Poemas

OS COMPANHEIROS

 
deixa eu fazer um parêntese,
pode alguém querer
tomar um cafezinho
enquanto eu conto uma piada:
 
falaram que os companheiros
comiam do mesmo grude,
lambiam a caçarola
cheirando o sexo de esmola,
tremiam no mesmo frio
da mesma noite assassina,
gemiam no mesmo açoite
da mesma nau da chacina,
falaram que um companheiro
esfaqueou o amigo do peito
e foi lavar as mãos
no botequim da esquina.
mas não vamos entrar em detalhes
de crimes passionais,
eu cá por dentro de mim
já trago uma dor tão grande
que nem cabe nos jornais,
e tenho plena certeza
que na casa dos amigos
os fuzis após o lanche
esperam a hora do arroto.

Thiago de Mello: Os Estatutos do Homem (Ato Institucional…

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony 



Artigo I 

Fica decretado que agora vale a verdade. 

agora vale a vida, 

e de mãos dadas, 

marcharemos todos pela vida verdadeira. 



Artigo II 

Fica decretado que todos os dias da semana, 

inclusive as terças-feiras mais cinzentas, 

têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 



Artigo III 

Fica decretado que, a partir deste instante, 

haverá girassóis em todas as janelas, 

que os girassóis terão direito 

a abrir-se dentro da sombra; 

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, 

abertas para o verde onde cresce a esperança. 



Artigo IV 

Fica decretado que o homem 

não precisará nunca mais 

duvidar do homem. 

Que o homem confiará no homem 

como a palmeira confia no vento, 

como o vento confia no ar, 

como o ar confia no campo azul do céu. 



Parágrafo único: 

O homem, confiará no homem 

como um menino confia em outro menino. 



Artigo V 

Fica decretado que os homens 

estão livres do jugo da mentira. 

Nunca mais será preciso usar 

a couraça do silêncio 

nem a armadura de palavras. 

O homem se sentará à mesa 

com seu olhar limpo 

porque a verdade passará a ser servida 

antes da sobremesa. 



Artigo VI 

Fica estabelecida, durante dez séculos, 

a prática sonhada pelo profeta Isaías, 

e o lobo e o cordeiro pastarão juntos 

e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. 



Artigo VII 

Por decreto irrevogável fica estabelecido 

o reinado permanente da justiça e da claridade, 

e a alegria será uma bandeira generosa 

para sempre desfraldada na alma do povo. 



Artigo VIII 

Fica decretado que a maior dor 

sempre foi e será sempre 

não poder dar-se amor a quem se ama 

e saber que é a água 

que dá à planta o milagre da flor. 



Artigo IX 

Fica permitido que o pão de cada dia 

tenha no homem o sinal de seu suor. 

Mas que sobretudo tenha 

sempre o quente sabor da ternura. 



Artigo X 

Fica permitido a qualquer pessoa, 

qualquer hora da vida, 

uso do traje branco. 



Artigo XI 

Fica decretado, por definição, 

que o homem é um animal que ama 

e que por isso é belo, 

muito mais belo que a estrela da manhã. 



Artigo XII 

Decreta-se que nada será obrigado 

nem proibido, 

tudo será permitido, 

inclusive brincar com os rinocerontes 

e caminhar pelas tardes 

com uma imensa begônia na lapela. 



Parágrafo único: 

Só uma coisa fica proibida: 

amar sem amor. 



Artigo XIII 

Fica decretado que o dinheiro 

não poderá nunca mais comprar 

o sol das manhãs vindouras. 

Expulso do grande baú do medo, 

o dinheiro se transformará em uma espada fraternal 

para defender o direito de cantar 

e a festa do dia que chegou. 



Artigo Final. 

Fica proibido o uso da palavra liberdade, 

a qual será suprimida dos dicionários 

e do pântano enganoso das bocas. 

A partir deste instante 

a liberdade será algo vivo e transparente 

como um fogo ou um rio, 

e a sua morada será sempre 

o coração do homem.



Alerta
Lá vem o lança-chamas 

Pega a garrafa de gasolina 

Atira 

Eles querem matar todo amor 

Corromper o pólo 

Estancar a sede que eu tenho doutro ser 

Vem do flanco, de lado 

Por cima, por trás 

Atira 

Atira 

Resiste 

Defende 

De pé 

De pé 

De pé 

O futuro será de toda a humanidade.
Oswald de Andrade ANDRADE, O. Obras completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.



