaque no Brasil e no mundo. No seu vastíssimo currículo estão alguns dos cartões postais de São Paulo, como o Parque do Ibirapuera e o Edifício COPAN. Também saíram de seus traços os projetos do Palácio Alvorada, Palácio do Planalto, Congresso Nacional, a Catedral, os edifícios das superquadras residenciais e comerciais, que embelezam a capital de nosso país. No ano de 1987,  Brasília recebeu o título de Patrimônio Mundial da Humanidade.
Sua criatividade e competência, levaram-no a participar da reconstrução de Berlim, do projeto da sede da ONU em Nova York, e em inúmeros projetos em países como Argélia, França, Itália, Israel, Líbano. Projetou o Memorial da América Latina, em São Paulo, o Memorial JK, o Sambódromo no Rio de Janeiro. Um dos últimos projetos foi o MAC (Museu de Arte Contemporânea de Niterói). Sobre as curvas de seus projetos, certa vez disse: “O que me chama a atenção é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, nas margens dos rios nas nuvens do céu e nas ondas do mar”.
Em 1945,  filiou-se ao PCB e militou por toda sua vida pela justiça social. Em 1963,  recebeu o “Prêmio Lênin da Paz”, na URSS, e no mesmo ano foi nomeado membro honorário do American Institute of Architeccts.
Com o golpe militar de 1964, Niemeyer e mais 200 professores se afastaram da UnB (Universidade de Brasília), onde davam aulas. Em 1965, foi intimado a depor no DOPS. Pressionado pela ditadura, exilou-se em Paris, onde se estabeleceu por 20 anos, viajando pela Europa, África e Ásia, realizando projetos em vários países, sendo muitos deles gratuitamente, como foi o caso de Argélia onde construiu universidade e prédios. Seu trabalho esteve sempre ligado às causas políticas e sociais. Niemeyer manteve amizade com Fidel Castro, Pablo Neruda, Luís Carlos Prestes, a quem ajudou financeiramente no final da vida, demonstrando que o homem militante comunista tinha a estatura de sua obra.
“Sua luta, sua história, seu compromisso com o marxismo e o socialismo, assim como a sua arte e ciência marcaram indelevelmente a memória do tempo presente”.
Niemeyer foi coerente e fiel aos seus princípios políticos até o fim de sua vida. “Nunca me calei. Nunca ocultei minha posição de comunista. É necessário protestar contra a miséria, as injustiças, as desigualdades. A arquitetura não muda a vida dos pobres. Para mudá-la, é preciso sair às ruas e protestar”, disse ele aos 99 anos.
Para Darcy Ribeiro “Oscar Niemeyer será o único brasileiro a ser lembrado no mundo todo daqui a mil anos”.
O arquiteto trabalhou até os últimos dias de vida e veio a falecer aos 104 anos no Hospital Samaritano,  no Rio de Janeiro, em consequência de complicações renais, no dia 5 de dezembro de 2012. 
 
 


DIA 04 DE DEZEMBRO DE 2011, MORRE O JOGADOR SÓCRATES

 
Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, um dos jogadores mais diferenciados da história do futebol brasileiro; culto e sempre interessado pela vida política do país, Sócrates brilhou dentro e fora dos campos. Além do talento para o esporte, se destacou como líder dos times em que integrou, foi técnico de futebol, comentarista esportivo, músico, ator e produtor teatral. No início da década de 70,  conseguiu  conciliar o esporte com a faculdade de medicina conquistando o título de médico em 1977. Magrão, como era chamado pelos companheiros, realizou 297 jogos, marcou 172 gols e conquistou os títulos paulistas de 79, 82 e 83. Pela seleção brasileira, ele disputou dois mundiais (1982 e 1986).
Nascido no dia 19 de fevereiro de 1954, em Belém (PA), Sócrates, começou a carreira no Botafogo, de Ribeirão, em 1974. Em 1978, foi para o Corinthians. Passou ainda pelo Fiorentina da Itália, Flamengo e Santos.
 Sócrates destacou-se por sua militância política, particularmente nos anos 1980, quando jogava pelo Corinthians. Liderou um movimento pela democratização do futebol e participou do movimento pelas Diretas Já! em 1984. No entanto, o ativismo político de Sócrates extrapolou as fronteiras do Brasil e na Copa de 1986, com cabelos compridos, barba e uma faixa branca amarrada na cabeça,  manifestou sua solidariedade ao povo mexicano que estava sofrendo com um terremoto que atingira o país. Ele clamou por justiça em todo o mundo. As causas humanitárias nunca lhe foram indiferentes.
De maneira coerente com seus ideais de democracia e igualdade de direitos,  Sócrates sempre se mostrou atento  ao bem-estar dos jogadores atuando enquanto  um dos principais idealizadores do movimento Democracia Corintiana (1982– 1984), que reivindicava para os jogadores mais liberdade e mais influência nas decisões administrativas do clube.  Por suas atividades e opiniões políticas, chegou a ser perseguido pela ditadura militar  juntamente com seu colega de equipe e grande amigo, Casagrande. Em 2011, ano de sua morte, Sócrates declarou que gostaria de trabalhar com o presidente venezuelano Hugo Chávez em projetos sociais ligados ao esporte. Foi colunista da revista Carta Capital  e  do jornal  Agora São Paulo , trabalhou também como  comentarista esportivo do programa Cartão Verde da TV Cultura. A vida desse brilhante personagem de nosso futebol foi retratada e reconhecida por diversas entidades dentro e fora do Brasil.
Em  1983 foi eleito o melhor jogador sul-americano do ano e incluído pela FIFA, em 2004, na lista dos 125 melhores jogadores vivos da história. Era também considerado pela mídia especializada (CNNWorld Soccer e Placar) como um dos grandes jogadores de todos os tempos. Em fevereiro de 2015, em seu tradicional quadro “The Joy of Six“, o jornal britânico The Guardian elegeu Sócrates como um dos seis esportistas mais inteligentes da história (ele é o único futebolista da lista). Para entrar nesta lista, o jornal levou em conta currículos que extrapolaram campos e quadras, tendo uma atuação preponderante em suas áreas e fora delas.
 Sócrates morreu no dia 4 de dezembro de 2011. No mesmo dia e mês, em 1983, ele marcou de pênalti contra o Palmeiras, em jogo válido pela semifinal do Paulistão. O placar de Sócrates foi vitorioso na vida e nas quadras.
 

DIA 03 DE DEZEMBRO DE 1932, NASCE HELONEIDA STUDART

 
A conhecida deputada estadual, escritora, jornalista e feminista, nasceu no Ceará em uma família aristocrática e de posses, no dia 3 de dezembro de 1932.  Era sobrinha neta do Barão Studart.  Pelo mérito de grande  historiador do Ceará, deu nome a uma importante avenida da capital cearense. Pelo lado paterno, dos Bezerra de Menezes, seu trisavô foi revolucionário condenado á morte pela participação na Confederação do Equador, movimento libertário ocorrido no nordeste.  Seu tio, um dos abolicionistas mais  destacados do Ceará, também deu nome a outra rua de Fortaleza.  De seu pai, um homem altamente intelectualizado, herdou o gosto pela leitura. Como ela mesma se expressou certa vez: “Fui portanto uma pessoa colocada numa espécie de encruzilhada”.
Desde criança manifestava seu desejo de ser escritora e jornalista, o que era considerado um devaneio de menina pela família burguesa e conservadora. Mas a jovem, de temperamento rebelde e obstinado, aos 16 anos começou a escrever para o jornal O Nordeste.   Aos 18 anos, já com o primeiro romance escrito,  A Primeira Pedra,  veio para o Rio de Janeiro em busca de  publicação. Em 1955 escreveu o segundo romance Diz- me o teu nome, que recebeu dois prêmios, o da Academia Brasileira de Letras e o Orlando Dantas,promovido pelo Diário de Notícias, onde concorreu com escritores conceituados.
Ainda muito jovem trabalhou no SESI onde obteve sucesso com uma tese sobre Favelas.  Daí surgiu o contrato para  trabalhar em uma experiência nova, uma  biblioteca ambulante  nos conjuntos habitacionais da Penha, Bonsucesso, Piedade. Deste contato direto com os trabalhadores foi-se politizando e se sensibilizando com questão social.  Na década de 60 trabalhava no Diário de Notícias e no Jornal Correio da Manhã.  Foi redatora chefe da revista Manchete por dez anos.
Na militância política foi chefe do Sindicato das Entidades Culturais (SENAMBRA), e pela coerência ideológica fazia oposição à ditadura militar instalada em 1964, o que lhe rendeu a destituição do cargo e a prisão em 1969 no presídio São Judas Tadeu. Do período de encarceramento brotaram dois trabalhos denunciando problemas sociais, “Quero meu filho” e “Não Roubarás”, que mais tarde se transformaram em seriados de sucesso na TV Globo. Na sequencia de sua carreira de escritora, destacamos como  denúncia política,  aTrilogia da tortura: “O pardal é um pássaro azul”, publicado em quatro idiomas. “O estandarte da agonia”, inspirado na vida de sua amiga Zuzu Angel. E “Torturador em Romaria”.  Um dos temas mais explorados por Heloneida foi a questão da mulher. Neste campo deixou uma espécie de bíblia do feminismo com a obra “Mulher objeto de cama e mesa”, com 280mil exemplares vendidos.
Prosseguindo nas suas bandeiras de luta, em defesa da democracia política e social, Heloneida foi eleita deputada estadual pelo PMDB em 1978. Reeleita em 1982, assumiu a vice-liderança da bancada de 1979 a 1988, quando participou da fundação do PSDB, partido que deixou em 1988 para fazer parte dos quadros do Partido dos Trabalhadores. NoPT, chegou a ser presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ). Atuou como vice-líder da bancada do PT de 1995 a 1999. Presidiu várias comissões especiais. Conseguiu  a provação de várias leis que beneficiaram as mulheres e aos trabalhadores. Fundou duas importantes instituições para apoio à mulher. O Centro da Mulher Brasileira,primeira entidade feminista do país, e o Centro dos Direitos da Mulher (CEDIM). A deputada além de escritora e jornalista, foi também teatróloga. Implantou um projeto cultural para explicar três lutas do povo brasileiro: Libertas quae sera tamen: “Tiradentes, o Zé de Vila Rica”, “Bárbara do Crato” e “Frei Caneca”. Peças didáticas destinadas aos alunos das escolas públicas,  que ficaram em cartaz por quatro anos. Com o mesmo sucesso a peça “Homem não entra”, ficou em cartaz por cinco anos.
Ela foi indicada como uma das 100 mulheres brasileiras mais importantes do século XX, no livro Mulheres Brasileiras da editora Record. A Fundação de Mulheres Suíçasescolheu 52 brasileiras dentre outras 1000, para concorrerem ao Nobel da Paz, entre elas esteva a cearense Heloneida Studart.