SONETO

MOTE
E não pode negar ser meu parente!

Sou nobre, e de linhagem sublimada,
Descendo, em linha reta, dos Pegados,
Cuja lança feroz desbaratados
Fez tremer os guerreiros da Cruzada!

Minha mãe, que é de proa alcantilada,
Vem da raça dos Reis mais afamados;
— Blasonava entre um bando de pasmados.
Certo povo de casta amorenada.

Eis que brada um peralta retumbante;
— “Teu avô, que de cor era latente,
“Teve um neto mulato e mui pedante!”

Irrita-se o fidalgo qual demente;
Trescala a vil catinga nauseante,
E não pode negar ser meu parente!


PÁTRIA AMADA

oh! pátria amada
Em dólar atada
Salve-se, salve-se!

FRED

 
 


CANÇÃO PARA “PAULO” (À STUART ANGEL)

ALEX POLARI DE ALVERGA
Eles costuraram tua boca
com o silêncio
e trespassaram teu corpo
com uma corrente.
Eles te arrastaram em um carro
e te encheram de gases,
eles cobriram teus gritos
com chacotas.

Um vento gelado soprava lá fora
e os gemidos tinham a cadência
dos passos dos sentinelas no pátio.
Nele, os sentimentos não tinham eco
nele, as baionetas eram de aço
nele, os sentimentos e as baionetas
se calaram.

Um sentido totalmente diferente de existir
se descobre ali,
naquela sala.
Um sentido totalmente diferente de morrer
se morre ali,
naquela vala.

Eles queimaram nossa carne com os fios
e ligaram nosso destino à mesma eletricidade.
Igualmente vimos nossos rostos invertidos
e eu testemunhei quando levaram teu corpo
envolto em um tapete.

Então houve o percurso sem volta
houve a chuva que não molhou
a noite que não era escura
o tempo que não era tempo
o amor que não era mais amor
a coisa que não era mais coisa nenhuma.

Entregue a perplexidades como estas,
meus cabelos foram se embranquecendo
e os dias foram se passando.



Galos, Noites e Quintais

Belchior

exibições
84.939

Quando eu não tinha o olhar lacrimoso
Que hoje eu trago e tenho
Quando adoçava meu pranto e meu sono
No bagaço de cana do engenho
Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus
Fazendo eu mesmo o meu caminho
Por entre as fileiras do milho verde
Que ondeia, com saudade do verde marinho

Eu era alegre como um rio
Um bicho, um bando de pardais
Como um galo, quando havia
Quando havia galos, noites e quintais
Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo
O mal que a força sempre faz
Não sou feliz, mas não sou mudo
Hoje eu canto muito mais

 


A espera acabou!


Adeus à hora da largada

Agostinho Neto

Minha Mãe
         (todas as mães negras
         cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
         (todas as mães negras
         cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.

                   (Sagrada esperança)


Magrelinha
Luiz Melodia


O por do sol vai renovar brilhar de novo o seu sorriso
E libertar da areia preta e do arco-íris cor de sangue, cor desangue, cor de sangue …
O beijo meu vem com melado decorado cor de rosa
O sonho seu vem dos lugares mais distantes terras dos gigantes Super Homem, super mosca, Super Carioca, super eu, super eu …
Deixa tudo em forma é melhor não sei
Não tem mais perigo digo já não sei
Ela está comigo o som e o sol não sei
O sol não advinha baby é magrelinha
O sol não adivinha baby é magrelinha
No coração do Brasil
No coração do Brasil
No coração, no coração
No coração do Brasil
No coração, no coração


FLASH DA CIDADE

DOS OLHOS DO PIVETE
REFLETEM-SE
AS FRITADAS
DA LANCHONETE
ZÉ CORDEIRO


COM AS MASSAS TUDO 

 
COM AS MASSAS TUDO 
SEM AS MASSAS NADA 
OU AMASSA TUDO 
OU NÃO AMASSA NADA.
 