DIA 02 DE DEZEMBRO DE 1968, ATENTADO AO TEATRO OPINIÃO

 
Em tempos de repressão política e ideológica, a cultura e o movimento estudantil,  sempre se tornam  os primeiros alvos daqueles que saem à caça de seus opositores. E de fato a verdadeira função da arte é a função social, o questionamento do status quo e a precipitação do pensamento. O ano de 1968 foi um ano emblemático no que diz respeito à desonesta e covarde guerra que se estabeleceu entre o regime e seus opositores. O Teatro esteve presente de forma assídua durante os “anos de chumbo”,  marcando seu lugar de resistência e desempenhando coerentemente a função social que lhe é intrínseca.
No Brasil,  o teatro engajado politicamente, ou a nova dramaturgia, começou a surgir na década de 50, pelas mãos de autores como Augusto Boal, Oduvaldo Vianna Filho e Gianfrancesco Guarnieri. Graças a esses personagens icônicos que fazem parte da própria história do teatro no Brasil, o terreno começou a ser preparado para que os jovens de 1968 fossem à luta contra a ditadura. Augusto Boal, em 1961, ajudou a consolidar as bases do Teatro Opinião,  aproximando definitivamente  cultura e política.  Com o golpe militar em 1964, autores como Augusto Boal foram covardemente  perseguidos, torturados e exilados. As peças teatrais do Teatro do Oprimido, por exemplo, incitavam claramente o pensamento livre, a revolução e a não aceitação de qualquer autoritarismo.
Nesse contexto de perseguição aos opositores do regime, nasceu o  Comando de Caça aos Comunistas (CCC) em 1964,  organização de  extrema direita  e de caráter paramilitar, oriunda de São Paulo.  Compostos por estudantes da Mackenzie e da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, o CCC esteve presente no Golpe de 1964 e foi liderado por João Marcos Monteiro Flaquer, estudante de direito que, após formado, seguiu carreira na advocacia. Compunham  também o grupo, policiais do DOPS e recebiam treinamento do Exército Brasileiro.
Na noite de 02 de dezembro de 1968O Teatro Opinião, no Rio, onde estava sendo encenado o espetáculo “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores“, de Geraldo Vandré, tem sua bilheteria destruída por uma bomba. O atentado é atribuído ao CCC, que nesse mesmo  ano, já havia feito outros ataques a teatros, como o Galpão, em São Paulo, e o Maison de France, também no Rio. Cinco dias mais tarde, mais uma bomba explodiria no Rio de Janeiro, dessa vez na redação do jornal “Correio da Manhã”. Contando com a cumplicidade dos órgãos de segurança, o CCC continuava a agir impunemente alastrando suas ações por todo país.
No final da década de 1970, o grupo voltou-se contra os movimentos pela anistia e contra integrantes da Igreja Católica que atuavam em defesa dos mais pobres e com discursos considerados de esquerda por defenderem os direitos humanos. Nos últimos anos do processo de abertura política, o CCC cessou progressivamente suas atividades, ainda que existam simpatizantes do grupo até os dias atuais. No momento presente podemos observar claramente resquícios do CCC, presentes nos discursos de ódio, de perseguição aos artistas, às minorias e aos defensores da democracia e da igualdade de direitos.
A escalada da extrema direita,  aliada ao fundamentalismo religioso, configuram no Brasil atual um cenário pavoroso que faz relembrar os anos pré-fascistas, pregando a violência, a intolerância e a censura. A tentativa do atual governo ilegítimo de extinguir o Ministério da Cultura como uma de suas primeiras ações, não escapa ao cronograma dos golpistas. Qualquer semelhança com 1968 não terá sido mera coincidência.
 
 
 


 

DIA 1º DE DEZEMBRO DE 1955, ROSA PARKS É PRESA POR NEGAR ASSENTO A UM HOMEM BRANCO EM ÔNIBUS NOS EUA

 
A lei maior do país, a Constituição de 1776, dos EUA,  reza em seu 14º artigo que “todos os homens são iguais”, mas ser negro e viver no sul dos EUA nos anos 60, era um ato de heroísmo e resistência. Muito semelhante ao regime do apartheid da África do Sul, no Alabama a lei local determinava que os negros só poderiam viajar nos transportes públicos nos últimos lugares. E se estivesse cheio, o negro deveria ceder lugar ao branco.
Mas no dia 1º de dezembro de 1955, Rosa Louise McCauley, conhecida como Rosa Parks, embarcou num ônibus em Montgomery no Alabama, após um dia de trabalho, e sentou-se conforme a lei, nos assentos traseiros. Mas nesse dia o ônibus ficou completamente cheio, e quando um passageiro branco entrou, exigiu que Rosa lhe desse o assento. Rosa se recusou a  ceder o lugar e foi imediatamente presa, por desobedecer a lei, num ato de desobediência civil. Após pagar a fiança foi posta em liberdade. Mais tarde declarou: “Na verdade senti que tinha o direito de ser tratada como qualquer outro passageiro. Havíamos suportado aquele tipo de tratamento por muitos anos”.
Esta viagem de ônibus iria mudar a sua vida. Este fora o primeiro passo para que ela se tornasse a “Mãe dos movimentos negros pelos  direitos civis”, em todos os EUA. Rosa nascida em 4 de fevereiro de 1913, em Detroit, fora obrigada desde cedo a abandonar os estudos e trabalhar como costureira. Mais tarde em Montgomery casou-se com Raymond Parks, membro da NAACP (National Association for the Advancement of colores People), organização que lutava pelos direitos civis dos negros da qual Rosa também se tornou militante. Três dias após o evento foi convocado um boicote aos ônibus de Montgomery.  Um dos líderes do movimento foi o pastor Martim Luther King.
Mais de 50 mil negros usuários de ônibus da cidade e arredores conseguiram manter o boicote por 382 dias. Faziam transporte solidário, iam para o trabalho a pé, de bicicleta e outros.  Os empresários sentiram o impacto do boicote,  pois 70% dos usuários eram negros. Em dezembro de 1956, um ano após a repercussão do fato, a Suprema Corte dos EUA, considerou inconstitucionais as leis de segregação racial no estado do Alabama. O sucesso do boicote fora um de muitos movimentos de luta dos negros por direitos que marcaram a década de 60 nos EUA, e culminaram com a assinatura da Declaração dos Direitos de 1964, e 68, que acabavam com a discriminação no sistema eleitoral, nas fábricas, nos demais locais públicos, pelo menos no sistema judiciário.
Rosa Parks se tornou um ícone da luta pelos direitos civis nos EUA.  Mas pagou por sua atitude, sua militância,  um alto preço. Não conseguia empregos, sofria todo tipo de pressões, incluindo ameaças de morte.  Mudou-se para Virgínia, depois para Detroit. Continuou militando ativamente na causa junto ao Rosa and Raymond Parks Institute, criado por ela 1987. Em 1992 publicou sua autobiografia: Rosa Parks: My Story. Continuou enfrentando série  dificuldades, depois de viúva, chegou a ser despejada de seu prédio, o que causou grande comoção no país e levou o banco a perdoar suas dívidas.
Foi acometida de doenças mentais, mal de Alzheimer e veio a falecer em 24 de agosto de 2005 em seu apartamento. Seu corpo foi velado no Capitólio em Washington, o que representa uma grande honraria. Foi condecorada com a Medalha Presidencial da Liberdade pelo presidente  Bill Clinton, e em 1999 com a Medalha de Ouro do Congresso. Ao completar 50 anos de seu ato de desobediência civi, no dia 1º de dezembro de 2005, o presidente George W. Bush sancionou outra honraria, uma estátua no National Statuary Hall do Capitólio. A estátua foi inaugurada pelo presidente Obama em 2013.
A eleição de um presidente negro, pela primeira vez na história deste país, parecia a inauguração de uma nova era. Os discursos à época causavam a impressão de celebrar  o período  “pós racial”. No entanto, os recentes assassinatos de jovens negros por grupos de defesa da supremacia branca, demonstram que o racismo evoluiu para uma nova forma: não precisam mais de leis de segregação racial. 

DIA 30 DE NOVEMBRO DE 1979, A “NOVEMBRADA” CONFRONTA A DITADURA MILITAR

 
Vivia-se no país o momento da abertura política, apesar de “lenta gradual e segura”. Em agosto de 1978, revogava-se o AI -5. No ano seguinte em agosto de 79 aprovava-se a Lei da Anistia, “pela metade”, os exilados voltavam ao país, o bipartidarismo era extinto, reorganizavam-se os partidos, havia no ar um clima de volta à democracia. O presidente era João Baptista Figueiredo, que “prenderia e arrebentaria” quem fosse contra a abertura. Na sociedade civil, os movimentos se reorganizavam. Em Florianópolis os estudantes da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), protagonizaram uma revolta contra a ditadura militar, conhecida como Novembrada, que explodiu no dia 30 de novembro de 1979, representando um marco na campanha pela democratização do país, e assinalando o enfraquecimento da ditadura.
O governo estadual estava preparado para recepcionar o presidente militar no Palácio Cruz e Souza, na Praça XV de Novembro.  Figueiredo iria descerrar uma placa em homenagem ao Marechal Floriano Peixoto, que dera nome à cidade e visitar uma siderúrgica. Mas o clima era de hostilidade ao chefe da nação. Os estudantes ganharam a simpatia da população florianopolitana. Mais de quatro mil pessoas se concentravam na praça, exibindo faixas de “Abaixo a fome”, “Abaixo a Ditadura”, “Abaixo a exploração”. O presidente, contrariado,  gesticulou na sacada do palácio, e os manifestantes entenderam como gesto obsceno por parte dele. Daí em diante,  a confusão foi generalizada.  Gritaram palavras de ordem contra o presidente, além de muita pancadaria. A placa comemorativa foi destruída.
Nessa manifestação,  juntaram-se aos estudantes, os descendentes das vítimas do massacre da Anhatomirim, no qual Floriano Peixoto havia ordenado o massacre de seus opositores na Revolução Federalista (1893/95). Estavam presentes muitas pessoas da sociedade civil protestando contra a carestia, o desemprego, aumento dos combustíveis. O presidente, tentando um estilo popular, resolveu ainda tomar café no Senadinho, um ponto de encontro bastante tradicional na cidade. Novos protestos e agressões se seguiram. O ministro da Minas e Energia foi jogado ao chão.
 No dia seguinte veio a consequência de um Estado ditador. Sete estudantes foram presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional. A TV Cultura e a TV Barriga Verde, que fizeram a cobertura, tiveram todo o material apreendido.  Novo ato público foi organizado pelos estudantes contra a prisão dos companheiros. Políticos, estudantes, ativistas dos direitos humanos lotaram as escadarias da catedral, exigindo a libertação dos líderes estudantis.  A polícia agiu com a truculência de sempre contra os manifestantes, mas a população não cedeu. E num ato marcado pela emoção e resistência, em frente ao pelotão, cantaram o Hino Nacional.  Após quinze dias os estudantes foram liberados. Sete dias depois, foram julgados e inocentados pela Justiça Militar de Curitiba.
Esse episódio foi contado em um curta-metragem de Eduardo Paredes, com o título “Novembrada”, premiado no Festival de Gramado em 1996. 

DIA 29 DE NOVEMBRO DE 2016, DESASTRE AÉREO DA CHAPECOENSE

 
O vôo CP2933 da companhia boliviana LaMia, entrou para a história da aviação boliviana como uma das maiores tragédias aéreas do país. O vôo transportava a delegação da Chapecoense, e decolou no dia 28 de novembro  de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, rumo a Rionegro, na Colômbia. A aeronave trazia 77 pessoas a bordo, tendo por passageiros, atletas, equipe técnica e diretoria do time brasileiro da Chapecoense, jornalistas e convidados, que iriam a Medellín onde o clube disputaria a primeira partida da Final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional. Entre passageiros e tripulantes, 71 pessoas morreram na queda do avião e seis foram resgatadas com vida.
Entre os mortos, vinte eram jornalistas brasileiros, nove eram dirigentes (incluindo o presidente do clube) dois eram convidados, quatorze eram da comissão técnica (incluindo o treinador e o médico da equipe), dezenove eram jogadores e sete eram tripulantes; dos seis ocupantes que sobreviveram, quatro eram passageiros e dois eram tripulantes. Pelo total de vítimas, esta tragédia torna-se a maior da história com uma delegação esportiva e a maior do jornalismo brasileiro.
Os primeiros sinais da tragédia aconteceram por volta das 22h (horário local), quando a aeronave estava a cerca de 30 quilômetros do aeroporto internacional José María Córdova, quando o piloto comunicou uma emergência elétrica. Porém, outras três aeronaves estavam se aproximando da pista, e uma delas – o vôo FC8170 da Viva Colombia – sofreu um vazamento de combustível e pediu prioridade de pouso. Os controladores, então, colocaram os aviões restantes em espera. O da Chapecoense era o terceiro na fila e começou a voar em círculos.
Na terceira volta, o voo da LaMia voltou a declarar emergência elétrica e pediu para ser passado na frente da fila de espera. Neste momento, a aeronave iniciou, de forma acelerada, o processo de descida. Uma pane elétrica desligou por completo os equipamentos eletrônicos. O último sinal do voo foi recebido quando o avião estava a 2.743 metros de altitude – a altitude mínima a ser mantida na região é de 3.048 metros. Ou seja, o piloto estava voando às cegas, sem noção de altitude. Gravações de áudio mostram que ele pediu que os controladores ajudassem a guiá-lo até a pista.
A queda ocorreu na Serra El Gordo, zona rural do município de La Unión, em Antioquia, no dia 29 de novembro de 2015. A aeronave, que no momento deveria estar pesando por volta de 30 toneladas, bateu uma asa a uma velocidade de aproximadamente 250 km/h de um lado do morro, provavelmente capotou, e deslizou até o vale do outro lado daquele morro. Os destroços foram encontrados a 17 quilômetros do aeroporto. 
Das 71 vítimas fatais, entre passageiros e tripulantes, uma era paraguaia, outra venezuelana, cinco eram bolivianas e o restante era de brasileiros. Um clima de consternação e indignação tomou conta do país. Por todo o mundo os principais jornais imediatamente repercutiram o acidente, bem como as principais redes de notícia de todos os países; logo redes como CNN e BBC e jornais como The New York TimesEl País e Le Monde passaram a cobrir a tragédia.  Já na manhã do dia 29 as redes sociais  manifestavam apoio às vítimas da tragédia, assim como times de futebol de todo o mundo expressavam seu apoio ao time acidentado.
Mas,  afinal,  qual o real motivo da queda da aeronave? Em 26 de dezembro de 2016, 28 dias depois do acidente, a Unidade Administrativa Especial de Aeronáutica Civil da Colômbia, apresentou o relatório preliminar. De acordo com o relatório, não foi identificada uma falha técnica que tivesse causado ou contribuído para o acidente, nem apresentou ato de sabotagem ou tentativa de suicídio. As evidências revelaram que a aeronave sofreu falta total de combustível.
            A  Aerocivil  afirmou que as investigações iriam continuar até abril de 2017, quando apresentaria o relatório final, considerando esta análise preliminar, bem como os aspectos de organização, vigilância e supervisão operacional, planificação do combustível, tomada de decisões e sobrevivência. No entanto, até o final de 2017, o relatório final ainda não foi emitido. 
É de extrema importância ressaltar que a companhia La Mia A LaMia (Línea Aérea Mérida Internacional de Aviacón) é uma pequena companhia aérea de capital venezuelano fundada por Ricardo Albacete Vidal. A companhia foi criada após um acordo com o ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez, a LaMia onde foi registrada como uma companhia de ciência e tecnologia para poder receber o dinheiro de um fundo de investimento de chineses que visava estimular a economia venezuelana.
A LaMia iniciou suas operações em 2010, no estado venezuelano de Mérida. O negócio, no entanto, não deu certo pois os investimentos chineses foram interrompidos em função da prisão de Sam Pa, milionário de Pequim amigo de Albacete.   Em janeiro de 2015, Albacete desistiu de operar na Venezuela, transferiu os aviões para a Bolívia e criou a LaMia Bolívia, em sociedade com Miguel Quiroga, o piloto que comandava o voo da Chapecoense que foi morto no acidente. Nos últimos dois anos, a especialidade da companhia vinha sendoo transporte de times de futebol sul-americanos, por um valor 40% mais barato do que os vôos comerciais, o que naturalmente atraiu o interesse do Clube Chapecoense. Redução de custos que gerou uma dívida eterna para com as vítimas do acidente e seus familiares. Nenhuma assistência que qualquer ordem poderá por fim à dor,  a indignação e a perda das vidas que foram interrompidas de maneira tão precoce.
 

DIA 28 DE NOVEMBRO DE 1820, NASCE FRIEDRICH ENGELS

 
“Sem Friedrich Engels, não teria existido o marxismo… A obra de Engels tanto literária quanto prática, constitui junto com a de Marx um todo orgânico inseparável, que deu sua formulação teórica mais profunda, assim como sua estruturação política mais expressiva, ao desenvolvimento do proletariado”. (Coggiola 1995). Também Lênin afirmara que “desde o dia em que o destino juntou Karl Marx e Engels, a obra a que os dois amigos consagraram toda suas vidas, converteu-se numa obra comum”. Desta parceria de 40 anos resultou basicamente, a sistematização do socialismo científico e a organização do movimento comunista internacional, para a formação de uma nova  sociedade mundial, sem a exploração do homem pelo homem  e das nações pelas nações.
Friedrich Engels nasceu no dia 28 de novembro de 1820, na cidade de Barmem, reino da Prússia, antes da unificação da Alemanha. Filho de uma próspera família industrial, foi encaminhado pelo pai, que lhe traçara o destino de empresário, para uma  fábrica da família  em Manchester. A partir desta experiência direta, com a exploração capitalista dos operários ingleses, declarou: “abandonei a sociedade, os banquetes e a champanha e dediquei minhas horas livres ao contato com verdadeiros operários, tratando da vida real”. E sobre este período produziu segundo Lênin, uma das mais brilhantes obras de análise da situação do proletariado contemporâneo: “A situação da classeoperária na Inglaterra”(1844/45). Considerado o primeiro passo para a crítica comunista embasada na investigação da economia.
Alguns estudiosos apontam a modéstia de Engels para a supervalorização de Marx. Ele próprio se considerava “O segundo violino” da orquestra. Para ele “Marx era um gênio e nós outros, no máximo talentosos”. (notas de Engels -1886). Em diversos campos do conhecimento Engels deixou valiosas contribuições. Quer seja na sociologia urbana e ecologia, ao analisar as condições de mobilidade urbana, a insalubridade das moradias, a poluição do ar, a divisão espacial das cidades por classes sociais. Criticou também as relações de opressão do sexo masculino sobre o feminino nas relações de produção.
De 1845 a 47, Engels viveu em Bruxelas e Paris dedicando-se ao estudo e a militância na Liga dos Comunistas.  Com Marx em 1948, lançou em Paris, o célebre Manifesto Comunista, síntese da doutrina comunista, na qual analisam a evolução da humanidade e concluem, que a história é feita pela luta de classes, resulta do confronto dos interesses antagônicos entre patrões e operários.  E convocam a todos os trabalhadores para a luta armada, única forma de derrubar o capitalismo. “Trabalhadores do mundo, uni-vos”!  Após a tomada do  poder pelo proletariado, haveria o período de transição entre a ordem burguesa e o comunismo, a ditadura do proletariado. Ao final da transição, nasceria a sociedade ideal, sem classes, o comunismo.
 Ambos enfrentaram as barricadas na Revolução de 1848, que insurgiu na França e se espalhou pela Europa. Juntos deram os primeiros passos para a construção de partidos operários de massa, fundando a Associação Internacional dos Trabalhadores, mais conhecida como a Internacional. E um dos resultados práticos desta construção, foi a Comuna de Paris em 1871, o primeiro governo operário da história, e antecipador da ditadura do proletariado, mas, acabou sendo derrotado pelo exército burguês.
Engels conferiu ao marxismo um caráter filosófico, estendeu à natureza a concepção materialista da dialética, enquanto Marx se dedicou mais ao ser social. Após a morte de Marx em 1883, Engels assumiu a tarefa de concluir o segundo e o terceiro volumes de O Capital. Passou ainda a orientar o movimento operário europeu, sem deixar a condição de cientista social. Ambos tiveram o grande mérito ao demonstrar que “o socialismo não é uma invenção de sonhadores, mas o resultado inevitável do desenvolvimento das forças produtivas da sociedade atual”. Resultado que será conquistado pela luta de classes.
 
Em 1895 Friedrich Engels faleceu de câncer na garganta em 1895, em Londres. Após a cremação suas cinzas foram jogadas em Beachy Head, perto de Eastbourne, conforme tinha pedido.

 


DIA 27 DE NOVEMBRO DE 1983, MORRE SENADOR TEOTÔNIO VILELA

 
O “Menestrel de Alagoas”, também conhecido como “Peregrino da Democracia”, “Guerreiro da Paz”, ou “Senador da Diretas”, foi empresário, jornalista, cronista, poeta, boêmio e um político raro. Se auto- declarava liberal, e ganhou a fama de não fazer conchavos, nunca cochichar, sempre dizia “não falem baixo comigo, eu só falo alto”.  Nasceu no interior de Alagoas cidade de Viçosa em maio de 1917, em uma família de latifundiários.  Ao longo da carreira política transitou entre direita e esquerda, liberais e conservadores, mas sempre com ética e patriotismo.
Iniciou sua vida política no partido UDN (União Democrática Nacional), em 1948, fazendo oposição a Getúlio Vargas. Chegou a vice-governador pela mesma sigla. Por ocasião do impasse político provocado pela renúncia de Jânio, posicionou-se pela legalidade defendendo a posse de João Goulart. Mas em 1964, ingressou na ARENA (Aliança Renovadora Nacional), partido de apoio do regime militar.  Logo nos primeiros discursos na tribuna, manifestou sua insatisfação com a ditadura. Mais tarde trocou a ARENA pelo MDB(Movimento Democrático Brasileiro), o único a fazer oposição ao regime. Por ocasião da anistia presidiu a Comissão Mista da Anistia, chegou a levar deputados à celas de presos políticos, tornando-se um ícone da campanha pela “Anistia ampla, geral e irrestrita”.  Ingressou no PMDB, e chegou a dizer que “estava chegando onde sempre esteve”.
No ano de 1980, com a mobilização dos trabalhadores e as históricas greves dos metalúrgicos do ABC paulista, Teotônio participou intensamente e serviu de mediador  dos grevistas quando Lula esteve preso. Posicionando-se ao lado dos metalúrgicos, com presença frequente nas assembleias no estádio de Vila Euclides.  O governo endureceu as negociações, interveio nos sindicatos, prendeu a direção incluindo Lula. Teotônio em discurso exigia solução para a crise e propôs que o presidente Figueiredo recebesse a liderança sindical. A greve perdurou por 41 dias com o apoio da Igreja e da sociedade. Ao final, a direção do sindicato foi liberada, mas destituída de seus cargos.  Conseguiram ganhos políticos significativos.
Teotônio tinha coragem de falar coisas que ninguém tinha. Decepcionado com a “abertura lenta e gradual” do presidente Geisel, assumiu a missão de lutar pela democracia e passou a fazer viagens pelo Brasil atacando a “democracia relativa”, a manutenção do aparelho repressor, à figura do “senador biônico”, entre outras questões.   Participou do“Projeto Brasil”, em cujas propostas estava a extinção do AI-5,  eleições diretas para presidente e governadores, liberdade para organização sindical e estudantil, habeas corpus para crimes políticos, entre outras.
Em 1982, o Menestrel das Alagoas, assim chamado, por causa da música de Milton Nascimento em sua homenagem, retirou-se da vida política devido a um câncer. Em seu discurso deixou claro que “A vida política continua comigo, continuarei lutando prosseguirei na minha vida de velho menestrel, cantando aqui, cantando ali, as minhas pequeninas toadas políticas”.
A doença agravou-se rapidamente e o “Peregrino da Democracia” veio a falecer no dia 27 de novembro de 1983, em Maceió. No mesmo dia que em São Paulo acontecia o primeiro comício das Diretas Já, para as quai  batalhou arduamente.
Teotônio Vilela foi casado com Helena Henrique Brandão Vilela com quem teve sete filhos. Algumas frases de seus retumbantes discursos, merecem ser lembradas.
“A maior tragédia do Brasil não é a dívida externa, nem a dívida interna, é a dívida social”.
“Vivi contemplando a imagem do Zumbi, sinto -lhe os rumos dos sonhos, e o calor do sangue libertário”.
“O sentimento de pátria deve ser restaurado”.