 
SAMARAL
 
Resultado de imagem para PASSEATA CONTRA A REFORMA DA PREVIDENCIA


MEU POVO, MEU POEMA

Meu povo e meu poema crescem juntos 

como cresce no fruto 

a árvore nova 



No povo meu poema vai nascendo 

como no canavial 

nasce verde o açúcar 



No povo meu poema está maduro 

como o sol 

na garganta do futuro 



Meu povo em meu poema 

se reflete 

como a espiga se funde em terra fértil 



Ao povo seu poema aqui devolvo 

menos como quem canta 

do que planta 

FERREIRA GULLAR 


Elisa Lucinda – Só de Sacanagem



A SUBIDA DA ESPERANÇA

“A esperança venceu o medo” Lula

 
 
Porque um homem subiu a rampa
E a gente subiu com ele
O sindicalista e o líder comunitário
O soldado e o micro-empresário
O camelô e o sem-terra
O educador e o catador de papelão
O metalúrgico e o poeta
O negro e o índio
A mulher e o idoso
A prostituta e o menino de rua…
De repente o país inteiro
Subiu aquela rampa
Com os punhos cerrados
Com lágrimas nos olhos
Com sorrisos solidários
Quebrando protocolos
Mudando o conceito de poder.
Resta agora a gente escrever
Todo mundo junto
A história
A nova história
De um país que se conhece tão pouco
Que se respeita tão pouco
Mas que, como todo menino
Tem a esperança no brilho dos olhos
E o futuro na palma da mão
Um futuro tão forte, tão belo
Tão futuro
Um povo tão criativo e resistente
Que pra acontecer
Só depende
Dele mesmo.
 
 
07/01/2003
Dias antes da posse de lula

LET’S PLAY THAT

                    Torquato Neto (musicado por Jards Macalé)
 
Quando eu nasci

um anjo louco muito louco

veio ler a minha mão

não era um anjo barroco

era um anjo muito louco, torto

com asas de avião
 
 

eis que esse anjo me disse

apertando minha mão

com um sorriso entre dentes

vai bicho desafinar

o coro dos contentes

vai bicho desafinar

o coro dos contentes



Let’s play that

Do CD Torquato Neto – Todo Dia É Dia D

Vários Artistas, Dubas Música, 2002

REFORMA AGRÁRIA

 
Não é minha nem tua a terra que defendo
Contra teus jagunços sanguinários
E pela qual ergo minha voz com tanta paixão.
Não é só contra teu orgulho e tua ganância que eu luto
Porque por eles, tu mesmo responderás
No momento derradeiro.
Minha luta não é só pela a posse da terra
Ela que é mãe e não precisa do nosso sangue,
Minha luta é,  também,  pelo que ela nos dá
Que é suficiente para todos nós
O trigo, o fruto, a água, a sombra
E todo o necessário para que meus filhos
Cresçam sadios
Como crescem os teus.
 
                                                    

SÉRGIO ALVES


O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

Rio de Janeiro , 1959

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo: 

– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu. 

E Jesus, respondendo, disse-lhe: 

– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás. 

Lucas, cap. V, vs. 5-8. 



Era ele que erguia casas 

Onde antes só havia chão. 

Como um pássaro sem asas 

Ele subia com as casas 

Que lhe brotavam da mão. 

Mas tudo desconhecia 

De sua grande missão: 

Não sabia, por exemplo 

Que a casa de um homem é um templo 

Um templo sem religião 

Como tampouco sabia 

Que a casa que ele fazia 

Sendo a sua liberdade 

Era a sua escravidão. 



De fato, como podia 

Um operário em construção 

Compreender por que um tijolo 

Valia mais do que um pão? 

Tijolos ele empilhava 

Com pá, cimento e esquadria 

Quanto ao pão, ele o comia… 

Mas fosse comer tijolo! 

E assim o operário ia 

Com suor e com cimento 

Erguendo uma casa aqui 

Adiante um apartamento 

Além uma igreja, à frente 

Um quartel e uma prisão: 

Prisão de que sofreria 

Não fosse, eventualmente 

Um operário em construção. 



Mas ele desconhecia 

Esse fato extraordinário: 

Que o operário faz a coisa 

E a coisa faz o operário. 