DIA 26 DE NOVEMBRO DE 1911, NASCE MARIO LAGO

 
Grande compositor, ator, escritor, diretor, radialista, jornalista, carioca e boêmio, foi ao longo se sua vida, um militante político  do Partido Comunista Brasileiro.  Sua coerência aos princípios ideológicos de esquerda, lhe renderam muitos constrangimentos além de sete prisões. Apesar das perseguições na ditadura do  Estado Novo e posteriormente na ditadura militar de 64, jamais negou sua fidelidade e comprometimento de um militante político, mantendo sempre sua voz coesa contra qualquer forma de opressão. Como saldo do encarceramento produziu obras como  “O Povo escreve a história nas paredes” e “Primeiro de Abril”.  No final da década de 1998 alinhou-se ao Partido dos Trabalhadores, trabalhando como âncora na campanha presidencial de Luís Inácio Lula da Silva.
O compositor de “Ai que saudades da Amélia” e “Atire a primeira pedra”, (parceria com Ataulfo Alves) Mario Lago, nasceu no dia 26 de novembro de 1911, no Rio de Janeiro. Seu pai Antônio Lago, um maestro, seu avô, um anarquista e o neto, um comunista. Sua mulher, companheira por 40 anos, Zeli, filha de militante comunista. Nasceu no seio da arte e da política. Para custear seus estudos de Direito, no qual de formou, em 1933, escrevia peças de teatro. A primeira peça de sua autoria,“Flores à Acuña”. E foi na faculdade que iniciou sua militância política, no centro acadêmico Cândido de Oliveira.
Como escritor assumiu uma postura de artista popular optando pela linguagem coloquial de fácil acessibilidade ao povo, adequadas ao cotidiano. Objetivava assim tocar o povo, incluindo as questões políticas. Na década de 30 e 40, com intensa frequência nos cafés cariocas o autor foi dando lugar ao compositor.  Compôs mais de 200 músicas até a década de 50.  Com o advento da Televisão, nos anos 50, Mario Lago novamente teve que se reinventar e adaptar-se às técnicas de apresentação e gravação para teledramaturgia. Sua intenção era usar a TV como veículo de ideias progressistas e críticas. Tente impor em prática a ideia de fazer arte para o povo, sobretudo através deste veículo que atingia milhões de pessoas.
 Comunista inveterado, mas dotado de senso crítico, ética e coerência, avaliou sua viagem à URSS em 1957, declarando que pecavam pelo excesso de gravidade e autoritarismo, ao passo que os russos classificaram nossos programas de “burgueses e decadentes”. Lá esteve a convite da rádio Moscou para participar da reestruturação do programa Conversando com o Brasil, do qual participavam artistas e intelectuais brasileiros. A crítica em relação à URSS, não abalou suas convicções ideológicas. Dizia
 
sempre que a atividade política ajudava a manter-se sempre jovem. Para ele “O comunismo sempre foi a juventude do mundo”.
 
Sua trajetória de vida foi contada no enredo “Mario Lago: na rolança do tempo e na vida de histórias” pela escola de samba Acadêmicos de Santa Cruz, em 2001.  Em março de 2006 foi criado um musical em sua homenagem “Ai que saudades do Lago”, que esteve em cartaz no Centro Cultural dos Correios no Rio de Janeiro. Na sua última entrevista disse que “fiz um acordo com o tempo, nem ele me persegue nem eu fujo dele”.
Trabalhou em mais de 38 filmes, teve mais de 57 participações na teledramaturgia e nunca deixou de atuar no teatro.
Em 2002 ano de sua morte, foi criado o Prêmio Mario Lago para homenagear artistas, principalmente atores.  Mario Lago foi o nome escolhido para o assentamento do MST em Ribeirão Preto, São Paulo em 2003.
 
 Sofria de edema pulmonar, esteve internado, e retornou à sua casa na zona sul do Rio de Janeiro, onde faleceu em 30 de maio de 2002. Para o velório, o Teatro João Caetano abriu o palco. Justo ali onde tantas vezes representou em sua longa carreira de sucessos.  

DIA 25 DE NOVEMBRO DE 2016, MORRE FIDEL CASTRO, O REVOLUCIONÁRIO

 
Fidel Alejandro Castro Ruz, 15º presidente de Cuba, o eterno revolucionário, foi um dos mais carismáticos líderes políticos do planeta no século XX, e comandante do país por 48 anos. Sua história e a da revolução se confundem. Figura paternal, “quase imortal”, respeitada, temida e onipresente. Desafiou a 11 presidentes do “império”, sobreviveu a 643 atentados, ao colapso da URSS, aos limites de recursos naturais da ilha,  ao embargo econômico imposto pelos EUA , aos mercenários invasores da Baía dos Porcos em 1961  financiados pelos EUA, à exclusão de seu país da OEA,  à crise dos mísseis soviéticos de 1962, e a reaproximação entre EUA e Cuba.
O comandante que fascinava às massas, aos políticos, aos artistas e às mulheres, manteve sua vida privada longe da publicidade. Sabe-se que foi pai de sete filhos, com três mulheres. A partir de 2006, foi saindo de cena após sofrer hemorragias e se submeter à várias cirurgias delicadas. Com escassas aparições públicas, foi visto pelo povo na ocasião da comemoração de seu 90º aniversário, quando em discurso parecia se despedir, “logo serei como todos os outros, que para todos nossa hora deve chegar”.
O líder que aos 32 anos entrou triunfante em Havana, afastara-se definitivamente do poder em 2006 e fora sucedido por seu irmão Raul, então vice-presidente, teve sua morte anunciada no dia 25 de novembro de 2016. O povo cubano lhe rendeu homenagens por nove dias durante o luto oficial. Suas cinzas percorreram a ilha depois de homenagens e cerimônias na Praça da Revolução, o coração político de Cuba, onde o Comandante fazia seus longos discursos, O cortejo partiu no sentido inverso ao da “caravana da liberdade”, até Santiago de Cuba, de onde partira a revolução vitoriosa em 1959. Na ocasião de sua morte, o Partido dos Trabalhadores  lançou nota de pesar, lembrando que a Revolução Cubana foi inspiração para muitos revolucionários da América Latina.
O Comandante conseguiu sustentar a ilha, militar e economicamente apesar do bloqueio econômico norte americano vigente desde 1962. Não conseguiu todas as vitórias almejadas, como exemplo, a devolução do território de Guantánamo ao seu país natal. Mas conseguiu derrotar o analfabetismo em praticamente um ano. Fez com que os 3000 médicos existentes em Cuba na época da revolução, se multiplicassem por 88mil especialistas, um para cada 640 habitantes. Elevou o país à potência no esporte. Cuba que era o quintal traseiro dos EUA, explorado de todas as formas, passou a ser referência mundial em questões de direitos humanos, no que diz respeito à saúde, educação, e habitação, apesar dos períodos de escassez de gêneros alimentícios industrializados com o fim da URSS.
 Ao derrotar o exército do corrupto Fulgêncio Batista, mantido pelos EUA, a Revolução Cubana através de seu maior líder Fidel Castro, desafiou o gigante na sua escalada para asfixiar Cuba, alterando a geopolítica do Caribe. “Foi com um   destampar da panela de pressão imposta por uma dominação retrógada implacável de interesses de empresas e do imperialismo americano mancomunados como forças oligárquicas e patrimonialistas locais, em diferentes países. Especialmente na América Latina”.
 Fidel Castro morreu num momento em que nossos sonhos de mudar o aqui e agora, vêm sendo atropelados por uma onda de retrocessos a caminho de um fosso sem horizontes. O poder invisível sob a ditadura do capital em detrimento do trabalho, se aliam ao autoritarismo, fundamentalismo, xenofobia, racismo e fascismo.
Mas nossos sonhos continuam vivos. Precisamos de coragem e determinação, para ousar. Ousar lutar, ousar vencer, pois como nos mostrou o Comandante “um outro mundo é ´possível”. “Ideias não precisam de armas, se elas podem convencer as massas”. (Fidel Castro).
¡Hasta la victoria! siempre !

DIA 24 DE NOVEMBRO DE 1966, MORRE O JORNALISTA PEDRO MOTTA LIMA



        
Jornalista, editor e escritor, o mineiro da cidade de Viçosa, nascido em dezembro de 1898, deixou o seu recado no exercício do jornalismo profissional e na militância política pela democracia, e pelo respeito à liberdade de expressão. Comunista assumido, fundou e dirigiu jornais que deram voz ao Partido Comunista Brasileiro, aos movimentos políticos e sociais que enfrentaram a ditadura, o imperialismo e o fascismo.
Na década de 1920, em pleno domínio da oligarquia cafeeira, apoiou o movimento Tenentista,  através do jornal O Imparcial. Sua militância jornalística levou-o a fundar outros jornais como “A Esquerda” e  “A Batalha”, nesse último tentou aproximar o tenentismo, movimento apoiado pelas classes médias, do movimento operário dentro da atuação da ANL (Aliança Nacional Libertadora). Defendia insistentemente o retorno do tenente Luís Carlos Prestes,  exilado em Buenos Aires.
No ano de 1935, fundou e dirigiu o jornal “A Manhã”, que se tornou um órgão semi- oficial da ANL, contra ponto da grande imprensa, que hostilizava o movimento. Entusiasmado com o Levante Comunista de 1935, chamado pejorativamente de Intentona Comunista, chegou a publicar a “Edição da Vitória”, quando eclodiu a Insurreição.  O jornal contou com a participação de nomes ilustres como Jorge Amado, Di Cavalcanti, Rubem Braga, Anísio Teixeira, Álvaro Moreira, entre muitos outros militantes das lutas sociais e democráticas com ideologia de esquerda.
A Manhã” era um matutino que circulava no Rio de Janeiro, priorizando notícias sobre as manifestações operárias e anti-fascistas ocorridas pelo mundo. Trazia relatórios dos acontecimentos na área sindical, destacando greves, assembléias, campanhas salariais. Divulgava atividades da Frente Única Parlamentar Anti-integralista, da União dos Negros no Brasil, União Feminista do Brasil, Centro de Defesa da Cultura Popular. Em 5 de julho de 1935 publicou um importante manifesto de Luís Carlos Prestes, conclamando o povo à insurreição contra o governo de Vargas. No dia 11 de julho, a ANL foi fechada. O jornal continuou circulando e culpava aos “agentes internacionais” (família Guinle, Diários de Assis Chateaubriand, Roberto Simonsen e o British Intelligence Service) pela responsabilidade no fechamento da ANL.
Em setembro,  o jornal “A Manhã” lançou um suplemento dominical para valorizar a cultura nacional e combater os estrangeirismos;  promovia concursos de escola de samba, cobria desfiles. Até outubro de 1935, o diário era um dos mais vendidos na capital. A partir desta data, o jornalismo de Pedro Motta intensificou os ataques ao governo de Vargas, chamando-o de fascista. A repressão varguista foi cruel, após Levante Comunista.  Toda a imprensa foi posta sob censura. A sede do jornal foi invadida pela polícia e a edição que conclamaria o povo a aderir ao movimento, foi toda destruída antes de sua circulação. Lamentavelmente,  “A Manhã” teve vida curta.  O jornalista Pedro Motta foi preso e exilou-se na Argentina.
Em 1937 foi julgado à revelia por tribunal de Segurança Nacional. Em 1943, antes da anistia do período da redemocratização, Motta Lima foi indultado por Vargas, retornando ao país.
Seguiu sua carreira jornalística, trabalhou no Correio da Manhã; em O Globo escrevia um suplemento dominical, “O Expedicionário”, destinado a facilitar contatos entre familiares dos expedicionários brasileiros. Com o fim do Estado Novo e o retorno do PCB à legalidade, passou a dirigir o jornal Tribuna Popular, no qual divulgava atuações dos deputados eleitos pelo PCB, mas foi fechado em 47,quando do cancelamento do registro do partido. Em 1948 passou a fazer parte do jornal Imprensa
O jornalista faleceu em desastre aéreo no dia 23 de novembro de 1966 na antiga Thecoslováquia.
Deixou alguns romances escritos como Coronel Lousada (1925), Bruhaha (1932), premiado  pela ABL (Academia brasileira de Letras) e Idade da Pedra (1950).

DIA 23 DE NOVEMBRO DE 1990, MORRE O ESCRITOR CAIO PRADO JUNIOR

 
 
Escritor, editor, historiador marxista, um dos mais importantes intelectuais brasileiros. Suas  obras são essenciais para a compreensão da formação histórica do país e indispensáveis para os que pretendem contribuir para a construção de um país democrático.  Filho de uma abastada família paulista, teve acesso à uma formação intelectual de alto nível. Bacharel em Direito, chegou a exercer a advocacia, mas na década de 20 e 30 iniciou sua militância política. Participou ativamente da Revolução de 1930; e por volta de 1933,  já filiado ao Partido Comunista Brasileiro, viajou à URSS, de onde retornou encantado com o socialismo, e disposto a aplicar o instrumental teórico marxista à realidade brasileira (Evolução Política do Brasil).
Caio Prado manteve-se sempre um militante comunista, mesmo com a repressão que o governo varguista desencadeou sobre os comunistas após o Levante Comunista de 1935, no qual ele atuou como vice-presidente da ANL (Aliança Nacional Libertadora). Ficou preso de 1935 a 37, quando passou a escrever textos esboçando ideias que viriam a ser um dos seus principais livros, A Formação do Brasil Contemporâneo (1942), que lhe deu grande prestígio intelectual. Viveu na Europa de 1937 a 39 como auto-exílio.
 No final da década de 40, afastou-se um pouco do partido e dedicou-se à sua editora, A Editora Brasiliense, e a Gráfica Urupês, publicando textos e análises na revista Civilização Brasileira, cuja pauta destacava a luta da classe trabalhadora, a Questão Agrária, entre outras.  Seu pensamento é bastante instigante e reflexivo. Estudou o Brasil de dentro, sem importar esquemas prontos. Buscou nas origens o sentido da formação do Brasil e o sentido da colonização, apontando para o fato da colônia servir ao mercado europeu, e ser um capítulo do comércio europeu, sem  interesse no mercado interno. Nos seus escritos não usava uma terminologia estritamente marxista, como exemplo, o modo de produção, chave de tudo para os marxistas ortodoxos. Partiu de uma análise estrutural comercial, daí passar a ser chamado de circulacionista.
No clima de pós IIª Guerra Mundial, libertação de Prestes, dedicou-se ativamente à reorganização do partido.  E foi eleito deputado constituinte em 1947, mas perdeu o mandato quando o registro do PCB foi cassado no período chamado redemocratização.  A experiência política levou-o a formar uma concepção negativa da classe política brasileira. Fez críticas a ela, considerando-a de baixo nível político, com discursos empolados, mas voltados para a manutenção dos seus privilégios. Para ele,  havia uma relação proporcional entre a miséria moral e cultural da população brasileira e o baixo nível político da classe burguesa nacional, de mentalidade colonizada. Suas teorias polêmicas levaram-no   a um certo isolamento. Tentou por duas vezes ser professor da USP e não conseguiu.
Com o golpe militar de 1964, Caio Prado, teve  novamente suas ideias cerceadas. Foi detido e submetido a interrogatórios frequentes, até que em 1968 foi indiciado por um tribunal militar por incitar a subversão da ordem. Em 1970, foi  julgado e condenado a quatro anos de prisão e detido no Presídio Tiradentes. Em 1971, amargou o suicídio de seu filho. Em 1984 apoiou a campanha das Diretas Já. Desde 1987, encontrava-se debilitado pelo Mal de Alzheimer, vindo a falecer no dia 23 de novembro de 1990, aos 83 anos.  
No sentido geral de sua obra, que foi por algum tempo esquecida, e vem sendo reavaliada, Prado deixou claro que “somos  um país periférico, capaz de acompanhar os ritmos da civilização capitalista em muitas áreas, mas ainda incapaz de mudar a forma subalterna de nossa inserção no mundo globalizado”.
A obra de Caio Prado permanece atual. E após o golpe em  2016, atualíssima no que diz respeito à  subserviência do país ao complexo financeiro empresarial global, cuja ideologia é a supremacia do mercado e do lucro.
 
 


DIA 22 DE NOVEMBRO DE 1910, ECLODE A REVOLTA DA CHIBATA NO RIO DE JANEIRO

 
A história entrara no século XX, o mundo caminhava a largos passos para as benesses tecnológicas da IIª Revolução Industrial, a jovem República brasileira começava a traçar planos para o crescimento do país, a Marinha modernizava sua frota com dois poderosos  e modernos  encouraçados, o  Minas Gerais e o São Paulo, e os  marinheiros negros e mulatos ainda eram castigados com as chibatadas pela elite branca na Marinha do Brasil. De forma poética, a música  de Aldir Blanc e João Bosco busca o resgate de uma das muitas de nossas lutas sociais, ressaltando o seu significado histórico e elucidando os motivos desta revolta que eclodiu no Rio de Janeiro no dia 22 de novembro de 1910, liderada pelo marinheiro João Cândido.
“Rubras cascatas
Jorravam das costas dos negros
Entre cantos e chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão …
Glória todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais”.
A Marinha no Brasil era marcada por profunda desigualdade social. A “marujada” era formada em sua maioria por negros pobres e analfabetos, muitas vezes obrigados a se alistar, e forçados a embarcar, pois era uma das poucas alternativas que restavam àqueles filhos de ex-escravos na recém criada República brasileira. O oficialato era composto por pessoas oriundas da aristocracia,  ligadas às oligarquias regionais.  O cenário do racismo era perfeitamente reproduzido dentro da marinha. 
 O uso da chibata, uma espécie de “pelourinho marítimo” era uma  herança do período escravocrata, e sua permanência simbolizava não só a dor física, mas objetivava marcar a alma dos marinheiros negros, reforçando a sua “inferioridade”.   Além dos castigos físicos,  a alimentação era péssima e os soldos baixíssimos. A humilhação e o clima de revolta atingiram o ápice quando um marinheiro, Marcelino Rodrigues,  levou 250 chibatadas por uma insubordinação.
Os navios de guerra ancorados no porto, sob o controle dos marinheiros revoltados,  ameaçaram bombardear a cidade, caso as exigências não fossem aceitas. O episódio faz lembrar a revolta do encouraçado Potemkin,  na Rússia de 1905.  O governo e as elites não acreditavam que os “rudes” marinheiros conseguissem manobrar os modernos navios. Ao perceberem a perícia e a habilidade dos marujos, foram obrigados a negociar com os revoltosos. João Cândido Felisberto, um dos principais líderes da revolta, por sua habilidade, teve a oportunidade de viajar embarcado por vários países da Europa e travar contatos com outras marinhas. Uma das que mais lhe influenciou, na conscientização de luta por direitos,  foi o contato com os militantes sindicalistas ingleses, e pôde perceber que as condições dos marinheiros no Brasil, era uma das piores do mundo.
 O número de marinheiros amotinados passava de 2.400, mais de quarenta canhões dos quatro navios de guerra, apontados para a capital da República, o que fazia deste movimento uma das maiores revoltas sociais representativas do movimento negro, que a história, escrita pelos dominadores, tentou apagar.
O presidente,  à época, Hermes da Fonseca,  prometeu atender a todas reivindicações, inclusive a anistia. Mas, evidentemente não cumpriu. Grande parte dos marinheiros foi presa, torturada e morta. Muitos foram sufocados com cal nos porões dos navios. Outra parte foi mandada para trabalhos forçados nos seringais da Amazônia. João Cândido sobreviveu, mas foi perseguido a vida toda. Foi considerado um desequilibrado e chegou a ser internado em manicômio, uma das formas de descontruir a revolta. Foi absolvido das acusações de conspiração em 1912, mas foi expulso da marinha. Conseguiu sobreviver como pescador e vendedor.
Somente em 2008, no governo LULA, foi concedida a anistia aos marinheiros e finalmente João Cândido  passou a ter um monumento que deixou de ser “as pedras pisadas do cais”. Uma estátua foi inaugurada na região do porto na Praça XV.

DIA 21 DE NOVEMBRO DE 1965, MORRE ASTROJILDO PEREIRA

 
Intelectual, escritor, editor e jornalista, amante e estudioso da obra machadiana, na busca da compreensão da formação nacional. Inicialmente anarquista, optou pelo comunismo após a Revolução Bolchevique de 1917. Foi um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro, a sua segunda paixão, pois a primeira era a obra de Machado de Assis. Definia-se como “intransigente libertário”. Firme na militância política, lutou bravamente pela estruturação, legitimidade e direção do PCB, tornando-se o seu primeiro historiador. Com o mesmo espírito combativo dedicou-se ao jornalismo, atividade em que atuou a maior parte de sua vida.
Ainda muito jovem iniciou sua militância em organizações operárias anarquistas, liderando a organização do II Congresso Operário Brasileiro. Participou  de uma frustrada insurreição anarquista, o que lhe rendeu quase  um ano de prisão. Em 1922, no Congresso da fundação do Partido Comunista Brasileiro, foi eleito para secretário geral. Em 1924, viajou para a URSS como seu representante. Foi ele o encarregado do partido para levar ao jovem tenente Luís Carlos Prestes a literatura marxista, quando este esteve exilado na Bolívia após o fracasso da Coluna Prestes.  Em Moscou foi eleito para o Comitê Executivo da Internacional Comunista. Retorna ao Brasil em 1930 com a missão de “proletarizar” o PCB, ou seja, substituir intelectuais por operários na direção do partido.  Ele próprio acabou perdendo a secretaria do partido, do qual se desligou mais tarde.
Como pensador e convicto nacionalista, foi o pioneiro na aplicação das teorias marxistas para a realidade brasileira. Seu foco era sobretudo a questão nacional popular e na literatura foi fundamentando a teoria da revolução brasileira, casando o internacionalismo com a realidade nacional.  Após o desligamento do partido, sendo um crítico literário bastante reconhecido, fez do jornalismo sua expressão da ideologia de esquerda.  Chegou a doar recursos para a fundação do jornal A Classe Operária, órgão oficial do Partido.
Entre os textos marxistas deixados pelo militante, percebe-se a tentativa de encontrar na formação histórica e política brasileira os fundamentos de um marxismo nacional. Segundo Astrojildo, o marxismo concebido numa visão ética da política e da sociedade, se conciliaria à realidade brasileira pela sua própria sensibilidade aos temas da opressão da injustiça presentes na formação da sociedade brasileira, e  consequentemente superaria estas questões. Assim o marxismo brasileiro seria o herdeiro do movimento abolicionista. Para ele os clubes abolicionistas chamados de “associações comunistas”, abriam um cenário de possibilidades de dissolução da ordem estabelecida. Se a abolição como afirmava André Rebouças havia resolvido metade do problema, caberia ao socialismo no país lutar pela libertação do povo brasileiro ainda escravo.
O velho comunista e revolucionário de sempre, ao que parece não suportou o golpe militar de 1964. Foi obrigado a abandonar sua casa no bairro do Rio Comprido para sobreviver na clandestinidade.  Após dois meses, foi indiciado e compareceu a um comando militar, onde foi preso e submetido a longos interrogatórios. Durante três meses de prisão, houve campanhas intensas pela sua libertação, e  através de habeas corpus foi posto em liberdade em janeiro de 1965.
Com a saúde já debilitada, seu coração deixou de bater. E finamente no dia 21 de novembro de 1965, veio a falecer.
Em 1962 em São Paulo foi fundado o Instituto Astrojildo Pereira (IAP), para ser um espaço de convergência dos diferentes setores da política e da intelectualidade sob a orientação socialista.  No ano 2000, o Partido Popular Socialista criou a Fundação Astrojildo Pereira (FAP), para preservar a memória do revolucionário, bem como  de tantos outros comunistas históricos brasileiros.

DIA 20 DE NOVEMBRO DE 2004, MORRE O ECONOMISTA CELSO FURTADO

 
Celso Monteiro Furtado, nascido em Pombal, na Paraíba, em 1936, foi  arquiteto do pensamento social e econômico da contemporaneidade, deixou sua marca indelével na história econômica do Brasil, (Formação Econômica do Brasil, 1959).  Produziu uma obra indispensável para o estudo das ciências econômicas e sociais   na América Latina. O intelectual não se limitou à teoria, deixou a práxis em vários cargos que ocupou na administração pública.  Seus estudos acadêmicos resultaram na criação da SUDENE, da qual foi o primeiro superintendente (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) e partícipe do Plano de Metas (50 anos em 5), e diretor do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento), no governo democrático do presidente Juscelino Kubitschek. Foi Ministro do Planejamento no governo João Goulart e Ministro da Cultura no governo José Sarney, depois da anistia.
Bacharel em Direito pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) em 1944. Foi diretor da Divisão de Desenvolvimento da CEPAL (Comissão Econômica para Desenvolvimento da América Latina, 1949/1957), órgão da ONU para o progresso econômico dos países da América Latina. No exercício do cargo, cumpriu missões em países como Chile, Argentina, Venezuela, Equador e México. Doutorou-se em Economia pela Sorbonne (1944), com a tese “A economia colonial no Brasil nos séculos XVII e XVII”.
Uma contribuição específica de Furtado, que ficou conhecida como teoria estruturalista, foi a análise das relações colônias / metrópoles, países desenvolvidos/ subdesenvolvidos, centro/periferia. Nela chamou atenção entre outros problemas,  para a influência cultural, como por exemplo, os padrões de consumo das classes dominantes latino americanas,  que se constituem  em um fator de perpetuação do subdesenvolvimento.
Celso Furtado (Formação Econômica do Brasil, 1959), peça chave para a análise da realidade sócio econômica brasileira, como Caio Prado Jr. ( Formação do BrasilContemporâneo, 1942), e Antônio Cândido ( Formação da Literatura Brasileira), analisam como se formaram o Estado, a economia a sociedade e a literatura no Brasil. Furtado chama a atenção para o peso da economia colonial  voltada para o mercado externo, como abastecedora da metrópole com a mão de obra escrava. Propõe em suma que a economia privilegie o mercado interno, não mais o externo, que se forme verdadeiramente a nação brasileira. Apontou medidas que o Brasil deveria tomar para que se tornasse uma economia industrial mundial. Para Guido Mantega, ex-ministro da fazenda dos governos petistas, Furtado conseguiu como nenhum outro “definir um método analítico e amarrar com tanta pertinência os determinantes da economia brasileira”.
Com o golpe militar de 1964, o economista intelectual tornou-se vítima da fúria obscurantista que assolou o país, e teve seus direitos políticos cassados.  Exilou-se no Chile, mais tarde nos EUA, e França, onde viveu por 20 anos e viajou pelo mundo como professor das Nações Unidas. Em 1985 foi nomeado embaixador do Brasil junto à Comunidade Econômica Europeia, mudando-se para Bruxelas.
Em 1997 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Em 2003 foi indicado para o prêmio Nobel de Economia.
Nos anos 80 confessou-se estarrecido com a degradação econômica do país na era neoliberal capitaneada por Fernando Henrique Cardoso.  Em 2003 apoiou o governo de LULA, mas recusou convite para reorganizar a SUDENE.  Projetou no Estado sua paixão por uma sociedade mais justa, “acalentou a esperança marxista de arrancar da sociedade os parâmetros de uma razão capaz de se encarnar no Estado”.
Faleceu no Rio de Janeiro em 20 de novembro de 2004.