De forma que, certo dia 

À mesa, ao cortar o pão 

O operário foi tomado 

De uma súbita emoção 

Ao constatar assombrado 

Que tudo naquela mesa 

– Garrafa, prato, facão – 

Era ele quem os fazia 

Ele, um humilde operário, 

Um operário em construção. 

Olhou em torno: gamela 

Banco, enxerga, caldeirão 

Vidro, parede, janela 

Casa, cidade, nação! 

Tudo, tudo o que existia 

Era ele quem o fazia 

Ele, um humilde operário 

Um operário que sabia 

Exercer a profissão. 



Ah, homens de pensamento 

Não sabereis nunca o quanto 

Aquele humilde operário 

Soube naquele momento! 

Naquela casa vazia 

Que ele mesmo levantara 

Um mundo novo nascia 

De que sequer suspeitava. 

O operário emocionado 

Olhou sua própria mão 

Sua rude mão de operário 

De operário em construção 

E olhando bem para ela 

Teve um segundo a impressão 

De que não havia no mundo 

Coisa que fosse mais bela. 



Foi dentro da compreensão 

Desse instante solitário 

Que, tal sua construção 

Cresceu também o operário. 

Cresceu em alto e profundo 

Em largo e no coração 

E como tudo que cresce 

Ele não cresceu em vão 

Pois além do que sabia 

– Exercer a profissão – 

O operário adquiriu 

Uma nova dimensão: 

A dimensão da poesia. 



E um fato novo se viu 

Que a todos admirava: 

O que o operário dizia 

Outro operário escutava. 



E foi assim que o operário 

Do edifício em construção 

Que sempre dizia sim 

Começou a dizer não. 

E aprendeu a notar coisas 

A que não dava atenção: 



Notou que sua marmita 

Era o prato do patrão 

Que sua cerveja preta 

Era o uísque do patrão 

Que seu macacão de zuarte 

Era o terno do patrão 

Que o casebre onde morava 

Era a mansão do patrão 

Que seus dois pés andarilhos 

Eram as rodas do patrão 

Que a dureza do seu dia 

Era a noite do patrão 

Que sua imensa fadiga 

Era amiga do patrão. 



E o operário disse: Não! 

E o operário fez-se forte 

Na sua resolução. 



Como era de se esperar 

As bocas da delação 

Começaram a dizer coisas 

Aos ouvidos do patrão. 

Mas o patrão não queria 

Nenhuma preocupação 

– “Convençam-no” do contrário – 

Disse ele sobre o operário 

E ao dizer isso sorria. 



Dia seguinte, o operário 

Ao sair da construção 

Viu-se súbito cercado 

Dos homens da delação 

E sofreu, por destinado 

Sua primeira agressão. 

Teve seu rosto cuspido 

Teve seu braço quebrado 

Mas quando foi perguntado 

O operário disse: Não! 



Em vão sofrera o operário 

Sua primeira agressão 

Muitas outras se seguiram 

Muitas outras seguirão. 

Porém, por imprescindível 

Ao edifício em construção 

Seu trabalho prosseguia 

E todo o seu sofrimento 

Misturava-se ao cimento 

Da construção que crescia. 



Sentindo que a violência 

Não dobraria o operário 

Um dia tentou o patrão 

Dobrá-lo de modo vário. 

De sorte que o foi levando 

Ao alto da construção 

E num momento de tempo 

Mostrou-lhe toda a região 

E apontando-a ao operário 

Fez-lhe esta declaração: 

– Dar-te-ei todo esse poder 

E a sua satisfação 

Porque a mim me foi entregue 

E dou-o a quem bem quiser. 

Dou-te tempo de lazer 

Dou-te tempo de mulher. 

Portanto, tudo o que vês 

Será teu se me adorares 

E, ainda mais, se abandonares 

O que te faz dizer não. 



Disse, e fitou o operário 

Que olhava e que refletia 

Mas o que via o operário 

O patrão nunca veria. 

O operário via as casas 

E dentro das estruturas 

Via coisas, objetos 

Produtos, manufaturas. 

Via tudo o que fazia 

O lucro do seu patrão 

E em cada coisa que via 

Misteriosamente havia 

A marca de sua mão. 

E o operário disse: Não! 



– Loucura! – gritou o patrão 

Não vês o que te dou eu? 

– Mentira! – disse o operário 

Não podes dar-me o que é meu. 



E um grande silêncio fez-se 

Dentro do seu coração 

Um silêncio de martírios 

Um silêncio de prisão. 

Um silêncio povoado 

De pedidos de perdão 

Um silêncio apavorado 

Com o medo em solidão. 



Um silêncio de torturas 

E gritos de maldição 

Um silêncio de fraturas 

A se arrastarem no chão. 

E o operário ouviu a voz 

De todos os seus irmãos 

Os seus irmãos que morreram 

Por outros que viverão. 

Uma esperança sincera 

Cresceu no seu coração 

E dentro da tarde mansa 

Agigantou-se a razão 

De um homem pobre e esquecido 

Razão porém que fizera 

Em operário construído 

O operário em construção.

Rondó da Liberdade



É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.

Há os que têm vocação para escravo,

mas há os escravos que revoltam contra a escravidão.

Não ficar de joelhos,

que não é racional renunciar a ser livre.

Mesmo os escravos por vocação

devem ser obrigados a ser livres,

quando as algemas forem quebradas.

É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.

O homem deve ser livre…

O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,

e pode mesmo existir até quando não se é livre.

E no entanto ele é em si mesmo

a expressão mais elevada do que houver de mais livre

em todas as gamas do humano sentimento.

É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.

 
                                                                             Carlos Marighela

NO CAMINHO COM MAIAKOVISKI

 
Na primeira noite
Eles se aproximam e colhem uma flor
Do nosso jardim
E nós não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem
Pisam nossas flores
Matam nosso cão
E nós não dizemos nada.
Até que um dia
O mais frágil deles
Entra sozinho em nossa casa,
Rouba-nos a luz
E conhecendo  o nosso medo
Arrancam a voz da garganta
E como não dissemos nada
Já não podemos dizer mais nada.

EVOCAÇÃO DA ROSA

 
       (Para Yemanjá – no seu décimo aniversário)
 
Era uma vez uma rosa
que não era vegetal
nem rosa mineral
carecia até da cor de rosa
era uma gata formosa
negra amarela e brancosa
irrequietamente caprichosa
vestida de suave pêlo multicor
Bichana terrivelmente amorosa
dos laços dos seus encantos
nenhum gato jamais se livrou
pelos telhados miava dengosa
suspirava a noite inteira
seduzindo namoradeira
toda a gataria ao
luar da lua alcoviteira
Certo dia Rosa pariu
uma ninhada de gatinhos
de várias cores engraçadinhos
os mais lindos eram os pretinhos
mamavam de patinhas entrelaçadas
ronronando de olhos cerrados
boquinhas rosadas coladas
às rosadas tetas de Rosa
Num desses momentos
um gatão assassino
pêlo sujo debotado
miando feio saltou felino
matando gatinho por todo lado
A mãe valente e briosa
socorri de porrete na mão
ajudei a defesa de Rosa
esbordoando estridente
perseguindo o ladrão
ele fugiu espavorido
um gatinho levando nos dentes
outros sangravam na agonia
Rosa fuzilava os olhos dementes
miando plangente a dor que lhe doía
noites a fio seu gemer se ouvia
ó doce e carinhosa Rosa
era de cortar o coração
ver-te enlouquecida
recusar enfurecida
aquela felina traição
ir definhando entristecida
até a completa inanição
Rosa cheirosa e macia
que ao morrer no
meu jardim plantei
sob a terra desapareceu
aos cuidados da minha
pobre primavera de
uma gata demente e morta
a rosa-gata enternecida
em rosa-flor floresceu
foram ambas a
única rosa que
a infância me deu.

CAROLINA MARIA DE JESUS

 
 
Frases e reflexões
 
“Não digam que fui rebotalho,

que vivi à margem da vida.

Digam que eu procurava trabalho,

mas fui sempre preterida.

Digam ao povo brasileiro

que meu sonho era ser escritora,

mas eu não tinha dinheiro

para pagar uma editora.”
 
 
 

“Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade.”