DIA 19 DE NOVEMBRO DE 1936, NASCE O ATOR FRANCISCO MILANI

 
 
O ator Francisco Ferreira Milani, mais conhecido como  humorista, foi também dublador, roteirista, político de esquerda e caminhoneiro. Nasceu em São Paulo no dia 19 de novembro de 1936. Começou muito cedo na carreira artística, trabalhando na rádio no interior paulista desde os 13 anos de idade. Passou também pela extinta TV Tupi e TV Cultura.  Pelas mãos do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, foi trabalhar no CPC (Centro Popular de Cultura), depois na UNE (União Nacional dos Estudantes). Após o golpe de 1964, passou a ser perseguido;  então abandonou a carreira artística, saindo de São Paulo.  Neste período trabalhou na profissão de  caminhoneiro até 1973, quando retornou ao Rio de Janeiro e à carreira artística.
Em 1992,  foi eleito para vereador do Rio de Janeiro pelo PCB.  Foi de sua autoria a lei que criou o Riofilme. Por ocasião do IX Congresso Nacional do PCB, devido às  divergências ideológicas que levaram a “rachas” em nível nacional, optou pela desfiliação, bem como vários outros militantes. Em 1995 filiou-se ao PC do B, no qual foi candidato a vice-prefeito na chapa da petista Benedita da Silva, nas eleições de 2000, mas foram derrotados. Foi sempre elogiado pelos companheiros de partido, como Jandira Feghali, que se refere a ele como “uma pessoa muito coerente e generosa. Nunca vi na vida ele mudar suas opiniões por nenhum espaço pessoal”. Segundo o próprio “não vale a pena levar a vida pensando em bens materiais ou em si próprio. Quanto mais você divide, mais feliz você é… e também não vou levar o dia a dia a sério demais, é preciso por humor em todas as situações”.
Na carreira artística, a veia humorística sempre foi o traço mais forte, criando sempre empatia com o público. Um dos personagens marcantes foi o Saraiva no programa Zorra Total. Dirigiu o programa Viva o Gordo, estrelado por Jô Soares, que  foi ao ar de 1981 a 1987. Trabalhou como narrador de programas como, Casseta e Planeta, Urgente! Todos na rede Globo.  Interpretou vários papéis no cinema nacional, como no filme Terra em Transe de Glauber Rocha, Eles não usam Black-tie deLeon Hirszman, O Coronel e o Lobisomen, dirigido por Maurício Farias. No teatro atuou em textos importantes como Barrela do dramaturgo  Plínio Marcos, A Morte de um Caixeiro Viajante, de Artur Miller. Atuou também em novelas antigas  como Irmãos CoragemSelva de Pedra, Barriga de Aluguel,  Elas por elas.
Foi casado duas vezes, sendo uma delas com a atriz Joana Fromm. Pai de três filhos. Depois de 50 anos de carreira, o ator cuja saúde estava debilitada em consequência de um câncer, veio a falecer no Rio de Janeiro aos 67 anos. 

DIA 18 DE NOVEMBRO DE 2011, CRIAÇÃO DA COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE

 
 
          “Conhecer a história é condição imprescindível para conhecê-la melhor. A verdade não significa revanchismo. A verdade liberta todos daquilo que ficou por dizer”. Dilma Rousseff.
Finalmente,  após três décadas do fim da ditadura militar, o Brasil tenta reescrever sua triste e amarga história, que foi ocultada dos registros oficiais, dos livros e da memória social. Esta Comissão chegou bastante atrasada em nosso país, quando países como África do Sul, Argentina, Chile e Peru, já esclareceram tais questões e até efetuaram prisões após os trabalhos. Para apurar “as graves violações de direitos humanos, ocorridos entre 18 de setembro de 1946 a 5 de outubro de 1988”, foi instituída em maio de 2011 a lei 12528 e sancionada em 18 de novembro de 2011 pela presidenta Dilma Rousseff. “A fim de efetivar o direito à memória à verdade histórica e promover a reconciliação nacional, promover o esclarecimento dos casos de torturas, mortes, desparecimentos forçados, ocultação de cadáveres… identificar e tornar públicos os locais as estruturas … relacionadas à violação dos direitos humanos… encomendar adoção de medidas e políticas públicas para prevenir a violação dos direitos humanos… colaborar para que seja prestada assistência às vítimas”…  
 Embora seja algo novo no nosso campo jurídico, ela foi o resultado de uma longa e incansável luta de familiares vitimados pela ditadura  e de grupos de defesa dos direitos humanos.   Grande mérito da Comissão foi colocar em pauta para a sociedade a questão da ditadura e da violação dos direitos humanos, buscando descobrir a verdade dos fatos de forma imparcial,  por representantes da sociedade e não representantes do governo. A Comissão contou, inicialmente, com sete membros entre professores e juristas renomados, que tiveram o acesso aos arquivos mantidos sob sigilo e depoimentos de agentes diretamente envolvidos em ações de violação dos direitos humanos e contrárias à democracia brasileira. Teve a missão de investigar crimes de morte e circunstâncias desconhecidas para prevenir atos futuros, mas não teve caráter punitivo. Inclusive, o STF decidiu por 7 votos  a 2, que não seria alterada a lei da Anistia (1979), que impede a responsabilização penal por crimes por crimes políticos ocorridos durante a ditadura militar (1964/1985).
Além de passar a limpo este nefasto período da ditadura militar, a CNV formulou 29 recomendações para que o Estado possa reparar simbólica, financeira e psicologicamente às vítimas. Alguns exemplos das recomendações são: o prosseguimento da abertura dos arquivos da ditadura, estabelecimento de órgão permanente para dar seguimento às ações recomendadas, localização, identificação dos restos mortais para sepultamento digno, desmilitarização das polícias militares estaduais, revogação da lei de segurança nacional, garantia de atendimento médico e psicossocial ás vítimas, dignificação do sistema prisional, criação de mecanismos de combate à tortura, reconhecimento pelas forças armadas de sua responsabilidade institucional pelas graves violações dos direitos humanos durante a ditadura militar, forçados, entre outras.
Apesar das críticas de setores da direita e da esquerda, após dois anos e sete meses de trabalhos, em 10 de dezembro de 2014Dia Internacional dos Direitos Humanos, a CNV entregou à presidenta Dilma Rousseff, com 4328 páginas, o relatório final dos trabalhos,   que concluiu que a prática de detenções ilegais e arbitrárias, tortura, violência sexual, execuções, desparecimentos forçados, e ocultação de cadáveres, resultou de uma política estatal, contra a população civil , caracterizando-se como crimes contra a humanidade. Colheram 1121 depoimentos, sendo 132 dos agentes públicos, realizaram  80 audiências públicas, percorreram  o país de norte a sul.  Foram identificados 434 casos de mortes e desaparecimentos Enumeraram  a participação de 377agentes públicos acusados de crimes contra os direitos humanos, 6591 militares foram perseguidos pelos órgãos de repressão da ditadura.
“O Brasil merece a verdade, as novas gerações merecem a verdade e,  sobretudo,  merecem a verdade factual aqueles que perderam amigos, e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia”. Dilma Rousseff na abertura dos trabalhos da Comissão.

DIA 17 DE NOVEMBRO DE 2000, É ASSASSINADO SEBASTIÃO MAIA, LÍDER DO MST

 
No Paraná os conflitos com mortes no campo passavam de mil, apenas no curto  período do final da década de 90 a 2000. No governo federal vigorava a tutela do neoliberalismo, na presidência de Fernando Henrique Cardoso, e no estado, a permissividade de Jaime Lerner.  O Paraná vivia a marca da violência, a impunidade das milícias ruralistas, as arbitrariedades dos despejos violentos e ilegais, feito durante a madrugada, separando pais de filhos, torturas e assassinatos dos trabalhadores rurais sem -terras. Predominava a ordem do latifúndio no rastro do colonialismo destruidor. Investigações da polícia apontaram para ligações das milícias com o contrabando internacional de armas.  A Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA), condenou o Brasil duas vezes por violação de direitos das vítimas e seus familiares, entre eles os direitos judiciais e proteção judicial. O relatório foi emitido em 2009 e incluído na reunião anual da OEA em Honduras (2011).
Seis anos após o assassinato do líder sem terras, Sebastião Maia, ocorrido no dia 17 de novembro de 2000, pela  primeira vez na história do Paraná, ocorreu o julgamento de  um pistoleiro acusado de matar um agricultor sem terras. Era a terceira tentativa de realização do julgamento, apesar do empenho da Comissão Pastoral da terra (CPT) e doMST. Esperava-se um julgamento histórico, que fizesse justiça, desse fim às impunidades dos crimes contra os sem terras.  No entanto, o júri presidido pela juíza Elizabeth Khater, foi contrário às provas, saturado de vícios, com a aceitação de testemunha que não estava arrolada no processo, e revoltantemente, o acusado José Luís Carneiro foi absolvido por unanimidade.
O assassinato de Tiãozinho Maia como era conhecido, ocorreu próximo à fazenda Água Prata em Querência do Norte, no noroeste do Paraná, em uma emboscada na qual o trabalhador foi morto com vários tiros na cabeça e seu colega que escapou com vida, prestou depoimentos declarando ter visto o assassino. A família de Tiãozinho Maia havia sido despejada da Fazenda Rio Novo, no município de Querência do Norte, dezoito meses antes de sua morte, e  D. Adelina Ventura, sua mulher, havia sido torturada pela polícia. O horror que ela viveu nas mãos da polícia, foi tema de uma reportagem premiada, publicada pela revista Caros Amigos (nº 27, 06/1999). A morte do líder do MST era um crime anunciado.
 Neste período ocorria paralelamente ao aumento da repressão no campo, uma forte atuação do MST, pela Reforma Agrária, diante da omissão do Estado frente a má  distribuição de terras. A gravidade da situação levou entidades como a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), tentarem várias negociações com os representantes do governo, mas foram frustradas. A certeza da impunidade só faz aumentar a violência no campo, pois o poder judiciário se mostra aliado ao latifúndio a ao agronegócio. Prova isto, a lentidão para julgar os crimes contra os trabalhadores sem terras, e a rapidez em atender às demandas dos proprietários para expedir liminares, reintegração de posse e outras demandas dos proprietários. Contra os trabalhadores rurais não só poder judiciário, mas sobretudo o executivo na figura do governante ilegítimo e golpista, que reduziu o orçamento da Reforma Agrária de 460 milhões em 2015 para 122milhoes em 2016,  além da suspensão de programas de financiamento, alterações na legislação, e muito mais, segundo dados do Portal Transparência. Medidas enviadas para votação na Câmara, visam destruir os mecanismos construídos há décadas no Brasil, para a Reforma Agrária, marcando as relações promíscuas deste governo com o agronegócio.  A cada dia o preço do golpe fica mais caro para os brasileiros.
 