Carolina Maria de Jesus


PRIMEIRAMENTE  –  FORA TEMER

Sérgio Alves
 
Aquele que foi sem nunca ter sido
O que conspirou e foi preterido
Governa sem ter sido escolhido
– Primeiramente – Fora Temer
 
Era só um vice, um sub
Um aliado quase sem defeito
Em quem se podia confiar
Era só um respaldo, um confeito
Que ajudava a governar
– Primeiramente – Fora Temer
 
Um belo dia, esse vice
Esse Judas confirmado
Resolveu manifestar
Todo o ódio acumulado
 
A inveja , o olho grande
A covardia, a traição
Foi a arma que ele usou
Pra roubar e por a mão
Num cargo para o qual  não tinha
Competência e aptidão
 
Então, na calada da noite
O cara se reuniu
Com o que havia de pior
Na política do Brasil – Primeiramente- Fora Temer
 
Deputados, Senadores
Candidatos derrotados
Empresários, especuladores
Fichas sujas,  condenados
Citados na lava-jato
Corruptos confirmados
Foram na primeira hora
Seus principais aliados – Primeiramente – Fora Temer
 
Fanáticos, homofóbicos, racistas
Foram os seus companheiros
Latifundiários, demagos, machistas
Que com seus trinta dinheiros
Deram um golpe por trás, certeiros – Primeiramente…
 
Não podemos esquecer
Que essa medonha empreitada
Teve o apoio da Globo
E da mídia retardada
 
Sem contar os magistrados
Do supremo tribunal
Que junto ao MPF
E à polícia federal
Se uniram nesse golpe
Que nos fez tanto mal – Primeiramente…
 
Essa criatura medíocre
Que com outras se aliou
Não pensava no seu povo
De cujo poder usurpou
 
E como prova deu início
A maior das covardias
E sem pudor vem derrubando
Todas as melhorias
Em favor do capital
Prejudicando as minorias
 
O Pré-Sal e a Petrobras
Que já tinham garantido
Recursos e percentagem
Pra saúde e Educação
Agora já foram entregues
Sem nenhuma explicação
Para as multinacionais
Tudo a preço de banana
E a nossa soberania
De um maneira insana
Foi jogada na lixeira
 
Sem contar a 55
A chamada PEC da  morte
Que entrega à própria sorte
A nossa população
Congelando por 20 anos
Recursos e melhorias
Jogando na mão do povo
A conta, o custo, de novo
Dos desmandos das elites
 
 
Bolsa família, Fies, Pronatec
Minha casa minha vida,
Ciências sem fronteiras
São projetos detonados
Pelo governo golpista
 
 Mais médicos, Brasil Alfabetizado
Luz para Todos
São os próximos da lista
Criados em benefício
Da nossa população
Mas pouco a pouco são mortos
Pelos golpistas, esses porcos
Que levam o país para o chão
 
Mas sei que a verdade é uma flecha
No peito dos insensatos
Que cedo ou tarde aparece
Pra derrotar esses ratos
E os lobos que se disfarçam
Na pele de simples cordeiros
Cedo ou tarde , são punidos
E os poderes devolvidos
Ao povo, seu verdadeiro dono
– Primeiramente – Fora Temer.
 
 
Que o povo volte ao poder
A mulher, o idoso, a criança
O trabalhador
Que tanto faz por merecer
O fruto do seu trabalho
Mesa farta, saúde educação
Que só a democracia
E um governo eleito pelo povo, popular
Pode proporcionar
 
De uma nação soberana
Que não aceita ser vendida
E tem sua riqueza garantida
Pela Constituição
– Primeiramente – Fora Temer
 
Fora golpistas! Fora ladrão!
Teu lugar não é aqui
Onde é que já se viu ?
Teu lugar é na cadeia
Ou na puta que pariu!!

 