 


DIA 16 DE NOVEMBRO DE 1922, NASCE JOSÉ SARAMAGO

 
 
Na pequena aldeia de Azinhaga, província de Ribatejo, região central de Portugal, nascia de uma família de agricultores e pais analfabetos, em 16 de novembro de 1922, um dos maiores expoentes da literatura contemporânea e, possivelmente,  o maior nome da literatura portuguesa, José de Souza Saramago.  Aos dois anos de idade a família mudava-se para Lisboa, mas dificuldades continuavam. Aos 12 anos, José foi obrigado a abandonar os estudos secundários pela falta de recursos dos pais. Mais tarde após   cursar a escola técnica começou a trabalhar como serralheiro mecânico.
Fascinado pelos livros, frequentava a Biblioteca Municipal no horário noturno. Aos 25 anos , publicava seu primeiro romance, Terra do Pecado (1947). No espaço de cinco anos, depois de publicar dois livros de poesia, muda sua produção literária para a jornalística, passando a diretor adjunto do Diário de Notícias e depois Diário de Lisboa, como comentarista político, mas teve sua liberdade de expressão cerceada ao perder o cargo pela interferência dos militares, pois representava um dos excessos da Revolução dos Cravos (1974).  Foi tradutor, contista, poeta, dramaturgo, editor. A partir de 1976 resolveu a dedicar-se à literatura, no gênero do romance.
Em 1977,  publicou “Manual de Pintura e Caligrafia”, depois vieram os contos de “Objeto Quase” (1978), a peça “A Noite”, em 1979. Mas o reconhecimento mundial só veio depois de “Memorial do Convento” em 1982, que junto com “A Morte de Ricardo Reis”, foram premiados. Uma de suas obras mais polêmicas foi “Evangelho segundo Jesus”(1991), onde ao humanizar  a figura de Jesus, provocou a ira da Igreja Católica, sendo proibido em Portugal e boicotada sua  indicação ao Prêmio Literário  Europeu. A relação com a Igreja ficou mais ácida ao declarar que “A Bíblia é um manual de maus costumes”, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”. Essa polêmica levou o escritor ao auto-exílio, retirando-se do país.
Passou a residir com a companheira Pilar del Rio na ilha de Lanzarote,  no arquipélago espanhol das Canárias, onde permaneceu até sua morte em 18 de junho de 2010. Para José Manuel Pureza, um dos líderes da esquerda portuguesa, Saramago foi sempre “um escritor insubmisso no estilo e nas causas, um homem das letras, que através dessa ferramenta, serviu combates pela justiça e pela decência”. Em “Ensaio sobre a Cegueira”, mostra a que ponto de selvageria as pessoas podem chegar na luta pela sobrevivência, os conflitos éticos, a perda do limite entre o certo e o errado. A   obra, uma metáfora da cegueira social, foi levada ao cinema em uma produção hollywoodiana, dirigida pelo diretor  brasileiro Fernando  Meirelles.  
Como para ele “ser comunista é um estado de espírito”, continuou levantando sua voz contra o sistema capitalista, as injustiças sociais, a concentração das riquezas pelos conglomerados econômicos, a religião conservadora e omissa. Cético, ateu e muitas vezes pessimista, como declarou em 2008 em Madri: “Estamos afundando na merda do mundo e não se pode ser otimista. O otimista, ou é estúpido, ou insensível ou milionário”. Filiou-se ao Partido Comunista Português  logo após a queda da ditadura salazarista. Sempre autêntico em suas falas, não se furtou em apontar as mazelas do Partido Comunista Português, que ele via a caminho da direita.  Sua visão sobre democracia aparece na obra “Ensaio sobre a Lucidez”. “Sou comunista, e por isso sou tratado como inimigo da democracia. Pelo contrário, eu quero é salvar a democracia, e para isso é preciso criticar esse simulacro de democracia em que vivemos”.
À parte as desavenças políticas e religiosas, sua obra lhe rendeu vários prêmios. Em 1995 recebeu o Prêmio Camões, o maior da literatura portuguesa. A consagração maior veio com o Nobel de Literatura em 1998, aos 76 anos. Sobre a premiação,  o júri assim se manifestou: “com parábolas portadoras de imaginação, compaixão, e ironia, torna constantemente compreensível uma realidade fugidia”.  Foi o primeiro e único escritor premiado da literatura lusófona, ou seja, onde a língua portuguesa é falada. No Brasil foi sempre bem acolhido entre os escritores e políticos, como exemplo. Chegou a participar de um tribunal internacional simbólico, em Brasília,  para julgar o massacre de trabalhadores sem terras em Eldorado dos Carajás; e pelo mesmo motivo,  recusou um título honoris causa da Universidade do Pará. 

DIA 15 DE NOVEMBRO DE 2008,  CONCEDIDA ANISTIA POLÍTICA AO EX-PRESIDENTE JOÃO GOULART

 
 
 Quase meio século após ser derrubado da Presidência da República pelo regime militar, o ex-presidente João Goulart recebeu anistia política. Fato histórico inédito, pois foi a primeira vez que o Estado reconhece a perseguição política a um ex-presidente, cidadão brasileiro.  Justo no dia em que se comemora a proclamação da República brasileira, o Estado promulga uma ação republicana, fazendo o contraponto ao ato anti-republicano ocorrido em nosso país em 31 de março de 1964.
A Comissão de Anistia do Senado, reunida no dia 15 de novembro de 2008, na XX Conferência Nacional dos Advogados do Brasil, na cidade de Natal (RN), concedeu,  por unanimidade, anistia política ao ex-presidente João Goulart e sua esposa Maria Tereza Goulart. Para o presidente da Comissão de Anistia Paulo Abrão, anistiar João Goulart representa  “um pedido de desculpas ao presidente pelo ato de perseguição número um que foi a sua deposição”. A família foi representada pelo advogado e neto de Jango, Cristofer Goulart, que, emocionado pelo reconhecimento, declarou: “creio que é uma consolidação das instituições democráticas no Brasil e uma resposta àquele regime de exceção que perdurou em nosso país”.
O ex-presidente teve os direitos políticos cassados por 10 anos e partiu para o exílio fora do Brasil (Uruguai e Argentina), onde permaneceu até sua morte em 1976, sem ter o direito de voltar à sua terra natal. Além do reconhecimento da perseguição política, a Comissão de Anistia decidiu por uma indenização equivalente ao salário de um advogado sênior (Jango era bacharel em Direito), o que soma a 644 mil reais a serem pagos em parcelas durante 10 anos, e mais 100 mil pelos 15 anos que Maria Tereza viveu no Uruguai e Argentina. O Ministro da Justiça à época, Tarso Genro (PT), lembrou “que o presidente João Goulart foi derrubado por suas virtudes e não por seus eventuais defeitos, e esta anistia é na verdade um encontro do Brasil consigo mesmo. Um ato de justiça que o Estado faz e o reconhecimento de um grande brasileiro, que ele foi”.
A concessão da anistia, uma decisão justa e necessária, de certa forma,  permitiu a volta de João Goulart à história do país, mas lamentavelmente, ainda permanece um profundo silêncio na memória brasileira, sobre quem foi João Goulart. Sua morte não foi matéria de jornalística, apenas algumas notas da imprensa. Só depois de morto,  foi permitida a entrada no país, e sob controle dos militares.
Jango,  como era conhecido, teve uma carreira política de rápida ascensão. Em 1950, foi presidente do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e no ano seguinte, foi eleito  deputado federal. Já em 1955, eleito vice-presidente na chapa de Juscelino Kubistchek, e novamente vice presidente eleito ao lado de Jânio Quadros (1961), cuja renúncia,  após seis meses de governo, levou o país a um impasse político, impedindo ao vice de assumir a presidência. Naquela ocasião,  o golpe político foi disfarçado de emenda constitucional, ao criar o parlamentarismo para limitar os poderes presidenciais de Jango. “O governo João Goulart nasceu, conviveu e morreu sob o signo do golpe de Estado…que rondou e perseguiu permanentemente o regime liberal democrático inaugurado em 1946”…
As forças políticas conservadoras e reacionárias que tomaram o poder em 1964, impediram ao presidente João Goulart de realizar o projeto político que daria continuidade à legislação trabalhista de Vargas, à modernização das estruturas sócio econômicas  à aplicação das Reformas de Base que tirariam o país do atraso, reduziriam as desigualdades sociais, visando  a soberania do país.  O que importava e ainda importa às nossas elites, é manter o Brasil dentro dos quadros do capitalismo internacional numa relação de dependência e subserviência econômica, bem como o afastamento das camadas populares do  acesso à cidadania.
 Quanto ao golpe de 2016, sem maiores disfarces, optaram por “rasgar” a constituição. Os donos do poder, um complexo consórcio midiático, financeiro-empresarial nacional e internacional com a garantia do judiciário brasileiro, mais uma vez  impediu o projeto político de soberania nacional e inclusão social, que havia sido interrompido no período de Goulart e  retomado nos governos petistas nos últimos 13 anos anteriores ao golpe.
 
 


DIA 14 DE NOVEMBRO DE 1904, CHEGA AO ÁPICE A REVOLTA DA VACINA

 
 
A Revolta da Vacina foi uma das principais revoltas urbanas populares de contestação à República Oligárquica, ou seja, a República sob o mando das oligarquias agrário-estaduais, especialmente as do café.  Explodiu no Rio de Janeiro no período de 10 a 16 de novembro, protagonizada pelas camadas mais pobres e oprimidas da população contra as medidas excludentes,  segregadoras e autoritárias  do regime dos coronéis.
O presidente da República era Rodrigues Alves, cujo projeto político visava a modernização da capital federal, à moda urbanizadora  do barão Haussmann, prefeito de Paris. Pereira Passos, foi nomeado para a prefeitura do Rio de Janeiro, e deu início à derrubada dos casarões antigos no centro da cidade para construir palacetes, jardins e largas avenidas, como exemplo, a Avenida Central, hoje,  Rio Branco, bem como “limpar” a região central da população pobre, que sempre representa uma ameaça à disciplina urbana capitalista. Para esta “higienização social” contaram com o médico sanitarista Oswaldo Cruz que recebeu todos os poderes para acabar com as epidemias de peste bubônica, febre amarela, varíola, etc.
No ano de 1904 parecia que a cidade estava vindo abaixo. Barracos e cortiços eram demolidos da noite para o dia sem que seus moradores fossem consultados. Milhares de famílias foram expulsas para a periferia pois “dificultavam o avanço da civilização e do progresso”. A insatisfação crescia com o aumento da  marginalização dos pobres, a ausência de cidadania, carestia, desemprego e a utilização da medicina como forma de controle social.  A aprovação da lei da vacinação obrigatória em outubro de 1904,   foi apenas mais detalhe para a eclosão da revolta popular.
Embora as intenções sanitaristas fossem boas, os métodos não foram adequados, pois não foram precedidos de campanhas esclarecedoras à população. As brigadas sanitárias interditavam prédios, removiam doentes à força, desinfetavam as casas sem autorização e outros abusos.  A reação popular não tardou. No dia 10 de novembro,  começaram as manifestações. Espancamentos de policiais, incêndios de bondes, saques, construção de barricadas, tiroteios, até que no dia 14 de novembro de 1904, os militares da Escola Militar de Cadetes da Praia Vermelha aderiram ao movimento contra o autoritarismo do governo, enfrentando as tropas oficiais na Rua da Passagem, no bairro de Botafogo, marchando em direção ao Palácio do Catete, marcando o auge da sublevação.  O Rio de Janeiro parecia uma praça de guerra. Os distúrbios se seguram até o dia 16 de novembro.
A repressão, como sempre, foi violenta. Tropas do exército entraram em prontidão contra a revolta popular. Aproximadamente 1000 pessoas foram presas, mais de 30 mortas, 461 foram deportadas para o Acre, que havia sido incorporado recentemente ao país. Operários anarquistas foram expulsos. E a vacinação foi retomada com todo rigor.
Ficou claro que essa revolta popular se inseriu no contexto mais amplos das contestações sociais que marcaram os primeiros anos da República. Seus principais líderes eram homens do povo, inclusive alguns capoeiristas, que sem um projeto político definido, revelaram  a capacidade de resistência e de luta pela cidadania.
“Era para não andarem dizendo que o povo é carneiro. De vez em quando, é bom essa negrada mostrar que sabe morrer como homem”. ( Depoimento de um dos participantes da revolta).
 

DIA 13 DE NOVEMBRO DE 1981, MORRE MESTRE PASTINHA

 
Vicente Ferreira Pastinha, mestre da capoeira e filósofo popular. Foi o maior propagador da Capoeira de Angola, dando a ela a merecida visibilidade e seu respectivo valor.  Fundador do Centro Esportivo de Capoeira de Angola (CECA) em Salvador e organizador dos princípios e fundamentos da capoeira, que é  um dos maiores símbolos do patrimônio imaterial da cultura brasileira. Pregador da não violência, transformou a capoeira em arte. Entre seus  desejos, estava o de ser pintor, mas acabou se tornando um grande professor.
Ie
Bahia minha bahia
Capital do Salvador
Quem não conhece a capoeira
Não lhe dá o seu valor
Todos podem aprender
General também que é doutor
Quem desejar aprender
Venha a Salvador
Procure o Pastinha
Ele é Professor!
Mestre Pastinha nasceu em Salvador, em 5 de abril de 1889, filho do espanhol José Señor e a  baiana Eugênia Maria Carvalho.  Começou aprender capoeira aos 10 anos com o velho africano, Benedito. Em 1902 entrou para a escola de aprendizes de marinheiros, onde ficou por oito anos, tendo oportunidade de estudar música, violão e artes plásticas, ao mesmo tempo que ensinava  capoeira aos companheiros.  Ao sair da corporação, passou a dar aulas de capoeira clandestinamente devido a proibição pelo Código Penal Brasileiro. Mas a repressão ao “jogo” da capoeira foi-se tornando mais violenta e Mestre Pastinha foi obrigado a trabalhar como pedreiro, pintor, entregador de jornais, segurança da casa de jogos na luta pela sobrevivência.
Mais tarde, em 1941, foi convidado por um ex-aluno para assistir a uma roda de capoeira. E nessa oportunidade recebeu  a missão de “mestrar” esta roda  de capoeira. Estava nascendo assim o CECA (Centro Esportivo Capoeira de Angola), a semente do que seria a primeira escola de Capoeira de Angola.  Mestre Pastinha deu-lhe as cores de seu querido time, o Ypiranga, o preto e amarelo, cuja torcida agregava as classes mais populares de Salvador. E posteriormente, quando o mestre já estava com seus 66 anos o CECA foi reconhecido como centro de estudos da capoeira genuinamente angolana, e mudou-se para um nobre endereço, o Largo do Pelourinho, 19, onde funcionou por  16  anos.
Na sua escola reuniam-se mestres consagrados da capoeira, e recebia visitas ilustres como o escritor Jorge Amado, o artista plástico Mario Cravo, o filósofo  Jean Paul Sartre, entre outros.  Na música Transa, Caetano Veloso homenageia o velho  Mestre. Pastinha teve um raro reconhecimento do Estado brasileiro, quando realizou seu sonho de conhecer a África, e foi representante do Brasil no 1º Festival Mundial das ArteNegras no Senegal. Mas, não só o seu sonho estava envelhecido, ele já estava quase cego e não chegou a “ jogar”.
Em 1971,  a sua escola foi vítima da higienização social no Pelourinho para dar lugar à especulação do turismo na região. Foi obrigado pela Prefeitura a desocupar o casarão, com a promessa de retorno após a restauração, o que não aconteceu.  A partir daí,  Pastinha entrou em depressão e sua saúde foi-se degradando, sofreu três enfartos, perdeu a visão. Ficou um ano internado em hospital público. Passou os últimos anos morando em uma casa escura,  úmida e sem janelas, pois era o que ele podia pagar. Finalmente foi enviado para um abrigo de idosos, D. Pedro II, onde morreu no dia 13 de novembro de 1981, cego, paralítico, esquecido e desamparado, aos 92 anos.
Sua morte não apagou totalmente seu brilho. Sua obra disseminou a capoeira pelo país e pelo mundo. Um de seus discípulos, João grande,  ensina capoeira em Nova York. Em 2000 foi lançado um documentário, “Pastinha uma vida pela capoeira”, e relançado em 2009 em vários idiomas.  O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), registrou a Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira como patrimônios culturais imateriais brasileiros em 2008, estando inscritos no Livro de Registros das Formas de Expressão e no Livro de Registro dos Saberes.
A UNESCO em 2014 conferiu à Roda de Capoeira o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
 
 


DIA 12 DE NOVEMBRO DE 1969, É PRESO JEOVÁ GOMES ASSIS

 
Jeová Gomes de Assis foi mais um companheiro que morreu em combate na guerra contra o regime militar brasileiro. Preso e torturado com requintes de crueldade em 12 de novembro de 1969 pelos agentes do DOI-CODI, Jeová foi assassinado,  friamente,  dois anos depois, assim como outros 23  integrantes do MOLIPO. Dos 28 militantes do Movimento de Libertação Popular treinados  em Cuba, 23 foram executados,  assim que retornaram ao Brasil. O Movimento de Libertação Popular, Molipo foi um grupo formado em Cuba, sob o patrocínio direto do comandante Fidel, a partir de uma dissidência de exilados da Aliança Libertadora Nacional, ALN, então a maior organização revolucionária nacional. Entre seus membros, o jovem companheiro José Dirceu de Oliveira e Silva. 
Jeová nasceu em Araxá – MG, e se tornou uma liderança entre os estudantes de Física da USP, destacando-se também nas mobilizações dos moradores no CRUSP – conjunto residencial da Universidade. Em 1966, liderou a “Greve das Panelas”, que se realizou no CRUSP e precedeu a efervescência de 1968. Com a decretação do AI-5, em dezembro desse ano, o CRUSP, onde moravam 1.500 universitários, foi cercado, os prédios desocupados e muitos estudantes foram presos. Jeová, que na época era um dos dirigentes da DISP –Dissidência Estudantil do PCB/SP, foi expulso do CRUSP e da USP. Já procurado pelos órgãos de segurança,  passou a atuar em Brasília e Goiás, transferindo-se com muitos outros militantes daquele agrupamento dissidente para a ALN, em 1969.
Depois de ser preso em Goiás,  em 1969,  por conta de sua  pela militância na ALN, foi transferido para a OBAN, (Operação Bandeirante) onde sofreu torturas que lhe causaram fraturas nas duas pernas. Jeová permaneceu preso até junho de 1970, quando foi banido para a Argélia em troca do embaixador alemão Von Holeben, sequestrado numa operação conjunta entre VPR (Vanguarda Popular Revolucionária)  e ALN. Da Argélia,  viajou para Cuba, onde recebeu treinamento militar e retornou clandestinamente ao Brasil em 1971, como militante do MOLIPO, com a tarefa de construir uma base de guerrilha na área rural.
Há relatos que em janeiro de 1971, Jeová foi localizado por conta de um delator que teria integrado o MOLIPO em Cuba. No dia 09 de janeiro desse ano, Jeová foi morto em um campo de futebol em Guaraí (Goiás na época, hoje Tocantins). Documentos dos órgãos de segurança o apontavam como coordenador nacional do Molipo, ao lado de Antonio Benetazzo e Carlos Eduardo Pires Fleury. Segundo a versão apresentada pelos militares, e ratificada pelos jornais O Globo, O Estado de São Paulo e o Jornal do Brasil, Jeová teria reagido à  “abordagem” dos policiais  e portava  uma bomba de fabricação caseira no momento da prisão. No entanto essa versão foi contestada por Nilmário Miranda deputado estadual e federal pelo Partido dos Trabalhadores , secretário dos Direitos Humanos no governo  Lula e  relator do caso na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos (CEMDP).  Miranda ressaltou as contradições do relatório do 2º Sargento da PM e do comunicado dos militares. Para ele, os agentes que desembarcaram em Guaraí sabiam que Gomes estaria no campo de futebol e que a versão divulgada pelos órgãos de segurança, reproduzida pela mídia conivente, foi criada para justificar o assassinato do militante. O então presidente da CEMDP,  Miguel Reale Júnior, concordando com Miranda e acrescentando ser improvável que alguém levasse uma granada para o estádio e deixasse uma arma no hotel, admitiu que, possivelmente, o guerrilheiro estava desarmado quando levou o tiro.
Em 2 de junho 2005, o então presidente da CEMDP, Augustino Veit, juntamente com a assessora Iara Xavier,  foram à cidade de Guaraí com a finalidade de buscar informações sobre as circunstâncias da morte de Jeová e localizar sua sepultura, para posterior exumação e identificação. Três meses depois,  a polícia técnica de Brasília fez escavações para exumar os restos mortais de Jeová,   confirmando  que Jeová foi assassinado em 09/01/1972, e  enterrado no cemitério da cidade. 
 
 


DIA 11 DE NOVEMBRO DE 1975, PROCLAMA-SE A INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA

 
 
Depois de cinco séculos de domínio, o novo governo português,  nascido da Revolução dos Cravos em abril de 1974, abriu perspectivas históricas imediatas para a entrega da soberania de Portugal ao povo angolano.  A independência de Angola deixou  um saldo de quatro milhões de mortos, 1,7 milhões de refugiados e 80 mil mutilados. Os três movimentos que lutaram contra a dominação portuguesa, o MPLA (Movimento pela Libertação de Angola), o FNLA (Frente Nacional pela Libertação de Angola), e UNITA (União pela Libertação de Angola), declararam a independência no dia 11 de novembro de 1975, em três diferentes lugares, respectivamente, em Luanda, em Ambriz e Huambo. No entanto, só a proclamação do MPLA foi reconhecida internacionalmente.
A libertação do país proclamada por Agostinho Neto: “Diante da África e do Mundo proclamo a independência de Angola”, encerrou a campanha independendista, iniciada em 1961. O fim da luta armada foi estabelecido pelo Acordo de Alvor (Algarve), firmado pelos três movimentos e Portugal. Mas, a independência de Angola, não representou o fim das hostilidades e sim, o início de uma longa guerra civil. Os três grupos passaram a disputar o poder central.
O MPLA, liderado por Agostinho Neto, de orientação marxista,  era apoiado pela URSS e Cuba. A UNITA, controlada por Jonas Savimbi, era apoiada pela África do Sul e China, cuja área de atuação se limitava ao leste da Angola.  A FNLA, controlada por Holden Roberto, treinava suas tropas no Zaire e era declaradamente anti-soviética,  apoiada pelos EUA que, mais tarde, apoiaram também a UNITA, pois a estratégia do império  americano era dividir Angola.
Em 1977,  ocorreu um golpe conhecido como “fracionismo” do MPLA, terminando em um banho de sangue que se prolongou por dois anos. Neste contexto, o MPLA realizou seu 1º Congresso, onde se proclamou  como partido marxista-leninista, mas tiveram que enfrentar uma guerra devastadora,  liderada pelos adversários, UNITA e FNLA, que se colocavam como antimarxistas e pró- ocidentais.
Antes da independência, o povo angolano havia empreendido uma intensa luta política contra o opressor português, que jamais admitiu sequer conversações sobre a autodeterminação, portanto, não restou aos angolanos outra opção, senão a luta armada que perdurou por 14 anos, sem recursos, enfrentando as maiores dificuldades.
Na longa guerra civil angolana, após a independência, mais de 30 países se envolveram com apoio logístico aos três movimentos. Somente no ano 2002, chegava ao fim a luta armada pela independência daquela que fora a mais rica colônia portuguesa na África, a joia da coroa, submetida a cinco séculos de dominação. Portugal só reconheceu a independência em fevereiro de 1976, depois de mais de 80 países o terem feito.
A afirmação da República Popular de Angola como Estado soberano, exerceu um papel fundamental na luta de libertação por parte de outros países como Namíbia, Zimbabue. Agostinho Neto,  que se tornou o primeiro presidente do país, empreendeu grande esforço para mudar o quadro desolador da guerra. Adotou o regime de economia planificada. Realizaram -se as primeiras eleições na história de Angola;  mas Agostinho Neto ficou à frente de seu país somente até o ano de 1979, pois adoeceu e veio a falecer em Moscou no dia 10 de setembro.