Mais Uma Vez

unnamed-2 



Mas é claro que o sol

Vai voltar amanhã 

Mais uma vez, eu sei 

Escuridão já vi pior 

De endoidecer gente sã 

Espera que o sol já vem 



Tem gente que está do mesmo lado que você 

Mas deveria estar do lado de lá 

Tem gente que machuca os outros 

Tem gente que não sabe amar 

Tem gente enganando a gente 

Veja nossa vida como está

Mas eu sei que um dia a gente aprende

Se você quiser alguém em quem confiar 

Confie em si mesmo 

Quem acredita sempre alcança 



Mas é claro que o sol

Vai voltar amanhã 

Mais uma vez, eu sei 

Escuridão já vi pior 

De endoidecer gente sã 

Espera que o sol já vem



Nunca deixe que lhe digam 

Que não vale a pena acreditar no sonho que se tem 

Ou que seus planos nunca vão dar certo 

Ou que você nunca vai ser alguém 

Tem gente que machuca os outros

Tem gente que não sabe amar 

Mas eu sei que um dia a gente aprende

Se você quiser alguém em quem confiar 

Confie em si mesmo 

Quem acredita sempre alcança


 
Tecendo a Manhã

393d38d0-72f1-41ff-81d8-906be88d35be

1

Um galo sozinho não tece uma manhã: 
ele precisará sempre de outros galos. 
De um que apanhe esse grito que ele 
e o lance a outro; de um outro galo 
que apanhe o grito de um galo antes 
e o lance a outro; e de outros galos 
que com muitos outros galos se cruzem 
os fios de sol de seus gritos de galo, 
para que a manhã, desde uma teia tênue, 
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos, 
se erguendo tenda, onde entrem todos, 
se entretendendo para todos, no toldo 
(a manhã) que plana livre de armação. 
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo 
que, tecido, se eleva por si: luz balão. 

(A Educação pela Pedra)


REFORMA AGRÁRIA
mst 1

 
Não é minha nem tua a terra que defendo
Contra teus jagunços sanguinários
E pela qual ergo minha voz com tanta paixão.
Não é só contra tua ganância
E teu orgulho que eu luto
Porque por eles
Tu mesmo responderás no momento derradeiro.
Minha luta não é só pela posse da terra
Ela que é mãe e não precisa do nosso sangue
Minha luta é também pelo que ela nos dá
Que é suficiente para todos nós
O trigo, o fruto, a água, a sombra
E todo o necessário para que meus filhos
Cresçam sadios
Como crescem os teus.

Sérgio Alves.


Versos Íntimos
maxresdefault
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

 
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
 
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
 
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

 


 

poema


O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

Rio de Janeiro , 1959

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo: 
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu. 
E Jesus, respondendo, disse-lhe: 
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás. 
Lucas, cap. V, vs. 5-8. 

Era ele que erguia casas 
Onde antes só havia chão. 
Como um pássaro sem asas 
Ele subia com as casas 
Que lhe brotavam da mão. 
Mas tudo desconhecia 
De sua grande missão: 
Não sabia, por exemplo 
Que a casa de um homem é um templo 
Um templo sem religião 
Como tampouco sabia 
Que a casa que ele fazia 
Sendo a sua liberdade 
Era a sua escravidão. 

De fato, como podia 
Um operário em construção 
Compreender por que um tijolo 
Valia mais do que um pão? 
Tijolos ele empilhava 
Com pá, cimento e esquadria 
Quanto ao pão, ele o comia… 
Mas fosse comer tijolo! 
E assim o operário ia 
Com suor e com cimento 
Erguendo uma casa aqui 
Adiante um apartamento 
Além uma igreja, à frente 
Um quartel e uma prisão: 
Prisão de que sofreria 
Não fosse, eventualmente 
Um operário em construção. 

Mas ele desconhecia 
Esse fato extraordinário: 
Que o operário faz a coisa 
E a coisa faz o operário. 
De forma que, certo dia 
À mesa, ao cortar o pão 
O operário foi tomado 
De uma súbita emoção 
Ao constatar assombrado 
Que tudo naquela mesa 
– Garrafa, prato, facão – 
Era ele quem os fazia 
Ele, um humilde operário, 
Um operário em construção. 
Olhou em torno: gamela 
Banco, enxerga, caldeirão 
Vidro, parede, janela 
Casa, cidade, nação! 
Tudo, tudo o que existia 
Era ele quem o fazia 
Ele, um humilde operário 
Um operário que sabia 
Exercer a profissão. 

Ah, homens de pensamento 
Não sabereis nunca o quanto 
Aquele humilde operário 
Soube naquele momento! 
Naquela casa vazia 
Que ele mesmo levantara 
Um mundo novo nascia 
De que sequer suspeitava. 
O operário emocionado 
Olhou sua própria mão 
Sua rude mão de operário 
De operário em construção 
E olhando bem para ela 
Teve um segundo a impressão 
De que não havia no mundo 
Coisa que fosse mais bela. 

Foi dentro da compreensão 
Desse instante solitário 
Que, tal sua construção 
Cresceu também o operário. 
Cresceu em alto e profundo 
Em largo e no coração 
E como tudo que cresce 
Ele não cresceu em vão 
Pois além do que sabia 
– Exercer a profissão – 
O operário adquiriu 
Uma nova dimensão: 
A dimensão da poesia. 

E um fato novo se viu 
Que a todos admirava: 
O que o operário dizia 
Outro operário escutava. 

E foi assim que o operário 
Do edifício em construção 
Que sempre dizia sim 
Começou a dizer não. 
E aprendeu a notar coisas 
A que não dava atenção: 

Notou que sua marmita 
Era o prato do patrão 
Que sua cerveja preta 
Era o uísque do patrão 
Que seu macacão de zuarte 
Era o terno do patrão 
Que o casebre onde morava 
Era a mansão do patrão 
Que seus dois pés andarilhos 
Eram as rodas do patrão 
Que a dureza do seu dia 
Era a noite do patrão 
Que sua imensa fadiga 
Era amiga do patrão. 

E o operário disse: Não! 
E o operário fez-se forte 
Na sua resolução. 

Como era de se esperar 
As bocas da delação 
Começaram a dizer coisas 
Aos ouvidos do patrão. 
Mas o patrão não queria 
Nenhuma preocupação 
– “Convençam-no” do contrário – 
Disse ele sobre o operário 
E ao dizer isso sorria. 

Dia seguinte, o operário 
Ao sair da construção 
Viu-se súbito cercado 
Dos homens da delação 
E sofreu, por destinado 
Sua primeira agressão. 
Teve seu rosto cuspido 
Teve seu braço quebrado 
Mas quando foi perguntado 
O operário disse: Não! 

Em vão sofrera o operário 
Sua primeira agressão 
Muitas outras se seguiram 
Muitas outras seguirão. 
Porém, por imprescindível 
Ao edifício em construção 
Seu trabalho prosseguia 
E todo o seu sofrimento 
Misturava-se ao cimento 
Da construção que crescia. 

Sentindo que a violência 
Não dobraria o operário 
Um dia tentou o patrão 
Dobrá-lo de modo vário. 
De sorte que o foi levando 
Ao alto da construção 
E num momento de tempo 
Mostrou-lhe toda a região 
E apontando-a ao operário 
Fez-lhe esta declaração: 
– Dar-te-ei todo esse poder 
E a sua satisfação 
Porque a mim me foi entregue 
E dou-o a quem bem quiser. 
Dou-te tempo de lazer 
Dou-te tempo de mulher. 
Portanto, tudo o que vês 
Será teu se me adorares 
E, ainda mais, se abandonares 
O que te faz dizer não. 

Disse, e fitou o operário 
Que olhava e que refletia 
Mas o que via o operário 
O patrão nunca veria. 
O operário via as casas 
E dentro das estruturas 
Via coisas, objetos 
Produtos, manufaturas. 
Via tudo o que fazia 
O lucro do seu patrão 
E em cada coisa que via 
Misteriosamente havia 
A marca de sua mão. 
E o operário disse: Não! 

– Loucura! – gritou o patrão 
Não vês o que te dou eu? 
– Mentira! – disse o operário 
Não podes dar-me o que é meu. 

E um grande silêncio fez-se 
Dentro do seu coração 
Um silêncio de martírios 
Um silêncio de prisão. 
Um silêncio povoado 
De pedidos de perdão 
Um silêncio apavorado 
Com o medo em solidão. 

Um silêncio de torturas 
E gritos de maldição 
Um silêncio de fraturas 
A se arrastarem no chão. 
E o operário ouviu a voz 
De todos os seus irmãos 
Os seus irmãos que morreram 
Por outros que viverão. 
Uma esperança sincera 
Cresceu no seu coração 
E dentro da tarde mansa 
Agigantou-se a razão 
De um homem pobre e esquecido 
Razão porém que fizera 
Em operário construído 
O operário em construção.                         VINÍCIUS DE MORAES

 


Reflexão sobre os votos dos golpistas
quando invocam esposa e filhos.

poema2


Poemas2